Festa Italiana exibe “Primavera” de Vivaldi, “Modigliani” de Johnny Depp e homenageia o cineasta Nanni Moretti
Foto: “Primavera”, de Damiano Michieletto © Kimberley Ross
Por Maria do Rosário Caetano
O que fazem o estadunidense Johnny Depp e a espanhola Isabel Coixet num festival de cinema italiano?
A resposta é simples: fazem filmes italianos. O badalado ator hollywoodiano, de 63 anos, dirige “Modi – Três Dias nas Asas da Loucura”, alucinada cinebiografia do grande pintor Amedeo Clemente Modigliani (1884-1920), nascido na Itália e com carreira breve, pois morreu cedo, em Paris. Tinha 35 anos. Para interpretá-lo, Depp escolheu um astro peninsular, Riccardo Scamarcio, e buscou, no teatro, a matéria-prima de sua narrativa – a peça “Modigliani”, de Dennis McIntyre.
Já a catalã Isabel Coixet buscou na literatura a matriz de seu filme “Três Vezes Adeus”, italianíssimo, pois protagonizado por Alba Rohrwacher e Elio Germano, atores amados na Península. O filme tem Roma como cenário e é falado em doce italiano (pelo menos na cópia programada pelo festival).
Alba, por protagonizar filmes da irmã, Alice Rohrwachet (“As Maravilhas”) e integrar elencos descolados (como o de “Callas” e da série “A Amiga Genial”, recriação da obra homônima de Elena Ferrante), tornou-se um dos nomes mais festejados do cinema italiano contemporâneo.
Germano, pouco conhecido entre os brasileiros, desfruta da condição de integrante do primeiro time de atores mais talentosos do país, capaz de caracterizações que encantam público e colegas de ofício. Com uma de suas últimas proezas, ele causou sensação na pele de Enrico Berlinguer, o estimado líder do PCI (Partido Comunista Italiano). Triunfou como melhor intérprete no Festival de Roma e ganhou, de seus pares na Academia Italiana de Cinema, o David di Donatello.
“Modi” e “Três Vezes Adeus” compõem, com mais oito filmes, a lista completa de selecionados da décima-terceira edição da 8 ½ Festa do Cinema Italiano por Generali, que estreia nessa quinta-feira, 25 de junho, e prossegue, em diversas cidades brasileiras, até primeiro de julho. Outras capitais, caso de Fortaleza, exibirão os filmes na segunda semana de julho. Fiquem, pois, atentos aos calendários de cada cidade.
O grande homenageado do festival italiano, nessa edição, é Nanni Moretti, de 72 anos. Por isso, será exibida cópia restaurada de “Caro Diário”, o filme que o projetou internacionalmente e o laureou com o prêmio de melhor diretor em Cannes.
Completam a lista, produções capazes de provar que o cinema italiano — se não vive o apogeu do Neo-Realismo, nem a glória da geração Fellini-Visconti-Antonioni — ainda tem muito a apresentar.
Dois filmes – “A Última Rodada”, de Francesco Sossai, vencedor, no mês passado, do David di Donatello, o Oscar italiano, e “Fuori”, de Mario Martone – são a prova de que a Península ainda realiza grandes filmes.
Três outras produções ficcionais compõem a mostra – “Primavera”, de Damiano Michieletto, “O Negociador”, de Alessandro Tonda, e “O Menino da Calça Rosa”, de Margherita Ferri.
Para completar a dezena de atrações, serão apresentados dois documentários: “Os Irmãos Segreto”, da dupla Federico Ferrone e Michele Manzolini, e “Agnus Dei”, de Massimiliano Camaiti. Ferrone estará em São Paulo (e em outras cidades brasileiras) acompanhando as sessões desse filme, fruto de coprodução com o Brasil, já que seus protagonistas, os irmãos Paschoal, Gaetano e Alfonso Segreto viveram no Rio de Janeiro. E aqui participaram ativamente dos anos pioneiros de nossa produção e exibição cinematográfica.
No final do século 19 e começo do 20, os Segreto eram onipresentes no segmento da diversão popular. Incluindo as primeiras sessões de cinema.
O Dia do Cinema Brasileiro, 19 de junho, inclusive, vem de tributo a um dos integrantes da Família Segreto, o jovem Alfonso, que teria realizado “Vista da Baía da Guanabara”, suposto primeiro filme realizado em nosso mar territorial, à bordo do navio Brésil.
A Revista de CINEMA assistiu a oito dos filmes selecionados pela Festa do Cinema Italiano e reviu “Caro Diário”, de Nanni Moretti. Ficou de fora, não por preconceito, mas por indisponibilidade de cópia, apenas o blockbuster peninsular “O Menino da Calça Rosa”. Um filme queer.

De todos os títulos programados, o mais festejado é “A Última Rodada” (“Le Città di Pianura”, em tradução livre, “A Cidade da Planície”). Na última cerimônia do David di Donatello, o jovem cineasta Francesco Sossai fez barba, cabelo e bigode. Causou frisson e abocanhou oito prêmios, derrotando pesos-pesados como Paolo Sorrentino e o sensível “A Graça”.
Em seu balanço da Noite dos David, a Revista de CINEMA registrou: “Oscar italiano esnoba Sorrentino e consagra o drama etílico ‘A Última Rodada’”. E complementou: “Sonsai converte em troféus oito de suas 16 indicações, incluindo as principais categorias (melhor filme, direção, ator, roteiro e fotografia)”.
A trajetória bem-sucedida de “A Última Rodada” – notem que o título brasileiro dá ênfase à vocação etílica dos protagonistas e não à paisagem geográfica que ambienta o filme – começou em Cannes, na mostra Un Certain Régard. Por sua inventividade, por seus maravilhosos atores, por sua exploração da planura do Vêneto, distante dos cartões postais, e por sua natureza de “road movie etílico”, o filme mostrou sua vocação “cult”.
“A Última Rodada” lembra, em certa medida, um clássico da comédia amarga italiana (“Il Sorpasso”, 1962), aquela era de ouro que teve em Mario Monicelli e Dino Risi seus nomes de proa.
No filme de Risi, Vittorio Gassman, um bon-vivant inveterado, “educa” um jovem (Jean-Louis Trintignant) para a fruição das delícias da vida. Sobre rodas, pois “Il Sorpasso” (Aquele que Sabe Viver) é um road movie. Agora, Francisco Sonsai acompanha a viagem etílica de dois cinquentões (Sergio Romano e Pierpaolo Capovilla), que vivem em função do último trago, acompanhados de um estudante de arquitetura (Filippo Scotti), ingênuo e caxias. A viagem improvisada se dará em bares de todo tipo, festas e estradas vazias.
“Fuori” (em tradução livre, “Fora” ou “Ao Ar Livre”), participou da disputa pela Palma de Ouro em Cannes. Seu diretor, Mario Martone, 66 anos, de “Morte de um Matemático Napolitano”, constrói sólida (e livre) biografia dramática da escritora italiana Goliarda Sapienza, vivida com imensa entrega por Valeria Golino.
Sapienza (1924-1996) marcou sua vida pela insubmissão. Encarcerada por roubo, fez da prisão a matéria-prima de um de seus livros mais famosos, “A Universidade de Rebibia”. Não se trata, claro, de uma instituição de ensino superior italiana, mas sim do famoso cárcere romano, que, inclusive, ambientou “César Deve Morrer”, filme dos irmão Taviani, premiado com o Urso de Ouro em Berlim 2012.
No convívio com as presidiárias, Goliarda viveria as mais diversas experiências existenciais, sociais e sexuais de sua trajetória. E faria delas matéria de sua escrita sem concessões. Ao invés de deprimir-se com sua condição de mulher encarcerada, a detenta fez de tudo um aprendizado. Aprendeu a viver em condições adversas.
Hoje, os livros Goliarda Sapienza são lidos e estudados na Itália. E viram filmes ou séries. Caso de “A Arte da Alegria” (1984), que Valéria Golino transformou em badalada série protagonizada por Tecla Insoli, coadjuvada por Valeria Bruni Tedeschi e Jasmine Trinca.
Quem acompanhou e encantou-se com a série espanhola “Los Años Nuevos”, de Rodrigo Sorogoyen (disponível na Mubi), há de encantar-se com “Três Vezes Adeus”, de Isabel Coixet. Até o ator Francesco Carril (um colírio espanhol!) brilha no elenco (tanto do filme italiano quanto da série madrilenha).
Coixet o escolheu para interpretar um professor que ministra aulas na mesma escola da protagonista, Marta (Alba Rohrwacher), tornando-se, nessa condição, o principal coadjuvante do filme.
O protagonismo masculino de “Três Vezes Adeus” cabe a Antonio, vivido com o costumeiro talento por Elio Germano, de 45 anos (embora aparente mais, por sua característica magreza).
Isabel Coixet, de 66 anos, buscou num livro composto de doze histórias (“Tre Ciotole”, as três tigelas), de Michela Murgia, a fonte de inspiração de seu filme. A trama começa com briga rotineira e banal de Antonio e Marta. Ele, chef de cuisine, ela, professora dedicada. Os dois se separam. Marta torna-se cada vez mais ensimesmada. E acabará tomada por súbita falta de apetite. Nem tem ânimo para usar as “três tigelas” que adquiriram, juntos, num supermercado. Antonio refugia-se no trabalho sem conseguir esquecer a companheira, que abandonou por razão banal. Não por desamor.
A trama tomará rumos inesperados (e menos esperançosos que “Los Años Nuevos”), pois, no livro que lhe deu origem, Michela Murgia se propõe a refletir sobre personagens que passam por mudanças radicais ou inesperadas. Mudanças que abalam vidas.
Na aparência, a decisão de Antonio era superficial, inconsequente. Mas acabará alterando, e muito, a vida de Marta. Esse drama íntimo, por sorte, nada terá de melodramático (embora possa arrancar lágrimas de pessoas mais sensíveis). Principalmente daquelas (ou daqueles) que se identificarem com o jeito de ser de Marta. É tocante vê-la com seus cabelos bagunçados, suas quase inúteis tigelas de cerâmica e apegada a tótem, que reproduz, em tamanho natural, a foto de Jirko, um astro do K-pop.
Detalhe importantíssimo: não saia do cinema durante a exibição dos créditos finais. Espere, pois Isabel Coixet nos mostrará a voz de Elio Germano contando piada — “aquela sobre (Karl) Marx” — que lhe fora solicitada pela personagem de Alba Rohrwacher, no começo do filme. E a piada é genial. De fino humor, além de libertária.

E o filme de Johnny Depp? Vale a pena?
A se julgar pelos excessos de seu início, não. Com já no título, o cineasta bissexto deixa claro que voará por “Três Dias nas Asas da Loucura”, iremos nos espantar com a miséria que cerca os pobretões Modi (apelido de Modigliani), Utrillo (Bruno Gouery) e Soutine (Ryan McParland).
O pintor Maurice Utrillo fede, mas fede tanto, que as pessoas mal conseguem se aproximar dele. A proprietária do quarto que ele habita quer despejá-lo por causa da insuportável e persistente fedentina.
O filme, uma produção internacional, que reuniu muita grana, estúdios e recursos tecnológicos, seguirá misturando miserabilismo paroxístico, boas doses de fantasmagoria e discussão sobre as injustiças do mercado das artes. Aqueles grandes artistas, Mogigliani em especial, morreriam na miséria, enquanto marchands viveriam vidas mababescas com a valorização póstuma da obra daqueles mortos.
No melhor momento do filme, Depp deixa seus excessos de lado e entrega aos atores Al Pacino, que interpreta o marchant Maurice Gangnat, e Riccardo Scamarcio, o Modi, o prazer de dizer um belo texto. De refletirem sobre as injustiças do comércio artístico. Um mundo de explorações brutais.
Esta sequência, que acontece na mesa de refinado restaurante, compensa a duração (120 minutos) e os destrambelhamentos do filme de Johnny Depp. Ele é ator talentoso e sabe como diálogos bem urdidos podem ser valorizados por grandes intérpretes.
Al Pacino, de 86 anos, tem um solo memorável. E Scamarcio, de 46, com seus imensos olhos azuis-esverdeados, segura o tranco com louvor. Antonia Desplat, que interpreta Béatrice Hasting, companheira de Modi, também tem belo desempenho. Assim como Stephen Graham, na pele do poeta e negociante de arte Leopold Zborowski.
“Primavera”, drama de época que marca a estreia de Damiano Michieletto, nome respeitado no mundo da ópera, na direção cinematográfica, é uma boa surpresa. O agora cineasta escreveu seu roteiro em parceria com Ludovica Rampoldi. E construiu trama centrada na história de Cecilia (Tecla Insolia), violinista de 20 anos, que vive confinada em um orfanato (o Ospedale della Pietà de Venezia), à espera da mãe, que um dia chegaria para resgatá-la.
A vida de Cecilia e de suas amigas de infortúnio mudará com a chegada do compositor Antonio Lucio Vivaldi (1678-1741), interpretado por Michele Riodino. Sim, o célebre veneziano Vivaldi, prócer do Barroco tardio, autor de “As Quatro Estações” e de mais de 700 obras (concertos e óperas). Conhecido como “il prete rosso” (o padre vermelho, por causa de seus cabelos ruivos), caberá a Vivaldi reger o Coro do orfanato, mantido por nobres de Veneza.
As internas do orfanato eram preparadas, sob férrea disciplina, para servir de futuras esposas a quem as quisesse. Caso do militar interpretado por Stefano Accorsi (“Capitães de Abril”, de Maria de Medeiros, e “A Culpa é do Fidel”, de Julie Gavras), que chega, triunfante, da guerra, e vai buscar Cecília, por ele eleita. Só que ela não deseja ser mulher de um desconhecido. Tem outro projeto de vida. Mesmo que tenha que pagar muito caro por sua decisão.
Damiano Michieletto inspirou-se no livro “Stabat Mater”, de Tiziano Scarpa, laureado com o Prêmio Stregga 2009, e construiu um filme muito feminino. A Academia Italiana de Cinema reconheceu seus esforços. “Primavera” recebeu, na Noite dos David di Donatello, quatro prêmios, daqueles que costumam ser direcionados a filmes de época – direção de arte (Gaia Calderone e Rita Barbera), cabelos (Marta Iacoponi), som (Scarlata, Paone, Quadrolli e Favargiotti) e, num filme que tem Vivaldi como personagem de grande relevo, melhor trilha sonora (para Fabio Massimo Capogrosso).
O nome latino do romance “Stabat Mater”, origem do filme, referencia famoso hino litúrgico católico do Século 13, que, em forma de poema, medita sobre o sofrimento da Virgem Maria ao pé da cruz, enquanto presencia a morte de seu filho, Jesus.
O cineasta preferiu nome mais leve e vivaldiano – “Primavera”, uma das quatro estações. Sem querer dar spoiler, há que se registrar que o filme tem final libertário. E, podemos arriscar, “feliz”.
“O Negociador” (Il Nibbio), de Alessandro Tonda, referencia, em seu título original, uma ave de rapina, semelhante a um gavião. Tal ave servia de aposto a Nicola Calipari, agente secreto do Sismi (Serviço de Informações e Segurança Militar) da Itália.
Coube a ele, interpretado por Claudio Santamaria, protagonizar “Il Nibbio”, thriller dramático ambientado na Guerra do Iraque. Uma jornalista italiana, Giuliana Sgrena (a carismática Sonia Bergamasco, de “A Melhor Juventude”), é sequestrada por célula terrorista, no Oriente Médio. Caberá a Calipari comandar a operação de resgate da repórter e cidadã italiana.
Os espectadores acompanharão os 28 dias de duração do resgate, que terminou de forma inesperada e trágica. Quem não quiser saber o que aconteceu, deve saltar as próximas linhas. Todos os italianos sabem, e bem, o que se passou. Tanto que o filme foi feito para evocar os vinte anos da morte de “Il Nibbio” ocorrida no dia 4 de marco de 2005.
Quem matou Nicola Calipari? Os iraquianos?
Não. Ele foi morto “acidentalmente” por tiros disparados por soldados norte-americanos, enquanto escoltava Giuliana Sgrena, do jornal de esquerda independente Il Manifesto, rumo ao Aeroporto Internacional de Bagdá.
O documentário “Agnus Dei”, de Massimiliano Camaiti, que fez sua estreia no Festival de Veneza, é sintético (apenas 73 minutos) e, de saída, parece desinteressante. Afinal, como se interessar por registro da rotina de freiras que atuam no Mosteiro de Santa Cecília, no Trastevere, bairro localizado no coração de Roma? O que pode acontecer de interessante num convento situado a poucos km do Vaticano?
Aos poucos, porém, iremos nos interessando pela narrativa de Caimati. Não haverá grandes acontecimentos, é verdade, mas será curioso saber que, em pleno século 21, monjas preservam tradições seculares. Uma delas, singela, mas especial: todos os anos, no mês de janeiro, dois cordeiros recém-nascidos, após serem adornados e abençoados, serão confiados aos cuidados de uma das freiras enclausuradas.
Caberá à religiosa escolhida cuidar dos cordeirinhos com a ternura de uma mãe, amamentando-os com mamadeiras de bebês e muito zelo. E há uma razão prática para tamanho empenho: a lã dos bichinhos, quando tosquiados, será utilizada pelas freiras. Elas são, afinal, responsáveis por tecer o pálio que o Papa usará no dia 29 de junho, durante a Solenidade de São Pedro e São Paulo.
Um detalhe marcará o filme: no Ano Santo de 2025, enquanto o rito da tecelagem ocorria, o Papa Francisco, o argentino, adoeceu subitamente. E a notícia chegou ao convento para entristecer as operosas monjas (algumas delas, de origem africana), que costuram capas de livro enfeitadas em luxuoso dourado, cuidam das verduras e hortaliças do quintal, colhem laranjas e limpam o belo Mosteiro. O realizador só observa.
“Os Irmãos Segreto”, que trará um de seus diretores (Federico Ferrone) ao Brasil para acompanhar o festival italiano, é um documentário de arquivo. Que, registre-se, faz belo e libérrimo uso de imagens do passado. Afinal, mesmo contando a história de três irmãos, imigrantes napolitanos, que no Brasil e dedicaram-se ao negócio do cinema, a dupla de cineasta não encontrou imagens deles. Os Segreto, ao contrário dos Lumière, não deixaram suas imagens impressas em película (se as fizeram, delas não há vestígios). Para agravar, apenas um dos filmes por eles realizados (“A Despedida do 19º Batalhão do Paraná” , de 1910) resistiu à incúria do tempo.
Paschoal, Gaetano e Alfonso migraram para o Brasil em busca de uma vida melhor. O mais velho, Paschoal, transformar-se-ia – segundo o delicioso texto do narrador do documentário (Paulo Betti, na versão brasileira) – numa espécie de “ministro do Entretenimento do Rio de Janeiro”.
Os Irmãos Segreto seriam, por décadas, tomados como responsáveis pelo filme – “Vista da Baía da Guanabara” – tido como momento inaugural do cinema brasileiro. A controvérsia, porém, cerca a obra pioneira. Alguns acreditam que o filme foi feito, mas por inexperiência de Alfonso Segreto, velou. Ou seja, perdeu-se por exposição à luz, de forma acidental e antes da hora certa.
Há quem diga que o filme “nunca existiu”. Ou que, pelo menos – e isso parece certo –, nunca teve exibição comercial. À frente dessa afirmação está Jorge Vittorio Capellaro, filho do pioneiro Vittorio Capellaro. Depois de intensas pesquisas, ele escreveu, em parceria com Paulo Roberto Ferreira, o livro “Verdades sobre o Cinema Brasileiro” (Funarte, 1996). A primeira sessão de cinema no Brasil teria ocorrido em Petrópolis, em 1897. E não incluía a “Vista da Baía da Guanabara”.

A exibição de cópia restaurada de “Caro Diário” no festival italiano é um presente para os cinéfilos. O ator, cineasta, roteirista e exibidor (no Cine Nuovo Sacher, no Trastevere) soma duas dezenas de filmes em sua larga e bem-sucedida trajetória, iniciada aos 19 anos (em agosto, fará 73), premiada em Berlim e Cannes. Neste festival, em 2001, conquistaria a Palma de Ouro, pelo drama “O Quarto do Filho”.
Moretti tem feito o público rir com suas deliciosas e politizadas comédias, como — além de “Caro Diário” — as irresistíveis “Abril”, “Crocodilo” (sátira a Berlusconi), “Habemus Papam” e “O Sol do Futuro”. Ele realizou, também, importantes documentários, como “La Cosa” (assim Achille Occhieto chamava “a coisa” advinda das transformações pelas quais passava o PCI) e “Santiago, Itália”, registro do fim do sonho da Unidade Popular, comandada por Salvador Allende, e memórias de exilados chilenos que buscaram guarida na terra de Gramsci e Berlinguer.
O novíssimo filme de Moretti – “O que Vai Acontecer essa Noite” – tem estreia prevista para dezembro, em Roma, sua cidade adotiva e amada (ele nasceu em Brunico).
“Caro Diário” é, sem dúvida alguma, o filme mais pessoal de Moretti. Trata-se de uma ficção. Mas de base documental.
A trama compõe-se com três episódios – “Na Minha Vespa”, “As Ilhas” e “Médicos”. No primeiro, Moretti pratica sua cinefilia costumeira. Anda pela cidade, na sua lambreta. Vê pessoas dançando. Quer bailar. Não leva muito jeito, mas acabará bailando. Inclusive com Jennifer Beals, a protagonista de “Flashdance” (Adrian Lyne, 1983). A atriz-bailarina estará acompanhada pelo então marido, o cineasta Alexandre Rockwell. Ao encontrá-los na rua o atrapalhado Moretti entabulará, com ela, conversa sobre o prazer da dança.
O cinéfilo-cineasta irá ao cinema assistir ao filme “Harry – Retrato de um Assassino” (John McNaugton, 1986). Um filme sobre um serial-killer. Não se trata, claro, da “praia” do realizador, um humanista que Moretti sempre foi e continua sendo. Ele fechará o episódio com triste visita à Praia de Óstia, onde Pier Paolo Pasolini foi brutalmente assassinado em 1975.
No segundo episódio, “As Ilhas”, Moretti vai dar com os costados em Lipani. Num bar, numa telinha de TV, verá Silvana Mangano dançando “el baión” (no filme “Anna”, de Alberto Lattuada, 1951). Lírio Ferreira usou a mesma sequência em seu documentário “O Homem que Engarrafava Nuvens”, sobre Humberto Teixeira.
O brasileiro queria demonstrar a verdadeira febre do baião, que se espalhava pelo mundo, no embalo da seminal criação de Luiz Gonzaga e de seu parceiro Humberto Teixeira. Já Moretti continua em busca do prazer da dança. Mais descontraído, com os olhos brilhando e movendo os lábios, ele acompanhará os passos de Lá Mangano. Depois, visitará as ilhas de Salina, Panarea e Strombolli. E evocará o compositor Ennio Morricone e o diretor de fotografia Vittorio Storaro, mestres em seus ofícios. O cinema, sempre o cinema, paixão desmedida do cineasta.
No terceiro episódio, porém, não veremos Moretti tentando dançar. Ou fazer digressões cinéfilas. Ou evocando os grandes nomes do audiovisual italiano. E sim, atrás de “Médicos”. Esse é o nome do episódio. Tomado por coceiras infernais, ele busca a cura. Seja em banhos de ervas, no que (seja o que for) lhe traga alento.
Não há quem resista a este episódio. É hilário. Ao buscar praticantes da Medicina Chinesa, o cineasta nos desconsertará. E submeter-se-á, para registro da câmera, a uma sessão de acupuntura.
“O Menino da Calça Rosa” (Il Ragazzo dai Pantaloni Rosa), de Margherita Ferri, único filme não assistido pela Revista de CINEMA, foi visto por quase dois milhões de espectadores italianos. Seu protagonista (o filme baseia-se em história real) chama-se Andrea Spezzacatena (interpretado por Christian Todi), um jovem de 15 anos. Ele deu cabo à própria vida, “tornando-se o primeiro caso conhecido na Itália de suicídio de um menor provocado por homofobia, bullying e cyberbullying”.
O caso – registra a sinopse – teve início após suas calças vermelhas ficarem cor-de-rosa, pois foram lavadas de forma errada. O garoto passou a ser perseguido na escola. A produção se baseia no livro da mãe do rapaz, intitulado “Andrea Além das Calças Cor-de-Rosa”.
13ª 8 ½ Festa do Cinema Italiano por Generali
Data: 25 de junho e 1º de julho
Locais: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Aracaju, Recife, Maceió, Porto Alegre, Florianópolis e Caxias do Sul. Em Fortaleza, o evento ocorre de 9 a 15 de julho
Organizadores: Associação Il Sorpasso e Risi Film Brasil, com o apoio da Embaixada da Itália e consulados
