O satírico “Digger” de Tom Cruise e Iñarritu divide a crítica, mas segue cotado a disputar dez categorias na festa do Oscar
Por Maria do Rosário Caetano
O prazer de parte da crítica internacional (e brasileira), nesse momento, consiste em destruir “Digger”, o novo filme, o oitavo, do realizador mexicano Alejandro González Iñarritu. Aos 63 anos, o bem-sucedido cineasta, cujos filmes somam treze estatuetas do Oscar, vê-se sob a tempestade, atingido por saraivada de palavras desabonadoras.
Até o protagonista absoluto do filme – o astro Tom Cruise, de 64 anos – vem sendo questionado. Para os detratores de “Digger” (e de seu diretor), Cruise nem realizará seu sonho: conquistar seu primeiro Oscar como protagonista (ele só tem uma estatueta honorária na estante).
Há que se lembrar que foi sob o comando de Iñarritu que Leonardo DiCaprio, tão bonito quanto Cruise, conquistou seu Oscar de melhor ator (por “O Regresso”, 2015). Este filme, aliás, rendeu ao mexicano sua segunda estatueta como melhor diretor (o primeiro viera com “Birdman”). E um terceiro Oscar seria outorgado ao quarto nome que o México emprestou ao poderoso cinema norte-americano: o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki.
O reconhecimento da academia hollywoodiana se deu, também, com os outros três festejados conterrâneos de Cantinflas e Figueroa – Alfonso Cuáron, oscarizado com “Gravidade”, e garfado com o magnífico “Roma”, Guillermo del Toro” (por “A Forma da Água”) e Iñarritu, que arrasou com “Birdman” (melhor filme, diretor, roteiro original e fotografia, esta categoria para Lubezki, claro!).
O cinema do mexicano que tornou-se conhecido por seu primeiro longa – “Amores Perros”, 2000 – nunca foi unanimidade. Três de seus filmes (“21 Gramas”, “Babel” e “Biutiful”) dividiram opiniões. Mas não nos moldes (e medidas) atuais. Há quem esculhambe “Digger” por ter se atrevido a transformar Tom Cruise, um resistente galã anglo-saxão, num velho muito do barrigudo. E irreconhecível à primeira vista. Para quem ostenta essa diatribe, o astro nem será indicado ao Oscar. Não seria merecedor da estatueta.
A influente Warner, que bancou o filme (custo estimado em US$130 milhões), está mostrando, a seu público potencial, que há, sim, críticas negativas a “Digger”, mas há outras positivas. Por isso, preparou anúncios – compostos com frases pinçadas nos textos detratores e nos elogiosos – capazes de estimular os potenciais espectadores a assistir ao filme. E tirarem suas próprias conclusões.
E, afinal de contas, vale a pena ver à feroz sátira engendrada por Iñarritu, a partir de argumento original, que ele roteirizou com parceiros?
Sim, vale a pena. Quem gostou de “Uma Batalha Após a Outra”, o oscarizado longa de Paul Thomas Anderson, e de “Eddington” (Ari Aster), retratos cruéis de uma América distópico-trumpiana, há de gostar de “Digger”.
O filme começa na casa do biliardário Digger Rockwell, conhecido como o homem mais poderoso do mundo. Ele é dono de megaempresas, a maior delas dedicada à exploração petrolífera. Nos EUA, no Alasca, estado associado, e na Groenlândia. Sua maior preocupação, além de ganhar cada vez mais dinheiro, é cuidar de Maggie, sua gata de estimação, velhinha e muito doente. Dorme com ela e não mede esforços para salvá-la do fim que se aproxima. Mas no justo dia em que, mais uma vez, acordou molhado pelo mijo do bicho de estimação e foi socorrido pela empregada mexicana, ele seria perturbado por informação inesperada. Sua empresa acaba de provocar catástrofe ambiental de proporções bíblicas. Gás metano escapou em quantidade necessária para gerar fenda colossal. Fenda que fez descolar gigantesco iceberg. O bloco de gelo caminha rumo à Europa e deve causar assustadores estragos físicos e humanos.
O magnata do petróleo não se abala. Nem com a franqueza de seu principal assessor, o Doutor Ganesh (Riz Ahmed), sumidade no campo ambiental. Sabe que tem costas quentes. É amicíssimo do presidente dos EUA, Compson (John Goodman, aos 74 anos, em estado de graça). Depois de reunir os mais altos dirigentes da poderosa república norte-americana em mesa decisória (tipo “o que faremos?”), ele espera contornar os dissabores anunciados. Um dos assentos é ocupado por reverendo fanático. Afinal, os EUA misturam, cada vez mais, política e religião.
Antes de seguir em frente, os espectadores (as espectadoras, em especial) hão de divertir-se com piada, que um dos integrantes da mesa produzirá sem querer, querendo. Para gáudio dos presentes.
Este prólogo, o do desastre ecológico, introduzirá a agitadíssima trama que, no total, vai durar 2h09. E que tem como razão de ser a busca de solução para a catástrofe, que já está colocando em risco a existência da Holanda e de outros países europeus. Com suas botas antiecológicas, chapéu texano, cinturão de fivela ostensiva e paletós em tons chamativos, Digger (escavador) Rockwell usará sua inteligência e esperteza para “salvar a empresa” de si mesmo. O fará sob apupos de europeus, obrigados a ouvir o que não querem.
Tom Cruise interpreta o papel mais difícil de sua carreira. Sob pesada maquiagem, que o envelhece em duas décadas, imensos textos para decorar-dizer e onipresença em cena, ele se qualifica a indicação segura ao Oscar.
Hollywood ama ver galãs se esforçando, se transmutando em personagens que nada têm a ver com suas estampas originais. O caso mais notório é o da lindíssima Charlize Theron, que transformou-se em volumosa serial killer (em “Monster: Desejo Assassino”). Ou Javier Barden, o mil vezes sádico Anton Chigurh (de “Onde os Fracos Não Têm Vez”).
Além do mais, Tom Cruise, apesar da prática da Cientologia, goza de grande prestígio junto aos produtores hollywoodianos. Lembre-se da festa que o cercou de mimos quando um de seus muitos filmes de ação, por ele protagonizados, atingiu milhões de espectadores (ainda) durante a ressaca da pandemia.
O elenco de “Digger” conta, além de Cruise e Goodman, encarnados em poderosos anciãos, com outros desempenhos notáveis. Riz Ahmed encanta com a sutileza de seu cientista que se nega a mentir. Jesse Plemons, com visual à la Mick Jagger, faz um Kenny inesquecível. Michael Stuhbarg segura bem na pele do vice-presidente dos EUA, aquele que jamais deveria embarcar no Force One junto com o presidente. Um sinistro deixaria a mais poderosa nação do mundo sem dirigente.
O elenco feminino, embora em segundo plano (esse é um filme de machos-alfa), se faz presente como a meia-irmã de Rockwell, Emma (a alemã Sandra Huller, que causou furor em “Anatomia de uma Queda”), e uma diretora teatral afro, Hanna (Sophie Wilde). Iñarritu, que fez do mexicano Gael García Bernal um astro latino, dessa vez deixa os hispânicos em papéis secundaríssimos. Caso da serviçal Adelia (Mercedez Hernández) e de um chefe de cozinha sem nome (Angel López-Silva). Há um atenuante para tanto. No mundo wasp de Digger Rockwell, gente de pele morena ou negra existe para prestar serviços subalternos.
Daqui em diante, um spoiler: ao mostrar a encenação da peça “Fossil Fools”, Iñarritu utilizará recurso metalinguístico capaz de provocar arriscado distanciamento crítico. Afastar-se, portanto, da catarse, tão cara ao grande cinema hollywoodiano. Aproveitará, então, para dialogar com os mares de plástico de Federico Fellini. Resta saber se causará um tilt na cabeça dos amantes do cinema clássico-narrativo.
E as indicações ao prêmio máximo da academia de Hollywood? O filme de Iñarritu tem alguma(s) chance(s)?
Segundo o Termômetro do Oscar, “Digger” está em quarto lugar na lista de reserva, já que, até agora, os dez favoritos são “Odisseia”, “Duna: Parte 3” (em segundo lugar? Não!!!) e o espanhol “A Bola Negra”. Seguidos pelo romeno “Fjord”, “A Grande Estreia”, “Devoradores de Estrelas”, o polaco-alemão “A Terra do meu Pai”, “O Convite” (remake de uma comédia espanhola), “Cavalo Selvagem Nove” e “Michael”. Três europeus e sete anglo-saxões. Brasileiro, então, nem pensar. Depois de dois anos gloriosos (com “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”) veio a estiagem. Zero indicações para a América Latina.
No item “direção”, Iñarritu aparece em quarto lugar, atrás de Christopher Nolan, Denis Villeneuve e do polonês Pawell Pawlikowski. E à frente do romeno Christian Mungiu.
Nas apostas do mesmo Termômetro, Tom Cruise figura em terceiro lugar na categoria melhor ator. Atrás de Andrew Scott (“Elsinor”), John Malkovich (“Cavalo Selvagem Nove”) e à frente de Matt Damon (“Odisseia”) e Ryan Gosling (“Devoradores de Estrelas”).
Na categoria coadjuvante, John Goodman aparece em segundo lugar, atrás apenas de Paul Giamatti (“A Grande Estreia”). Sandra Huller ocupa o quarto lugar entre as coadjuvantes (mas tem concorrência avassaladora em primeiríssimo lugar: Samantha Norton, por “A Odisseia”).
Na categoria roteiro original, “Digger” aparece em segundo lugar (atrás apenas de “A Grande Estreia”). Em nontagem, terceiro lugar, fotografia, idem, direção de arte, em quinto, maquiagem, em segundo, e escalação de elenco, em terceiro.
Por enquanto, “Digger” parece ter chances em dez categorias. Onze, se conseguir avançar quatro posições e figurar entre os dez candidatos a melhor filme. Nada mal para uma produção escorraçada (por parte da crítica) em sua semana de estreia.
Digger
EUA, 2026, 129 minutos, 14 anos
Direção: Alejandro González Iñarritu
Roteiro: Alejandro González Iñarritu, Sabina Berman, Alexander Dinelaris e Nicolás Giacobone
Elenco: Tom Cruise (Digger Rockwell), Riz Ahmed (Dr. Ganesh), John Goodman (Presidente Compson, dos EUA), Sandra Huller (Emma Rockwell), Jesse Plemons (Kenny), Sophie Wilde (Hanna), Mercedez Hernández (a doméstica Adélia), Angel López-Silva (chefe de cozinha)
Direção de fotografia: Emmanuel Lubezki
Trilha sonora: Cosmo Sheldrake
Montagem: Stephen Mirrione e Conor O’Neill
Produção: Alejandro González Iñarritu, Tom Cruise, Mary Parker e Michael Sharp
Distribuição: Warner
FILMOGRAFIA
2000 – “Amores Brutos” (México)
2003 – “21 Gramas” (México-EUA)
2006 – “Babel” (México-EUA)
2010 – “Biutiful” (México-EUA)
2014 – “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” (EUA)
2016 “O Regresso” (EUA)
2022 – “Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades” (México)
2026 – “Digger” (EUA)
