“Naza” reflete sobre genocídio palestino em filme que revela o “efeito colateral planejado”

Por Maria do Rosário Caetano

São imensos os atributos estéticos e temáticos de “Naza”, longa documental da dupla isaraelense Rachel Szor e Yuval Abraham, em cartaz nos cinemas brasileiros a partir dessa quinta-feira, primeiro de outubro.

O maior de tais atributos é a profundidade, que nos conduzirá à reflexão. Jamais à catarse. A dupla, premiada com o Oscar de melhor documentário por “Sem Chão” (“No Other Land”, realizado com os palestinos Basel Adra e Hamdan Ballal) não está interessada em sensacionalismo e declarações lacradoras. Ao contrário. Busca a contenção, a sobriedade. Quem for ao cinema esperando um panfleto indignado, vai frustrar-se.

A dupla de realizadores, composta de cidadãos israelenses vindos do jornalismo investigativo, realizou seu filme com o The Guardian, jornal britânico de imenso prestígio, na retaguarda. Trata-se, pois, de um longa-metragem produzido pelo Reino Unido, embora filmado integralmente em Israel, onde foram colhidos, ao longo de três anos, 24 testemunhos dos mais reveladores. Depois da passagem de “Naza” pelos cinemas do mundo (já foi adquirido para exibição em 50 países), o filme será disponibilizado no espaço digital do diário londrino.

E o que nos trazem os 24 testemunhos de militares e agentes que integram o Serviços de Inteligência de Israel?

Eles nos revelam operações do sistema Naza (abreviatura de “Nezek Agavi”, que significa efeito colateral planejado). Ou seja, ações (autorizadas pelo governo de ultradireita de Benjamin Netanyahu) de extermínio de “terroristas” palestinos. O território de Gaza é vigiado, milímetro a milímetro, pela sofisticada e implacável rede de espionagem de Israel. Todos os telefones usados no conflagrado território são controlados por alta tecnologia.

Se Forças de Segurança de Israel entendem que num determinado lar palestino vive um “terrorista”, ele será exterminado. Se tem família de cinco, oito ou dez membros (incluindo crianças), o risco de matar civis inocentes será “justificado”. Este é o chamado ‘Risco Naza’, o efeito colateral planejado. Afinal, a doutrina da Segurança Nacional do Estado de Israel trabalha com a convicção de que “não há inocentes em Gaza”.

Os testemunhos de militares anônimos, colhidos em terraços de Tel Aviv, nos informarão sobre mortes “inevitáveis” de determinado número de civis inocentes. Alguns dos “procedimentos Naza” teriam exterminado dezenas, até centenas, de pessoas (incluindo idosos, esposas e crianças). Um dos testemunhos relembra operação que matou 500 palestinos.

Casas são pulverizadas, com seus moradores dentro – nos mostrará o filme – para garantir a segurança e o conforto dos moradores da imensa Tel Aviv, vista com a exuberância cosmopolita de seus edifícios altos e bem-iluminados. A grande cidade do Oriente Médio soma 480 mil habitantes em seu perímetro urbano e mais de 4 milhões em sua região metropolitana.

Num dos momentos mais impressionantes do filme, um agente de segurança contará que o telefone grampeado de um “terrorista” mostrou que ele estava em seu lar, junto a seus familiares. Afinal, fizera uma selfie com esposa e filhos na varanda. Era, pois, chegada a hora de exterminá-lo. O que foi feito, mas… (saberiam depois), ele havia saído. Os recursos de morte comandados por IA (Inteligência Artificial) dizimaram, na verdade, integrantes de sua família. Efeito Naza, efeito colateral planejado.

“Naza” conquistou o Prêmio Especial do Júri, no 83º Festival de Cinema de Veneza, realizado na Itália, mês passado. Foi aplaudido de pé por longos minutos. Os espectadores reconheceram que, mesmo que apenas dois ou três dos testemunhos militares tragam sinais de arrependimento, haviam acabado de assistir a um filme original, embora duro, capaz de revelar o estado (desesperador) do mundo, a “banalidade do mal”.

A maioria dos testemunhos do documentário vem de militares que entendem os efeitos colaterais como inevitáveis. Alguns deles se vêem como quadros técnicos que só cumprem ordens. Outro depoente até acha “divertido” ver sua missão cumprida.

O que espanta no sóbrio filme de Szor e Abraham é a serenidade dos testemunhos. Ninguém grita, se exalta, dá show. Tudo acontece no tom de uma conversa cotidiana. Por isso, nos deparamos com substantivo estímulo à reflexão. Saímos da sala de cinema com um complexo arsenal de frases colhidas nos telhados de Tel Aviv, que nos revelarão minuciosamente o arcabouço do sistema montado por Israel, para vingar a infâmia do 7 de Outubro de 2023, que matou 1.200 israelenses.

No revide, o Governo de Bibi Netanyahu já matou 73 mil palestinos. Gaza é hoje uma ruína arquitetônica e humana. Mas as ações não param. Perderam intensidade. A vigilância e novas operações Naza prosseguem.

Bibi continua a desfrutar de apoio interno, a ONU não consegue fazer valer suas diretrizes e o mundo (a “Humanidade”) parece, em maioria, indiferente ao destino da trágica Palestina. Mas, pela segunda vez, em curto espaço de tempo, o primeiro-ministro de Israel será obrigado a ver um filme de dois cidadãos israelenses na lista de finalistas ao Oscar de melhor documentário. A potência dos sintéticos 80 minutos de “Naza” é inquestionável.

Os procedimentos éticos de Szor e Abraham na feitura de seu novo longa-metragem são precisos. A dupla conseguiu tantos e tão diversificados testemunhos, porque se comprometeu a não revelar as identidades de seus emissores.

Vemos, no quadro, o entrevistador (Yaval Abraham) e seu interlocutor. Identificamos o rosto magro do cineasta, mas o entrevistado é captado como um vulto. Um vulto alterado digitalmente (figura física e voz), para que não seja reconhecido.

Precaução mais que justificada, pois autoridades de segurança de Israel já ameaçaram cassar a cidadania de Szor e Abraham. E já pometeram envidar todos os esforços para identificar os 24 militares e agentes que se atreveram a revelar os bastidores das operação Efeitos Colaterais ao mundo.

Algumas frases ditas pelos “Naza” merecem ser lembradas: “Não devo externar posições morais ou éticas; sou um técnico”, “Os corpos ficam lá e são comidos pelos cachorros”, “Quem decidirmos matar será considerado terrorista”, “Sim, era divertido ver a missão cumprida”, “Bibi tudo fará para obstruir a criação de um Estado Palestino”. São muitos (e aterradores) os dizeres.

Szor e Abraham recorrem a imagens de arquivo para contextualizar o filme. Veremos imagens cinematográficas de Tel Aviv na década de 1920, na década de 1940, na década de 1990. Veremos que a Cinemateca local exibe Mostra Claude Lanzmann, realizador do monumental “Shoah” (França, 1985). Veremos vilarejos palestinos deslocados em 1948, para dar lugar ao Estado de Israel, que nascia sob a égide da ONU. Passaram-se quase 80 anos e o Estado da Palestina ainda não ganhou existência real.

Gaza – lembrará alguém – parece um local onde nenhuma casa fica de pé. Onde um lar pode ser destruído em oito segundos. Onde recordações, como fotos e cadernos escolares, são calcinadas, apagadas da memória coletiva. Um campo de batalha que costumamos ver em grandes produções cinematográficas. Só que reais, não cenográficas.

Abaixo, segue a ficha técnica do filme, com algumas lacunas técnicas. Isso se deve ao cuidado de Raquel Szor e Yaval Abraham, que não quiseram expor os profissionais que os ajudaram a realizar “Naza”. Mas nomes como os da documentarista estadunidense Laura Poitras (“Citizenfour”) e do britânico Jonathan Glazer (“Zona de Interesse”) aparecem na lista de agradecimentos da dupla israelense.

Naza
Reino Unido, 2026, 80 minutos
Direção e roteiro: Yuval Abraham e Rachel Szor
Produção: The Guardian, JW Films
Idiomas: hebráico e inglês
Som: Lars Ginzel, Benjamin Hörbe e Rob Farr
Distribuição internacional: MK2
Distribuição no Brasil: Vitrine Filmes

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