Helena Solberg recebe Troféu Vila Rica em Ouro Preto e prepara filme sobre liderança evangélica da Baixada Fluminense

Foto: Helena Solberg recebendo o Troféu Vila Rica © Leo Fontes/Universo Produção

Maria do Rosário Caetano, de Ouro Preto (MG)

Helena Solberg, a grande homenageada da vigésima-primeira edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, está preparando novo longa-metragem em fina sintonia com seu tempo. Ela, que tem 88 anos, resolveu deixar o conforto do Rio de Janeiro, seu lar brasileiro, e de Nova York, nos EUA, terra de seu companheiro e produtor, David Meyer, para mergulhar na vida social, política e religiosa de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Um município conhecido por altos índices de violência.

O novo filme da realizadora carioca, filha de mãe brasileira “muito católica” e de pai norueguês, tem Wesley Teixeira, morador do Morro do Sapo, como personagem central. O jovem de 33 anos e origem afro, reconhecido como liderança evangélica, será candidato a deputado estadual nas eleições de outubro próximo, por um partido esquerda.

A cineasta conversou com a imprensa ao lado de Mariana Tavares, autora do livro “Helena Solberg – Do Cinema Novo ao Documentário Contemporâneo“, e justificou  a escolha de Wesley Teixeira como tema de seu sexto longa-metragem.

“Assisti a um filme sobre pastores mirins (“Em Nome de Deus”, de Miguel Antunes Ramos, 2026) e fiquei muito impressionada. O mesmo aconteceu quando vi o documentário da Petra Costa (“Apocalipse nos Trópicos”, 2025). Resolvi, então, realizar esse documentário (“Os Evangélicos”) com o qual espero entender melhor a cultura da periferia”. Para agregar: “o Wesley é um personagem impressionante e estou muito interessada nessa questão da fé, que é uma coisa muito misteriosa, as pessoas acreditam mesmo e temos que respeitar”.

O filme encontra-se em processo de realização e não tem data de lançamento. A diretora de treze curtas e médias-metragens e de longas-metragens festejados como “Carmen Miranda: Bananas is my Business” e “Vida de Menina” não tem pressa. Até porque não quer ver o mundo com ilusões ou simplificações. Gastará na realização do novo filme o tempo que ele exigir.

Ao receber o Troféu Vila Rica por sua trajetória cinematográfica, que dura exatos 60 anos (ela estreou com o seminal  “A Entrevista”, em 1966), Helena proferiu agradecimento sintético, potente e, o que é melhor, reflexivo. E com marcas de autocrítica.

Primeiro, a cineasta evocou suas relações com Minas Gerais: “É um privilégio incrível estar recebendo essa homenagem e esse troféu nessa maravilhosa cidade de Ouro Preto. Adoro Minas, tenho empatia pela cultura, pelas pessoas, pela arquitetura preservada do passado. Filmei alguns anos atrás, em 2003, em Diamantina, o longa ‘Vida de Menina’ sobre diário autêntico de uma menina mineira, Alice Dayrell, que dos 13 aos 15 anos, deixou registrado para sempre e para todos nós, a vida provinciana na virada do século, uma jóia de diário pelo qual me apaixonei”.

Em seguida, falou do início de sua carreira e dos filmes escolhidos para a noite inaugural da CineOP — o seminal “A Entrevista”, híbrido de documentário e ficção, e “Meio-Dia”, de 1970, uma ficção hibridizada pelo documentário. “É bom mesmo estar de volta e poder rever, nessa noite, nessa praça e com vocês,  esses dois filmes do início de minha carreira, realizados 60 anos atrás”.

E politizou sua trajetória, ela que trilhou seus primeiros caminhos junto a colegas cinemanovistas: “São filmes feitos no início da ditadura militar. São o meu primeiro filme, ‘A Entrevista’, com o qual procuro examinar minha formação burguesa e seus valores, e ‘Meio-Dia’, uma metáfora sobre a censura e a repressão. Que eu gosto de definir como um curta experimental, anarquista. A censura na época nos obrigava a sermos muito criativos e acho que é um filme com um pé nos turbulentos momentos que estavamos vivendo”.

Para concluir: “o pessoal (o íntimo) é político. Muitos anos se passaram, fiz muitos outros filmes, e hoje sou uma outra pessoa. Muito obrigado e vamos aos filmes!”

No encontro com os jornalistas, Helena relembrou colegas cinemanovistas como Mário Carneiro, que assina as belas imagens de “A Entrevista”, Joaquim Pedro de Andrade, de quem foi aprendiz nos sets mineiros de “O Padre e a Moça”, Carlos Diegues e Arnaldo Jabor, colegas no jornal “O Metropolitano”, e Glauber Rocha.

— “Mais que uma cinemanovista, eu me considero uma integrante da geração do Cinema Novo. Convivi com muitos deles, inclusive com Glauber. Ele me alertou, dizendo que eu poderia conseguir algum dinheiro da CAIC (Comissão de Auxílio à Indústria do Cinema) para produção do meu primeiro filme). Mas o Mário Carneiro foi o que mais me ajudou. Era como um irmão para mim”.

No jornal “O Metropolitano”, Helena viveu duas experiências muito curiosas. Ao entrevistar Simone de Beauvoir, no comecinho dos anos 1960, quando a escritora francesa visitou o Brasil ao lado de Sartre, presenciou discussão do casal. O motivo era banal: um remédio que ele deveria ter tomado e não tomou. A jovem repórter, fascinada pelo Existencialismo, achou “o máximo (presenciar aquela briga) tão corriqueira, tão trivial”.

A outra entrevista foi feita com o britânico Aldous Huxley. E resultou no que ela definiu (em entrevista a Roberta Canuto, impressa no catálogo da CineOP) como “uma aventura louca”.

— “Ele começou a me perguntar sobre minha vida e eu contei que meu pai era norueguês e gostava de pesca submarina. Então, ele comentou comigo que nunca tinha visto o fundo do mar e que estava com início de glaucoma, que ficaria cego, e me perguntou se a gente poderia levá-lo para um mergulho para que ele pudesse ver o fundo do mar. Disse ao meu pai, que era muito formal: ‘O Aldous Huxley quer que a gente o leve para um passeio de barco. Imagina que fantástico!’ Meu pai disse: ‘Deus me livre! Aquele drogado?’ Porque Huxley tinha acabado de lançar ‘The Doors of Perception’, livro sobre experiências dele com o LSD, o ácido lisérgico. Fomos fazer o passeio. Meu pai colocou os equipamentos no escritor e o jogou na água. Eu fiquei apavorada, pensando: ‘imagina se a gente mata o Aldous Huxley nessa pescaria, imagina o que vai ser!’. A mulher dele também participou do passeio. E foi nadar com o meu pai. O Huxley ficou preocupado e queria vê-la a qualquer custo, mas não enxergava e eu ficava explicando para ele, inventando que estava tudo bem, que os estava vendo, mas não estava! Fiquei rezando para o meu pai trazê-la de volta”.

Helena contou que chegou a escrever um roteiro sobre a pescaria com o casal Huxley, mas que ele acabou numa pasta de projetos idealizados, mas não realizados. Outros temas foram ganhando relevo e aquele passeio de barco ficou apenas na memória.

A diretora de “Carmen Miranda: Bananas is My Business” (1995) pode não ter realizado um filme sobre o casal Sarte, nem sobre o casal Huxley, mas conseguiu transformar em realidade uma verdadeira proeza: dirigir e lançar o único longa-metragem assinado por uma brasileira sobre a cantora e atriz Carmen Miranda. Com produção de David Meyer, ela conseguiu somar esforços e imagens empreendidos nos EUA e, também, no Brasil.

Na conversa com os jornalistas, Helena contou que os norte-americanos, incluindo o marido David, viam Carmen Miranda como “uma figura de desenho animado, uma caricatura”. Ao realizar “Bananas is my Business”, ela se empenhou em mostrar a cantriz brasileira como uma mulher complexa, dividida entre dois países, duas culturas. Complexa e apaixonante. “Uma mulher que despertou imensas paixões, no mundo inteiro. Na Inglaterra, entrevistamos um fã de Carmen, que casou-se com uma mulher chamada Carmen e batizou a filha como o nome da cantora”.

Com a liberação do uso de Direitos de Imagem de Carmen Miranda, surgem promessas de novos filmes. Na mesma entrevista a Roberta Canuto, Helena conta que foi procurada por um diretor uruguaio, Mateo Alvarez, que foi visitá-la em sua casa, no Rio de Janeiro, pois deseja realizar um filme sobre a cantora e atriz.

“Achei tudo muito complicado”, ponderou. Para prosseguir: “Além desse projeto, vão surgir outros filmes sobre Carmen Miranda, um da Júlia Rezende e outro do Bruno Barreto. Eu soube  também de um diretor inglês que quer filmar  a vida da cantora”. A liberação dos Direitos de Imagem acabou gerando “uma correria para fazer filmes sobre ela”.

E Helena aproveitou o momento para registrar comentário desolador sobre a memória audiovisual de Carmen Miranda em solo brasileiro:

— Aqui na CineOp, um festival dedicado à memória e à preservação, mantive conversa com Alice Gonzaga, da Cinédia (herdeira do produtor e cineasta Adhemar Gonzaga) e ela me fez uma revelação terrível: “só restaram 4% das imagens dos filmes que Carmen fez no Brasil. Isso nos deixa perplexos”.

Registre-se, aqui, que por sorte todos os filmes de Helena Solberg estão, agora, restaurados. Será, pois, possível revisitar seus documentários feministas desenvolvidos nos EUA e na América Hispânica, seus longas tão brasileiros (destaque para “Palavra En-Cantada”) e seus objetos não-identificados, caso do fascinante (e anarquista) “Meio-Dia”, filho clandestino de duas poderosas matrizes — “Zero de Conduta”, de Vigo, e “Os Incompreendidos”, de Truffaut.  Helena, aliás,  confessa que seu cineasta preferido, no time da Nouvelle Vague, é o diretor de “Jules et Jim”.

Na conversa com os jornalistas, uma jovem pediu a ela que indicasse uma de suas realizações a futuros espectadores. Helena indicou “Um Filme para Beatrice” (2024), no qual dialogou com professora italiana que havia encontrado cópia de “A Entrevista”, num armário da escola onde trabalhava. Beatrice mandou uma carta para Helena perguntando sobre a situação da mulher brasileira, passadas mais de cinco décadas da realização do curta de 1966. A brasileira respondeu com um documentário sensível e dialógico. Um filme que revê parte de sua trajetória no cinema e na delicada, mas decidida, militância feminista.

FLASHES OURO-PRETANOS

TRIBUTO A JOYCE PRADO – A CineOP prestou tributo à cineasta Joyce Prado, que morreu, de forma inesperada, em dezembro do ano passado, aos 38 anos. Ela encontrava-se no auge de suas potencialidades criativas. O festival mineiro exibiu, no Cine Praça, aos pés da estátua de Tiradentes, o longa documental “Chico Rei Entre Nós”, trabalho mais conhecido da realizadora afro-brasileira. No filme, Joyce recorre à lenda do rei congolês Galanga (Chico Rei), que, trazido da África como escravizado, lutou pela libertação de seu povo. Buscou no trabalho de Galanga, motivo para explorar os ecos da escravidão na sociedade contemporânea brasileira. Ligou a luta do rei africano aos movimentos de autoafirmação negra de nossos dias. A plateia ouro-pretana identificou-se, claro, com o que viu na tela, pois Chico Rei viveu, real e simbolicamente, na região do ouro de Minas Gerais, tendo Ouro Preto como epicentro. E partes importantes do documentário foram realizadas na cidade. Conta a lenda que, com muita astúcia, trabalho e sabedoria, Chico Rei conseguiu acumular riquezas para comprar a própria alforria e, posteriormente, a liberdade de seu filho e de diversos conterrâneos. Em sua homenagem, estabeleceram-se irmandades e tradições festivas como a Congada. Praticada ainda hoje em ofícios religiosos da primeira capital de Minas Gerais.

GUARDIÕES DA MEMÓRIA – Um dos debates mais concorridos da CineOP (“Gestos Pioneiros: A Construção da Memória do Cinema Brasileiro”) reuniu especialistas que dedicam seus estudos à trajetória de quatro dos mais emblemáticos “guardiões de nossa memória” cinematográfica. O primeiro deles, o carioca Pedro Lima (1902-1987), foi apresentado por Arthur Autran, professor da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos). O segundo, o sergipano-pernambucano Jota Soares (1906-1988), por Luciana Corrêa Araújo, também da UFSCar. O terceiro, o mineiro-carioca Jurandyr Noronha (1916-2015), teve sua longeva história relembrada por Carlos Alberto Mattos, que dedicou a ele o documentário “Tesouros Quase Perdidos“. O quarto — o paulista-paranaense Valêncio Xavier (1933-2008) — foi lembrado por Solange Stecz, da Unespar (Universidade Estadual do Paraná). Todos os palestrantes mostraram o quanto esses quatro brasileiros fizeram para evitar que nossa memória audiovisual desaparecesse sem deixar vestígios. Por sorte, alguns deles foram também cineastas e seus filmes, em parte ou na totalidade, sobreviveram à incúria do tempo. Jurandyr Noronha deixou dois documentários incontornáveis — “Panorama do Cinema Brasileiro” (1971) e “Cômicos e Mais Cômicos” (1971), que podem ser vistos em arquivos brasileiros (e até em DVD). Jota Soares legou à posteridade filmes do Ciclo do Recife (Era Silenciosa) e Valêncio Xavier, o mais rebelde e imprevisível do quarteto, deixou curtas-metragens tão irreverentes quanto ele. Que continua sendo fonte de inspiração de filmes recentes como “O Mez da Grippe”, de William Biagioli, apresentado duas semanas atrás no Olhar de Cinema curitibano.

A CINEMEMÓRIA DE VLADIMIR 1 – Outros “guardiões da memória”, só que com trabalhos mais recentes, foram lembrados em nova rodada de debates na CineOP. Discutiu-se o tema “Os Gestos de Guardar: Práticas Individuais e Construção do Patrimônio Coletivo”. O nome mais importante desse segmento foi o de Vladimir Carvalho (1935-2024), que legou a Sérgio Moriconi e Gioconda Caputo a missão de lutar pela preservação de tudo que ele guardou, por décadas, em sua própria casa brasiliense. E batizou como Projeto Cinememória. Geórgia Cinara, coordenadora do Luminav-UEG  (Laboratório de Imagens Audiovisuais da Universidade Estadual de Goiás) discorreu sobre o “Acervo Desastre”. Rayssa Fernandes Coelho, realizadora e pesquisadora audiovisual da UESB (Universidade Estadual da Bahia), apresentou a Coleção Preciosa Ferdinand Willi Flick. E Ivo Raposo falou sobre o Espaço Cultural Cine Centímetro. Todos estes projetos impulsionam “gestos de memória, cujo maior desfio consiste em manter viva a materialidade do cinema e do audiovisual”.

A CINEMEMÓRIA DE VLADIMIR 2 — O crítico, professor e cineasta Sergio Moriconi abriu, emocionado, sua fala sobre Vladimir Carvalho. Ele disse que exibiria os momentos iniciais do documentário “Vladimir Carvalho  – Cinema e Memória”, de Márcia Zarur (disponível no streaming da CineOP), pois tais imagens haviam sido captadas no dia em que o cineasta sofreu um infarto e foi hospitalizado. Morreria logo depois. “Vocês verão que ele estava como sempre esteve, forte como um touro, cheio de vida e iniciativa. Quem imaginaria o que viria a seguir”. O público divertiu-se com o paraibano-candango sendo filmado, mas dando sugestões, quase ordens, de posicionamento de câmera, batendo claquete, enfim, exibindo sua alegria de viver e paixão por seu ofício. Mas deu-se o inesperado. Vladimir morreu. “Talvez de felicidade!” — conjecturou Moriconi — “pois acabara de receber a informação de que o CCBB-DF (Centro Cultural Banco do Brasil) iria abrigar e salvaguardar seu acervo”.  Os meses foram passando e o projeto Cinememória, já órfão, passou a correr novo risco. O comando do CCBB-DF concluiu que não tinha como cuidar do volumoso acervo (documentos, equipamentos, fotos, cartazes, etc). Agora, porém — conta Moriconi — tudo leva a crer que a Cinememória será assumida pela Casa da América Latina. “O que muito alegraria Vladimir, pois o sonho dele era ver o destino de tudo que ele guardou, por várias décadas, ligado a outra de suas paixões — a Universidade Brasília (UnB)”.

MEMÓRIA VIVA DO CINEMA BRASILEIRO – O trio Raquel Hallak, Fernanda Hallak e Cleber Eduardo lançou, nessa vigésima-primeira edição da CineOP, livro-álbum que festeja as duas primeiras décadas do festival ouro-pretano. Para tanto, foram reunidos artigos de vinte autores que refletem sobre a essência da CineOP — a preservação de arquivos cinematográficos e audiovisuais. “Como a Mostra de Cinema de Ouro Preto”, ponderou Raquel, “acontece numa cidade tombada como patrimônio histórico da Humanidade, dedicamos esse livro a reflexões sobre a preservação de nossos arquivos”. Cleber Eduardo acrescentou: “não se trata de livro celebratório-institucional”, mas sim, “de uma publicação reflexiva, com quase duas dezenas de textos escritos por 21 autores sobre temas essenciais, que vão da ‘cinemateca negra’, de Heitor Augusto, aos 40 anos do Vídeo nas Aldeias (por Vincent Carelli), da ‘cinemateca da quebrada’, de Lincoln Péricles, passando pelo cinema de animação (Marcelo Marão) e pela compreensão de que “Imagem de Arquivo Não é Ilustração de Conteúdo” (Anita Leandro). O livro, além de rico acervo de fotos, traz textos de Sheila Schvarzman, Alberto Álvares, Clarisse Alvarenga, Mariana Queen Nwabasili, Juliana Gusman, Almir Almas, Cleber Eduardo, Rubens Anzolin, Hernani Hefner e Raquel Hallak.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.