Ouro Preto homenageia Helena Solberg e exibe filme sobre “Os Irmãos Segreto”, pioneiros do cinema no Brasil

Foto: “Os Irmãos Segreto”, de Michele Manzolini e Federico Ferrone © Joana Avelino

Por Maria do Rosário Caetano

A CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto inaugura na noite dessa quinta-feira, 25 de junho, sua vigésima-primeira edição, com homenagem à diretora carioca Helena Solberg, de 88 anos, única mulher a participar, mesmo que tardiamente, do núcleo duro do Cinema Novo.

O movimento, que tinha Glauber Rocha como seu arauto – ou profeta, como preferia Paulo Emilio Salles Gomes – e como artífices os cineastas Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Paulo Cezar Saraceni, Leon Hirszman, Cacá Diegues e Ruy Guerra, conformava-se mesmo como um feudo masculino. Helena conseguiu colocar um curta-metragem – “A Entrevista” (1966) – no cânone cinemanovista.

Na noite inaugural do festival, a realizadora dos hoje consagrados “Carmen Miranda – Bananas is my Business” e “Minha Vida de Menina” receberá o Troféu Vila Rica e assistirá, com o público, aos filmes “A Entrevista” e “Meio Dia” (1970), sua primeira ficção (ainda no formato curto). Para realizá-lo, ela dialogou com “Zero de Comportamento”, de Jean Vigo, e “Os Incompreendidos”, de Truffaut. A cerimônia acontecerá no Cine Praça, montado ao ar livre, em frente à estátua de Tiradentes e com capacidade para 500 espectadores.

A temperatura na serrana Ouro Preto, cidade colonial e primeira capital de Minas Gerais, é tão baixa em dias invernais que os anfitriões da CineOP, para atenuar os efeitos do frio, utilizam fogareiros a gás e, até, auxílio de mantas.

Helena Solberg © Ique Esteves/ Universo Produção

A mostra – que prossegue também no Cine UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto, 510 lugares) e no acolhedor Cine-Museu (da Inconfidência, de apenas 90 poltronas) – apresentará 135 filmes ao longo de seis dias. Um deles está entre os mais aguardados – “Os Irmãos Segreto”, produção ítalo-brasileira, dirigida por Michele Manzolini e Frederico Ferrone.

E por que este filme desperta interesse especial?

Por evocar, num festival dedicado à memória do cinema, a figura de três imigrantes italianos, muito pobres (Paschoal, Gaetano e Alfonso Segreto), que deixaram sua Nápoles natal, para ganhar a vida no Brasil. Os dois primeiros saíram do Porto de Gênova, em 1883, ainda adolescentes. Paschoal tinha 17 anos e Gaetano, 15. Alfonso tinha apenas cinco e só viria para cá mais tarde.

A vida dos irmãos napolitanos no Brasil foi das mais agitadas. Eles se meteram em brigas e outros tipos de arruaças. Se envolveram com jogos ilegais (incluindo o Jogo do Bicho). Foram presos. E não foi uma ou outra detenção. Um foi preso 13 vezes e o outro, nove. Mas os Segreto acabaram se aprumando, pois dispunham de muito tino para o comércio. Mexeram com negócios os mais ecléticos. Até com bordeis. E a construção e programação de casas noturnas (como o Café Concerto Moulin Rouge) os enriqueceria. Além de música, dança e outros divertimentos, passaram a apresentar sessões do recém-inventado “animatógrafo”, que seduzia o mundo.

Os negócios progrediram de tal forma que Paschoal Segreto, o mais velho, transformou-se numa espécie de “ministro do Entretenimento” da cidade do Rio de Janeiro. A então capital federal sonhava ser reconhecida como uma espécie de “Paris Tropical”.

Em 1898, dois anos após os Irmãos Lumière realizarem a “primeira sessão de cinema” em café parisiense (dezembro de 1895), o jovem Alfonso Segreto tomava o rumo do Novo Mundo, para encontrar os irmãos na efervescente “Paris tropical”.

Paschoal e Gaetano encomendaram ao rapaz que comprasse uma máquina de filmar (e película virgem, claro). Ao deparar-se com a beleza da Baía da Guanabara, o jovem teria documentado imagens que seriam, por muitas décadas, tidas como o momento inaugural do Cinema Brasileiro. Tais imagens teriam sido captadas no dia 19 de junho de 1898.

A data seria, décadas depois, definida como “o dia do nascimento do cinema brasileiro”. Só que um pesquisador, Jorge Vittorio Capellaro, filho de outro pioneiro, o cineasta e produtor Vittorio Capellaro (1877-1943), realizou intensas pesquisas em jornais do final do século 19 e não encontrou nenhum registro de exibição daquelas “vistas” (assim eram definidos os registros fílmicos da época) intituladas “Vista da Baía da Guanabara”.

Capellaro filho diria à Folha de S. Paulo, em setembro de 1995, ano do Centenário do Cinema, que o pioneirismo da exibição caberia a outro imigrante italiano, o diretor de cinema Vittorio di Maio (1852-1926). Dois anos depois, em parceria com Paulo Roberto Ferreira, Capellaro publicaria o livro “Verdades sobre o Cinema no Brasil” (Funarte, 1997), endossado pelo então curador do Cinema do MAM, Cosme Alves Netto. A edição, de 134 páginas, assegurava que a primeira exibição de cinema no Brasil, devidamente documentada, acontecera na cidade de Petrópolis, em 1897.

Com o passar dos anos, outros pesquisadores concordariam com a ideia de que as filmagens do jovem Alfonso Segreto não haviam chegado a bom termo. O filme teria velado. Seu significado seria, portanto, simbólico. Por isso, o calendário de comemorações de nosso audiovisual manteve o 19 de junho como o Dia do Cinema Brasileiro.

Michele Manzolini e Frederico Ferrone, os jovens diretores do longa documental “Os Irmãos Segreto”, de enxutos 77 minutos, passam rápido pela controvérsia em torno do pioneirismo de Paschoal, Gaetano e Alfonso Segreto.

O narrador (Nello Mascia, na versão italiana, e Paulo Betti, na brasileira) assegura, em texto descolado e saboroso, que uns dizem “que o filme foi queimado num incêndio, outros que nunca existiu”. E segue em frente, pois o que interessa é narrar a saga brasileira dos napolitanos, que chegaram ao Brasil com uma mão na frente e outra atrás. Até serem reconhecidos como “reis da noite”.

Gaetano Segreto morreu cedo. Doente, regressou à sua Itália natal, deixando órfãos onze filhos, Paschoal (1868-1920) usufruiu da riqueza e do aposto de “ministro do Entretenimento”. Alfonso (1875-1919) sumiu. Decerto, desentendeu-se com o irmão e tomou rumos ignorados.

Da significativa produção familiar, só sobrou um filme – “A Despedida do 19º Batalhão do Paraná”, realizado por Alfonso, em 1910. Um registro de tropas militares, que se deslocavam, em marcha, para conter rebelião na divisa do estado (do Paraná) com Santa Catarina (preâmbulo de grave conflito, o Contestado, 1912-1916).

Para realizar seu documentário, Manzolini e Ferrone recorreram a imagens de arquivos mundiais (Gaumont-Pathé, Museu del Precinema, BFI, Universidade da Carolina do Sul, Arquivos de Montreal) e brasileiros (com trechos de filmes de Silvino Santos, Alberto Botelho, imagens do Acervo de Cornélio Pires e do Fundo Familiar em 16 milímetros de Alberto di Sampaio). 

Aqueles que amam o cinema dos tempos do nitrato vão encantar-se com a sinfonia de imagens orquestrada pela dupla italiana. Depois da CineOP, “Os Irmãos Segreto” integrarão a programação do Festival 8 1/2 de Cinema Italiano, que percorrerá dezenas de cidades brasileiras.

A CineOP foi, em suas primeiras dezenove edições, um espaço dedicado à exibição de filmes e debates nos campos da Memória, da Educação e da Preservação. Ano passado, porém, criou mostra competitiva de longas-metragens que reprocessem, com criatividade, material de arquivo. E coloquem tais “Arquivos em Questão”.

O primeiro vencedor do certame foi “Paraíso”, da carioca Ana Rieper. Esse ano, a disputa pelo Troféu Vila Rica se compõe com duas produções paulistanas – “Irritante Prodígio”, de Luiza Lindner, e “Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas”, de Carlos Adriano; uma brasiliense – “Notas sobre um Desterro”, de Gustavo Castro, e duas cariocas – “Universo Circular – Jocy de Oliveira”, de Dácio Pinheiro, e “Apopcalipse Segundo Baby”, de Rafael Saar.

O júri, composto com a cineasta Anita Leandro (“Retratos de Identificação”), com o professor da UFF João Luiz Vieira e com a museóloga ouro-pretana Gabriela Lima Gomes, terá ótimos materiais para analisar. A Revista de CINEMA assistiu aos filmes sobre a pianista e performer Jocy de Oliveira (no In-Edit Brasil), ao “Palimpsesto” do inventivo Carlos Adriano e à trajetória “apopcalíptica” de Baby do Brasil (no Festival É Tudo Verdade). Todos de grande valor estético-reflexivo.

Com “Irritante Prodígio”, Luiza Lindner se propõe a “investigar os limites entre autobiografia, performance e memória ao revisitar infância marcada por longos períodos de internação hospitalar e psiquiátrica”. Já Gustavo Castro, representante do Distrito Federal, construiu “Notas sobre um Desterro” com a intenção de “transformar imagens registradas por família brasileiro-palestina na Cisjordânia em uma reflexão sobre deslocamento, colonização e violência”.

“Notas sobre um Desterro”, de Gustavo Castro

A cerimônia de premiação acontecerá no dia 30 de junho e se complementará com espetáculo cênico-musical, o “Cine-Concerto Canção do Novo Mundo”, com Titane e Tulio Mourão. Antes, porém, o público poderá apreciar filmes imperdíveis. Um dos mais aguardados é “Arquivo Vivo”, de Vincent Carelli e Ana Carvalho, vencedor, semanas atrás, do prêmio de melhor filme da Mostra Ecofalante. O documentário tem o Vídeo nas Aldeias como tema.

Há que se lembrar que, a cada ano, a CineOP presta tributo a um grande nome do cinema brasileiro, seja veterano ou noviço. Como fará nesse ano com Helena Solberg. Nas 20 edições já realizadas, as que mais emoção causaram tiveram tudo a ver com o Vídeo nas Aldeias.

Uma delas festejou a trajetória de Vincent Carelli, 72 anos, cineasta e indigenista, que dedicou sua obra aos povos originários. Ele assina, pelo menos, três títulos que se tornaram obrigatórios – “Corumbiara”, “Martírio” e “Adeus Capitão”. Um dos catálogos da mostra ouro-pretana registrou os momentos mais luminosos de sua vida e filmes.

A outra homenagem festejou discípulos de Carelli: os cineastas Ariel Kuaray Ortega e Patrícia Ferreira, integrantes do Coletivo Mbya-Guarani. O público da CineOP encantou-se com “Bicicletas de Nhanderu”, curta que prenunciaria o vôo mais ambicioso do jovem cineasta, o longa-metragem “A Transformação de Canuto” (parceria com Ernesto Carvalho), premiado no IDFA (Festival Internacional de Documentários de Amsterdã) e no Festival de Gramado.

“Arquivo Vivo”, o novo documentário do mestre Carelli revisita quatro décadas do seminal projeto Vídeo nas Aldeias. Sem esquecer um de seus principais propósitos: “promover o retorno das imagens às comunidades indígenas nas quais foram originalmente realizadas”. Buscando “refletir sobre memória, território e continuidade cultural”.

Da Argentina virá “O Filme Infinito”, de Leandro Listorti, construído a partir de fragmentos de obras engendradas no país vizinho, mas jamais concluídas. Por isso, o realizador quis “transformar restos e materiais órfãos em uma reflexão sobre memória e criação”. Além dessa produção argentina, serão exibidos filmes internacionais vindos da Colômbia, Uruguai, Bolívia, Estados Unidos, Alemanha e Itália. 

Quem se interessa pela trajetória do frade franciscano, jornalista e escritor Frei Betto, de 81 anos, poderá assistir a novo documentário – “Fraternura”, que sequencia o anterior “A Cabeça Pensa Onde os Pés Pisam: Frei Betto e a Educação Popular”, ambos dirigidos por Evanize Sydow e Américo Freire. Dessa vez, a dupla realiza “retrato afetivo de Frei Betto e de sua trajetória familiar atravessada pela experiência da prisão durante a ditadura militar”.

Do Rio Grande do Sul, chega um filme recém-restaurado – “Vento Norte”, de Salomão Scliar (1925-1991), irmão do pintor e veterano da FEB, Carlos Scliar, e primo do escritor Moacyr Scliar. Há decádas distante do olhar dos espectadores, o longa gaúcho retorna, agora nas melhores condições possíveis, para contar a história de um grupo de pescadores que lutam, no Oceano Atlântico, pela sobrevivência. Até serem “surpreendidos por estranha pressão de forte ventania, que sopra do norte”. A força da natureza provoca “a reação daqueles homens que passam a ser guiados por instintos primitivos como o ódio e a vingança”.

A fotografia, o grande trunfo do filme, é assinada pelo mesmo Salomão Scliar. O elenco mobilizou Roberto Bataglin, pai do ator de mesmo nome que protagonizou “Nunca Fomos Tão Felizes”, de Murilo Salles, Patricia Diniz, Berta Scliar, Valéria Maria, Manoel Peixoto e pescadores da Praia de Torres.

Quem gostou de filmes como “O Mágico e o Delegado” e “Ladrões de Cinema”, um dos mais geniais roteiros do cinema brasileiro (tão bom e com algo em comum com “Carnaval Atlântida”), não pode perder “Fernando Coni Campos: Cada um Vive como Sonha”, de Luis Abramo e Pedro Rossi. Abramo, além de cineasta e diretor de fotografia, é filho do realizador baiano. Por sorte, engendrou filme que trocou a louvação ao pai pelo empenho em nos relevar obra tão inventiva e esquecida.

Mais que um cineasta, Côni (esta é a pronúncia) foi um dos mais engenhosos roteiristas de nossa história cinematográfica. A ponto de Arnaldo Jabor reescrever com ele “Ladrões de Cinema”, matriz de filme não realizado (“Made in Brasil”). E de Joaquim Pedro de Andrade convocá-lo para a escritura conjunta de “O Imponderável Bento”, longa que não tiveram tempo de realizar. Ambos morreram, precocemente, em 1988. Joaquim, aos 56 anos, em setembro. Côni, nas vésperas do Natal, aos 55 anos.

Confira a programação da CineOP:

SESSÃO DE ABERTURA

. “A Entrevista” e “Meio Dia”, ambos de Helena Solberg

MOSTRA COMPETITIVA

. “Notas sobre um Desterro”, de Gustavo Castro (DF)
. “Irritante Prodígio”, de Luiza Lindner (SP)
. “Universo Circular – Jocy de Oliveira”, de Dácio Pinheiro (RJ)
. “Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas”, de Carlos Adriano (SP)
. “Apopcalipse Segundo Baby”, de Rafael Saar, (RJ)

PRÉ-ESTREIAS NACIONAIS

. “Os Irmãos Segreto”, de Michele Manzolini e Federico Ferrone (Itália/Brasil)
. “O Filme Infinito”, de Leandro Listorti (Argentina)

PRÉ-ESTREIAS EM OURO-PRETO

. “Anistia 79”, de Anita Leandro (RJ)
. “Fernanda Abreu – Da Lata 30 Anos, o Documentário”, de Paulo Severo (RJ)
. “Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha”, de Luis Abramo e Pedro Rossi (RJ)
. “As Dores do Mundo – Hyldon”, de Emilio Domingos e Felipe David Rodrigues (RJ)
. “Vivo 76”, de Lírio Ferreira (PE)

MOSTRA EDUCAÇÃO

. “Arquivo Vivo”, de Vincent Carelli e Ana Carvalho (PE, 2026)
. “Fraternura (Frei Betto)”, de Evanize Sydow e Américo Freire (SP, 2026)

MOSTRA HISTÓRICA

. “Feminino Plural”, de Vera de Figueiredo (RJ, 1978)
. “Mar de Rosas”, de Ana Carolina (RJ, 1977)
. “Que Bom Te Ver Viva”, de Lucia Murat (RJ, 1989)
. “Um Céu de Estrelas”, de Tata Amaral (SP, 1996)
. “Um Dia com Jerusa”, de Viviane Ferreira, (SP, 2020)

MOSTRA PRESERVAÇÃO

. “O Ébrio”, de Gilda Abreu (RJ, 1946)
. “Vento Norte”, de Salomão Scliar (RS, 1951)
. “Jangada de Ir e Vir”, de Marcus Vale (CE, 1977)
. “A Luta do Povo”, de Renato Tapajós, (SP, 1980)

MOSTRA DE CURTAS-METRAGENS

. “Ouro de Tolo Remix”, de Gabriel Afonso (MG)
. “Terceira Montanha”, de Tetsuya Maruyama (RJ-EUA-França)
. “Cinzenta: Inventários da Chaminé”, de Natália Reis (MG)
. “Sem Título #11: Um Analecto à Mula” (Carlos Adriano, SP)

MOSTRA ESCOLA 

“Papaya”, longa-metragem de Priscila Kellen

CINEOP ONLINE

A programação online da CineOP poderá ser acessada gratuitamente de qualquer parte do mundo pela plataforma cineop.com.br. O espectador encontrará dez obras de Helena Solberg (como “A Alma da Gente”, de 2013, e “Dupla Jornada”, 1975). Acessará a “Herbaria”, de Leandro Listorti, e curtas das sessão TV UFOP, disponíveis de 26 de junho a 5 de julho. Debates, abertura e encerramento também serão transmitidos pelo YouTube da Universo Produção.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.