“O Último Azul”, de Gabriel Mascaro, disputa sete Prêmios Ariel, o “Oscar mexicano”

Foto: “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro

Por Maria do Rosário Caetano

Pela primeira vez, em 68 edições históricas dos Prêmios Ariel, o “Oscar mexicano”, um longa-metragem brasileiro – “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro – disputará troféus em sete categorias, uma delas a de melhor filme.

O Ariel, vale lembrar, é uma das premiações mais antigas do mundo, só perdendo para o Oscar (quase centenário), o Bafta inglês (79 edições) e o David Di Donatello (71).

Como é que um longa-metragem brasileiro foi parar em categorias tão importantes (melhor filme, melhor direção, roteiro original, fotografia) do prêmio atribuído pela Academia Mexicana de Arte e Indústria Cinematográfica há quase sete décadas?

A resposta é simples. Foi graças à coprodução. O pernambucano “O Último Azul” é fruto de legítima parceria entre o Brasil e o México. E não foi só no terreno financeiro que a soma de forças se processou. Há nomes hispano-americanos na direção de fotografia (Guillermo Garza), montagem (Osmar Guzmán e Sebastián Sepúlveda), música original (Guillermo Guerra), desenho de som (Arturo Salazar e Alejandra Rojas) e som direto (Liliana Villaseñor), somados ao mixador holandês Vicent Sinceretti.

A produtora brasileira Desvia uniu-se à Cinevinay, do uruguaio, radicado no México, Sandino Saravia Vinay, e juntos chegaram ao Festival de Berlim 2025, que os laureou com um Urso de Prata.

Agora, nos quase septuagenários Prêmios Ariel, eles estarão juntos mais uma vez para participar de uma cerimônia de premiação, marcada para o dia três de outubro (tarde demais, não?). E com chances de triunfar pelo menos nos créditos técnicos-artísticos (fotografia, montagem, música original e som).

O longa de Gabriel “Boi Neon” Mascaro tem chances de triunfar na principal categoria do Ariel?

Nada é impossível. Mas, para chegar lá, ele terá que vencer o franco favorito – “No Caminho”, road movie de David Pablos, detentor do prêmio máximo na Mostra Orizzonti, do Festival de Veneza, e do Leão Queer 2025. Além de recordista com 13 indicações.

Gabriel Mascaro terá, ainda, que enfrentar mais três produções 100% mexicanas, faladas em espanhol, com elencos e técnicos nativos – “O Diabo Fuma (e Guarda os Fósforos Queimados na Mesma Caixa”), de Ernesto Martínez Bucio, “Vainilla”, de Mayra Hermosillo, e, para surpresa geral, o documentário “La Libertad de Fierro”, de Santiago Esteinou.

“No Caminho” é realmente um grande destaque da produção mexicana contemporânea. David Pablos, de 42 anos, dirigiu “La Vida Despues” (2013) e “Las Elegidas” (2025), que alcançaram boa repercussão. E subiu de patamar com este road movie queer, festejado em Veneza e agora o longa mais cotado da sexagésima-oitava Noite do Ariel.

Os dois protagonistas de “En el Camino” (disponível no Prime Video e Apple TV) são um jovem andarilho, de apelido Veneno (Victor Prieto, indicado a ator revelação), e um caminhoneiro, Muñeco (Osvaldo Sanchez, concorrente a melhor ator). O rapazinho, de rosto moreno e ascendência indígena, vaga por postos de gasolina, onde se relaciona com motoristas de imensos caminhões cargueiros.

Um dia, Veneno se aproxima de Muñeco e implora carona em sua gigantesca carreta. O caminhoneiro resiste, mas acabará cedendo ao perceber que o garoto tem uma sacola recheada de papelotes de cocaína. Testa o estupefaciente e conclui que é de primeira qualidade. E que poderão, juntos, revender o produto. Desde que sejam espertos e consigam furar o esquema do cartel que domina a estrada.

Veneno é gay assumido, originário de Ciudad Juarez, no norte mexicano, área traumatizada por altos índices de criminalidade. Ele esconde um passado dos mais obscuros. Muñeco tem filhos e vive relação tensa com a (ex)esposa, mãe das crianças. Ao longa da estrada, esses dois outsiders irão conhecer-se melhor e aproximar-se afetiva e sexualmente.

Amores homoafetivos pontuarão a narrativa, mas o filme será construído como um drama social, salpicado de ingredientes de suspense. David Pablos chega a ótimo resultado, cria densa atmosfera e prende a atenção de amplo espectro do público. Não só de sensibilidades queer. Os dois protagonistas merecem o Ariel em suas respectivas categorias.

“No Caminho”, de David Pablos

O Brasil disputa, além das sete categorias atribuídas a “O Último Azul”, mais um troféu importante: o Ariel de melhor filme ibero-americano. E a vaga fica com mais um filme pernambucano, “Manas”, de Marianna Brennand.

A brasileira, como Gabriel Mascaro, enfrentará concorrência dura pela frente. Afinal, em seu caminho estão pesos-pesados da Espanha, o festejadíssimo “Los Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa; da Argentina, “Belén – Uma História de Injustiça”, de Dolores Fonzi; do Chile,  “O Olhar Misterioso do Flamingo”, de Diego Céspedes; e da Colômbia, o desconcertante e instigante “Un Poeta”, de Simón Mesa Soto. “Los Domingos” causou furor na Noite dos Goya, e “Belén” vem somando prêmios em diversas competições ibero-americanas.

Há outros destaques dignos de registro na vindoura cerimônia do Ariel asteca. Tudo indica que seus criadores erguerão ao menos um troféu. Caso do filme de animação “Soy Frankelda”, de resultado inventivo e vibrante, finalista ao Goya e aos Prêmios Platino. Em diálogo com o cinema de horror, o longa de Arturo e Roy Ambriz – disponível na Netflix – acompanha uma jovem e talentosa escritora mexicana, que vive no século 19. Ela mergulha no próprio inconsciente e se depara com suas próprias (e delirantes) criações e personagens. Tudo no plano fantástico, amplificado pelas imensas liberdades permitidas por filmes de animação. Há imagens de grande (imensa) beleza plástica.

O favoritismo de “Frankelda” é visível. Primeiro por suas qualidades. Segundo, por fato inusitado. Como continua reduzida a quantidade de longas de animação realizados na América Latina (mesmo nos três grandes centros produtores — Argentina, México e Brasil), esta categoria só contará com dois candidatos. Além do filme da frankensteiniana escritora Frankelda, só foi indicado o longa “La Gran Historia de la Filosofía Occidental”, de Aria Covanovas.

No terreno do documentário, o México tem grande força e destaque. De forma que, este ano, fez do longa de Santiago Esteinou (“La Libertad de Fierro”) candidato a melhor filme (junto a quatro ficções) e melhor longa documental. Nesta categoria, ele é o franco favorito.

“La Libertad de Fierro” causou sensação no México por narrar a vida de César Fierro, um mexicano que sobreviveu por mais de 40 anos (mesmo encarcerado e condenado à morte) em prisão no Texas- EUA.

Depois de passar quatro décadas no corredor da morte, Fierro foi inocentado. O filme registra a saída do encarcerado da prisão e acompanha sua complexa readaptação ao meio social, do qual permaneceu segregado por tantos anos.

Santiago Eistenou realizara, em 2013, “Los Años de Fierro”, documentário que denunciava os vícios do processo do Judiciário texano, que condenara o cidadão mexicano à pena capital. Usou o novo filme para “refletir sobre o instituto da pena de morte” e deixar uma pergunta para os espectadores: “o que significa a liberdade para quem tem que começar do zero, depois de 40 anos enclausurado?

Nomes famosos nos meios cinematográficos latino-americanos marcarão presença na competição do Ariel número 68. Entre eles,  a estrela argentina Dolores Fonzi, do já citado “Belén – Uma História de Injustiça”, e o ator Daniel Gimenez Cacho, agora diretor, de “Juana”. Cacho brilhou no ripsteiniano “Profundo Carmesi” e seguiu sua exitosa carreira (poucos anos protagonizou “Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades”, de Iñarritu). Ele divide com Damián Alcazar (“A Lei de Herodes”) o podium de mais respeitado ator da velha guarda do cinema mexicano.

Outro nome estelar do cinema de expressão espanhola, o mexicano Diego Luna, amigo e compadre de Gael García Bernal, é o produtor do favorito “No Caminho”.

Com carreira de ator, diretor, roteirista e comandante (com Bernal) da Canana Filmes, ele goza de imenso prestígio em seu país. É assim desde o estouro de “E Tu Mamán, Tambien”, de Alfonso “Roma” Cuarón. Hoje, vive entre seu país natal (ele nasceu em Guadalajara) e os EUA, onde já atuou em superproduções como “Rogue One: A Star Wars Story” e coproduções como “Narcos”.

As chances do produtor Diego Luna empalmar um Ariel por “No Caminho” são imensas. O mesmo, porém, não deve suceder com outro superastro latino – o venezuelano Édgar Ramirez. Desde 2010, quando protagonizou a eletrizante (e obrigatória) série “Carlos”, de Olivier Assayas, que Ramírez entrou para o Olimpo ibero-americano. Ele estará presente na Noite do Ariel com o longa-metragem “Ainda é Noite em Caracas”, no qual atua em pequeno papel e assina a produção. O filme traz a assinatura das diretoras Marité Ugás e Mariana Rondón (esta, do encantador “Pelo Malo”).

“Ainda é Noite em Caracas” é o segundo filme com maior número de indicações dessa sexagésima-oitava edição do “Oscar mexicano” (nove). Mas não figura, como “O Último Azul”, nas categoria top (melhor filme e melhor direção). Trata-se de duro retrato da Venezuela bolivariana, instituida por Hugo Chávez. Suas duas realizadoras preferiram radicar-se no México (sem esquecer, tematicamente, seu país de origem).

Édgar Ramírez, também venezuelano, é outro desiludido com a Venezuela. A de Chávez (1954-2013) e de Nicolas Maduro, sequestrado e preso pelo governo Trump. Resta ver como o trio está percebendo a situação do país depois que ele foi reconquistado pelos EUA. Hoje assemelha-se a um satélite do imenso poder norte-americano e de seu mandatário, Donald Trump.

Um registro final: vale destacar, por seu título maluquete, o longa-metragem “Autos, Mota y Rocanrol”, de José Manuel Cravioto. A trama apresenta-se tão maluca quanto seu título. O filme adota tom de comédia e registro de mockmentary. A intenção de seu realizador é recriar história datada em 1971 e satirizar a criação do Festival de Avándaro, conhecido como o “Woodstock mexicano”. Daí o ‘rocanrol’ do título.

O mockmentary está na disputa do Ariel de melhor figurino, efeitos especiais, som, maquiagem e direção de arte.

Confira os finalistas:

Melhor filme

. “O Último Azul’, de Gabriel Mascaro (ficção)
. “No Caminho”, de David Pablo (ficção)
. “O Diabo Fuma (e Guarda os Fósforos Queimados na Mesma Caixa)”, de Ernesto Martinez Bucio (ficção)
. “Vainilla”, de Mayra Hermosillo (ficção)
. “La Libertad de Fierro”, de Santiago Esteinou (Doc.)Melhor filme ibero-americano

. “Manas”, de Marianna Brennand (Brasil)
. “Los Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa (Espanha)
. “Belén – Uma História de Injustiça”, de Dolores Fonzi (Argentina)
. “O Olhar Misterioso do Flamingo”, de Diego Céspedes (Chile)
. “Un Poeta”, de Simón Mesa Soto (Colômbia)

Melhor Ópera Prima (filme de diretor estreante)

. “Juana”, de Daniel Jimenez Cacho
. “Vainilla”, de Mayra Hermosillo
. “La Reserva”, de Pablo Pérez Lambordini
. “Cocodrilos”, de J. Xavier Velasco
. “O Diabo Fuma (e Guarda os Fósforos Queimados na Mesma Caixa)”, de Ernesto Martinez Bucio

Melhor longa documental

. “La Libertad de Fierro”, de Santiago Eistenou
. “Brigada 2045”, de Olívia Luengas Magaña
. “Gaza, la Franja del Exterminio”, de Rafael Rangel
. “Llamarse Olimpia”, de Indira Cato
. “Vidas en la Orilla”, de Lucía GajáMelhor longa de animação

. “Soy Frankelda”, de Arturo e Roy Ambriz
. “La Gran Historia de la Filosofía Occidental”, de Aria Covanovas

Melhor direção

. Gabriel Mascaro (O Último Azul)
. David Pablos (No Caminho)
. Ernesto Martínez Bucio (O Diabo Fuma (e Guarda os Fósforos Queimados na Mesma Caixa)
. Lucía Gajá (Vidas en la Orilla)
. Pablo Pérez Lombardini (La Reserva)

Melhor Atriz

. Ángela Molina – Cosmos
. Diana Sedano – Juana
. Emma Dib – La Eterna Adolescente
. Mónica del Carmen – Las Mutaciones
. Natalia Reyes – Ainda é Noite em CaracasMelhor Ator

. Osvaldo Sánchez – No Caminho
. Andrés Catzín – Cosmos
. Ernesto Rocha – Adiós, Amor
. Hoze Meléndez – Cocodrilos
. Mauricio Isaac – Café Chairel

Melhor atriz coadjuvante

. Arcelia Ramírez – Cocodrilos
. Teresita Sánchez – Cocodrilos
. Margarita Sanz – Juanas
. Ángeles Cruz – Las locuras
. Ruth Ramos – La Eterna Adolescente

Melhor ator coadjuvante

. Mariano López Sosa – “No Caminho”
. Bernardo Gamboa – “O Diabo Fuma (e Guarda os Fósforos Queimados na Mesma Caixa)”
. Héctor Kotsifakis – “Pérdida Total”
. Manuel Cruz Vivas – “Cocodrilos”
. Roberto Sosa – “Las Locuras”

Melhor revelação (atriz ou ator)

. Víctor Miguel Prieto – “No Caminho”
. Aurora Dávila – “Vainilla”
. Carolina Guzmán – “La Reserva”
. Donovan Said – “O Diabo Fuma (e Guarda os Fósforos Queimados na Mesma Caixa)”
. Laura Uribe Rojas – “O Diabo Fuma (e Guarda os Fósforos Queimados na Mesma Caixa)”Melhor roteiro original

. “O Último Azul” (Gabriel Mascaro e Tibério Azul)
. “No Caminho”
. “O Diabo Fuma (e Guarda os Fósforos Queimados na Mesma Caixa)”
. “Cosmos”
. “La Reserva”Melhor roteiro adaptado

. “Los dos Hemisferios de Lucca”
. “Mujeres del Alba”
. “La Sombra del Catire”
. “Las Mutaciones”
. “Ainda é Noite em Caracas”Melhor Fotografia

. “O Último Azul” (Guillermo Garza)
. “No Caminho” (Ximena Amann)
. “Cosmos” (Germinal Roaux, Inti Briones)
. “Ainda é Noite em Caracas” (Juan Pablo Ramírez)
. “La Reserva” (Moritz Tessendorf)Melhor montagem

. O Último Azul (Omar Guzmán)
. No Caminho
. Vidas en la Orilla
. O Diablo Fuma (e Guarda os Fósforos Queimados na Mesma Caixa)
. Gerry Adams: El Hombre de BallymurphyMelhor música original

. O Último Azul – Memo Guerra
. No Caminho – Andrea Balency-Bearn
. Juana – María Giménez Cacho Goded
. Brigada 2045 – Yolihuani Curiel Balzareti
. La Reserva – YOMMelhor Som

. O Último Azul som (Arturo Salazar, Liliana Villaseñor, Alejandra Rojas e Vincent Sinceretti)
. Autos, Mota y Rocanrol
. Ainda é Noite em Caracas
. Brigada 2045
. Cosmos

Melhor Figurino

. No Caminho
. Ainda é Noite em Caracas
. Cosmos
. Vainilla
. Autos, Mota y RocanrolMelhores Efeitos Visuais

. No Caminho – Jorge Palma Bermúdez
. Soy Frankelda – María José Straffon
. Un Conto de Pescadores – Amet Ramos
. Autos, Mota y Rocanrol – Gaston Álvarez
. Ainda é Noite em Caracas – Paula Siqueira, Raúl LunaMelhores Efeitos Especiais

. Contraataque
. Un Cuento de Pescadores
. Mujeres del Alba
. Cocodrilos
. Ainda é Noite em CaracasMelhor Maquiagem

. No Caminho
. Vainilla
. Un Cuento de Pescadores
. Autos, Mota y Rocanrol
. Ainda é Noite em Caracas

Melhor Desenho de Arte

. No Caminho
. Autos, Mota y Rocanrol
. Juana
. Ainda é Noite em Caracas
. Vainilla

Melhor curta animado

. Azulesepia
. Desdoblándome
. Te Prometo Violencia
. Teatro Secreto
. Wing Shop

Melhor curta de ficção

. Azul
. Crónica menor
. Oc ni Temiki (Sigo Soñando)
. Techiq
. Una Torreta en Llamas

Melhor curta documental

. La Mar
. Las Voces del Despeñadero
. Mácula
. Mujer de Barro
. Toda la Vida para Siempre

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