CineSesc faz de setembro o mês de culto presencial ao Cinema do passado e de inéditos contemporâneos

Foto: “A História dos Documentários: Introdução”, de Mark Cousins

Por Maria do Rosário Caetano

O CineSesc, ao promover – de 9 a 26 desse mês de setembro – a quarta edição da mostra Amor ao Cinema oficia um culto à cinefilia, pois soma momentos luminosos de nosso passado cinematográfico a realizações contemporâneas, muitas delas inéditas no circuito exibidor. Os ingressos, a preços populares, já podem ser adquiridos na bilheteria do cinema, na Rua Augusta paulistana e no espaço digital.

O passado resplandecerá no telão do cinema mais charmoso da cidade com dezenas de filmes. Um deles, o centenário “O Encouraçado Potemkin”, do soviético Sergei Eisenstein, será apresentado às novas gerações com trilhas sonoras especiais, uma britânica e uma russa. Dia 22 de setembro, o público verá o mais famoso dos filmes do Construtivismo Russo com “ambientação musical” da banda britânica Pet Shop Boys, dedicada ao synth-pop.

Quem preferir  “ambientação musical” (ou trilha sonora) mais old school contará com opção 100% eslava, pois estruturada, em 1976, com trechos das sinfonias do soviético Dimitri Shostakovich (1906-1976).

A produção contemporânea será vista já na noite inaugural de Amor ao Cinema (quarta-feira, dia 9), com “A História dos Documentários: Introdução”, o mais recente dos filmes do irlandês-escocês Mark Cousins.

Ah, mas assim não vale!”, dirá um cinéfilo familiarizado com a obsessão de Cousins por imagens do passado, ele que tornou-se o mais incansável e prolífico dos garimpeiros de imagens históricas do cinema.

Vale sim!” Afinal, Cousins vê o passado com os olhos do presente. Seus longos filmes ou imensas narrativas seriadas são organismos vivos. Nada têm de passadistas.

A História dos Documentários” teve exibições de seus primeiros capítulos nos festivais de Berlim e Cannes. O diretor, apesar de produzir, sem descanso, um título colado no outro, segue inspirado e criativo. 

Cousins tornou-se famoso graças à sua monumental “História do Cinema: uma Odisseia”. E sua fama foi crescendo com novas e empolgantes realizações como “Marcha sobre Roma”, “Eu Sou Belfast”, “Na Estrada com Kiarostami” e “Os Olhos de Orson Welles”. A mostra Amor ao Cinema apresentará, também, dois capítulos de sua “A História do Cinema: uma Nova Geração”.

O irlandês empreende, no primeiro episódio (60 minutos) de seu “documentário sobre os documentários”, o início de sua caminhada histórica pelo universo do cinema não-ficcional. E o faz com a intenção de traçar amplo panorama da evolução do gênero, revisitando filmes fundamentais como “Shoah”, de Lanzman, “Os Catadores e a Catadora”, de Agnès Varda, “Basquete Blues”, de Steve James, “Paris is Burning”, de Jennie Livingston, entre muitos outros. Dando a devida ênfase a filmes de mulheres documentaristas, esquecidas pela historiografia oficial.

Entre o “Encouraçado Potemkin” (1925) e “A História dos Documentários: Introdução” (2026), os cinéfilos paulistanos poderão assistir a mais 50 filmes, a maioria de longa-metragem. Mas enriquecida com formidáveis curtas, como “Cão Andaluz” e “A Idade do Ouro”, da dupla Buñuel-Dali, e o brasileiro “Alma no Olho”, de Zózimo Bulbul. Sem esquecer obras mais recentes como “Entrevistas com Fantasmas”, de LK, e “Lucrécia”, de Cristiano Burlan. Com este sintético filme (apenas 11 minutos), o diretor de “Mataram meu Irmão” registra passagem da argentina Lucrécia Martel pelo Brasil, em 2007. Naquele exato momento em que ela a todos impressionava com ficções como “O Pântano” (2001) e “A Menina Santa” (2004). Da realizadora salteña, será exibido o perturbador “A Mulher sem Cabeça”, de 2008.

A mostra Amor ao Cinema estrutura-se sobre dois eixos: o dos Filmes sobre Cinema e os dos Filmes de Ruptura. A curadoria escolheu “52 títulos, entre clássicos e inéditos. Há filmes dedicados aos bastidores da produção audiovisual e à cultura cinematográfica (obras metalinguísticas) e, também, a produções que desafiaram convenções, empenhados em explorar novas possibilidades narrativas e estéticas (os filmes de ruptura).

No eixo Filmes sobre Cinema, destacam-se o inédito “Arquivo Vivo”, de Vincent Carelli e Ana Carvalho, que revê a história do seminal Vídeo nas Aldeias, “Os Diários de Ozu”, de Daniel Rain (sobre o “cineasta do tatame”), “Cinéma Laika”, do croata Veljko Vidak, o argentino “A Noite Está Partindo”, de Sonzini e Salinas (híbrido de ficção e documentário noir), “Amador”, filme da juventude de Kieslowski, “Primavera para Hitler”, de Mel Brooks, “The Watermelon Woman”, de Cheryl Dunye, “A Divina Comédia”, do iraniano Ali Asgari, “White Snow”, do indiano Praveen Morchhale, “Blow-Up”, de Antonioni, e “Na Teia da Aranha”, de Kim Jee-woon, mergulho no caos de uma produção audiovisual coreana.

Diversos títulos brasileiros enriquecem esse segmento “cinema no cinema” – o ensaístico “Filmar ou Morrer”, de Lúcia Nagib, o belíssimo “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes, o cearense “Morte e Vida Madalena”, de Guto Parente, e os documentários “Para Vigo me Voy”, de Lírio Ferreira e Karen Harley, “Milton Gonçalves, Além do Espetáculo”, de Luiz Antonio Pilar, e “A Negação do Brasil”, mergulho de Joel Zito Araújo na ficção televisiva que reforçou estigmas contra os brasileiros de origem afro.

E há que destacar-se a homenagem ao cineasta baiano Fernando Coni Campos (1933-1988), com exibição de seu metalinguístico “Ladrões de Cinema”, complementada por seu inventivo perfil (“Cada um Vive como Sonha”, de Abramo e Rossi), sem esquecer programação para infantes (no Cineclubinho), espaço reflexivo a cargo de Fernanda Pessoa e seu documentário “Histórias que nosso Cinema (Não) Contava” e extensão no streaming (Sesc Cinema em Casa, com oito títulos).

Para o eixo dos Filmes de Ruptura, além do “Potemkin”, serão vistos “Metropolis”, de Fritz Lang, um dos esteios do Expressionismo Alemão, o thriller psicanalítico “Quando Fala o Coração”, de Alfred Hitchcock, “As Pequenas Margaridas”, da tcheca Věra Chytilová, “Uma Mulher sob Influência”, de John Cassavetes, “Eles Vivem”, de John Carpenter, e, entre muitos outros,  o notável (e obrigatório) “A Garota Negra”, do senegalês Ousmane Sembene (de sintéticos e poderosos 65 minutos).

A Revista de CINEMA escolheu dois filmes – o britânico-brasileiro “Filmar ou Morrer”, de Lúcia Nagib, e o estadunidense “Quando Fala o Coração”, de Alfred Hitchcok – como representantes de cada um dos dois eixos de Amor ao Cinema.

A cineasta paulistana Lúcia Nagib, de 69 anos, tem brilhante carreira como professora e pesquisadora. Autora de muitos livros (entre eles, “World Cinema and the Ethics of Realism”) e orientadora de diversas dissertações de mestrado e teses de doutorado (primeiro em universidades brasileiras, e depois em instituições da Grã-Bretranha), ela resolveu, por sorte, tornar-se cineasta.

Em 2019, em parceria com Samuel Paiva, Lúcia dirigiu “Passagens”, dedicado ao cinema brasileiro contemporâneo, com grande destaque para filmes pernambucanos.

Passados seis anos, ela fez sua estreia solo com “Filmar ou Morrer”. Mais uma vez, o cinema é sua fonte de inspiração. Com pegada ensaística, Lúcia investiga como “os filmes nascem de outros filmes e se tornam questão de vida ou morte para seus realizadores”.

“Filmar ou Morrer” fez sua première brasileira na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Os cinéfilos que frequentam o CineSesc hão de mergulhar no novo ensaio da pesquisadora-cineasta.

“Filmar ou Morrer”, de Lúcia Nagib

Wim Wenders e seu “O Estado das Coisas” (1982) servem como ponto de partida para esse filmensaio de 89 minutos. Lúcia vai tecer relações entre “filmes interconectados”, abrindo espaço para refletir sobre a suposta “morte do cinema após o fim da história”.

A morte de Glauber Rocha (1939-1981), o “profeta cinemanovista” (segundo Paulo Emilio), ganhará significativo espaço na teia cinematográfica nagibiana.

“Após o fracasso crítico de seu último filme (‘A Idade da Terra’, 1980), em Veneza” — reflete a cineasta —,  “a morte, tragédia prevista pelo próprio Glauber, se aproximaria dele. Em Sintra, cidade portuguesa, o baiano encontraria o belga Patrick Bauchau, protagonista de ‘O Estado das Coisas’, e diria: ‘Sintra é um belo lugar para morrer’”.

A ensaísta irá explorar “o leitmotiv das mortes cinematográficas e reais, percorrendo a experiência conturbada de Wenders com Coppola no (filme) ‘Hammett’, a “apropriação” (feita em “O Estado das Coisas”) pelo diretor alemão do elenco e equipe de ‘O Território’ (Raul Ruiz, 1981), a relação da crítica e diretora Laura Mulvey com Patrick Bauchau, que a introduziu no mundo da cinefilia, e a forte conexão de Walter Salles com Wenders. O realizador brasileiro participa do filme. Assim como o produtor português Paulo Branco.

“Quando Fala o Coração”, de Alfred Hitchcock (EUA, 1945, 117 minutos), está inserido no eixo Filmes de Ruptura. Obra menos valorizada do realizador britânico, o filme conta (como seu romântico título brasileiro, que nada tem a ver com o original “Spellbound”) uma história de amor incondicional entre a Dra. Constance Petersen (Ingrid Bergman) e o jovem J.B. (Gregory Peck).

A bela e jovem Constance trabalha como psicóloga em clínica para portadores de transtornos mentais. O local está prestes a mudar de direção, pois o Dr. Alexander Brulov será substituído pelo Dr. Anthony Edwards. Ao chegar, Edwards surpreende os médicos locais pela sua jovialidade e também por seu estranho comportamento. Logo Constance descobrirá que ele é na verdade um impostor, que perdeu a memória e não sabe dizer quem é. Nem o que aconteceu com o verdadeiro médico.

Em sua fértil conversa com François Truffaut (“Le Cinéma Selon Alfred Hitchcock”, Éditions Robert Laffont, 1966), o diretor de “Janela Indiscreta” aceita as críticas do colega francês. Para Truffaut, que assistira ao filme às vésperas das famosas conversas (as edições brasileiras intitulam-se “Hitchcock-Truffaut”), fazia-se necessária uma confissão: “não gostei tanto do roteiro” (iniciado pelo britânico Angus MacPhail, mas levado a cabo pelo dramaturgo Ben Hecht). E mais: Truffaut pergunta ao inglês se ele ficaria chocado, se o ouvisse afirmar que “o filme é decepcionante”.

Hitchcock responde: “Não, não. Estou de acordo, acho que tudo é muito complicado e que as explicações do final são confusas demais”. Truffaut seguirá sua avaliação, elogiando o desempenho de Ingrid Bergman, mas acusando Gregory Peck de não ser um ator hitchcokiano, pois “oco” e “sobretudo não tem nenhum olhar”.

Os dois cineastas refletem sobre o papel do sonho na narrativa. Em especial aquele que, em “Speelbound”, foi desenhado por Salvador Dali. Mas que, por problemas de produção, não foi filmado em externa, como queria o cineasta. Sem o consentimento do poderoso produtor (David O. Selznick), o jeito foi “filmar o sonho em estúdio”.

Com impressionante senso de auto-crítica, Hitchcock admitirá que, realizou “mais um filme sobre história de caça ao homem”, envolta “em pseudopsicanálise”.

O mestre do suspense foi ao ponto. O maior problema de “Spellbound” está na visão mecânica e utilitária da psicanálise. A trama, escrita pelo dramaturgo Ben Hecht (autor de incrível texto teatral que deu origem à corrosiva comédia “A Primeira Página”, de Billy Wilder), reduz a psicanálise (seis anos depois da morte de Freud) a procedimentos de tal forma simplificados que soam risíveis. E mágicos, embora seus praticantes (no filme) tenham a psicanálise em alta conta. Como uma ciência da mente.

No terreno do streaming (Sesc Digital), a mostra Amor ao Cinema reúne oito longas-metragens. Uma ficção sul-coreana (“Homenagem”, de Shin Su-won, 109 minutos) apresenta-se como estimulante novidade. Os que amam “caçadores de nitrato”, aquelas pessoas que vivem para trazer ao presente (e legar ao futuro) obras do passado, hão de emocionar-se com a história de uma cineasta, envolta em enormes dificuldades, que passa a contar com solidariedade e reconhecimento inesperados ao aceitar o trabalho de restaurar filme clássico, realizada por uma diretora coreana, quase 70 anos atrás. Até então, realizadores do sexo masculino eram presença avassaladora nessa cinematografia que tornar-se-ia conhecida mundialmente com o êxito de “Parasita”, de Bong Joon-ho.

“Humberto Mauro”, de André Di Mauro, mergulho no cinema-cachoeira do mineiro de Volta Grande-e-Cataguases, há de encantar a muitos. Outros poderão interessar-se por “Mazzaropi – O Cineasta das Plateias”, de Luiz Otavio de Santi, ou “O Coringa do Cinema”, de Sergio Kieling. Eles são os representantes brasileiros no streaming sesquiano.

A programação online reúne ainda produções internacionais como “Fragmentos da Vida”, do chinês Wei Shujun, “Meu Nome É Maria”, de Jessica Palud, e dois títulos de Chantal Akerman, “Não é um Filme Caseiro” e “Os Encontros de Anna”.

Para a criançada, Amor ao Cinema oferece duas joias programadas para as vesperais do Cineclubinho. São, ambas, produções francesas tributárias do cinema de animação e imperdíveis: “Maya, me Dê um Título”, de Michel Gondry (2024, 62’, dublado e livre para todas as idades). E “Príncipes e Princesas”, de outro Michel, o Ocelot (2000, 70’, dublado e também com indicação livre).

 

IV Mostra Amor ao Cinema
Data
: 9 a 26 de setembro
Local: CineSesc e Sesc Digital (de 11 de setembro até 11 de novembro, com acesso gratuito e descomplicado)
Ingressos: à venda para as sessões presenciais nas bilheterias do Sesc São Paulo. Ou pelo aplicativo Credencial Sesc e site centralrelacionamento.sescsp.org.br – R$ 20,00 (inteira), R$ 10,00 (meia) e R$ 6,00 (para comerciários)
Abertura: “A História dos Documentários: Introdução” (Reino Unido, 2026, 60’, 16 anos), na quarta-feira, 9 de setembro, às 20h, sessão gratuita – retirada de ingressos com 60 minutos de antecedência.
Mais informações: sescsp.org.br/amoraocinema

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