O truque de montagem que continua em uso dentro e fora do cinema

Fonte: Magnific

Todo mundo já viu uma linha vermelha avançando sobre um mapa na tela, marcando por onde alguém passou. O desenho aparece em filme, em site de rastreamento de voo e em jogo de celular, sempre com a mesma função, e chegou a todos eles saindo das salas de montagem de Hollywood, onde resolvia o que era caro demais para filmar.

Um traço que influencia diferentes formatos

O Flightradar24 rastreia aviação civil desde 2006. A plataforma sueca capta os sinais ADS-B que as próprias aeronaves emitem e desenha sobre o mapa a rota de cada voo em andamento, com o ícone do avião na ponta da linha e o trecho já cumprido preservado atrás. Quem abre o site identifica em um segundo qual voo acabou de decolar e qual está prestes a pousar, sem ler número nenhum. O comprimento do traço já entrega a informação.

A mesma construção aparece sem necessariamente ter um mapa por baixo. Quem faz uma aposta em Aviator, por exemplo, encontra uma silhueta vermelha de avião de hélice sobre fundo escuro, e a linha vermelha vai sendo desenhada em tempo real conforme a aeronave sobe. Quando o avião sai de quadro, a rodada termina. Nos dois casos, ninguém precisa explicar nada ao usuário. O recurso já chegou pronto às duas telas, vindo de um lugar onde economizar segundos era o foco.

De Casablanca a Indiana Jones, a popularização da ideia

Michael Curtiz tinha o mesmo problema em escala bem maior quando dirigiu o clássico do cinema Casablanca: precisava dar a rota inteira de uma fuga pela Europa antes da primeira cena. O filme estreou em 26 de novembro de 1942, no Hollywood Theatre, em Nova York, e abre com um globo girando que cede lugar ao mapa da Europa e do norte da África. A linha avança por Paris, Marselha e Oran até o Marrocos, e a plateia entende o percurso dos refugiados antes de conhecer qualquer personagem. Curtiz levou o filme a três Oscars em 2 de março de 1944, incluindo o de melhor filme.

Quatro décadas depois, Steven Spielberg recorreu ao mesmo recurso para economizar dinheiro. Em novembro de 1981, ele contou que o roteiro de Lawrence Kasdan pedia grandes montagens para levar Indiana Jones de San Francisco ao Nepal, do Nepal ao Cairo e do Cairo à ilha no Mediterrâneo. Filmar tudo aquilo era caro. Spielberg cortou as montagens e pôs no lugar o mapa-múndi com linhas animadas traçando a rota. Os Caçadores da Arca Perdida estreou em 12 de junho de 1981 e rendeu a Michael Kahn o Oscar de montagem no ano seguinte.

Spielberg tratou o traço como material que já estava na prateleira. E estava mesmo guardado por um departamento que os estúdios haviam criado décadas antes.

A origem no departamento de montagem de Hollywood

Uma das prateleiras ficava na Warner Bros., e quem a organizou foi Don Siegel, que entrou na empresa nos anos 1930 como assistente de bibliotecário de filmes, contratado por Hal Wallis. Subiu à assistente de montagem, chefiou o departamento de inserts e acabou criando e dirigindo o departamento de montagem do estúdio, uma área inteira dedicada a resolver em segundos o que a trama levaria uma sequência para contar. A sequência de abertura de Casablanca, por exemplo, é creditada a ele.

O departamento nasceu para gastar pouco, e a linha sobre o mapa era o que havia de mais barato: sem ator, sem locação, sem a necessidade de diálogos. Foi essa economia que garantiu a sobrevivência do recurso muito além do cinema. Um rastreador de voo e uma tela de jogo têm o mesmo problema que Curtiz tinha em 1942, e por precisarem informar rapidamente e não terem espaço para explicar, acaba que a fórmula usada pela Warner continua sendo uma das melhores soluções do mercado.

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