Brasil tem ampla presença no Festival de Cinema de Oberá, na Argentina
A produção audiovisual brasileira tem presença destacada no Festival de Cinema de Oberá, que será realizado de 6 a 10 de outubro, na cidade de Oberá, na província argentina de Misiones. A programação inclui filmes brasileiros em diferentes mostras, uma homenagem aos 40 anos da Cinemateca Paulo Amorim, participantes brasileiros em atividades de formação e criação audiovisual e ações voltadas à circulação do cinema na região Entre Fronteiras.
A presença brasileira se insere na própria concepção regional do festival, que reúne o Nordeste e Litoral da Argentina, o sul do Brasil, Paraguai e Uruguai como um território de intercâmbio cinematográfico. O festival trabalha para fortalecer a circulação das obras, a formação de públicos e os vínculos entre realizadores, produtores, estudantes, exibidores e instituições dos diferentes países.
Um dos destaques da programação brasileira será a Cinemateca Paulo Amorim, de Porto Alegre, que participa do festival com uma mostra especial pelos seus 40 anos.
A programação reúne o curta-metragem “Grito”, de Luiz Alberto Cassol, com seis minutos de duração, e o longa-metragem “Mulher do Pai” (foto), de Cristiane Oliveira, produção Brasil-Uruguai de 2016, com 94 minutos.
Em “Grito”, a partir de uma proposta concisa, a obra parte da ideia de que nem todo grito precisa sair da boca. Já “Mulher do Pai” acompanha Rubem, um homem de 40 anos que vive em uma pequena comunidade rural na fronteira entre Brasil e Uruguai, e sua filha Nalu, de 16 anos. Depois da morte da avó, os dois precisam reconstruir sua relação familiar em meio às transformações da adolescência e à aproximação de Rosario, uma professora uruguaia. A produção é uma coprodução entre Brasil e Uruguai.
Entre os Cortometrajes Estrenos Entre Fronteras, será exibido “O Louco”, de Guilherme Gutierres Suman, com 19 minutos. Ambientado em uma propriedade rural no sul do Brasil, o filme parte de um crime: o proprietário foi assassinado e, diante da reação indiferente do personagem conhecido como “o Louco”, a dúvida e a culpa passam a atravessar a história.
Na mostra de curtas internacionais está “Morto Não”, de Alex Reis, com 14 minutos. O filme acompanha o nascimento do primeiro filho de um jovem casal negro e os sentimentos contraditórios vividos pelo pai diante da chegada, da convivência e da perda do primogênito. A obra foi reconhecida pelo Prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro.
Também será apresentado “Manoel e Betinha”, de Marta Haas, curta de 14 minutos, que recupera a história de Manoel Raymundo Soares e Elizabeth Chalupp Soares. A narrativa atravessa a união do casal no Rio de Janeiro, nos anos 1950, a clandestinidade durante a ditadura militar, a prisão e tortura de Manoel e seu desaparecimento e morte, em 1966, em Porto Alegre. O caso ficou conhecido como o “Caso das Mãos Amarradas”. O filme integra a programação de curtas Entre Fronteiras.
A programação dedicada ao público infantil também conta com produções brasileiras. Na Muestra Accesible de la RECAM será exibido “A Menina e o Mar”, de Gabriel Mellin, curta de 18 minutos. O filme apresenta o encontro entre duas crianças que possuem formas muito diferentes de enxergar o mundo. Enquanto o menino teme o que as águas podem trazer, a menina encontra poesia em cada grão de areia. A produção brasileira foi dirigida, roteirizada e produzida por Mellin e tem produção da Rio Cinema Digital.
A mesma mostra inclui “Meu Nome é Maalum”, de Luis Copetti, que acompanha uma menina afro-brasileira criada em um ambiente familiar de referências afrocentradas. Ao chegar à escola, Maalum passa a enfrentar o racismo relacionado ao seu nome e, com o apoio da família, transforma a tristeza em orgulho por suas raízes.
Também integra essa programação “Agosto dos Ventos”, de Paulo Antunes, curta de cinco minutos sobre Pequi Niño, uma fruta que vive no quintal de uma criança e sonha participar do Catopês, uma festa popular de origem africana realizada há quase dois séculos.
A relação entre Brasil, Argentina e Paraguai aparece de maneira particularmente direta em “Porlasrmas, Zapada sin Fronteras”, de Fernando Paul Wheden, um curta musical/documental de 16 minutos.
A obra registra uma jam session realizada em Puerto Iguazú, na qual músicos dos três países se encontram para improvisar e criar juntos. O filme reflete sobre a arte, a improvisação e a capacidade de um contexto transfronteiriço de estimular uma experiência artística compartilhada.
A presença brasileira também estará representada no DIP – Documental, Intimidad y Puesta en Escena, que reúne participantes de diferentes países. Entre eles, estão os brasileiros Boy Princess, Brunella Martina, Nay Mendl e Ricardo Monteiro, além de Victor Hugooli, identificado na programação como Brasil/Portugal.
O programa apresenta exercícios realizados a partir de propostas como filmar sem roteiro, trabalhar a observação e a escuta, transformar vizinhos em personagens, reescrever cenas cotidianas e utilizar a intuição como método.
A presença brasileira no Festival de Cinema de Oberá também se manifesta no trabalho institucional desenvolvido em torno da região Entre Fronteiras.
O festival vem articulando ações conjuntamente com o Festival Santa Maria Vídeo e Cinema, do Brasil. Em agosto, os dois festivais participaram da primeira reunião de formação da Rede Entre Fronteiras, iniciativa transnacional voltada à circulação, difusão e construção de públicos para o cinema produzido no Nordeste Litoral argentino, sul do Brasil, Paraguai e Uruguai.
O encontro reuniu 25 participantes ligados a espaços, instituições e experiências audiovisuais de diferentes territórios. A proposta é que o trabalho iniciado durante o ano avance no Foro Entre Fronteras, que terá uma instância plenária durante a semana do Festival de Cinema de Oberá e deverá contribuir para uma agenda colaborativa de circulação e formação de públicos para 2026/2027.
Essa articulação também se relaciona com o Montaraz Entre Fronteras, maratona de coprodução audiovisual estudantil, que reúne universidades da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Entre as instituições participantes estão a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), do Brasil.
A presença do Festival de Cinema de Oberá também se estende ao território brasileiro por meio de espaços culturais e cineclubes que integram sua rede colaborativa de subsedes, fortalecendo a circulação do cinema e os vínculos audiovisuais na região de fronteira.
Em Foz do Iguaçu, o Espaço Cultural Alumia, em articulação com o Cineclub Inquieto, de Eldorado, e o Cineclub Nuestra Sala, recebe a Mostra de Ganadores OEC 2025. O espaço também sediou uma Mostra Entre Fronteiras em setembro.
O Cineclube Kuña Creando na Fronteira, organizado pela Ñanduti Cine e pelo LAB Ñanduti Cine da UNILA, realizou uma Mostra Entre Fronteiras em 20 de setembro. Dedicado especialmente a filmografias realizadas por mulheres, com destaque para a produção latino-americana, o cineclube concentra atualmente suas atividades no Espaço Cultural Quixote.
Já o Sudacas Bar, em parceria com a Setorial Audiovisual de Foz do Iguaçu, receberá uma Mostra de Estreias Entre Fronteiras. A Setorial reúne realizadores, produtores e profissionais do audiovisual da cidade e promove ações de articulação e circulação do cinema local e regional.
Com filmes, estudantes, realizadores, instituições e projetos de circulação presentes na programação, o Brasil participa do Festival de Cinema de Oberá não apenas através de suas obras, mas também como parte das redes de criação, formação e circulação que o festival busca consolidar entre os países da região.
A programação brasileira atravessa diferentes públicos e formatos — do cinema infantil ao documentário, da ficção ao cinema comunitário, das mostras cinematográficas aos espaços de formação e articulação profissional — reforçando a dimensão transfronteiriça do festival e os vínculos culturais entre Misiones e o sul do Brasil.
