“Pequenas Tragédias” coloca Catalão no mapa cinematográfico do Festival de Brasília e o faz sob calorosos aplausos
Foto © Michelle Moreira
Maria do Rosário Caetano, de Brasília (DF)
O município goiano de Catalão marcou destacada presença na tela do Cine Brasília, principal palco da quinquagésima-nona edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. E tal presença se fez notar como cenário e “personagem” de “Pequenas Tragédias”, quinto longa-metragem do discreto Daniel Nolasco, catalano de 43 anos e altura de jogador de basquete (1m92).
O filme, que participa da competição pelo Troféu Candango, impressionou por sua inventividade, humor corrosivo e pegada documental impregnada por envolvente ficção fabular. E com trilha sonora que une canções que vão de Ney Matogrosso (“Homem de Neanderthal”) a hits do agronejo. Sem esquecer cenas homoeróticas, já que “Pequenas Tragédias” é um vigoroso exemplar de narrativas queer.
O filme parte de história autobiográfica. Nolasco, afinal, é um catalano com muitas histórias para contar. A cidade se fez matriz (ou ponto de partida) de todos os seus filmes. Ele cresceu no município goiano, que hoje soma 120 mil habitantes e sedimenta-se, economicamente, no agronegócio e na mineração.
“Pequenas Tragédias” nos avisa, já no prólogo, que seu protagonista é um menino homoafetivo. Aos dez anos, ele assiste, num descampado, a um capítulo muito especial da telessérie “Barrados no Baile”. Tem, ao lado, na reduzida plateia, parentes próximos.
A modesta telinha mostra personagens do seriado norte-americano chegando a um bar gay. Um se integrará ao ambiente. O outro, o rejeitará. Para a mente em formação do menino goiano, aquela rejeição traria perplexidade. Por que aquilo acontecia? Por que aquele ambiente causava espécie a um dos jovens?
Depois do prólogo — o filme compõe-se com cinco capítulos, entreato e epílogo — veremos o garoto Daniel transformado em adolescente e, depois, num jovem adulto (mas sempre representado por Guilherme Theo).
O jovem estudará no Politécnico e entrará no mercado de trabalho (como empacotador de supermercado). No ambiente doméstico, convive com a figura materna, que viveu cinco casamentos. Um dia, o rapazinho revelará a ela que é homossexual. O que será aceito, desde que ele “não revele sua opção a mais ninguém”. Última a saber (como diz a brincadeira “tem mãe que é cega!”). Na escola, nas praças e ruas de Catalão, Daniel irá formando sua rede de amigos e frequentando espaços de convivência e relacionamentos gays.
Durante o debate do filme, Nolasco citou filme e cinematografia que lhe serviram de fonte de diálogo. Primeiro, um curta norte-americano (“Why I Never Became a Dancer”, de Tracey Emin), no qual a diretora, homoafetiva, é rejeitada por sua cidade natal (“um curta-vingança”) e o cinema alemão de Fassbinder e Rosa von Praunheim. Não citou o dramaturgo germânico Bertoldt Brecht, mas poderia ter citado. Afinal, “Pequenas Tragédias” trabalha, com brilho, técnicas do teatro brechtiano. E aposta, de forma recorrente, no ‘distanciamento crítico’.
Na melhor (e mais divertida) sequência do filme, o ator Guilherme Theo, que interpreta o próprio Daniel Nolasco, aparece vestido como vistoso cowboy (ou agroboy). Usa roupas pretas, dos pés à cabeça, cinturão arremato com grande fivela, botas e, sim, esporas. Uma atrevida cena de sexo encherá a tela. Um dos personagens movimenta-se pelo corpo nu do parceiro e intuímos que assistiremos a uma ‘fellatio’.
Só que (spoiler!!!!) o cineasta-cowboy (ele parece saído de um western spaghetti) cobrirá, com seu corpo, a cena de alta densidade erótica. E pronunciará a mais metalinguística e hilária das falas do filme: “meu distribuidor pediu para não colocar cena de sexo (explícito) no filme”. A plateia se desmanchou em sonoras gargalhadas.
Daniel Nolasco é formado em Cinema e Audiovisual pela UFF (Universidade Federal Fluminense) e em História pela UFG (Universidade Federal de Goiás). Depois de realizar uma dezena de curtas e quatro longas-metragens de baixíssimo orçamento – os documentários “Paulistas” e “Mr. Leather” e as ficções “Vento Seco” e “Apenas Coisas Boas” —, ele partiu para seu projeto mais ambicioso, este que o traz, pela primeira vez, à competição do Festival de Brasília.
“Pequenas Tragédias” custou pouco, quase nada. Sua produtora, Cecília Brito (que interpreta, na trama, uma generosa gerente de supermercado), forneceu a cifra à Revista de CINEMA: “R$900 mil”. Se comparado à grana investida no filme-encrenca “Dark Horse”, concluiremos que — com os R$63 milhões vorcarianos — Daniel Nolasco e sua trupe realizariam quase 70 longas-metragens. E olhe que a produção teve que arcar com aquisição de direitos autorais de trecho de “Barrados no Baile” e de muitas canções presentes na trilha sonora. Cecília faz questão de lembrar que “houve generosidade (preços camaradas) na maioria das negociações”.
“Pequenas Tragédias” foi debatido por Nolasco, junto com seus atores Guilherme Theo, Lucas Drummond (o sensível Samuel) e Marcelo Camargo (Jonas, o hétero e “homem de bem”), pelo diretor de fotografia (Felipe Quintella) e pela diretora de arte (Roberta Brasil). Destacamos aqui alguns trechos do debate.
RELAÇÃO DÚBIA COM CATALÃO — Daniel Nolasco: “Nasci e vivi em Catalão por muitos anos. Estudei na cidade, frequentei o Colégio Politécnico, trabalhei em supermercado de familiares dos treze aos 26 anos. Deixei a cidade em 2010. Fui estudar Cinema no Rio de Janeiro. Anos depois, voltei para realizar ‘Vento Seco’. A relação, que era brandamente conflituosa, complicou-se. O longa-metragem (sua estreia na ficção) foi distribuído pelo WhatsApp de centenas e centenas de catalanos. A repercussão, na parte conservadora da cidade, foi enorme. O filme tornou-se tema de debates em emissora de rádio, nas casas de família, por todo lado. Eu mesmo recebi o endereço para acesso pirata umas três vezes. Quando fui conferir, para ver se a cópia pelo menos era boa, não consegui assistir ao filme. Tal possibilidade já se esgotara. Ao voltar para realizar ‘Pequenas Tragédias’ nos apresentamos como uma produtora de Goiânia, o que somos na realidade, temendo que não fôssemos bem-recebidos. Mas, ao mesmo tempo, persiste uma relação dúbia da cidade em relação a mim. Se não mostro o que eles gostariam que eu mostrasse, ao mesmo tempo há aquela coisa do ‘filho da terra que faz cinema e mostra sua cidade de origem’. Quando procuramos o dono das três salas de exibição do município, uma das locações do nosso filme, fomos bem-recebidos. Já no supermercado, propriedade de parentes meus, tivemos dupla reação. A gerente, minha prima, autorizou numa boa. Mas o proprietário, também meu parente, não autorizou. Mandou uma justificativa, que fiz questão de colocar no roteiro do filme”.
ALTEREGO DE NOLASCO — Guilherme Theo: “Esse é meu terceiro longa com Daniel. Quando ele me convidou para ‘Pequenas Tragédias’ perguntei qual seria meu personagem. Ele me respondeu: ‘você será Daniel Nolasco’. Fiquei preocupado. Li o roteiro e avisei: ‘não estou vendo tragédia na trama, me parece mais uma comédia’. Fizemos reunião on-line e ele me desafiou: ‘quero me ver em cena!”. Como Daniel tem um humor muito específico, fiquei atento a esse aspecto. E me envolvi com o roteiro, com sua mensagem poética. Além do mais, contamos com a valiosa ajuda de nosso preparador de elenco, o Allan Santana”.
LUZ FORTE QUE VAI SE APAGANDO — Lucas Drummond: “Meu personagem, o Samuel, tem uma luz muito forte, é solar. Mas ela irá se apagando no desenrolar da trama. Vi fotos de crianças viadas, todas cheias de espontaneidade e alegria. Me inspirei nelas. Mas o arco narrativo do meu personagem irá dessa alegria expontânea para um tom melancólico. Samuel enfrentará o preconceito externo e o preconceito interno, que é dele mesmo. Apesar de parecer carismático e feliz, não consegue se desapegar do olhar, do julgamento alheio. Não tem a capacidade de ‘ignorar o que pensam dele’. Passei um mês em Catalão, eu que sou do Rio de Janeiro, e consegui estabelecer relação de intimidade com a cidade e com o coletivo de atores. Uma experiência única”.
CATALANO E HOMEM DE BEM – Marcelo Camargo (vestido com a camiseta azul do CRAC – Clube Recreativo e Atlético Catalano): “Nasci em Uberlândia e me coube interpretar o Jonas, um catalano, ‘homem de bem’. O personagem não se relaciona diretamente com o núcleo de protagonistas. Mesmo assim, fiz questão de me preparar junto com o coletivo de atores. Me coube representar o homem originário, aquele que representa a própria cidade, a sua parte conservadora. Aquela que, no dia-a-dia, quer impor e preservar a ordem”.
PRODUTORA E ATRIZ — Cecília Brito: “Produzi todos os longas do Daniel. E neles fiz pequenas figurações. Quando ele me chamou para interpretar Verônica, a gerente do supermercado, eu recuei. Achei que não daria conta, pois a personagem mantém forte relação de afeto com o protagonista, é chefe dele. Eu conseguiria expressar tais sentimentos? Daniel me convenceu que eu conseguiria”.
NECESSIDADE DE FABULAR — Nolasco: “Num primeiro momento, eu quis fazer ‘Pequenas Tragédias’ como um documentário. Um registro sobre minha geração, meus amigos, que deixaram Catalão para viver em Brasília, no Rio ou São Paulo. Essa ideia me veio quando eu regressei à minha cidade para fazer ‘Vento Seco’. Perguntei por amigos e colegas de escola. Entre os poucos que permaneceram em Catalão, soube que um deles morrera em condições trágicas. Por suicídio (ou teria sido assassinado por um namorado). Entendi, então, que para falar de nossas vivências LGBT, das festas, da Parada Gay, do Social Bar, eu teria que fabular. Por isso, o filme tem camadas ficcionais. Ao mesmo tempo, tomei muito cuidado ao abordar a violência. Eu não queria reproduzir a brutalidade que recai sobre os corpos LGBT. Não queria que um homofóbico, ao assistir ao filme, tivesse uma catarse. Queria, isto sim, incomodá-lo. Daí o cuidado que tomei ao contar a história de Samuel. Não queria reproduzir preconceitos. Tanto que pedi paciência à Cecília (a produtora). Pedi que me desse uns quatro meses para retrabalhar o roteiro”.
HUMOR E IRONIA — Nolasco: “Já no prólogo, e nos primeiros capítulos, muitas informações serão apresentadas. Informo sobre os lugares, pontos de encontros gays, sobre parentes, sobre minha mãe. E o efeito comédia se torna visível. Me dividi entre a comédia e a ironia, mesmo sabendo que, ao utilizar esta última, corremos o risco de não ser entendidos. Depois de uma história dramática, vinha uma piada. Quando apresentei o roteiro de 42 páginas à equipe (para leitura coletiva) fiquei desapontado. A leitura durou apenas 36 minutos. Assim, pensei comigo mesmo, terei um filme de 70 minutos se tanto. Voltei a trabalhar o roteiro. É meu longa com maior número de versões roteirizadas”. (O filme dura duas horas, exatos 119 minutos, que por sorte correm céleres na tela).
CINEMA LGBTQ E CINEMA QUEER – Nolasco: “Hoje temos duas representações do cinema que tem a homossexualidade como tema. Um, o LGBT, adota modelo que considera o ideal e tem base cristã-burguesa, inserindo-se no modelo neoliberal. Os filmes que trabalham com essa representação se negam a mostrar imagens eróticas. Podem até mostrar abraços, beijos e cenas de cama. Mas não de sexo. Já o cinema queer faz o oposto. Traz imagens eróticas, propõe a ruptura do padrão conservador. Meu cinema traz nudez e sexo. É queer. Por isso, trabalhei sob inspiração de frase-título (“Não podemos todos morrer na cama”) de Guy Hocquenghem. Ele elaborou essa ideia em texto escrito logo após o assassinato de Pasolini. A frase está num dos muitos lettering presentes em ‘Pequenas Tragédias’”.

