Mostra de Cinema de Ouro Preto premia “Irritante Prodígio” e promove cine-concerto com Titane e Túlio Mourão
Foto: Luíza Lindner, premiada por “Irritante Prodígio” © Leo Lara/Universo Produção
Por Maria do Rosário Caetano, de Ouro Preto (MG)
O júri da vigésima-primeira edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, formado com a cineasta Anita Leandro e os professores Gabriela Lima Gomes e João Luiz Vieira, escolheu o longa “Irritante Prodígio”, da catarinense Luíza Lindner, como vencedor do Troféu Vila Rica.
Para justificar sua escolha, o trio de jurados do único segmento (Arquivos em Questão) competitivo do festival, destacou as propostas estético-temáticas dos concorrentes, todas “centradas em diversas formas de apropriações de imagens e sons de arquivos”.
Foram avaliados documentários de “compilações de registros biográficos” (caso de “Apopcalipse Segundo Baby” e “Universo Circular – Jocy Oliveira”), “abordagem experimental” (“Proust Palimpsesto”), “escrita de si” (“Irritante Prodígio”) e “engajamento político em tempos de guerra” (“Notas sobre um Desterro”, no caso, o do povo da Palestina).
A CineOP tem a preservação da memória do cinema brasileiro como sua principal razão de ser. Daí ter optado, ano passado, data de sua vigésima edição, pela criação de mostra competitiva composta com longas documentais contemporâneos, empenhados na valorização e recriação de materiais de arquivo. A cerimônia de premiação correu, tanto ano passado, quanto nesse ano, veloz como um raio, já que só se atribui o prêmio de melhor filme. Não há categorias técnicas como montagem, pesquisa ou roteiro.
Os integrantes do júri lembraram que “os projetos de montagem dos cinco filmes da competição compartilham o esforço de associar diferentes fontes documentais, em variados suportes, origens e formatos, que vão das obras cinematográficas aos acervos pessoais e familiares, passando por fotografias, textos, registros televisivos e mídias digitais”. E que “cada um dos filmes torna os arquivos acessíveis ao público de maneira singular e enriquecedora”. No caso do filme vencedor, “Irritante Prodígio”, o destaque se deu “pela adequação da forma ao conteúdo, ao colocar em questão os materiais de maneira expressiva e original, trazendo o próprio corpo (da cineasta) como arquivo”.
O filme de Luiza Lindner, catarinense de 22 anos, radicada em São Paulo, soma vídeos domésticos (registrados pelo pai da realizadora) a imagens colhidas por ela, no tempo presente. Aluna da Faap, escola de cinema paulistana, a estreante se apresenta como uma jovem “obsessiva, vulnerável e enxerida, mas sobretudo, irritante”. E nada modesta, já que além de irritar terceiros, ela se tem como um prodígio.
Os dicionários definem o termo: “prodígio é aquele que apresenta nível extremo de habilidade ou domínio em área específica durante a infância ou juventude”. E mais: aquele que é “excessivamente talentoso, genial, maravilhoso, surpreendente, um portento”.
Ao longo dos 80 minutos de sua narrativa, a jovem diretora tensiona “os limites entre autobiografia, performance e testemunho, destrinchando sua infância hospitalar e psiquiátrica”. Faz da câmera e de sua voz instrumentos narrativos, com os quais rememora a infância, a adolescência (ela deu aulas de culinária dos 14 aos 17 anos, quando, paradoxalmente, vivia processo de anorexia) e chega ao tempo presente.
Incentivada por um professor (Moira Toledo, a quem o filme é dedicado), Luiza Lindner assumiu, sozinha e sem se impor limites, a realização de sua autobiografia cinematográfica. Supriu a falta de grana advinda de editais, bancando com recursos próprios (e parcos) todas as etapas do filme. Assumiu, ainda por cima, todas as funções técnicas e artísticas.
A realizadora escreveu longos textos (o filme traz sequências com falas dilatadas) e mergulhou nos arquivos domésticos (de imagens e de registros de conversas telefônicas dos pais com médicos que cuidaram de seus diversos distúrbios emocionais). Depois, ela mesma editou o documentário na base do “exército de um homem só”. Ou melhor, de uma mulher só.
No dia da apresentação de “Irritante Prodígio” na Sala Petrobras, palco da competição Arquivos em Questão, Luiza solicitou a cumplicidade do público com este que é seu primeiro longa-metragem. Sua estreia no formato.
“Necessito da colaboração de vocês para levar meu filme aos espectadores, pois trata-se de produção independente, feita sem recursos. E ainda não tenho uma distribuidora”. Repetiu a mesma solicitação no palco do Cine Praça, localizado ao ar livre e aos pés da estátua de Tiradentes, onde recebeu, das mãos do prefeito Ângelo Oswaldo, o Troféu Vila Rica.
No letreiro que encerra “Irritante Prodígio”, Luiza conta que vem gastando suas parcas economias, obtidas com serviços prestados como fotógrafa, na inscrição do filme em festivais nacionais e internacionais. Como se vê, ela é mesmo obstinada, ambiciosa e incansável. Segundo seu relato, de início, os pais não mostraram entusiasmo com o desejo dela de revisitar, num longa-metragem, sua infância e adolescência, marcadas ambas por múltiplos e longos períodos de internação hospitalar e psiquiátrica. Mas, com o filme pronto, “eles ficaram felizes, pois gostaram muito do resultado”.
Após a entrega do único prêmio da noite de encerramento da CineOP, guiada pelo lema “Um país existe nas imagens que preserva”, o público assistiu a espetáculo em forma de cine-concerto protagonizado pela cantora Titane, pelo pianista Túlio Mourão e pelo percussionista Yuri Vellasco. Os três sob direção do videomaker Éder Santos, que enriqueceu os cantos e sons do trio com imagens projetadas no imenso telão do Cine Praça.
No início do espetáculo, houve um contratempo. O frio intenso (e úmido) avariou os teclados de Túlio Mourão a ponto de provocar o desligamento total da memória eletrônica do instrumento. Um providencial secador de cabelos e o zelo dos técnicos convocados pela CineOP resolveram o impasse em poucos minutos. Os artistas puderam, então, apresentar, em sua plenitude, o cine-concerto intitulado “Canção para o Novo Mundo”.
Como Túlio Mourão integrou o núcleo duro do Clube da Esquina, nada mais natural que composições da trupe mais famosa da música mineira se destacassem no programa da noite festiva. Sucessos gravados por Milton Nascimento foram recriados na voz de Titane. Um deles — “E Daí?” — relembrou a intérprete mineira — foi composto por Milton e Ruy Guerra para a trilha sonora de “A Queda”, segunda parte da Trilogia dos Fuzis.
Ao término do espetáculo, um elegante e grisalho Túlio Mourão, de 74 anos, fez questão de agradecer a Raquel Hallak, diretora geral da CineOP, pela realização do cine-concerto. “Estamos muito felizes em poder apresentar essas ‘Canções para o Novo Mundo’, que unem música e cinema no palco desse importante festival mineiro. Um festival que cresce a cada dia e reafirma a importância de Minas Gerais no universo cinematográfico brasileiro”.
A CineOP encerrou, ao longo da última terça-feira, a parte reflexiva e política de sua programação com a leitura de duas Cartas (da Preservação e da Educação), que serão encaminhadas a autoridades governamentais, de forma que sirvam como sugestões de aperfeiçoamento de novas políticas públicas.
Em seu trecho final, a Carta da Preservação dirige alerta ao poder público, clamando pela “urgência de se empreender esforços imediatos e concretos para a preservação do Acervo do Vídeo nas Aldeias. Afinal — constata — “sua importância é incontornável para a salvaguarda da memória dos povos originários e para a construção de uma história do audiovisual brasileiro capaz de superar os apagamentos históricos e contemplar a diversidade do nosso país”.
Para concluir: “Exemplos como este não permitem omissões ou escolhas políticas que não tragam em seu escopo as premissas da preservação audiovisual”.
Já a Carta da Educação refletiu sobre o tempo presente: “Vivemos um momento histórico marcado pelo crescente fortalecimento de governos que instrumentalizam a educação, a cultura e o cinema para promover desinformação, reafirmar preconceitos e legitimar a intolerância, recolocando dinâmicas coloniais, opressoras e predatórias na América Latina e no mundo”. Esse projeto — prossegue o documento —“é indissociável da maneira como as novas tecnologias estão sendo empregadas nas relações sociais, econômicas e geopolíticas em escala global”.
A carta cita alerta de Frei Betto, que marcou presença em uma das mais concorridas mesas da CineOP: “Nesse contexto, como nos alerta Frei Betto, se faz urgente ‘restituir historicidade ao tempo’, em contraposição ao ‘presente perpétuo’ das redes digitais, que minam a reflexão crítica e a capacidade de projetar sonhos e utopias que inspirem as novas gerações”.
“Em contraponto a essa dinâmica” — propõe a carta — “defendemos o cinema como um tempo-espaço de pausa, de encontro, de invenção, de produção de saberes e conhecimentos e de partilha do sensível”.
Para reafirmar “a importância do cinema”, que se apresenta “como prática de escuta das vozes historicamente silenciadas, abrindo espaço para outras realidades e narrativas possíveis de pessoas com deficiência, indígenas, negros, comunidades tradicionais, mulheres e LGBTQIAPN+, cujas lutas históricas constituem o horizonte das perspectivas democráticas contemporâneas”.
Quem acompanhou os seminários dos três núcleos constituintes da CineOP (Histórico, Preservação e Educação) assistiu a intervenções emocionais, críticas ou polêmicas. Nesse último caso enquadra-se a participação do diretor Carlos Adriano, inventivo cultor do cinema de arquivo. No debate “Uso de Acervos na Criação de Novos Filmes”, ele construiu, à moda de Jean-Luc Godard, uma ode ao uso poético das imagens, acompanhadas de todas as liberdades exigidas pela criação artística.
Em sua defesa do uso livre de arquivos, Adriano lembrou que não deve haver cobrança pecuniária se “o cineasta estiver realizando seu filme como poeta ou artista plástico”. Nestes registros, “ele não estará fazendo uso ilustrativo da imagem”.
Mal Adriano concluiu seu raciocínio, o auditório ouviu intervenção em sentido diametralmente oposto. No grande auditório do Centro de Convenções, a voz vigorosa de Alice Gonzaga, de 91 anos, herdeira do produtor e diretor Adhemar Gonzaga (“Alô, Alô Carnaval”, 1936) se alevantou. Ela realizou, então, verdadeira performance verbal, exigindo, com sua ênfase costumeira, que “produtores coloquem (aloquem) recursos, em seus orçamentos, para remunerar todos os detentores de direitos de imagens”.
Para arrematar: “sempre que cineastas nos procuram para adquirir direito de imagem de nossos acervos, o fazem com o argumento de que não podem pagar por eles, pois não dispõem de recursos. No máximo dizem dispor de sobras mínimas. Que coloquem, pois, a aquisição de imagens no orçamento do filme desde o começo do projeto”.
