Festival É Tudo Verdade consagra irreverente curta de Recifolinda e reconhece a força de “Sagrado” e “Um Filme de Medo”

Por Maria do Rosário Caetano

Os longas “Um Filme de Medo”, de Sergio Oksman, e “Sagrado” (foto acima), de Alice Riff, foram escolhidos — na cerimônia de premiação do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade — como, respectivamente, o melhor longa internacional e o melhor longa brasileiro. Mas a maior sensação da noite foi um curta-metragem de 24 minutos, “Os Arcos Dourados de Olinda”, vindo de Pernambuco e dirigido pelo estreante Douglas Henrique.

Comédia satírica, construída com material de arquivo, o curta narra os contratempos empresariais de uma lanchonete do McDonalds, obrigada a cerrar suas portas olindenses “por falta de clientes”. Daí que o histórico município pernambucano pôde jactar-se da condição de “única cidade do mundo a assistir à falência” da mais famosa das marcas de fast-food.

Douglas e seu produtor, Pedro Ferreira, subiram ao palco da Cinemateca Brasileira para empalmar quatro troféus diferentes: o belo objeto artístico criado por Carlito Carvalhosa (Prêmio ÉTV), o Troféu Canal Brasil, o Prêmio APACI de melhor direção e o troféu-tesoura da Associação dos Editores.

A alegria dos irreverentes e orgulhosos pernambucanos não os impediu de enunciar discurso enxuto e contundente, contra as guerras que destroem “a Palestina e o Irã, a invasão da Venezuela e as ameaças que pairam sobre Cuba”. Douglas, que dirige um pequeno festival em Pernambuco, o Fresta, dá, pois, sequência às três décadas de grande criatividade e produtividade cinematográfica vindas do circuito Recifolinda.

As escolhas dos dois laboriosos júris oficiais do ÉTV foram criteriosas e bem-pensadas. Havia excelente material entre os doze longas internacionais. E a safra brasileira, com sete títulos, também reuniu bons filmes.

Ao optar pelo hispano-lusitano “Um Filme de Medo”, o júri internacional (formado com Vivian Ostrovsky, Helô Passos e Ricardo Casas) apostou na criatividade. O brasileiro Sergio Oksman, radicado há 30 anos na Espanha, situa-se, agora, na história do ÉTV, como o único (e inusitado) diretor a vencer na categoria nacional (com “O Futebol”, em 2015) e internacional.

“Um Filme de Medo” leva um pai (o próprio Oksman) e seu filho pré-adolescente Nuno a um hotel abandonado, nos arredores de Lisboa. O ambiente evoca os corredores que ambientaram “O Iluminado”, filme cult de Stanley Kubrick. Mas o que veremos, no caso luso-espanhol, mais que um filme de terror, será uma história de relacionamento entre pai e filho. Uma história pontuada pelo assombro de um serial killer português, incapaz de amedrontar o menino. Veremos, também, as lembranças do cineasta, que evoca a figura paterna, ausente em sua vida.

Para temperar tudo, “Um Filme de Medo” conta com fascinante presença de um grande fotógrafo português, que  “interpreta”, com diálogos afiadíssimos, o dono do hotel abandonado. As aspas para a função de “intérprete” se devem ao caráter híbrido do filme. Embora recorra (com parcimônia) a materiais de arquivo, o longa “documental” de Oksman não se avexa em utilizar, com expansiva liberdade, procedimentos característicos do cinema ficcional.

Registre-se, aqui, que “Um Filme de Medo” derrotou pelo menos quatro documentários arrebatadores — o holandês “Entre Irmãos”, de Tom Fassaert (formidável); o impressionante “Shotting”, da israelense Netalie Brian, poderosa reflexão metalinguística sobre o belicismo que caracteriza a nação do Oriente Médio; o atmosférico e perturbador “Desfecho”, do polonês Michael Marczak; e o experimental “Benita”, do estadunidense Alan Berliner (esses dois últimos marcados pelas dores e mistérios advindos do suicídio).

O produtor Pedro Ferreira e o diretor Douglas Henrique, de “Os Arcos Dourados de Olinda” (PE), premiado com 4 troféus © MRC

A opção do júri brasileiro (formado com os cineastas Carol Benjamin, Eryk Rocha e Helena Tassara) pelo longa “Sagrado” foi muito bem-recebida, embora houvesse quem apostasse na vitória do lúdico e encantador “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai. Ou no experimentalismo de “Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas”, de Carlos Adriano. Ou, ainda, no belo tributo à memória, pensamento e filmes do inquieto Fernando Coni Campos — “Cada um Vive como Sonha”, de Luís Abramo e Pedro Rossi.

A trinca de jurados jogou todas as suas fichas no mais politizado dos concorrentes — o nada religioso “Sagrado”, da paulistana Alice Riff. A cineasta acompanha o difícil cotidiano de professores e equipe que prepara refeições e merendas para estudantes do educandário Sagrado Coração de Jesus, situado em bairro periférico de Diadema, no ABC Paulista.

A “sagrada” escola municipal brotou, 30 anos atrás, no coração do terreno onde “invasores”, depois de muita luta, foram assentados. O Gazuza diademense trocava, naquele momento, seus barracos por moradia de alvenaria. E ganhava uma escola, cheia de problemas, mas com recursos humanos dispostos a ajudar crianças de primeiro a quarto ano (o antigo primário) a se alfabetizar, habilitar-se para a escrita e leitura e realizar operações matemáticas.

O júri destacou a vibrante sequência final do longa de Riff, capaz de injetar energia até nas veias de um moribundo. Com a câmara centrada no corpo (em especial no rosto) da professora Jéssica, ouvimos mobilizadora paródia do “Rap da Felicidade” (1995), composição (hibridizada com o balanço do funk) dos já falecidos Katia Ribeiro e Julinho Rasta.

Versos como “Eu só quero é ser feliz/ andar tranquilamente na favela onde eu nasci/ E poder me orgulhar/ e ter a consciência que o pobre tem seu lugar” se adaptam à realidade dos estudantes pobres de Diadema, que querem ser felizes no bairro periférico onde nasceram, depois da luta incansável dos Sem-Teto do Gazuza. As crianças não são vistas durante a cantoria. Mas entonam cada palavra, com vibração arrebatadora, junto com a professora, possuída pelos versos que foram gravados trinta anos atrás por Cidinho e Doca.

Alice Riff contou, no debate de “Sagrado”, no foyer da Cinemateca Brasileira, que (ainda) mantém diálogo com os detentores dos direitos do “Rap da Felicidade” em busca de cessão para o devido uso no filme. Que, por princípio, os herdeiros dos titulares da composição avisam não aceitar mudanças nos versos desse mobilizador rap-funk. Resta saber se, depois de assistir aos 90 minutos de “Sagrado”, eles, os herdeiros de Katia e Julinho, terão coragem de impedir que o canto de Jéssica e suas crianças-alunas, tomadas de paixão e fúria, chegue aos ouvidos e corações do público.

Baby Consuelo, a Nova Baiana niteroiense, compareceu à cerimônia de premiação, na Cinemateca Brasileira, vestida a caráter (com roupas curtíssimas, cheias de brilho e arrematadas com cabelos azuis). Subiu ao palco com o cineasta Rafael Saar, seu diretor, e falou com voz forte sobre o filme que eles realizaram, às vezes com discordâncias, ao longo de 18 anos. Mas, satisfeita, contou que amara o resultado final. “Apopcalipse Segundo Baby” conquistou três prêmios.

O brasileiro-espanhol Sergio Oksman contou a Baby, mãe de seis filhos, que ele e seu filho madrilenho costumam se socializar cantando (e dançando) “A Menina Dança”. E que queria tirar uma foto com ela, para levar de presente para o menino. Finda a sessão, lá estava a eufórica Baby, de 73 anos, confraternizando-se, sob os flashes de vários fotógrafos, com o diretor de “Um Filme de Medo”.

A Revista de CINEMA destaca, abaixo, as detalhadas justificativas dos jurados e a tabela com as premiações outorgadas aos principais laureados:

OS ARCOS DOURADOS DE OLINDA – “Pela irreverência e pelo humor na construção de uma narrativa lúdica que surpreende ao reinventar o uso do material de arquivo. Ao transfigurá-lo com liberdade e invenção, o filme constrói uma crítica ao imperialismo ao mesmo tempo afiada e desarmada, que assume sem receio o popular, o clichê e as contradições da própria identidade.”

SAGRADO – “Por afirmar, com rara precisão, um cinema em que a política se inscreve na forma, no gesto e nas relações do cotidiano. Sem recorrer a artifícios, o filme sustenta, do título ao último plano, uma direção segura, rigorosa e profundamente consciente de seus meios. Ao escolher uma estratégia narrativa fundada na escuta, na observação e no respeito radical aos seus personagens, constrói uma experiência em que o invisível se torna presença sensível. A partir de um material de arquivo que prescinde de explicação, o filme se organiza em espiral até alcançar um plano-sequência final de grande potência, conduzido pelas vozes das crianças. Nesse gesto, simples apenas na aparência, o filme se afirma como uma obra de rara integridade, em que elaboração estética e potência política são indissociáveis. E afirma, com delicadeza e rigor, um cinema onde invenção, poesia e luta se tornam indissociáveis.”

APOPCALIPSE SEGUNDO BABY (notem a grafia – ApoPcalipse) – “Por articular, de forma visceral e autêntica, a personalidade da protagonista e sua persona performática, incorporando à própria forma do filme sua força, energia e pulsação. Ao evocar a memória da música popular brasileira, o filme constrói um retrato fiel e vibrante, que preserva a originalidade da personagem e revela um trabalho rigoroso de pesquisa e elaboração. No uso dos materiais de arquivo, evidencia-se o rigor, o cuidado e o profundo respeito do realizador.”

UM FILME DE MEDO – “Em um filme de terror, não há monstros, apenas a distância entre dois mundos, pai e filho. O pai tem medo de herdar os fantasmas do passado, e o filho caminha leve, quase sem sombra”.

SONHOS DE APAGÃO – “Uma sociedade agredida através do tempo e como viver com infindáveis boicotes. A ausência de energia elétrica na ilha (de Cuba) se transforma em um recurso expressivo e cinematográfico”.

Confira os vencedores:

. “Um Filme de Medo”, de Sérgio Oksman (Espanha, Portugal) – melhor longa internacional
. “Sagrado”, de Alice Riff (São Paulo) – melhor longa brasileiro pelo Júri Oficial e Prêmio Apaci de melhor direção (Associação Paulista de Cineastas)
. “Apopcalipse Segundo Baby”, de Rafael Saar (Rio de Janeiro) – menção honrosa do Júri Oficial, Prêmio Prêmio edt.(Associação de Profissionais de Edição Audiovisual), Prêmio Maria Rita Galvão, atribuído pela Pavic (Pesquisadores de Audiovisual, Iconografia e Conteúdo), ABPA (Associação Brasileira de Preservação Audiovisual) e Repia (Rede de Pesquisa de Imagens de Arquivo)
. “Meu Pai e Gaddafi”, de Jihan (EUA e Líbia) – menção honrosa
. “Sonhos de Apagão”, de Gabriele Licchelli, Francesco Lorusso e Andrea Settembrini (Cuba, Itália) – melhor curta internacional
. “Os Arcos Dourados de Olinda”, de Douglas Henrique (Pernambuco) – melhor curta brasileiro pelo Júri Oficial, Prêmio Canal Brasil, Prêmio Apaci de melhor direção (Associação Paulista de Cineastas) e Prêmio edt. (Associação de Profissionais de Edição Audiovisual)
. Menção honrosa para “Se Não Gosta, Não Olhe” (França), de Margaux Fournier
. Menção honrosa para os curtas “Filme-Copacabana”, de Sofia Leão, e “Divino: sua Alma, sua Lente”, de Clea Torres e Gilson Costa

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