No Oscar, quem tem padrinhos poderosos como Scorsese, Brad Pitt, DiCaprio, Spielberg e Sean Backer não morre pagão

Foto: “A Garota Canhota”, de Tsou Shih-Ching

Por Maria do Rosário Caetano

Há muitos caminhos para se chegar ao Oscar. Um deles, de grande peso, fixa-se na figura do padrinho. Ou seja, de nomes consagrados na indústria do cinema, principalmente a norte-americana, que atuam como produtores de obras nas quais acreditem. Seja pelas causas que defendem, seja por seus projetos artísticos.

Nesse ano, o da nonagésima-oitava edição do prêmio da Academia de Cinema de Hollywood, os padrinhos mais vistosos (e influentes) são Martin Scorsese (do indiano “Homebound”), Sean Baker (do taiwanês “A Garota Canhota”), Steven Spielberg e Sam Mendes (do anglo-americano “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”), Brad Pitt (“Apocalipse nos Trópicos”) e Leonardo DiCaprio (com o documentário “Yanuni”, aliás um filme de DNA brasileiro). Geralmente são produções vindas de diversos cantos do mundo e concorrentes a melhor longa internacional ou melhor documentário. Estas são as categorias que mais atraem diretores e atores de primeira linha, fixados em Los Angeles ou Nova York.

Os casos de maior notoriedade costumam trazer a grife de Scorsese, DiCaprio, Brad Pitt e Sean Penn (este, com fama de “esquerdista”). Os outros três de “humanistas”. Já Spielberg costuma emprestar seu prestígio a filmes que entrarão com força total na competição pelo Oscar principal (caso do longa da sino-americana Chloé Zhao).

As motivações de Sean Baker, vencedor do Oscar, ano passado, com “Anora”, têm a ver com a origem de sua companheira, a atriz e cineasta Samantha Quan. Ela é sino-descendente. Juntos, os dois resolveram produzir o encantador “A Garota Canhota”, de Tsou Shih-Ching, representante de Taiwan na busca por uma vaga na categoria melhor longa internacional. O filme, rodado na China insular, conta a história de três gerações de mulheres (uma madura, outra jovem e uma criança), que vivem em torno de barraca de comestíveis num mercado popular em Taipei.

Leonardo DiCaprio, de 51 anos, costuma emprestar sua fama planetária a projetos ligados a temas ambientais e aos povos originários. Nesse ano, ele apadrinha o documentário “Yanuni”, dirigido pelo austríaco Richard Ladkani e produzido por uma verdadeira ONU (EUA, Áustria, Canadá, Alemanha e, arrisquemos, Brasil). Tudo indica que nosso país não tenha entrado com grana. Só com apoio logístico. E, com o essencial: os protagonistas, a líder indígena Juma Xipaia, e seu marido Hugo Loss, integrante de Forças Especiais que prestam serviços à Funai. Sem esquecer nossas paisagens e cidades (a Amazônia, Brasília etc., etc.).

O filme, eleito pelo público o melhor documentário internacional da Mostra SP 2025, é uma produção de tirar o fôlego. Não faltaram, ao diretor Ladkani, recursos para correr mundo com Juma Xipaia, seja em território estrangeiro ou na imensa geografia brasileira. A sessão de “Yanuni” na Repescagem da Mostra paulistana, no CineSesc, estava lotada e o documentário foi aplaudido, calorosamente, depois de seus 112 (e dinâmicos) minutos de projeção.

Brad Pitt, de 62 anos, cada vez mais envolvido com o trabalho de produção (de filmes em que atua ou de documentários), participa da produção do brasileiro “Apocalipse nos Trópicos”, o quarto, vigoroso e necessário filme da mineira Petra Costa. Ele coassina a obra com a Plan B Entertainment. Parece difícil, mas não impossível, colocar “Apocalipse nos Trópicos”, complexa reflexão sobre a participação de denominações religiosas na vida política brasileira, entre os cinco finalistas ao Oscar. 

Outro documentário que conta com retaguarda influente é “Holding Liat”, de Brandon Kramer. Ele foi produzido por Darren “Cisne Negro” Aronofsky. Em pauta, o sequestro de Liat Beinin Atzili e de seu marido Aviv, em 7 de outubro de 2023, durante ataque do Hamas a um kibutz. Integrantes da família americano-israelense dos reféns tudo farão para libertá-los.

O caso mais tocante do Oscar, esse ano, tem Martin Scorsese como padrinho: o do longa indiano “Homebound”, de Neetaj Ghaywan. O diretor de “Taxi Driver” (e presidente da The Film Foundation, que tem ajudado a restaurar filmes, em especial, oriundos da África, Ásia e América Latina) é um nome ao qual o cinema só deve louvores. De origem italiana, ele tem facilitado a vida de diretores desconhecidos, desde que envolvidos com projetos humanistas. Caso explícito de “Homebound.

O longa indiano foi exibido na Mostra SP e comoveu parte da imensa plateia que ocupou a Sala Petrobras (ao ar livre) da Cinemateca Brasileira. Ao final, muitas e muitos estavam com os olhos banhados em lágrimas. Não se preocupem. O filme não peca por sentimentalismo. Trata-se, isto sim, de um melodrama duro e crítico.

Dois amigos de infância, Chandan e Shoaib, vindos de castas mais baixas da estratificada sociedade indiana, buscam espaço nas forças policiais de seu país. Só assim, acreditam, poderão alcançar a dignidade sonhada (serem respeitados como cidadãos). E, empregados, poderão ajudar suas família.

Os dois rapazes enfrentarão, porém, uma verdadeira via-crucis (racismo, o sistema de castas e as consequências da pandemia de Covid 19). Os 122 minutos de narrativa voam, tantos são os desafios enfrentados pelos protagonistas. E nada levará a solucões mágicas ou escapistas. “Homebound” participou do Festival de Cannes e pode ser visto na Netflix.

“Homebound”, de Neetaj Ghaywan

O iraquiano “The President’s Cake”, de Hasan Hadi, também contou com retaguarda norte-americana, representada por Eric Roth, de 80 anos, roteirista de “Forrest Gump” e “O Curioso Caso de Benjamin Button”, e Leah Chen Baker, nome em ascensão no cinema independente dos EUA.

“O Bolo do Presidente” se constrói em torno de Lâmia, menina pobre, compelida a arrumar, num país em guerra, ingredientes para fazer um bolo para festejar o aniversário do presidente Sadam Hussein. A trama se passa no começo dos anos 1990, quando os EUA invadiram o Iraque, acusado (injustamente, como alertaria a ONU) de estar processando urânio para fabricação de armas atômicas. Nos tempos do governo de Saddam, as escolas estimulavam as crianças a praticar boas ações cívicas. Festejar o presidente com um bolo era uma delas.

Lâmia, de apenas nove anos, terá que enfrentar a falta de comida em tempo de guerra, para cumprir a indesejada tarefa. Que vem de sugestão compulsória da escola onde ela estuda. O não-cumprimento da tarefa poderá ter consequências desagradáveis para sua pequena família. O jeito é sair pela cidade em busca dos ingredientes. A menina enche a tela com sua beleza, roupas coloridas e olhar cativante. A trama é realista e seca. E perigos rondarão Lâmia, em sua difícil busca por farinha, ovos e fermento. Alguém tentará atrai-la para um conjunto de salas que exibem filmes pornôs.

Abaixo, o leitor da Revista de CINEMA encontrará as listas de pré-finalistas ao Oscar nas categorias que costumam mobilizar os influentes padrinhos: melhor filme internacional e melhor longa documental. Alguns deles, com a indicação de onde assisti-los (nos cinemas ou no streaming).

FILME INTERNACIONAL (short list, 15 títulos)

. “A Garota Canhota”, de Tsou Shih-Ching (Taiwan) – Netflix
. “Homebound”, de Neetaj Ghaywan (India) – Netflix
. “O Bolo do Presidente”, de Hasan Hadi (Iraque)
. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça (Brasil) – Nos cinemas
. “A Voz de Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania (Tunísia) – Estreia prevista para 29 de janeiro
. “Sîrat”, de Oliver Laxe (Espanha) – Estreia prevista para 26 de fevereiro
. “A Única Saída”, de Park Chan-wook (Coreia do Sul) – Estreia prevista para 22 de janeiro
. “Foi Apenas um Acidente”, de Jafar Panahi (França) – Nos cinemas
. “Valor Sentimental”, de Joachim Trier (Noruega) – Nos Cinemas
. “O Som da Queda”, de Mascha Schilinski  (Alemanha)
. “Belén, uma História de Injustiça”, de Dolores Donzi (Argentina) – Prime Vídeo
. “Kokuho”, de Lee Sang-il (Japão)
. “All That’s Left of You” (“Tudo o Que Resta de Você”), de Cherien Dabis (Jordânia)
. “Palestine 36”, de Annemarie Jacir (Palestina)
. “Late Shift (“Na Linha de Frente”), de Pietra Biondina Volpe (Suíça)

LONGA DOCUMENTAL (15 filmes)

. “Apocalypse nos Trópicos””, de Petra Costa (Brasil) – Netflix
. “Yanuni”, de Richard Ladkani (Áustria, Brasil, EUA, Canadá, Alemanha)
. “A Vizinha Perfeita”, de Geeta Gandbhir (EUA) – Netflix
. “Seymour Hersh: Em Busca da Verdade” (“Cover-Up”), de Laura Poitras e Mark Oberhaus (EUA) – Netflix
. “Embaixo da Luz de Neon”, de Ryan White (EUA) – Apple TV
. “Alabama – Presos do Sistema”, de Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman (HBO)
. “Cutting Through Rocks”, de Sara Khaki e Mohammadreza Eyni (Irã, Catar, Chile, Alemanha, Países Baixos e EUA)
. “Folktales”, de Heidi Ewing e Rachel Grady (Noruega)
. “Seeds” (Sementes), de Brittany Shyne (EUA)
. “Coexistence, My Ass!”, de Amber Fares (França, EUA)
. “Holding Liat”, de Brandon Kramer (EUA)
. “Mr. Nobody Against Putin”, de David Borenstein e Pasha Talankin (Ucrânia). Netflix
. “Mistress Dispeller”, de Elizabeth Lo (EUA)
. “A 2000 Metros de Andriivka”, de Mstyslav Chernov (Ucrânia)
. “My Undesirable Friends: Part 1 – Last Air in Moscow” (Meus Amigos Indesejáveis – Parte 1), de Julia Loktev (EUA)

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