Safra baiana composta com nove longas e 22 curtas mobiliza as maiores plateias do Panorama Coisa de Cinema

Foto: “Anti-Heróis do Udigrudi Baiano”, de Henrique Dantas

Por Maria do Rosário Caetano, de Salvador (BA)

O cinema baiano tem na vigésima-primeira edição do festival Panorama Coisa de Cinema uma vitrine privilegiada. Com salas lotadas todas as noites, o Cine Glauber Rocha apresentou os oito longas da competição baiana. Há um nono título, “Cais”, de Safira Moreira, na competição nacional. Este documentário conquistou o principal prêmio do festival Olhar de Cinema, em Curitiba, ano passado.

O Panorama Coisa de Cinema exibe, ainda, vinte e dois curtas-metragens made in Bahia (vinte na competição baiana e dois na nacional). Os escolhidos para competir com representantes de outros estados brasileiros foram “Couraça”, de Susan Kalik e Daniel Arcade, e “Restauro”, de Josi Varjão e Lilih Curi.

Três longas se destacaram, até agora, na competição. Dois são baianíssimos  — “Anti-Heróis do Udigrudi Baiano”, de Henrique Dantas, e  “Sambadores”, de Pola Ribeiro. O terceiro, “Cartas Para…”, de Vânia Lima, é  uma coprodução internacional, que uniu quatro territórios brasileiros (Rio, Espírito Santo, São Paulo e Bahia) a Portugal e Moçambique.

O filme acompanha três mulheres dedicadas à poesia — Elisa Lucinda, capixaba-carioca da pá virada; a elegante e contida Paulina Chiziane, moçambicana de alma revolucionária, e a portuguesa de origem angolana Raquel Lima, uma Naomi Campbell que poderia estar nas passarelas, mas preferiu escrever versos.

Os três filmes que mais se destacaram são obras documentais que conseguiram somar temas relevantes a um criativo exercício de linguagem. O documentário que uniu Elisa, Paulina e Raquel só tem um defeito: optou por título incapaz de revelar o que vemos na tela (a história de três mulheres criativas e ousadas).

Convenhamos: num tempo em que poucos escrevem cartas, batizar um filme com duas palavras de reduzido apelo e seguidas de reticências é encobrir a pulsão de vida de suas protagonistas. De Elisa, que faz questão de expor seus versos, alguns palavrões e sua nudez sexagenária. De Paulina, que engrossou as fileiras da Revolução Moçambicana, se fez poeta e mantém um certo recato. E de Raquel, nascida de mãe angolana em Portugal, país que tantas vezes lhe negou cidadania.

Os longas documentais “Afrolatinas: Mulheres Negras em Movimento”, de Viviane Ferreira, “FeiraGuay”, de Francisco Gabriel Rego (este rodado em Feira de Santana), “Terra Batida”, de Jon Lewis, e “Xingu à Margem”, de Wallace Nogueira e Arlete Juruna, somam-se ao ficcional “Timidez”, de Susan Kalik e Thiago Gomes Rosa, e completa a lista de atrações baianas.

No campo do curta-metragem, dois filmes — “Bregueragem”, documentário de Daniel Arcades, e  “Supernova”, ficção de Leon Sampaio  — se destacaram pelos mesmos motivos dos longas de Henrique Dantas, Pola Ribeiro e  Vânia Lima — qualidades estéticas e temáticas sensíveis, acrescidas de poderosa capacidade de síntese. O primeiro foi rodado numa casa noturna soteropolitana, onde se ouve música romântico-brega e se dança de rosto colado.

O segundo em Feira de Santana. Acompanhamos as aventuras de Malu, uma espécie de Alice sertaneja, que espera pela mãe na porta da escola. Com a demora materna, ela perambula pela cidade e vive regresso demorado e emocionante. O carisma da atriz mirim (Lira Barroso) é notável. A assinatura do mesmo Leon Sampaio está nos créditos de outro curta digno de atenção, “Curva Acentuada”, um road movie centrado em atriz (Jessica Barbosa), que entra em crise depois de protagonizar uma telenovela. Ela resolve abandonar sofisticada campanha publicitária e botar o pé na estrada. Até encontrar uma pessoa melancólica como ela.

Entre os curtas baianos, vale destacar, também, “Dias de Tempestade”, animação de Vítor Rocha sobre a luta dos Malês contra a escravidão, “Espinho Remoso”, de Heraldo de Deus (ator do ótimo “Saudades Fez Morada Aqui Dentro”), importante reflexão sobre a segregação urbana imposta aos despossuídos, e o documentário queer “O que Você é Sai por Todos os Lados”, de Larissa Lacerda (com carismática protagonista, uma mãe lésbica de duas filhas também lésbicas).

Outro curta a se destacar na competição baiana foi o hilário “Maic Não quer Cruzar”, de Henrique Filho. O cineasta constrói, com muito humor, uma história sobre aceitação e tolerância. O jovem dono do cachorro Maic sonha ver o animal de estimação cruzando com uma parceira, para que da relação nasça um filhote. Mas Maic anda mais interessado na companhia de Chambinho, macho como ele. Tudo se desenvolve com simplicidade e leveza. O resultado é uma comédia construtiva, sem exageros no didatismo, com saboroso senso de humor e final feliz.

“Cartas Para…”, de Vânia Lima

Com o longa documental “Os Anti-Heróis do Udigrúdi Baiano”, Henrique Dantas segue sua trajetória em busca de pessoas e momentos luminosos da história cultural da Bahia. Ele, que já mergulhou na obra do cineasta Olney São Paulo, nas diabruras musicais dos Novos Baianos e nos mares navegados pelo compositor Dorival Caymmi, o “Dorivando Saravá”, mergulha agora nas proezas dos cineastas “marginais” da Bahia. Aqueles que fizeram o underground (ou udigrúdi) soteropolitano.

Tudo começa, nessa saga de “Anti-Heróis”, com o cineasta que deu o ponta pé inicial no movimento: André Luiz Oliveira e seu primeiro longa, “Meteorango Kid, o Herói Intergaláctico” (1969). E prossegue com “Caveira My Friend” (1970), de Alvinho Guimarães, “Akapalô” (1971), de José Frazão e Deolindo Checucci, e “O Anjo Negro” (1972), de José Umberto. Para se encerrar com “SuperOutro” (1989), de Edgard Navarro, sem dúvida alguma o melhor e mais perturbador filme (mesmo que tardio) do udigrúdi baiano.

Vale registrar aqui provocadora colocação do cineasta José Araripe Jr, um dos participantes de “Anti-Heróis…”, já que assinou a direção de arte de “SuperOutro”. Diz ele: “a nova geração do cinema baiano costuma nos ver como udigrúdis. Curiosa classificação, pois nossa turma (Navarro, Fernando Bélens, Pola Ribeiro, entre outros) realizou seus filmes em meados da década de 1970 (em super 8) e a partir dos anos 1980, já muito preocupada com o processo de redemocratização do país. Enquanto a geração do udigrúdi realizou seus filmes no final dos anos 1960, começos dos 70”.

Essa visão de Araripe (que não é expressa no filme de Dantas, mas surgiu de conversa com a Revista de CINEMA) encontra eco em outro participante de “Anti-Heróis do Udigrúdi”, o cineasta José Umberto. Ao comentar a gênese de “O Anjo Negro”, filme protagonizado por Mário Gusmão, Umberto diz (a Dantas) que seu filme mantinha profunda ligação com a Bahia, com o candomblé (mesmo que ele não fosse religioso) e com a força de um Bavi (Bahia x Vitória), enquanto os udigrúdis soteropolitanos mantinham profunda ligação com o cinema da Boca do Lixo paulistana.

Henrique Dantas não se aprofunda nessas discussões, pois sua intenção é mostrar painel histórico-sensorial do cinema baiano movido pela subversão dos costumes e a partir de imagens poéticas. Imagens que se materializam nas projeções de trechos dos loucos filmes do udigrúdi  soteropolitano na paisagem física da cidade (em rochas, viadutos, prédios e casarões). Se materializam, também, em sequência especial de  “O Anjo Negro” (Mário Gusmão montado a cavalo) justaposta à imagem do Superoutro Bertrand Duarte também em desabalada cavalgada.

Claro que há, no documentário de Dantas, cineastas (André Luiz, Navarro, Bélens, Zé Umberto, Alvinho Guimarães, Checucci) e intelectuais (Izabel Melo, Umbelino Brasil, Adolfo Gomes) analisando a gênese dos filmes gerados pelo underground soteropolitano. Muitas questões são levantadas, mas não tocam nas diferenças entre “a geração Meteorango” e a que se seguiu.

O diretor de “Meteorango Kid” contará que, em certo dia, depois de uma viagem de ácido, concebeu seu “herói intergaláctico”, o indócil Lula (Antônio Luiz Martins), capaz de tudo para subverter a moral burguesa, apostando com firme empenho na esculhambação da sagrada família.

Alguém lembrará que criou seu roteiro sob fumaças de múltiplos de cigarros de maconha. Múltiplas serão, também, as loucuras que cercaram a produção de “Caveira My Friend”. O filme, que teve a jovem Baby Consuelo, então com 17 anos, no elenco (e em companhia de outros futuros Novos Baianos), viveria trajetória das mais acidentadas. Sobre esse filme serão lembradas historias hilárias. Algumas saem das lembranças do ator Gato Felix.

Entre os depoimentos de “Anti-Heróis do Udigrúdi Baiano”, um, em especial, arrancou gargalhadas da plateia lotada do Cine Glauber Rocha. Ele veio da atriz Danielle Grimm, hoje octogenária, que foi prestigiar a sessão vestida com elegância e inseparável máscara protetora.  Ela relembrou que, durante as filmagens de “Meteorango Kid”, determinada cena seria realizada numa poça de água imunda. “Perguntei se não podiam substituir aquela água lamacenta da poça por água filtrada!!!”

No terreno dos depoimentos mais emocionados dois se destacam no documentário de Dantas o de Fernando Bélens, cineasta e psiquiatra, e o de Edgard Navarro, hoje com cabelos grisalhos e, infelizmente, sem filmar há muitos anos (seu último longa, “Abaixo a Gravidade”, foi lançado oito anos atrás).

Bélens conta que Navarro pedira a ele que preparasse o ator Bertrand Duarte para que este encarnasse visceralmente o Superoutro. Naquele final de década de 1980, nascia na Bahia, o precursor da hoje recorrente função de coach (preparador de elenco).

“Minha formação como psiquiatra” — lembrou Bélens — “me fez buscar, junto com Bertrand, a voz interior do personagem, o autismo que o marcava, seu evidente apragmatismo (incapacidade de realizar atos práticos do cotidiano). Discutimos muito a loucura do personagem. Quando vi Bertrand dançando o ‘Faraó’, do Olodum, eu disse a Navarro: não tenho mais nada a fazer. Bertrand encarnou o personagem, dorme e acorda Superoutro”.

Navarro, por sua vez, depois de relembrar o impacto que recebera de “Meteorango Kid”, definiu o Superoutro como “um suicida” que tudo fará para realizar seu sonho: voar. Na sequência final do filme (de poderosos 48 minutos), o personagem dá um “zignau na caretice”. Afinal, “o corpo fica (no chão) e ele sai desse corpo e voa”.

No meio de suas lembranças, Navarro resolve cantar versos de grande beleza. Eles integram uma de suas composições, infelizmente inéditas. Henrique Dantas deixa o cineasta cantar, calmamente. O filme respira a loucura santa do criador do Superoutro.

O ator Bertrand Duarte, que arrebatou  a todos que assistiram ao seu desempenho e, depois, seria convocado por Carlão Reinchenbach para protagonizar “Alma Corsária” (1993), também brilha com seu depoimento:

“Navarro não dispunha de muito negativo”, rememora. “Então, tudo foi feito na base do take one. Não dava para repetir. A sequência da cagada (o personagem defeca, em primeiro plano, evocando o super 8 “O Rei do Cagaço”) foi única. Não tive outra oportunidade de repeti-la”.

O filme de Henrique Dantas chega, em sua parte final, até nossos dias. E o faz em duas etapas.

Na primeira, ouve dois realizadores (Marcus Curvelo e Alexandre Guena), que, em certa medida, seguem os caminhos abertos pelos udigrúdis baianos. Curvelo, que é também ator, chega a definir seu personagem Joder como “um primo distante do Lula de Meteorango Kid”.

No desfecho de “Anti-Heróis do Udigrúdi Baiano”, Dantas discute, com auxílio da professora universitária Izabel Melo, marcas da época, revistas criticamente pelo nosso tempo. Ou seja, abre espaço para a pauta identitária, encontrando nos filmes realizados há mais de 50 anos (56, no caso de “Meteorango Kid”) preconceitos e índices de machismo.

Dois dos documentários exibidos na competição baiana do Panorama têm o samba (o de roda, em especial) como tema.

O samba — nunca se cansarão de dizer, com conhecimento de causa, os que nasceram na Bahia — “nasceu no Recôncavo Baiano”. Lá pelas bandas de Santo Amaro da Purificação. Mas “Sambadores” e “Terra Batida”, este de Jon Lewis, são documentários que trilham caminhos diferentes.

O filme de Pola Ribeiro sustenta-se na belíssima fotografia de Cláudio de Souza (que fotografou o também fascinante “Bregueragem”) e na busca de novas formas de mostrar os criadores populares desse gênero musical que tornou-se marca indelével da alma brasileira.

Ao invés de realizar mais um filme com entrevistas de “sambadores” já registradas em diversas produções, Pola Ribeiro convoca atores (Luciana Souza, ela mesma louca por samba, Tânia Toko, entre outros) para buscar a beleza musical presente nos cantos de trabalho de quem fabrica a farinha de mandioca e o óleo do dendê. Aqueles que cultivam a culinária composta com saborosos carurus, fritadas de siri ou de caranguejo. E sem esquecer as crianças, que ali convivem com os “sambadores” e ajudam a perpetuar suas criações musicais e danças coletivas. O filme é dedicado a Eduardo Coutinho, Geraldo Sarno e Fernando Bélens.

Já “Terra Batida”, do diretor Jon Lewis, baiano de origem britânica, segue por caminhos mais convencionais em seu registro dos que realizam e perpetuam os rituais do samba.

Por fim, há que se registrar que há mais quatro longas baianos na edição de número 21 do Panorama Coisa de Cinema. O mais aguardado é o documentário “As Travessias de Letieres Leite”, de Iris Oliveira e Day Senna, convidado da noite de entrega de prêmios do festival (sessão às 18h dessa quarta-feira, primeiro de abril, no Cine Glauber Rocha). Os outros três foram mostrados ao longo do festival, no segmento não-competitivo Panorama Brasil:  o ficcional “Flor do Sertão”, de Tais Laila e Bruno Masi, e os documentários “Um Carnaval em Cada Esquina”, de Vânia Lima, e “Kaabok: O Candomblé de Caboclo no Sertão de Jequié”, de Zaire Ominira e Adriana Fernandes Carajá.

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