FAM comemora 30 anos com exibição de “Virtuosas” e de filmes que apostam no diálogo entre cinematografias do Mercosul
Foto: “O Pai e o Pajé”, de Iawaretê Kaiabi
Por Maria do Rosário Caetano
“Virtuosas”, longa de terror feminista, criação da cineasta Cíntia Domit Bittar, é o convidado inaugural do Festival Internacional de Cinema Florianópolis Audiovisual Mercosul, o FAM, que está celebrando sua trigésima edição.
O festival catarinense começa nessa quinta-feira, 3 de setembro, e prossegue até o dia 9, quando serão entregues os troféus Panvision aos vencedores de suas diversas mostras competitivas. Serão exibidos 46 filmes, a maioria brasileiros (seis deles catarinenses), que se somarão a produções originárias do Uruguai, Argentina, Colômbia e Equador.
O longa-metragem de Cíntia, que abrirá o festival, é protagonizado pela atriz catarinense Bruna Linzmeyer. A sessão, em caráter hors concours, acontecerá no Cine-Teatro Álvaro de Carvalho e deve mobilizar grande plateia. Afinal, trata-se de narrativa 100% produzida (e ambientada) em Santa Catarina.
A diretora de “Virtuosas” integra o time de jovens realizadoras que têm mantido vívido diálogo com o horror cinematográfico. Mas que o público não espere sustos apavorantes, nem rios de sangue, nem mascarados assassinos. A protagonista de sua trama, a bela e virtuosa Virgínia Heinzel (Bruna Linzmeyer) é uma influencer na área do comportamento, um modelo em cor-de-rosa, que parece saído de impecável comercial de margarina. Sua atuação como coach é destinada ao aperfeiçoamento de mulheres interessadas em espargir virtudes em seus lares. Sim, elas são “do lar” e sentem-se vocacionadas a cuidar dos maridos e filhos.
No começo do filme, veremos jovens cristãs passando por disputado processo de seleção, por meio de sorteio. Se tiverem sorte, elas irão integrar seleto e exclusivo grupo comandado por Virgínia. Participarão de processo de imersão, cujo objetivo é aumentar a feminilidade de cada uma. Isoladas em ambiente pastoral, numa casa de sonhos, algo acabará fora da ordem.
Depois da virtuosa sessão inaugural, o FAM apresentará o primeiro dos seis concorrentes da mostra latino-americana – o uruguaio-argentino “Un Futuro Brillante”, de Lucía Garibaldi. Com coprodução germânica, o filme, uma ficção científica, em clima distópico, acompanha Elisa (Martina Passeggi), jovem de 18 anos. Ela vive em comunidade austera, composta em maioria por pessoas idosas, submetida a pesada rotina. Acabará sendo escolhida para ser enviada ao Norte, uma espécie de terra prometida. Todos que a cercam, inclusive sua mãe, aguardam sua partida com grande entusiasmo. Mas Elisa perceberá que não deseja partir. E será tomada por questionamentos sobre a tirania de alguns sobre tantos.
Os outros concorrentes ao Troféu Panvision de melhor longa-metragem são o equatoriano “Mama”, de Ana Cristina Benítez; o uruguaio, também fruto de parceria com a Argentina, “Quemadura China”, de Verónica Perrotta (vencedor, ano passado, do Troféu Horizonte na Mostra CineBH), e os brasileiros “Mapas”, ficção de Rafael Lobo, “O Pai e o Pajé”, de Iawaretê Kaiabi, e “Apopcalipse Segundo Baby”, de Rafael Saar. Ambos documentários.
“Mama” chega do Equador, para contar a história de Ana (a própria cineasta Ana Cristina Benítez), que, aos 36 anos, recebe o diagnóstico de câncer de mama em estágio avançado. Ao refletir sobre a doença e o impacto dela em sua vida, a jovem encontrará refúgio em sua câmera. Passará a registrar o processo que está vivendo, dores e cicatrizes de um corpo fragilizado e exausto. Ana se conectará consigo mesma, com sua família, seu passado e suas raízes. E descobrirá que o processo de cura vai além do corpo físico.

“Quemadura China”, segundo longa-metragem da atriz, dramaturga e cineasta Verónica Perrotta é uma adaptação cinematográfica de peça teatral uruguaia. E, também, se passa no terreno do horror, pela vertente do cinema fantástico. O primeiro longa de Verónica, “Os Golfinhos Vão para o Leste” (2016), foi exibido com sucesso no Festival de Gramado.
Para entendermos a trama de “Queimadura Chinesa” (tradução literal), temos que entender primeiro o significado da expressão que lhe dá nome. Trata-se, em língua espanhola, de denominação para incômoda brincadeira infantil. Uma criança (ou adolescente) segura o pulso de outra e, com as duas mãos, faz movimentos em direções opostas. Uma mão torce para um lado e a outra, em direção contrária. De forma que a vítima da “brincadeira” sentirá na pele ardor semelhante a uma queimadura.
O filme acompanha os irmãos siameses Annie (Perrotta) e Dani (Alfonso Guzzini), que decidem submeter-se a complexa cirurgia de separação física e emocional. O procedimento será realizado pelo irmão mais velho dos siameses, Willie (Cesar Troncoso), um médico formado no exterior. Só que os planos do cirurgião são outros.
“Mapas”, uma produção brasiliense, é o primeiro longa de Rafael Lobo, de 41 anos, formado em Cinema pela UnB. Como “Virtuosas”, o filme dialoga com o cinema de horror. O diretor se propõe a explorar os mistérios da cidade de Brasília. O filme estreou no Cine PE, no Recife, e conquistou cinco troféus Calunga. Júlia (Beta Rangel) e Sérgio (Caique Copque) partem, juntos, em busca de Rebeca, uma cicloativista que está desaparecida. Eles atravessam uma Brasília silenciosa e misteriosa. A busca revelará aos dois “tragédias esquecidas da cidade, onde ruínas, memórias e presenças inquietantes se entrelaçam”.
O documentário “O Pai e o Pajé”, produzido e dirigido por cineasta indígena, Iawaretê Kaiabi, registra a luta do povo Kayabi do Xingu, no Mato Grosso, em defesa da preservação de sua cultura e espiritualidade, diante das pregações de missionários cristãos.
“Apopcalipse Segundo Baby” vem fazendo sucesso em diversos festivais, desde sua estreia no É Tudo Verdade. Rafael Saar dá voz à niteroiense Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade, a “nova baiana” Baby Consuelo, que, décadas depois de “Acabou Chorare”, adotou o nome de Baby do Brasil e somou sua carreira artística à de pregadora religiosa. Ela exerce, como a filha Sarah Shiva, o ofício de pastora evangélica. Mas Baby não abandonou suas roupas coloridas e minúsculas. Segue adepta de cabelos azuis e longe da opção pelo rosto lavado.
A artista usa sua voz para entoar, também, cânticos de louvor. Vive para o pop, a MPB e o gospel. Aos 74 anos, mãe de seis filhos e avó de três netos, a cantora-pastora segue espalhando energias e vibrações por onde passa, numa feliz “soma de Janis Joplin e Ademilde Fonseca”. Afinal, ela também foi contaminada pelo decisivo contato com João Gilberto, que, ao visitar os novos baianos, recomendou que mergulhassem no melhor de nossa música popular. Conselho dado, conselho adotado. Baby orgulha-se de sua versatilidade rítmica. Adora cantar choro. Como a chorona Ademilde.
NOTAS FLORIANOPOLITANAS
HOMENAGEM A EMILIA AZEVEDO – O FAM, em sua trigésima edição, prestará homenagem à cineasta, roteirista e produtora catarinense Maria Emília de Azevedo, que receberá um Troféu Panvision por sua trajetória. Para os curadores do evento, múltiplos os motivos justificam a homenagem: “a trajetória de Emília se entrelaça à história do nosso festival e ela tem papel de destaque na luta pela consolidação do audiovisual catarinense, sendo, portanto, uma das artífices desse sonho coletivo”. Sem esquecer “a importância de seu conjunto de realizações”, no qual se destacam “Alva Paixão”, “Roda dos Expostos”, “Um Tiro na Asa”, “Mulher Azul” e o longa-metragem “Porto Príncipe”. O comando do FAM faz questão de lembrar que “a realizadora é nome importante na preservação de nossa memória cinematográfica e no desenvolvimento e diversidade do cinema realizado em Santa Catarina”.
CAMINHADA “CINEMA & CIDADE” – O festival catarinense vai utilizar o feriado de 7 de setembro para levar convidados e público a conhecer (ou revisitar) antigos cinemas de rua de Florianópolis. O cicerone será o arquiteto, urbanista, professor e pesquisador Guga Andrade. O passeio abrangerá edificações onde funcionaram os tradicionais cinemas São José, Ritz, Coral e Cecomtur. O comando do FAM acredita que a Caminhada estimulará seus participantes a refletirem sobre o desaparecimento dessas salas e o futuro da cultura e da vida urbana no Centro de Florianópolis. A saída acontecerá no começo da tarde, tendo o TAC (Teatro Álvaro de Carvalho) como ponto de partida. O passeio, previsto para duar 60 minutos, antecederá sessão especial dedicada aos 40 anos da Cinemateca Catarinense.
NOVO LIVRO DE JOSÉ GERALDO COUTO – O escritor, tradutor, jornalista e crítico de cinema José Geraldo Couto lançará, no FAM, seu novo livro – “Conversas no Cinema – Quatro Décadas de Críticas, Entrevistas, Artigos e Reportagens”. Além da tarde de autógrafos (nessa sexta-feira, 4 de setembro), o crítico apresentará o livro aos presentes. Trata-se de coletânea de textos produzidos por Zé Geraldo ao longo de quatro décadas como crítico e repórter em jornais (como a Folha de S. Paulo), revistas (Set, Cult, Bravo e Carta Capital) e no Blog do Instituto Moreira Salles. O livro faz parte do selo “Crítica” da editora Letramento, de Belo Horizonte. “Além de textos dedicados à análise de filmes” — explicam os editores —, “o volume abarca entrevistas, artigos e reportagens, de forma a compor diversificado painel da produção cinematográfica das últimas décadas, relacionando-a sempre com a história, a cultura e as condições sociais do cinema do Brasil e do mundo”. Que os participantes do FAM fiquem atentos, pois o encontro com Zé Geraldo (no Teatro Álvaro de Carvalho, a partir das 17h) contará com cópias limitadas. Sobre o lançamento, o crítico paulista (nascido em Jaú) comenta: “lançar esse livro no FAM tem um sentido muito especial para mim. Eu vim à primeira edição do evento, em 1997, e pude conhecer o pessoal de cinema de Florianópolis”. O jornalista gostou tanto das pessoas e da cidade, que decidiu mudar-se de São Paulo para a ilha. “De lá pra cá” – conclui –, “o FAM cresceu e se tornou referência para o cinema do continente, sem perder o caráter acolhedor impresso por seu criador, o saudoso Antônio Celso”.
CURTAS HISPÂNICOS E BRASILEIROS – Dez curtas vão disputar o Troféu Panvision, que traz a representação gráfica de uma Bernúncia, ser mítico do folguedo do Boi Mamão. Cinco produções são oriundas da América Hispânica. Três da Argentina (“Casi 30”, de Mila Aquilia, “Volver a Verte”, de Román Ruberti Godoy, e “Luz Diabla”, de Paula Boffo, Gervasio Canda, Patricio Plaza) e duas da Colômbia (“Jemené”, de Ernira Bailarín, e “Refugiar el Gesto”, de Adrián Villa-Dávila e Andrés Prado). Cinco curtas representam o Brasil. Entre estes, destaca-se “A Pele do Ouro”, de Marcela Ulhoa e Yare Perdomo, vindo do extremo-norte do país (Boa Vista, capital de Roraima). O filme tem tudo a ver com o projeto do FAM, que busca, há 30 anos, integrar as cinematografias das Américas Hispânica e Lusitana. Patrícia, a “protagonista” desse documentário de composição híbrida, impresso em cores fortes e contrastadas, será vista como um corpo sem rosto. Ela escreverá diários íntimos, narrará e atuará com a jovem da “pele de ouro”. Os escritos de Patrícia revisitam suas memórias de infância em seu país de origem, a Venezuela. Um dia, a moça assumirá o propósito de buscar ouro na Amazônia brasileira. Viverá, no garimpo, experiências dolorosas e muito arriscadas. Por isso, seu rosto nunca será mostrado. Os outros concorrentes brasileiros são “A Boneka de Derìì”, de Ariska Derìì e William Dauricio (Manaus), “Zebra”, de Victor Nascimento (São Paulo), “Raízes”, de Larissa Nepomuceno, e “Vidros Fechados”, de Duran Sodré (ambos de Curitiba).
IMAGINÁRIO “BHIG” BAR – Quem se encantou com o curta-metragem “A Mulher do Atirador de Facas” (1988), que reuniu, sob a direção de Nilson “Bhig” Villas Boas, os atores Carla Camurati e Ney Latorraca, não poderá perder “Imaginário Bar”, nova realização do diretor que fez carreira em São Paulo e radicou-se em Santa Catarina. O curta que participa do FAM, uma ficção com nove minutos de duração, representa o município de Itajaí. E vai disputar o prêmio Panvision com “Gaita”, de Michele Diniz (Rancho Queimado), “Mosaico”, de Vinícius Figueiredo (Imbituba), e com os florianopolitanos “O Inquilino”, de Jordana Beck, e “A Fábrica”, de Beatriz Silva.
