Novo documentário de Carla Camurati, “Raízes do Sagrado Feminino”, busca nas grandes religiões as origens da opressão das mulheres

Por Maria do Rosário Caetano

“Como as escrituras das cinco maiores religiões do mundo moldaram, e ainda moldam, o lugar da mulher na sociedade?”

Para responder a essa pergunta, totalizante e complexa, a cineasta, produtora, gestora cultural e “ex-atriz” Carla Camurati realizou seu sexto longa-metragem, o documentário “Raízes do Sagrado Feminino”, que estreia no Espaço Petrobras de Cinema, em São Paulo, nessa quinta-feira, 23 de abril. Depois, o filme chegará, com calma e sob o zelo de sua diretora-produtora, a outras capitais e municípios brasileiros.

Camurati, carioca de 65 anos, abandonou a carreira de atriz de cinema, TV e teatro, para realizar seus filmes e distribui-los como meticulosa estrategista. Pequena, se comparada às forças que dominam a distribuição cinematográfica, mas atrevida. Ela engendra, para cada um de seus filmes, procedimentos capazes de tirá-los do anonimato. E o faz sob paradigma que tornou-se objeto de estudo: em 1995, quando o cinema brasileiro praticamente sumira do mapa, ela transformou “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, seu primeiro longa ficcional, em espantoso êxito comercial. O filme vendeu 1,3 milhão de ingressos.

Claro que “Raízes do Sagrado Feminino”, um longa documental, não chegará, nem em previsões otimistas, a um décimo desse número milionário. Mas sua parte, a diretora-produtora desempenhou com obstinada dedicação. Produziu um filme com tema mobilizador (o papel subalterno atribuído à mulher desde priscas eras), uniu imagens belíssimas (colhidas pelo craque Antonio Venancio em acervos do mundo inteiro) e contou com o respaldo de equipe de pesquisadores (e roteiristas) capaz de manter a seriedade universitária, sem recorrer ao jargão acadêmico. E, o que mais chama atenção, fez um “cabeças-falantes” (são 28 cabeças falando para a câmera) que nunca, em momento algum, cai na monotonia.

E por que “Raízes do Sagrado Feminino” não cansa? Porque conseguiu agregar imagens de aliciante beleza e mobilizar colaboradores (filófosos, monges, historiadores, cantoras, escritoras, teólogos, padre, rabinos, freira, psicanalista, pesquisador do veda), que conhecem seus temas e sabem como apresentá-los ao público leigo. Embora essas vozes se destaquem ao longo de narrativa de quase duas horas, o que nossas retinas preservam são imagens de altíssima qualidade informativa e estética. São elas que nos mantêm de olhos grudados na tela.

Num dos momentos mais impressionantes do filme, judeus ortodoxos (todos do sexo masculino!) impedem mulheres (judias) de se aproximarem do Muro das Lamentações. Aquele espaço — entendem os donos do pedaço sagrado — pertence a eles e só a eles. Reza a tradição que só homens podem ali desenvolver os rituais religiosos do Judaísmo.

O filme de Carla Camurati começa com o Hinduísmo, parte para o Budismo, depois para o já citado Judaísmo, desaguando no Cristianismo e no Islamismo. Dá voz a praticantes (ou estudiosos) dessas que são as cinco maiores religiões do mundo. Cada pessoa ouvida (18 mulheres e dez homens) analisará “textos milenares, escritos por homens, interpretados por homens, institucionalizados por homens”.

Por isso, a diretora e co-roteirsta do filme quer saber “quem escreveu (definiu!) o destino das mulheres?” E segue adiante: como refletir, em pleno século XXI, sobre os direitos e as mudanças buscadas pelas mulheres, se “textos sagrados” continuam a vê-las como inferiores, subalternas, destinadas à submissão?

Ninguém pense que verá um filme militante, chegado ao proselitismo ou panfletário. Embora nos lembre que vivemos tempo histórico, no qual “as discussões sobre igualdade de gênero, direitos das mulheres e liberdade religiosa ocupam o centro do debate público global”, o documentário “Raízes do Sagrado Feminino” dedicará poucos (embora significativos) minutos ao feminicídio, tragédia que a tantos preocupa.

O filme não sai de sua proposta (refletir sobre o papel das cinco grandes religiões na opressão feminina), por mais totalizante e complicada que ela seja. Afinal, Camurati e suas co-roteiristas seguem movidas por indagação essencial: “e se a desigualdade entre homens e mulheres não fosse (um fenômeno) apenas cultural — mas algo inscrito no campo do sagrado?”

O documentário fugirá, sempre, de estigmas. Tentará entender o uso do hijab, niqab, chador, burca e assemelhados, vestes que cobrem o corpo de tantas mulheres muçulmanas. Dará a palavra a Maha Abdellaziz, professora de Árabe e de Filosofia. E esta se expressará com alegria e vivacidade sobre a questão proposta. Ouviremos, também, e sobre tema variados, uma rabina (Kelita Cohen), monges zen-budistas (Monja Coen, Alcio Tesshin Braz), teólogos (Ivone Gebara, Clara Bingemar, Alexandre Marques Cabral), professores ou doutores em religião (Arlene Clemesha, da USP, Aza Njeri, Mary del Priori, Karolina Santos, Luanda Silva de Moraes), escritoras (Marina Colasanti, Adriana Carranca), cantoras (Assucena, Meeta Ravindra) e estudiosos do Budismo (Padma Samten, Swamiji Harsha), sem esquecer um padre de origem africana e doutor em Filosofia, Jacques Kwangala.

Religiões de matriz africana serão lembradas com sutileza. E por contraste. Enquanto vemos homens (imensas multidões de homens!) comandando os destinos de seguidores mobilizados pelas cinco poderosas religiões, imagens do Candomblé mostram mulheres (mães-de-santo) cuidando da vida espiritual daqueles que as procuram. Não há discurso explicativo. Só as imagens “falam”. Espectadoras e espectadores que cheguem às suas próprias conclusões.

A pré-estreia paulistana de “Raízes do Sagrado Feminino” destinou a renda dos ingressos vendidos (a econômicos dez reais) para o Levante de Mulheres Vivas de São Paulo, organização nacional que mobiliza manifestantes, oriundos de diversos pontos do território brasileiro, contra a escalada de feminicídios. E defende “leis mais rigorosas, proteção efetiva e o fim da violência de gênero”.

Quando terminamos de ver o segundo longa documental de Carla Camurati, concluímos que ela tem vocação para o diálogo com públicos amplos, ecléticos. Nunca mira o gueto. Nem deseja falar para convertidos. Quer sensibilizar leigos, aqueles que vão ao cinema em busca de diversão e (algum) conhecimento.

“Raízes do Sagrado Feminino” poderá resultar, para especialistas, como panorâmico por demais. E não deixa de ser. Mas quem for assisti-lo será instigado a pensar sobre algo que, talvez, nunca tenha mobilizado suas reflexões. Ou seja: por que, ao longo dos milênios, “narrativas divinas” foram (e continuam sendo) usadas para “justificar silenciamentos, submissões, exclusões da mulher?” Por que, “em muitos contextos, violências estruturais continuam atravessando gerações?”.

Camurati deixa claro que, em nenhum momento, se propôs a “atacar a fé” daqueles que crêem. Sua intenção foi “questionar as interpretações”. Sem fugir de “contradições profundas”, dos “conceitos espirituais que se transformaram em estruturas culturais, sociais e políticas”, capazes de “reverberar, com imensa força, no tempo presente”.

A cineasta acredita ter realizado um filme que “confronta, provoca, desestabiliza”, por levantar hipótese que traz inquietações: “a estrutura simbólica, esteio do patriarcado pode ter sido sacralizada”. E mais: “quem ganha quando elas, as mulheres, permanecem em silêncio?”

“Raízes do Sagrado Feminino” – afirma a “ex-atriz” que o concebeu e realizou – “não foi feito para dividir”, mas com o desejo de “iluminar”. Afinal, ela entende que “compreender as raízes é dar um primeiro passo rumo à transformação do futuro”.

 

Raízes do Sagrado Feminino
Documentário, 1h44, 2026, Brasil
Direção: Carla Camurati
Participação: Arlene Clemesha, Assucena, Adriana Carranca, Ivone Gebara, Maha Abdelaziz, Mary del Priore, Monja Coen, Regina Navarro, Milton Bonder, Jacques Kwangala, Renato Noguera, entre outros
Roteiro: Christiana Albuquerque, Carla Camurati e Fernanda Rondon
Pesquisa de imagens: Antonio Venancio
Produção: Copacabana Filmes (coprodução de É Prá Ontem)
Distribuição: Downtown

 

FILMOGRAFIA
Carla Camurati (Rio de Janeiro, 14 de outubro de 1960)

1995 – “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil” (ficção)
1998 – “La Serva Padrona” (comédia musical)
2001 – “Copacabana” (ficção)
2006 – “Irma Vap, o Retorno” (ficção)
2021 – “Oito Presidentes Um Juramento – A História de um Tempo Presente” (documentário)
2026 – “Raízes do Sagrado Feminino” (documentário)

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