“Nem Tudo é Paz e Amor” mostra filhos da geração hippie sonhando com sofá branco e rotina
Por Maria do Rosário Caetano
“Nem Tudo é Paz e Amor”, longa documental de Betão Aguiar, chega aos cinemas brasileiros nessa quinta-feira, 27 de agosto, para mostrar que crianças, filhas da geração da Contracultura, sonharam com mesas e cadeiras postas para as refeições, sofás confortáveis, rotina doméstica e escolar.
Seus sonhos se processavam enquanto seus pais – Caetano Veloso, Gilberto Gil, Moraes Moreira, Rita Lee, Rogério Duarte, Baby Consuelo, Pepeu Gomes e Itamar Assumpção – apostavam na transformação dos costumes, em novas conformações familiares e, em especial, na liberdade sexual. Enfim, buscavam a quebra da caretice burguesa.
O próprio Betão Aguiar, de 48 anos, é filho de um Novo Baiano. De Paulinho Boca de Cantor, integrante do coletivo musical os Novos Baianos, que, como nenhum outro, simbolizou a busca por novas formas de viver.
Os pais do documentarista – sua mãe, a produtora Marília Aguiar, e o marido Boca de Cantor – têm significativa presença em “Nem Tudo é Paz e Amor”, segundo longa-metragem de Betão. O primeiro, “Samba de Santo – Resistência Afro-Baiana”, foi realizado seis anos atrás.
A ideia do filme nasceu de projeto de Jasmin Pinho, colega desde a adolescência de Betão. A morte prematura da cineasta transformou o filho de Boca de Cantor em herdeiro do argumento por ela esboçado. Ele preservou a intenção original: ouvir os filhos da Contracultura e da Psicodelia, que cresceram em casas sem sofás, sem mesas com cadeiras postas para almoço e jantar (substituídas por almofadas coloridas), sem rotina similar à dos seus colegas de escola, criados em lares burgueses.
Betão colheu os testemunhos de Moreno Veloso, Nara Gil, Sarah Sheeva (ex-R’iroca), Ciça Morais (filha do saudoso Moraes Moreira), Beto Lee, Anelis Assumpção, Areia Duarte, Minom Pinho e Maria Meneghini, esta última irmã do cineasta. Todos contam histórias muito curiosas. Algumas muito divertidas.
Ninguém, entre os que prestaram seus testemunhos íntimos, guarda rancor. O documentário constrói-se em registro de filhos amorosos, todos já quarentões, que amadureceram e puderam entender o tempo histórico vivido por seus pais. Compreenderam os projetos de vida, sonhos e anseios (revolução sexual, experiências com drogas capazes de ampliar percepções, fim da caretice conjugal) experenciados na virada dos anos 1960 e prolongados na década de 1970.
Boca de Cantor lembrará que, naquele tempo, todos acreditavam que as mudanças se processariam de forma rápida. O tempo foi passando e descobriram que as mudanças eram mais difíceis e demoradas do que se imaginava.
Sarah Sheeva, hoje pregadora evangélica e cantora gospel, ganhou dos pais (Baby Consuelo e Pepeu) o nome de R’iroca. Ela lembrará o trauma que carregou na infância e adolescência pois, na escola, quando a professora anunciava seu nome, durante a chamada, todos os colegas riam. Além de estranho, o R’iroca lembrava piroca.
Veio, então, a busca legal para que se fizesse a devida mudança no registro civil. Ela pensou em ter nome similar ao de Cosma Shiva, filha da cantora alemã Nina Hagen. A própria mãe, Baby Consuelo, que escolhera o exótico e original nome da filha, avisou que Cosma ia virar gosma. Foi então que a adolescente acolheu a sugestão materna, Sarah. “Achei lindo e combinei com Shiva”.
No mesmo caminho segue o depoimento de Maria Meneghini, que os pais (Marília Aguiar e Boca de Cantor) só registrariam em cartório dois anos depois do nascimento dela. Adotaram, por dois anos, o apelido de Buchinha. Quando João Gilberto visitou os Novos Baianos, ele cantou composição que falava de Maria. Os pais decidiram que a menina se chamaria, pois, Maria. “Dois anos para decidir por nome tão comum”, constata, com serenidade, a irmã do cineasta.
Marília, mãe de Maria e de Betão Aguiar, continua firme na defesa dos ideais dos tempos da Contracultura. Da era hippie. Embora nunca tenha se sentido como integrante da geração Paz e Amor. “Só me descobri hippie quando assisti ao documentário ‘O Barato de Iacanga’ (Thiago Mattar, 2019)”. De seu sólido testemunho brotará uma autocrítica, seguida de uma única proposta de mudança. “Que os nomes sejam escolhidos pelos próprios filhos, na hora devida, e não impostos por seus pais”.
Moreno Veloso, filho de Dedé e Caetano, sobrinho de Sandra Gadelha, mãe de Nara Gil, lembrará o tempo de buscas pela liberdade sexual (e uso de drogas) com igual serenidade. Contará, inclusive, que os pais se espantaram quando ele se afirmou como heterossexual. “Me perguntaram se eu tinha certeza de que aquela era mesmo a minha opção”, relembra, bem-humorado. Para, em seguida, matizar o que foi inesquecível em sua infância e adolescência:
— Sabe o que é estar andando pela casa e encontrar o Tim Maia, com aquele vozeirão maravilhoso, cantando na sala? E, em outro dia, ver Milton Nascimento e poder constatar que ‘aquela pessoa e aquela voz existem!’
Anelis Assumpção, também muito articulada, soma rebeldia à sua paixão pelo pai, Itamar Assumpção (1949-2003). Lembrará a trajetória do “Nego Dito Beleléu”, obrigado a conviver com adjetivos incômodos como “marginal e maldito”, sendo ele o único negro da Vanguarda Paulista.
Para Anelis, o movimento musical paulistano foi fruto de pensadores e artistas brancos, oriundos da USP. E exemplifica: “Arrigo Barnabé, branco e intelectual, não viveu sob o peso da marginalidade e da maldição. Meu pai, sim”.
Ao construir seu documentário tecido com relatos íntimos, Betão fugiu do tradicional formato “cabeças falantes”, pois compôs ensaio visual formado de fragmentos de filmes de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, com o devido destaque para duas musas da época, Helena Ignez e Maria Gladys. E com a participação da apolínea Lilian Lemmertz em “Copacabana mon Amour” (1970).
Betão e seu montador Marco Korodi somaram à obra dos dois criadores da prolífica Belair, trechos de realizações de Andrea Tonacci (“Bang Bang”), Antônio Carlos da Fontoura (“Os Mutantes”), André Luiz Oliveira (“Meteorango Kid”), Elyseu Visconti (“O Lobisomen – O Terror da Meia-Noite”), Ivan Cardoso (“Nosferatu do Brasil”), Jairo Ferreira (“O Vampiro da Cinemateca”), Jorge Mautner (“O Demiurgo”), Agripino de Paula (“Hitler do Tereiro Mundo”), Neville D’Almeida (“Mangue Bangue”), Walter Lima (“Rogério Duarte – O TropiKaosLista”), Edgard Navarro (e seu seminal “SuperOutro”), sem esquecer Solano Ribeiro e seus registros (“Novos Baianos Futebol Clube”, 1973), feitos num sítio fluminense. O produtor musical, organizador de tantos festivais da canção, registrou as vidas musical-comunitária-
Caberá à bela Areia Duarte dar o testemunho mais difícil e revelador do filme. Ela lembrará que o pai, o multiartista Rogério Duarte (autor do cartaz de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, pano de fundo do cenário escolhido por Moreno Veloso) foi preso, junto com o irmão Ronaldo, depois de participar da manifestação de protesto que se seguiu ao assassinato do estudante Edson Luís (28 de março de 1968). Na prisão começou a ler a Bíblia. Depois tornou-se Hare Krishna. Seria diagnosticado com esquisofrenia e bipolaridade e transferido para instituição psiquiátrica. O próprio artista dirá, em cena do filme “O TropiKaosLista”, do baiano Walter Lima: “vivi vida de Zumbi, pirei legal”.
Depoimentos buscados em arquivos diversos enriquecerão a narrativa. Caso do baiano Glauber Rocha, que será visto em uma de suas participações no programa “Abertura”, da TV Tupi (somada a cenas de “A Idade da Terra”). E, também, dos descolados Wally Salomão, Luiz Galvão, Baby Consuelo e do já citado Rogério Duarte. Tom Zé, baiano de Irará, será evocado em imagens performáticas. Trechos de mais de vinte canções embalarão “Nem Tudo é Paz e Amor”.
O filme não criará polarizações estanques. Até porque uma das filhas dos Filhos da Contracultura lembrará que, certo dia, percebera algo desconhecido até então: na casa burguesa de colega de escola também havia graves problemas. Afinal, o ser humano é mesmo muito complexo.
Nem Tudo é Paz e Amor
Brasil, documentário, 2026, 88 minutos, 16 anos
Direção, roteiro e trilha sonora: Betão Aguiar
Argumento: Jasmin Pinho
Fotografia: Fábio Bustin e Bruno Graziano
Montagem: Marco Korodi
Testemunhos: Moreno Veloso, Nara Gil, Sarah Sheeva, Ciça Morais, Beto Lee, Anelis Assumpção, Areia Duarte, Minom Pinho, Maria Meneghini, Marília Aguiar, Helena Ignez, Paulinho Boca de Cantor
Distribuição: Pandora
