“Sabes de Mim, Agora Esqueça” mostra profissionais do sexo em distopia autoritária e futurista
Por Maria do Rosário Caetano, de Brasília (DF)
Denise Vieira, diretora e roteirista de “Sabes de Mim, Agora Esqueça”, sétimo e último concorrente da quinquagésima-nona edição do Festival de Brasília, subiu ao palco do Cine Brasília com 40 integrantes de suas equipes criativa e técnica para protagonizar a mais disputada das sessões do evento.
Principal palco do mais tradicional e longevo dos 400 festivais do país, o Cine Brasília já tivera sessão lotada para o derradeiro programa da Mostra Brasília, composto com sete curtas-metragens, exibidos no final da tarde. A procura por uma poltrona para o longa ceilandense de Denise Vieira, arquiteta, diretora de arte (premiada por filmes de Adirley Queirós) e agora estreante na direção de longa-metragem, se fez ainda mais acirrada. Filas enormes cercavam o cinema desenhado por Oscar Niemeyer.
O filme teve procura ainda maior que a de “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, do mineiro André Novais Oliveira, um dos esteios da produtora Filmes de Plástico. No palco, Denise Vieira, que realizou a première seu filme na Mostra de Tiradentes e, depois, foi premiada no FID Marseille, propôs à imensa plateia brasiliense que apostasse “na intuição e putaria”. E “acreditasse na imagem” e “ouvisse o som”.
Se para alguns suas proposições pareceram enigmáticas, para outros seu recado resultou certeiro: um filme sensorial, com imagens fortes e sons inquietantes seria apresentado no telão do Cine Brasília. Um filme de putaria, representado por profissionais do sexo, atuantes em Ceilândia, cidade onde o Ceiperiferia, o mais importante e duradouro coletivo cinematográfico do Distrito Federal, atua há duas décadas.
A geografia da Ceilândia mostrada na tela é difusa. Pouco veremos da maior cidade satélite de Brasília (quase 300 mil habitantes). Até porque um puteiro (o Bordel Toca) ambienta a maior parte das sequências do filme. É nele que vivem, conversam, sonham e trabalham as profissionais do sexo, protagonistas absolutas da trama. Algumas delas serão vistas à beira de ruidosa estrada de ferro, sacudida pelo incessante barulho de imensos vagões.
O filme se passa num tempo distópico. A cidade vive sob o domínio de forças autoritárias, fincadas no pleno controle da vida social e moral de seus habitantes. As profissionais do sexo são vistas como “servas de Satanás”. Para vigiá-las, há um exército de “Lanternas” persecutórias.
Uma mulher em fuga, Rúbia (Pietra Sousa), encontra abrigo no puteiro de Margô (Cida Souza), sobrevivente da repressão movida pelos “Lanternas”. A produção reúne elementos de fantasia e ficção científica a partir de pesquisa desenvolvida por Denise Vieira sobre profissionais do sexo no período da construção de Brasília.
Em 1981, o cineasta Ozualdo Candeias realizou “A Opção” ou “As Rosas da Estrada”. Um filme sobre trabalhadoras vindas de lavouras de cana-de-açúcar em busca de novas opções de vida. Muitas se dedicarão ao sexo nas beiras de estrada. O filme de Denise Vieira poderia chamar-se “As Rosas da Estrada de Ferro”.
A diretora-roteirista preferiu o belo e enigmático “Sabes de Mim, Agora Esqueça”. Mas fez questão de captar a visualidade, o som e a fúria que circundam um caminho de ferro. Corpos, vistos como vultos ou presenças próximas, de mulheres que esperam clientes, sob a vigilância dos “Lanternas”.
O filme ceilandense tem base realista. Mas não abre mão de elementos fantásticos. O projeto brotou, como uma faísca, em 2015. Denise Vieira bebia em um bar de sua cidade. Durante ida ao banheiro, foi abordada por profissional do sexo, que perguntou se ela, Denise, não gostaria de substituí-la num ponto de prostituição.
A diretora de arte e futura cineasta não aceitou a proposta, mas viu ali, naquele convite, o ponto de partida de longa-metragem que poderia canalizar muitos de seus anseios criativos.
Começou a escrever seu roteiro, baseada em vivências de mulheres dedicadas, no dia-a-dia, ao mais antigo ofício da história humana. Amadureceu seu projeto com calma e muita troca.
O resultado foi mostrado, primeiro em Tiradentes, depois em Marseille, na França, e agora no Festival de Brasília. Sempre causando impacto. Embora o filme tenha sido preterido na hora da premiação tiradentina (o grande vencedor foi o longa documental “Anistia 79”, de Anita Leandro, escolhido do júri oficial e do júri popular), seria premiado no Festival Internacional de Cinema de Marseille, como “melhor filme de diretor estreante”.
Curioso notar a elasticidade conceitual do festival francês na hora de definir um “documentário”. “Anistia 79”, que recebeu Prêmio de Distribuição (em solo francês), se comparado com “Sabes de Mim, Agora Esqueça”, parece um documentário clássico. Um filme que resgata imagens do passado para colocá-las em diálogo com o tempo presente. Já o longa de Denise, embora tenha base documental, é uma ficção interpretada por “atrizes naturais”. Mesmo que as profissionais do sexo tenham ajudado a construir sequências inteiras de “Sabes de Mim, Agora Esqueça”, improvisando diálogos, elas representam papéis. Pietra Sousa se transforma em Rúbia, uma prostituta que vive sob a vigilância dos “Lanternas”, num tempo futuro. E que encontra e pratica a sororidade com suas colegas de ofício. Entre elas, Malu Tigreza (Erica Mailane), Safira, a Dominatrix (Samara Medeiros), Milene (Aysha Lagos) e Cacá (Tainá Cary).
É tocante a sequência em que as protegidas de Margô, a generosa dona do puteiro, conversam sobre suas vidas cotidianas, seus sonhos (uma delas, a mais nova, Milene, quer casar, ter filhos e levá-los à escola). Conversam, também, em diálogos de fraqueza desbocada, sobre a excentricidade de muitos clientes. Uma reclamará do desprazer de colocar a língua no ouvido de um cliente, pois fica com “gosto de cera” na boca. Embora não se negue a fazê-lo, pois dispõe-se a satisfazer os gostos do parceiro ocasional.
“Sabes de Mim, Agora Esqueça”, registre-se, foge do figurino pudico do cinema brasileiro contemporâneo. Traz fortes cenas de sexo explícito. Ao Correio Braziliense, principal jornal de Brasília, Denise Vieira confessou não ter condições de analisar fenômeno que se faz notar em nossos dias — o incômodo de pessoas (incluindo jovens) em assistir cenas de sexo no cinema. “Não sei como analisar esse fenômeno, mas, sinceramente, acho que há uma certa hipocrisia nesse pudor em se filmar o sexo”. Em seu primeiro longa, ela filmou sequência que inclui uma fellatio como se filmasse qualquer outra cena.
Sem dúvida, até hoje, nenhuma cineasta brasileira realizou filme tão ousado, atrevido, quanto “Sabes de Mim, Agora Esqueça”. A impressão causada por sua narrativa tem similaridades, do ponto de vista do impacto, com o causado pelo diretor Nagisa Oshima, no Japão, com seu impactante “Império dos Sentidos”.
O debate que reuniu a diretora-roteirista a suas atrizes principais, à produtora Maria Tereza Urias e ao fotógrafo Victor de Melo, foi dos mais vibrantes. Na plateia, além de dezenas de jornalistas e críticos, estavam os atores Rômulo Augusto (da famosa sequência de sexo explícito com a Dominatrix) e Nei Cirqueira.
Os dois personagens masculinos evocaram a delicadeza e o cuidado da direção. E a ótima relação com suas parceiras. Rômulo só mostrou temor de que o filme, ao ser lançado, possa ser visto por seus alunos, já que ele dedica-se, além do ofício teatral, ao magistério. “Houve quem que me dissesse que participei de um filme pornô, o que não é verdade”.
Duas atrizes fizeram questão de questionar o que se entende por filme pornô. Sanara Medeiros, a Dominatrix, foi certeira: “pornô é filme feito para homens hétero, que expõe o corpo feminino. Nada disso está no nosso filme”. Ao que Erica Mailane, a Malu Tigreza, acrescentou: “pornôs são filmes escrachados, feitos para que homens se sintam confortáveis, vendo mulheres submissas sendo subjugadas”. Nesses filmes, “o lugar de poder sexual pertence ao homem, que goza primeiro. Isso não acontece no nosso filme, escrito e dirigido por uma mulher, com visão libertária, no qual mulheres trans ou cis, pretas ou brancas, buscam o seu prazer”.
Outros trechos do debate:
PROSTITUIÇÃO NA BRASÍLIA PIONEIRA — Denise Vieira: “Pesquisei a prostituição na Brasília dos anos pioneiros. Havia zona de prostituição na Cidade Livre (atual Núcleo Bandeirante). A área era identificada como Placa das Mercedes. Havia prostituição também na Vila do IAPI. E a linha de trem ficava próxima de uma das zonas de prostituição. Mas o assunto sempre era escanteado. Mesmo no filme do Gerson Tavares (“Brasília, Capital do Século”, 1965), do qual utilizo um fragmento, o tema aparece de forma enviezada. Ele sai em busca dos trabalhadores que estão construindo a cidade e mostra rostos de mulheres. Para mim, naquele travelling lateral, ele está mostrando trabalhadoras do sexo. A narração se refere, de forma oblíqua, a “problemas que nunca terão solução”. Parece ter sido o jeito que ele encontrou para a questão da prostituição”.
PESSOAS TRANS EM NOVO ENFOQUE – Pietra Sousa, a protagonista Rúbia: “Este assunto, ou clichê, que reforça a ligação de pessoas trans com a prostituição existe e deve ser desconstruído. No meu caso há o ser trans e o ser negra. Essas duas condições trazem uma carga imagética muito forte. Sempre nos ligam ao trabalho sexual remunerado. No início de minha vida adulta, passei pela prostituição. Frequentei lugares precários, fui mal remunerada. Pude galgar novas posições. No nosso filme, fugimos do estereótipo. Tanto a minha personagem, quanto a de outras pessoas trans que estão no elenco”. Aysha Layon (Melina): “Minha personagem pode ser vista como um clichê. O da profissional do sexo sonhadora, que quer casar-se, ter filhos, levar os filhos para a escola. Eu, desde os tempos de Fortaleza, sempre me vi num lugar de deusa. Daí o tratamento dado à minha personagem. Ela é romântica. Quer, antes de ganhar um beijo na boca, ganhar um beijo respeitoso na mão. Ela quer ser ouvida, quer ser respeitada em sua ‘mulheridade’”.
LUGAR CLAUSTROFÓBICO — Victor de Melo: “Antes de realizarmos ‘Sabes de Mim, Agora Esqueça’ trabalhamos num curta-metragem que tinha proposta semelhante. Meu desafio, como homem e diretor de fotografia, era imprimir imagens que trouxessem uma sensibilidade da diretora, uma percepção feminina. Esse foi meu desafio primordial. Busquei uma elaboração de luz em espaços muitos pequenos, claustrofóbicos. O ambiente onde as profissionais do sexo atuam, conversam, vivem enfim, era uma pequena kitinete. Derrubamos paredes para termos como trabalhar. Já nos espaços externos, nos quais vemos os ‘Lanternas’ perseguindo as pessoas, nossa intenção era mostrar aquela luz excessiva, que ofuscava. Fizemos tudo de forma conjunta. Nosso trabalho resultou da atuação das atrizes, dos atores e, claro, da direção de Denise (Vieira). Foi um desafio instigante”.
OS VIGILANTES “LANTERNAS” — Denise Vieira: “A Pietra (Rúbia) me perguntava em nossas reuniões: mas quem são esses ‘Lanternas’? Eles são representantes do governo? São policiais? Estão a serviço de líderes religiosos? São tudo isso, respondi. Eles são vigilantes. Eles perseguem as pessoas, que julgam desviantes, com suas câmaras, com seus agressivos fachos de luz”.
DONA DE BORDEL QUE AMA SEU OFÍCIO — Cida Souza (Margô): “Minha personagem tem muito da minha vida real. Como ela, adoro jogar baralho, sou louca por jogo do bicho e reggae. O filme diz que eu tenho 258 anos e morri 50 vezes. Fui casada. Eu tinha uma irmã andadeira, que gostava de frequentar bares. Um dia, ela não voltou para casa. Deixou comigo a filha (Melina, no filme), de quem ajudei a cuidar. Um dia, resolvi montar um bar. Umas moças foram chegando… Duas, três, quatro. Quando vi, éramos um grupo. Ah, vou montar um cabaré e ele vai se chamar Toca. Virei uma cafetina, só que não explorava as meninas. Eu queria era que houvesse consumo no bar. Um dia, disse para mim mesma: eu não sou nenhuma Gisele Bündchen, mas também quero escolher homens e exercer minha sexualidade. E dou os meus amassos. Só não fiquei rica, porque ainda não consegui ganhar no jogo do bicho”.
SEM ÓDIO AOS HOMENS — Pietra Sousa: “Nosso filme não vilaniza os homens. Sabemos que eles fazem parte da vida. Tanto que, na nossa narrativa, o personagem do José Wilker (nome real de ator e bailarino cearense, que atua no filme e hoje vive do sexo pago) não faz parte do processo de esquecimento. Ele tem aquela cena linda, em que ele dança”. Denise Vieira: “Mostramos cena de ‘Bom Trabalho’ (Claire Denis, 1999) a José Wilker, para que ele se inspirasse e dançasse como dança, lindamente, no nosso filme”.
