Série sobre longo sequestro do “Caravelle 114” estreia no Canal Brasil e Globoplay exibe “Jessie & Colombo”

Foto: “Caravelle 114”, de William Biagioli

Por Maria do Rosário Caetano

A minissérie ficcional “Caravelle 114”, dirigida por William Biagioli, estreia na noite dessa terça-feira, 20 de maio, no Canal Brasil, e chega para somar-se à série documental “Jessie & Colombo”, da carioca Susanna Lira, disponível na Globoplay.

As duas produções têm como tema sequestros de aviões Caravelle por jovens militantes políticos, ocorridos ambos no alvorecer da década de 1970, mas que tiveram durações e desfechos bem diferentes.

No Revéillon que marcou a passagem de 1969 para 1970, seis jovens (quatro rapazes e duas moças, uma delas com dois filhos pequenos presentes no cenário da ação armada) embarcaram no vôo número 114 de um Caravelle da companhia aérea Cruzeiro do Sul, que ligaria Montevideo, capital uruguaia, ao Rio de Janeiro. Coube à mãe das crianças camuflar no próprio corpo as armas que seriam utilizadas pelos guerrilheiros. O sequestro se consumou e durou quatro dias, tornando-se o mais longo da história brasileira.

Já o sequestro que motivou a cineasta Susanna Lira a dirigir a série documental “Jessie & Colombo” foi realizado exatos seis meses depois. Em primeiro de julho de 1970, Jessie Jane, de 24 anos, embarcou no Aeroporto do Galeão em vôo que ligaria Rio a São Paulo. Com ela estavam Colombo Vieira de Souza Jr., de 19 anos, Fernando Palha Freire e seu irmão gêmeo Eiraldo Palha Freire, de 24 anos.

Com o sexteto de sequestradores do Caravelle Vôo 114, o quarteto carioca desejava – em troca da libertação dos reféns – denunciar o autoritarismo do governo militar (então presidido pelo general Emilio Garrastazu Médici) e libertar presos políticos.

Afinal, haviam dado certo sequestros terrestres como o do embaixador dos EUA (04/09/1969), do cônsul do Japão (11/03/1970), e dos embaixadores da Alemanha (11/06/1970) e da Suíça (07/12/1970, este posterior). Complexas negociações haviam libertado (por banimento) dezenas de militantes políticos encarcerados.

Para narrar a história do “mais longo sequestro de avião da história ditatorial brasileira”, o paulista de Araraquara, radicado em Curitiba, William Biagioli baseou-se em fatos reais, mas deu asas à imaginação. Teve necessidade de preencher lacunas, pois, por mais que ele e seus colaboradores pesquisassem, sempre surgiam espaços a preencher.

Biagioli, de 38 anos, estabeleceu como premissa de sua série ficcional, que ela seria, mais que “o registro de um sequestro”, a construção de “uma história sobre coragem, audácia e amizade” protagonizada “por jovens que inventam um caminho quando não há nenhum” em seu horizonte. A narrativa se compõe em quatro capítulos (média de 45 minutos cada um).

O primeiro, “Mala Suerte”, coloca o sexteto responsável pelo sequestro em cena e, também, os passageiros e a tripulação. Em solo, destaca-se um agente do CIEX (Serviço de Informação do Ministério das Relações Exteriores), Nery, interpretado por Joelson Medeiros.

O segundo episódio – “O Passageiro” – dá atenção a determinado passageiro (Flávio de Macedo, interpretado por Bruno Stieri) da aeronave sequestrada, visto rapidamente no primeiro episódio. O clima esquentará em “Um Dia de Cão” e o desfecho se mostrará em “O Plano Perfeito”.

Biagioli contou à Revista de CINEMA que aproximou-se de tema tão distante de sua história pessoal (ele nasceu em dezembro de 1987, 17 anos depois do acontecido) “ao ler, no site da BBC Brasil, reportagem que narrava a saga de uma mãe (Marília Guimarães Freire, de 22 anos), participante do sequestro do Caravelle, que ousara levar com ela os dois filhos pequenos”.

Apaixonado pela história brasileira, ele que realizou o documentário “O que Sou Nunca Escondi”, sobre Geraldo Vandré, com os colegas Helena Wolfenson e Alexandre Napoli, e passou anos mergulhado em pesquisa sobre o sequestro do Caravelli (Vôo 114). Sempre com “o valiosíssimo empenho de meu primo Alexandre Napoli”, outro apaixonado pelo tema.

Com o roteiro escrito, Biagioli partiu para a escolha do elenco e das locações. Buscou no teatro paranaense e nas cercanias artísticas hispano-americanas (o Uruguai, em especial) os intérpretes de muitos de seus personagens. O nome mais conhecido do elenco é Joelson Medeiros (“Páginas da Vida”, “Queridos Amigos”, “Sob Pressão”), vindo “de uma montagem teatral de Felipe Hirsch”. Os jovens intérpretes do sexteto de sequestradores também têm nos palcos seu berço artístico.

Para os personagens de “Caravelli 114” que falam espanhol (afinal, o vôo era proveniente de Montevideo), o cineasta recorreu a atores de países vizinhos. Ele destaca dois deles, intérpretes do casal Herbert, que viajava acompanhado da filha Sara. “Convidei Susana Groismann, uma grande atriz uruguaia, para interpretar a Senhora Zlata Herbert”. Assim como “seu parceiro de cena, Juan Kurh, que além de imenso ator administra o lendário teatro El Galpón, de Montevideo”.

Zlata, idosa e descontrolada esposa do passageiro José Herbert, marca presença no primeiro capítulo (assistido pela Revista de CINEMA) como uma mulher preconceituosa, que desdenha do Brasil e dos brasileiros. Quando o marido dela passa mal ao inteirar-se do sequestro, ela perde o controle e só faz piorar o estado das coisas. Que já não era bom.

Os paulistas hão de reconhecer, no elenco, o cineasta, diretor de teatro, “ator ocasional” e professor da Unespar (Universidade Estadual do Paraná) Mauro Baptista Vedia, uruguaio que viveu longos anos em São Paulo, foi professor na ECA-USP e aqui dirigiu seus primeiros curtas e o longa-metragem “Jardim Europa”. Ele interpreta, em “Caravelle 114”, um militar hispano-americano, o Major Villar.

A história do sequestro do avião da Cruzeiro do Sul, uma subsidiária da Varig, foi integralmente gravada no Paraná e mobilizou mais de cem atores e técnicos de Ponta Grossa, Londrina e Curitiba.

“Nosso maior desafio” – relembra Biagioli – “foi reconstruir, em Morretes, um avião dos anos 1960 (o Caravelli) a partir de um Airbus 318”. As filmagens utilizaram o Aeroporto Sant’Ana, em Ponta Grossa, que somou-se a locações na antiga sede da CineTV-PR, em Pinhais. Estas se fazem passar por locações urbanas de Curitiba.

Biagioli faz questão de destacar, além de Joelson Medeiros, o ator Edson Bueno, que interpreta o General Cruz, e “novos talentos da dramaturgia brasileira, como Camila Carneiro, João Campos, Bela Leindecker e André de Oliveira”. E chama atenção para o destaque dado “ao CIEX (Centro de Informações do Exterior), órgão de espionagem do Itamaraty controlado pelos militares”. Através dessa instituição e de seus quadros – pondera – “foi possível propor reflexão sobre vigilância estatal, autoritarismo e nos determos no exílio político de tantos brasileiros”.

“Caravelle 114”, que soma thriller político e drama histórico, foi feita, segundo seu diretor, “para lembrar que houve ditadura e que houve quem a enfrentasse com tudo o que tinha”. Mesmo que fosse a própria vida. Afinal, como mostrará o primeiro capítulo, os jovens sequestradores queriam, depois de cobrar o paradeiro de dois presos políticos e denunciar o autoritarismo vigente, ir para Cuba.

Só que – assegura o roteiro do primeiro capítulo da série – eles não dispunham de informações sobre a autonomia de vôo da aeronave. Tiveram que ser informados pelo paciente Comandante Mário Amaral (Fernando Bispo), responsável pela sobrevivência de seus passageiros e de sua tripulação.

O Comandante Amaral até demonstraria surpresa com a escolha dos jovens militantes, já que eles deflagraram o sequestro quando estavam próximos de uma cidade (Porto Alegre), situada no extremo sul do país, tão longe do Caribe. Caberia ao aeronauta e a seu copiloto esclarecer aos integrantes da VAR Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária), que a autonomia daquele vôo era bastante reduzida. O tanque de abastecimento do avião era pequeno e, por isso, exigiria diversas escalas para reabastecimento.

Escalas que seriam feitas em Antofogasta, no Chile, em Lima, no Peru, em Ciudad Panamá até desembarcar no Aeroporto José Marti, em Havana, com 21 passageiros e sete tripulantes.

Os criadores da série preferiram alterar o nome de sua protagonista, Marília Guimarães Freire, para Miriam Gonçalves, por razões (e liberdades) dramatúrgicas. A personagem ficcionalizada permitiria que explorassem “as tensões entre militância, maternidade e sobrevivência”. A jovem mãe de dois filhos pequenos, professora no subúrbio de Coelho Neto, no Rio, embarcou no Caravelle (com os meninos), enquanto o marido estava preso nos porões do regime militar.

O sexteto, ela e seus colegas, queria que o Governo brasileiro fornecesse o paradeiro de dois presos políticos – o marido dela, Fausto Machado Freire, e o colega Marco Antonio Meyer. Deles não havia notícia. Não se sabia se estavam vivos ou mortos.

“Jessie & Colombo”, de Susanna Lira

Uma mulher também está no centro da narrativa de “Jessie & Colombo”, série disponível na Globoplay desde 2023: Jessie Jane Vieira de Souza, hoje professora de História da UFRJ. Ao lado do jovem Colombo Vieira de Souza Júnior, de 19 anos, e dos gêmeos Eiraldo e Fernando Palha Freire, eles protagonizariam o sequestro de um avião Caravelle. Mas autoridades militares invadiriam a aeronave, atirariam em Eiraldo, que morreria no hospital, e os três sobreviventes seriam presos. Jessie e Colombo se casariam, por procuração, nos tempos de cárcere e seguiriam juntos até a morte dele, em 25 de abril de 2021.

Susanna Lira, diretora do ótimo “Torre das Donzelas”, articulará sua trama documental com breves inserções ficcionais (dos jovens Jessie e Colombo interpretados por Gillian Villa e Jorge Hissa) e muito material de arquivo. Sem esquecer as “cartas do cárcere”, trocadas entre Jessie (voz de Andrea Horta) e Colombo (de Humberto Carrão).

Além dos sólidos depoimentos do casal (Colombo morreria antes de ver a série pronta), assistiremos a trechos de importantes filmes brasileiros (“Manhã Cinzenta”, de Olney São Paulo, “O Desafio”, de Saraceni, “Que Bom te Ver Viva” e “Dois Irmãos”, de Lúcia Murat). A eles se somarão imagens de filmes de Sergei Eisenstein e registros domésticos feitos por Nelie Sá Pereira.

Na trilha sonora (a cineasta não se fez de rogada e licenciou uso de verdadeiras joias de nossa MPB), ouviremos vozes de Cartola (“O Mundo é um Moinho”), Sérgio Sampaio (“Eu Quero Botar meu Bloco na Rua”), Luiz Melodia (“Magrelinha”), Maria Bethânia (“Foguete”), João Bosco (“O Bêbado e a Equilibrista”), Novos Baianos (“Acabou Chorare”), Gal e Bethânia (“Minha Mãe”), Tom Zé (Jimmy Renda-Se”), sem esquecer a argentina Mercedes Sosa.

Sendo uma série feminina, “Jessie & Colombo” vai destacar temas como menstruação, maternidade (Jessie viverá a gravidez encarcerada) e o medo da parturiente de que os militares, aqueles que vigiavam seu parto (feito por médico comunista, numa clínica particular), roubassem seu bebê. Afinal, ouvia-se dizer que tais roubos vinham se processando na Argentina.

Num dos momentos mais curiosos da série, uma personagem (a própria Jessie, já no tempo presente), relembra os sonhos impossíveis, “a maluquice” realizada pelos jovens militantes (ela tinha 20 anos), do sequestro do Caravelle. Ela será rebatida pela cineasta Lúcia Murat, sua colega de cela e grande amiga. Para a diretora de tantos longas-metragens (dois deles importantíssimos na narrativa da série de Susanna Lira), os atos praticados naqueles anos (final da década de 1960, começo dos anos 1970) não podem ser vistos (avaliados) pelos olhos do presente. Mas sim em seu devido contexto histórico.

Assistir às duas séries, a paranaense e a carioca, será útil para quem quiser revisitar esse período (conturbado, sim, polêmico, idem) da história brasileira do século XX.

Caravelle 114
Minissérie em quatro episódios de 45 a 50 min. cada, 2026
Exibição: no Canal Brasil, às terças-feiras, sempre às 19h30
Direção: William Biagioli
Criação: Valdelis Gubiã Antunes e William Biagioli
Roteiro: Arthur Ianckievicz, Raquel Ribeiro e Valdelis Gubiã Antunes
Pesquisa: Alexandre Napoli
Produção: Fran Camilo, Valdelis Gubiã Antunes e William Biagioli
Elenco: Camila Carneiro (Miriam), João Campos (Galeno), Bela Leindecker (Isolde Sommer, de origem alemã), Marcos Contreiras (Nestor), João Pedro Freitas (Athos), André de Oliveira (James), Joelson Medeiros (Nery, do Ciex), Edson Bueno (General Cruz), Lucas Duarte e Davi Lucca (filhos de Miriam), Bruno Stieri (Flávio de Macedo), Mauro Vedia (Major Villar), Juan Kuhr (José Herbert), Susana Groiman (Zlata Herbert), Camila Jorge (Sara Herbert), entre outros
Fotografia: Murillo Marchesi
Direção de Arte: Gabriella Olivo
Montagem: Victor Bussolini
Produção: Metafixa Produções, Guaipeca e Filmes Possíveis

Jessie & Colombo
Série documental em 4 capítulos com média de 35 min. cada, 2023
Disponível no streaming: Globoplay
Direção: Susanna Lira
Roteiro: Bruno Passeri e Roberto Passeri
Testemunhos: André Campos, Colombo Vieira de Souza Jr., Iná Meireles, Ivan Souza Cruz, Jessie Jane, Juca Alves, Leta Souza Alves, Leta Vieira de Souza, Lúcia Murat, Nelie Sá Pereira, Norma Sá Pereira, Paulo Abrão, Washington Alves da Silva
Atores: Gillian Villa (Jessie Jane) e Jorge Hissa (Colombo)
Vozes: Andrea Horta (Jessie Jane) e Humberto Carrão (Colombo)

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