O Brasil tem chances de disputar o Oscar internacional pela terceira vez consecutiva?

Foto: “Dolores”, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes © Mujica Saldanha

Por Maria do Rosário Caetano

Quais são as chances do Brasil conquistar uma vaga entre os cinco finalistas ao Oscar de melhor filme internacional?

Há possibilidades concretas de um longa brasileiro figurar – como “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho – na cerimônia de número 99, que a Academia de Artes e Ciências Cinematográfica de Hollywood realizará no dia 14 de março de 2017?

Se chance houver, será a primeira vez, em nossa história cinematográfica, que um filme brasileiro estará na disputa pela terceira vez consecutiva. E há que se lembrar que “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” foram indicados, também, na categoria principal, a de melhor filme, ao lado de produções norte-americanas e europeias. E que o filme de WSJr conquistou o primeiro (e único) Oscar brasileiro.

As chances, nesse ano, não parecem animadoras. Em janeiro deste ano, na Mostra de Cinema de Tiradentes, o produtor Rodrigo Teixeira, parceiro de Walter Salles no triunfo de “Ainda Estou Aqui”, afirmou, com todas as letras, que a possibilidade de chegarmos, pelo terceiro ano consecutivo, ao Oscar, era reduzidíssima.

Em encontro com a imprensa, no recém-concluído Festival de Cinema de Gramado, Teixeira foi menos categórico. Preferiu, diplomática e cautelosamente, dizer que chegaremos à condição de postulante ao prêmio internacional da Academia de Hollywood, se conseguirmos indicar uma produção que tenha: 1. “boa distribuição nos EUA”, 2. “capacidade de mobilizar os 85 votos dos brasileiros associados à Academia estadunidense”, 3. “bom diálogo com os associados hispano-americanos à mesma academia”, 4. “capacidade de dedicar longos meses a intensa e exaustiva campanha promocional nos EUA”.

Dos 15 títulos pré-indicados pela Academia Brasileira (seis pré-finalistas serão conhecidos no dia 9 de setembro, o eleito, uma semana depois), o coprodutor de “Ainda Estou Aqui” abordou das chances dos três que tiveram (ou terão) exposição em festivais internacionais: “Feito Pipa”, de Allan Deberton, e “Nosso Segredo”, de Grace Passô, ambos exibidos em mostras paralelas do Festival de Berlim (o primeiro recebeu prêmio no segmento Generation), e “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins. Este longa-metragem, protagonizado por Rejane Faria, musa da produtora mineira Filmes de Plástico, participará do Festival de Toronto (entre 10 e 20 de setembro).

A estreia de “Vicentina” está programada para o dia 5 de novembro. Quinze dias depois, ele chegará à grade da Netflix. Registre-se que outro filme de Martins (“Marte Um”, 2023) foi indicado pela Academia Brasileira, mas não chegou à condição de finalista ao Oscar internacional.

Dessa vez, a Filme de Plásticos trabalha com parceira das mais influentes, a Netflix. Resta saber se a poderosa plataforma de streaming (ela investiu US$50 milhões na série colombiana “Cem Anos de Solidão”) terá “Vicentina Pede Desculpas” entre seus filmes dignos de atenção. Ou se as apostas se darão em outros títulos e nacionalidades.

Em Gramado, os jornalistas e críticos que conversaram com Rodrigo Teixeira quiseram saber se ele enxergava “100 Dias”, de Carlos Saldanha, realizador com significativa experiência em Hollywood, como um filme com chances de também ser o escolhido brasileiro.

O produtor não opinou sobre esta produção em específico. Trata-se de longa-metragem baseado no livro “Cem Dias entre Céu e Mar”, de Amyr Klink e protagonizado por Filipe Bragança. Sua première brasileira acontecerá na noite de encerramento do Festival do Rio (11 de outubro) e sua estreia comercial está prevista para o dia 29 de outubro.

Rodrigo Teixeira participou do último Festival de Gramado, com o filme “La Perra”, ao lado da produtora Graziella Ferst e do ator Selton Mello © Ticiane da Silva/Ag.Pressphoto

Rodrigo Teixeira não descartou a possibilidade de que algum dos 15 filmes brasileiros pré-indicados chegue aonde chegaram “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”. Mas desenhou quadro realista da competição, baseado em experiências próprias (ele viu duas de suas coproduções premiadas – além de “Ainda Estou Aqui”, o longa “Me Chame pelo seu Nome”, de Luca Guadagnino). Baseado, também, no conhecimento de quem integra “o Comitê-Executivo do Oscar e briga por nosso território, a América Latina”, o produtor analisou, com mais detalhes, as condições imprescindíveis aos que querem chegar à mais badalada competição do cinema mundial:

Exibicão nos EUA – “A concorrência é brutal. Este ano, os festivais, Cannes em especial, colocaram filmes como ‘Fiorde’, do romeno Cristian Mungiu (vencedor da Palma de Ouro), ‘Minotauro’, do russo Andrey Zyvgintsev (produção francesa), ‘Bola Negra’, dos espanhóis Los Javis, ‘Covarde’, do belga Lukas Dont, ‘De Repente’, de Ryûsuke Hamaguchi, e ‘Fatherland’, do polonês Pawel Pawlikowski, em posição de grande destaque. Além deles, dezenas de novas produções se destacarão em outras importantes vitrines internacionais. Caso de ‘A Possible Love’, de Lee Chang-dong, selecionado para os festivais de Veneza e Toronto”.

Diálogo com os 11 mil integrantes da Academia – “Se os filmes que postulam vaga como finalista ao Oscar não chegarem à maioria dos 11 mil votantes da Academia de Hollywood, como é que eles poderão receber o número de votos necessários? É preciso, também, contar com empresas como, por exemplo, a Neon, que fez a campanha vitoriosa de ‘Parasita’ (Bong Joon-ho, 2019) e de ‘Anora’ (Sean Baker, 2024). O Brasil conta hoje, ao lado do México, com o maior número de sócios de origem latino-americana da Academia do Oscar. Mas somos poucos quando lembramos que há 11 mil votantes. Faz-se necessário ponderar que contamos, atualmente, com notável representação no Globo de Ouro. Mas o mesmo não acontece na Academia. A cada ano, uns 260 filmes chegam à instituição. Se não contarem com um forte de esquema de distribuição, eles não serão vistos pelos acadêmicos. Quem não é visto não recebe votos”.

Fazer campanha nos EUA – “Por que as campanhas de ‘Ainda Estou Aqui’ e ‘O Agente Secreto’ foram vitoriosas? Por que ambas obtiveram vaga na categoria ‘melhor filme internacional’ e figuraram entre os 10 postulantes a melhor filme? Além de suas evidentes qualidades e de terem sido premiados – o primeiro em Veneza (melhor roteiro) e o segundo em Cannes (melhor direção e melhor ator) – os dois filmes foram defendidos incansalvelmente por seus diretores e atores. Walter (Salles) passou praticamente seis meses nos EUA. Fernanda (Torres), três meses, Selton (Mello) dois. O Kleber (Mendonça) fez o mesmo. Wagner Moura trabalhou incansavelmente. Quem quiser chegar lá tem que saber que terá que fazer dezenas e dezenas de viagens. Nossas vidas mudam. A gente perde contato com a família. Fiz 16 viagens intercontinentais nos últimos meses. Enfartei 50 dias atrás (Teixeira está trabalhando a campanha de “Tigre de Papel”, novo filme do estadunidense James Gray, que ele produziu) e o médico me exigiu contenção, uma trégua”. O produtor trabalhava, também, pela indicação de “La Perra”, da chilena Dominga Sotomayor, mas o país andino optou por “El Deshielo”, de Manuela Martelli, integrante do trio de protagonistas de “Machuca”, de Andrés Wood, 2004.

FILMES JÁ INDICADOS A DISPUTAR VAGA A MELHOR LONGA INTERNACIONAL

. “El Deshielo”, de Manuela Martelli (Chile)
. “En el Camino”, de David Pablo (México)
. “De Repente”, de Ryûsuke Hamaguchi (Japão)
. “A Possible Love”, de Lee Chang-dong (Coreia do Sul)
. “Covarde”, de Lukas Dont (Bélgica)
. “Everytime”, de Sandra Woller (Alemanha)
. “Gaza Who Is Still Alive”, de Nicolas Wadimoff (Suíça)
. “Aontas”, de Damian McCann (Irlanda)
. “Our Loves”, de Avi Nesher (Israel)
. “Rose”, de Markus Schleinzer (Áustria)
. “Nina Rozas”, de Geneviève Dulude-De Celles (Canadá)
. “9 Temples to Heaven” de Sompot Chidgasornpongse (Tailândia)

OUTROS CANDIDATOS BRASILEIROS

. “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo (Brasília) – O filme estreou em mostra paralela no Festival de Berlim. Teve bom desempenho em festivais brasileiros e modesta carreira nos cinemas.

. “Cinco Tipos de Medo”, ficção de Bruno Bini (Mato Grosso) – Triunfou no Festival de Gramado e obteve razoável destaque em alguns festivais internacionais.

. “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai (RJ/SP/PI) – Estreou em mostra paralela no Festival de Berlim e vem sendo bem-recebido em festivais nacionais. Como se trata de longa documental, quem sabe consegue figurar entre os “100 pré-finalistas” nessa categoria.

. “Malês”, ficção histórica de Antônio Pitanga (Rio-Bahia) – Alcançou significativa bilheteria no Brasil (150 mil espectadores), mas discreta presença em festivais.

. “Ato Noturno”, ficção de Márcio Reolon e Filipe Matzembacher (RS) – Ousado em sua abordagem homoafetiva, fez boa carreira em festivais nacionais e internacionais (estreou na mostra Panorama, em Berlim).

. “Dolores”, ficção de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes (SP) – Passou por vitrines internacionais e nacionais, mas com discrição.

. “Papagaios”, de Douglas Soares (RJ) – Ficção que teve boa arrancada no Festival de Gramado, mas não se destacou em festivais internacionais.

. “Herança de Narcisa”, de Clarissa Appelt e Daniel Dias (RJ) – Ficção de terror, que passou discretamente pelos cinemas.

. “O Rei da Internet”, ficção de Fabrício Bittar (SP) – Um filme desenhado para dialogar com o grande público. O que não aconteceu. Está disponível no streaming (Globoplay).

. “A Conspiração do Condor”, ficção de André Sturm (SP) – Embora seu produtor-diretor-distribuidor seja ousado e profundo conhecedor do mercado de cinema (internacional e brasileiro), o filme não passou pelo circuito de festivais, nem fez sucesso de público.

. “Quando Vira a Esquina”, de Chris Alcazar (RJ) – Documentário que explora vida e reflexões de mulheres que atuam na Vila Mimosa, reduto de prostituição carioca.

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