In-Edit destaca Roberto de Regina, o “sargento de malícias”, e conta história da busca italiana pela “Marselhesa dos Bêbados”

Foto: “O Cravista”, de Luiz Eduardo Osório

Por Maria do Rosário Caetano

Dois filmes chamam atenção na programação do In-Edit Brasil – Festival Internacional de Documentário Musical, que prossegue até dia 28 de junho em diversas salas de cinema paulistanas.

O primeiro, “O Cravista”, retrata o bem-humorado Roberto de Regina, que se autodefine como “um sargento de malícias”. O segundo, “A Marselhesa dos Bêbados”, reconstituiu viagem exploratória de pesquisadores italianos que buscaram na Espanha, ainda sob o comando do ditador Francisco Franco, similares da “Marselhesa” francesa. Ou seja, verdadeiros hinos de resistência guardados na memória daqueles que sobreviveram à Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

O retrato musical-existencial de Roberto de Regina nos revela, com seu sintético nome (“O Cravista”), a feliz escolha do diretor Luiz Eduardo Osório. Ele soube destacar o mais importante dos múltiplos ofícios de seu personagem — médico-anestesista, regente, luthier, musicista, artesão, pintor e colecionador. Afinal, foi como cravista que o carioca De Regina (1927-2025) viveu seus melhores momentos.

Já Pablo Gil Rituerto preferiu, no longa espanhol “La Marsellesa de los Borrachos”, apostar em expressão enigmático-provocadora. Afinal, o que vem a ser “A Marselhesa dos Bêbados”?

Quem assistir ao filme, compreenderá. Em 1961, integrantes do grupo Cantacronache e pesquisadores progressistas italianos percorreram, clandestinamente, a Catalunha, Galícia, Países Bascos, entre outras regiões da Espanha franquista, para registrar canções que permaneciam vivas na memória daqueles que lutaram ao lado dos Republicanos (e acabaram derrotados).

Foram coletados três poemas e 26 canções. O material gerou gravações, algumas imagens e um livro (“Canti della Nuova Resistenza Spagnola: 1939-1961”). O Ministério da Propaganda franquista, para desacreditar as pesquisas e o livro, qualificou seus artífices como bêbados em busca de uma “Marselhesa”. Referência, claro, ao hino rebelde e mobilizador que embalou a Revolução Francesa de 1789.

O filme amplia sua razão de ser ao registrar fatos da Espanha contemporânea. Em especial, a busca pelos restos mortais de milhares de espanhóis enterrados em valas anônimas do Vale de los Caídos, polêmico monumento e mausoléu estatal localizado nas cercanias de Madri. Parentes das vítimas aparecerão no filme de Rituerto, esperançosos de encontrar, além de ossos capazes de ajudar a identificar seus ancestrais, justiça histórica, ainda que tardia. Técnicos forenses são vistos realizando seu incansável trabalho.

A equipe do documentarista percorrerá os mesmos locais onde os italianos estiveram, em 1961. O filme somará canções e testemunhos que hão de emocionar os espectadores. E provará que o trabalho clandestino do Cantacronache valeu a pena. O livro “Cantos da Nova Resistência Espanhola: 1939-1961” foi traduzido na França, Alemanha e no Uruguai. E, claro, depois do fim do franquismo, na Espanha.

O cineasta, ao retomar, seis décadas depois, o projeto dos pesquisadores italianos e transformá-lo em documentário de longa-metragem, resolveu adotar a expressão pejorativa utilizada pelos franquistas, como forma de chamar atenção sobre aqueles cantos e poemas memorizados ao longo de quase um século.

“La Marsellesa de los Borrachos”, de Pablo Gil Rituerto

O brasileiro Roberto de Regina não precisou passar, para exercer sua maior paixão artística (a música antiga), pelas dificuldades dos Republicanos espanhóis. Foram menos difíceis os seus caminhos e mais longa a sua vida (ele morreu, lúcido, aos 98 anos).

O cravista enfrentou, sim, tenaz resistência dos pais. Principalmente, do patriarca, médico, que via a música como ofício sem futuro e a Medicina como profissão nobre. O jovem Roberto frequentou a Universidade, especializou-se como anestesista e exerceu seu ofício no Hospital dos Servidores do Estado até sua aposentadoria, em 1978. Conviveu com a mãe, que – dirá no filme – “somava lado muito amoroso a outro, o de uma verdadeira carcereira”.

Narrador de memória poderosa e humor dos mais sedutores, De Regina relembrará os momentos mais importantes (ou curiosos) de sua vida. Contará que, ao trocar apartamento herdado no Leblon, em seu Rio de Janeiro natal, por um sítio em Guaratiba, deixou a mãe revoltada.

“Ela ficou tão furiosa, que meu irmão a levou, de carro, até o sítio que eu escolhera como nova morada. Intransigente, ela não desceu do veículo”, afinal, queria deixar claro que “não aprovava de jeito nenhum” o negócio feito pelo filho.

O terreno de Guaratiba acabaria por transformar-se na Shangri-lá de Roberto de Regina. Lá, ele construiria sua moradia, cercada de jardins, “castelos”, oficinas e uma capela. Nesses amplos espaços, ele exerceria a função de luthier, abrigaria o Museu Ronaldo J. Ribeiro (com suas réplicas de trens e estradas de ferro e de catedrais e outras maravilhas do mundo “antiquo”) e sala de concerto. Esta, na Capela Magdalena (“minha Capela Sistina tupiniquim”), onde não seriam oficiados ritos religiosos, mas sim, concertos de cravo. E onde ele gravaria os 16 Concertos para Cravo Solo de Johann Sebastian Bach.

Na primeira imagem de “O Cravista”, vemos o nonagenário Roberto de Regina se vestindo. E chamando Ronaldo para ajudá-lo a calçar as meias. Mais tarde, descobriremos que Ronaldo J. Ribeiro não é um cuidador, mas sim o companheiro do artista. Juntos, transformaram o Sítio de Guaratiba num templo da música antiga, onde o cravo, base das criações de Bach, Vivaldi e Haendel, reinaria absoluto.

Roberto de Regina iniciou sua formação musical pelo piano. A família, porém, exigia que ele seguisse a profissão do pai, médico. Quando aposentou-se deste ofício, passou a dedicar-se integralmente à música. Sempre rejeitando tratamentos pomposos como “doutor” e “maestro” (preferia “regente”).

O artista tornou-se nacionalmente conhecido (e reconhecido), ao longo das décadas de 1970 e 80, como o brasileiro que fez do cravo a sua razão de viver. Sua fama o levou a um dos programas mais festejados da TV brasileira — o “Especial de Natal” de Roberto Carlos, na Rede Globo, em 1976. O Roberto-cantor apresentou, com sua bela voz, os versos do megassucesso “Detalhes”, acompanhado pelo cravo de Roberto de Regina. As imagens serão relembradas no filme de Luiz Eduardo Osório.

O documentário, que dura 104 minutos, não cansa. Primeiro, pela presença de espírito de seu narrador, uma verdadeira “Sherazade”, capaz de somar uma história à outra, sem perder o fio da meada. Segundo pela iluminação dos ambientes internos, à luz de velas com seus lumes dourados, em perfeita combinação com os espaços-cenários, muitos deles vermelhos. E, por fim, pelo uso abundante de material de arquivo.

Além da apresentação conjunta dos Robertos (Carlos e De Regina) veremos Heitor Villa-Lobos em ação e muitas imagens que documentam o trabalho do cravista (e regente) junto à Camerata Antiqua de Curitiba, que fundara ao lado de Ingrid Müller Seraphim.

A capital paranaense, aliás, terá espaço nobre no filme, pois lá, Roberto de Regina encontrou apoio e grandes plateias para seus concertos. Apelidados, jocosamente, de “Woodstock barroco em Curitiba”.

Entre as melhores evocações de “O Cravista” estão lembranças vividas com Tom Jobim e Vinícius de Moraes e, também, com o presidente da CBS.

Coube a Roberto de Regina reger (“sem ensaios”) coral de muitas vozes que participou da apresentação da “Sinfonia da Alvorada”, criação de Tom e Vinícius. Tudo durante os festejos de inauguração de Brasília, marcados por algumas doses de improviso.

Já no caso da poderosa CBS, Roberto de Regina evocará, satisfeito, o que aconteceria em sua vitoriosa trajetória discográfica.

“Ele (o presidente da CBS) me disse que gravaria meu primeiro disco só para ter o que mostrar em congressos internacionais. Afinal, sabia que só seriam vendidos alguns exemplares. O sucesso, porém, se fez presente. Vieram o segundo disco, o terceiro, o quarto… foram 25 no total”.

Além de definir-se, em diálogo com o romance “Memórias de um Sargento de Milícias” (Manuel Antônio de Almeida, 1852), como um mero “sargento de malícias”, o showman Roberto de Regina, destacará alguns de seus outros dotes artísticos. Aqueles de natureza “canora, histriônica e canastrônica”. Um homem que, realmente, soube viver.

 

O Cravista
Brasil, 2025, 104 minutos
Direção e roteiro: Luiz Eduardo Ozório
Fotografia: Juarez Pavelak
Montagem: Paulo Mainhard e Luiz Eduardo Ozório
Produção: OZ Filmes
Disponível, também, no Itaú Play

A Marselhesa dos Bêbados | La Marsellesa de los Borrachos
Espanha, França, Itália, 2024, 96 minutos
Direção: Pablo Gil Rituerto
Testemunhos: Emilio Jona, Nacho Vegas, María Arnal, Marcel Bagés, Amnorante, entre outros
Roteiro: Alba Lombardía e Pablo Gil Rituerto
Fotografia:Daniel Lacasa
Música: Lina Bautista
Montagem: Marcos Flores e Pablo Gil Rituerto

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