Júlia Lemmertz cita Shakespeare ao receber homenagem do Festival de Brasília e roteirista de “A Pele Morta” dialoga com o argentino “Las Acácias”

Foto: Júlia Lemmertz com o Troféu Candango © Michelle Moreira

Por Maria do Rosário Caetano, de Brasília DF)

De quatro em quatro anos, o clima eleitoral se faz sentir no Cine Brasília, palco histórico do mais antigo evento cinematográfico do país, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Aliás, além de mais antigo, o mais politizado dos festivais brasileiros. Mas tudo transcorreu, na noite inaugural de sua quinquagésima-nona edição, em torno do cinema, não da campanha eleitoral.

Bandeiras vermelhas tremulavam apenas na parte externa do belo cinema miemárico. Dentro, algumas vaias se fizeram ouvir. Mas nada que lembrasse o que ocorrera com Cláudia Raia, quando da exibição do remake nevilliano de “Matou a Família e Foi ao Cinema” (1991, em plena era Collor).

Houve, na noite festiva, espaço para se prestar tributo aos que partiram (os brasilienses Gê Martu e Guilherme Reis, somados a Luiz Carlos Barreto, Maria Ribeiro, a Sinhá Vitória, Rui Rezende, Titina Medeiros, Silvio Da-Rin, Juca de Oliveira, Gracindo Jr). E para festejar a atriz Júlia Lemmertz (Troféu Candango por sua trajetória). Houve, também, homenagem a uma trinca de técnicos de som atuantes em Brasília (Chico Bororo, Fernando Cavalcante e Acácio Campos) laureados com o Prêmio ABCV (Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo). Sem esquecer a evocação à memória do cineasta Fernando Coni Campos, que teve um de seus curtas, “Brasília, Planejamento Urbano”, uma raridade realizada seis décadas atrás, exibido com luminosa cópia restaurada.

A plateia brasiliense, que lotou o Cine Brasília, soube que o diretor de “Ladrões de Cinema” e “O Mágico e o Delegado” trabalhara no escritório candango do urbanista Lúcio Costa e que escrevera o roteiro de seu sexagenário documentário em parceria com Maria Elisa Costa (1934-2026). Arquiteta e urbanista como o pai.

Os brasilienses perceberam, com imensa familiaridade, a ênfase dada por Coni Campos a uma das principais (senão a principal) características do sistema viário da Nova Capital: “em Brasília não há cruzamentos”.

Desenhos urbanísticos enriquecem a narração em off do documentário ao mostrar as famosas “tesourinhas”. Afinal, o plano urbanístico de Lúcio Costa apostou “nas vias contínuas”, de forma que “suas pistas foram planejadas sem interrupções de nível, evitando que dois fluxos de carros se cruzassem diretamente batendo de frente ou lateralmente”. Ao invés de “cruzamentos comuns, a cidade usa viadutos apelidados de ‘tesourinhas’, que permitem mudar de direção por meio de alças sem parar o trânsito da via principal”.

Deixemos a Arquitetura e o Urbanismo de lado e voltemos a Júlia Lemmertz, a grande homenageada da noite. Ela subiu ao palco, louríssima e envolta em esvoaçante vestido em branco e preto. E o fez antes da exibição do especial que o Canal Brasil produziu para relembrar sua trajetória, iniciada ainda infante. Aos cinco anos, ela participou, com a mãe Lilian Lemmertz, do filme “As Amorosas”, de Walter Hugo Khouri (1968). Três anos depois, em 1971, estaria em “Cordélia, Cordélia”, também ao lado da mãe.

Ao chegar ao centro do palco do Cine Brasília, Júlia contou que “A Cor do seu Destino”, de Jorge Durán, vencedor do Festival de Brasília de 1986, fora um divisor de águas em sua vida. Convidou o público a assistir ao filme que seria exibido em sessão especial numa das múltiplas telas do festival, e quis saber se seu realizador e amigo, Jorge Durán, estava presente na plateia. Foi informada que sim.

Com um novo Troféu Candango nas mãos (Júlia recebera o seu, 40 anos antes, justo por seu desempenho em “A Cor do seu Destino”), a homenageada relembrou sua trajetória “de mais de 40 anos” (sem contar as aparições infantis) e evocou reflexão de Próspero sobre “a impermanência da vida e da arte”, no Ato IV, da shakeasperiana “A Tempestade”. Em seu monólogo, recitado com emoção pela atriz, Próspero compara o mundo e suas grandes construções a “uma ilusão que logo se dissipará”. Para concluir com a célebre frase de que “somos feitos da mesma matéria dos sonhos”. A homenageada definiu seu ofício como um sonho que não deve criar ilusões. E concluiu externando sua crença na democracia. Fez votos para que “o Brasil não se afaste dos caminhos democráticos”.

Equipe de “A Pele Morta”, de Denise Moraes e Bruno Torres

O longa inaugural do Festival de Brasília, “A Pele Morta”, foi exibido depois do curta brasiliense de Fernando Coni Campos. Sintético (apenas 82 minutos) e lacunar, o filme termina com um rap indígena, cantado pelo protagonista Saulo, interpretado pelo ator indígena Luan Iturve. A letra diz que um indígena pode, sim, viver novas experiências fora de sua aldeia, desde que regresse à sua gente.

Cantado em guarani e português, o rap avisa: “aqui o meu rap não acabou/ aqui meu rap está apenas começando// faz favor/ Eu faço por amor, escute por favor/ oime nhande jara pope, ndai mei ajuka/ está na mão do Senhor/ não estou para matar// não sei o que se passa na sua cabeça/ o grau da sua maldade // não sei o que você pensa/ povo contra povo/ não pode se matar”.

Na manhã de sábado, 12 de setembro, o filme foi debatido com os críticos e com o público. Muitos temas foram levantados em torno de “A Pele Morta”, dirigido pelos irmãos Denise Moraes e Bruno Torres. Que assumiram a missão de filmar roteiro de Daniel Tavares escrito para o cineasta Geraldo Moraes. Formado pela UFRJ e hoje professor da Escuela Internacional de Cine y TV de San António de Los Baños, em Cuba, Tavares amadureceu sua trama em longas conversas com Geraldo Moraes. Nas vésperas do início das filmagens, o cineasta faleceu. Sua companheira e produtora, Sol Moraes, resolveu convidar os enteados para que transformassem o projeto em realidade.

Do início da escrita do roteiro até a sessão inaugural do Festival de Brasília passaram-se mais de 15 anos. E houve uma pandemia no meio. A atriz paraguaia Ivana Gómez, que interpreta Rosário, contou no debate: “Eu tinha 16 anos quando fizemos o filme, agora tenho 24”.

Luan Iturve, o indígena Saulo, lembrou que, ao ser escolhido para o papel, era magro e muito tímido. “Tive que frequentar academia e tomar suplemento para ganhar corpo. Fui perdendo a timidez à medida que me integrei à equipe do filme e familiarizei-me com os diretores e com a produção”.

O uruguaio César Troncoso, que interpreta Justo, caminhoneiro que tenta ganhar dinheiro fazendo fretes por cidades paraguaias, recorreu a seu espírito gozador para divertir a plateia: “Passou tanto tempo, desde que filmamos em Dourados, no Mato Grosso, em Concepción e cidades próximas no Paraguai”, que “a adolescente Rosário virou uma mulher e o Saulo, meu ajudante no caminhão, me apareceu gordo aqui em Brasília. Não nos víamos desde o período das filmagens”.

Dois temas movimentaram o debate — o estranho título do filme e os mistérios que cercam a personagem de Rosário. Ela, que embarcou na boleia do caminhão de Justo (contra a vontade deste e com sincero entusiasmo de Saulo) para seguir viagem “em busca de uma irmã desaparecida há seis anos, dois meses e 20 dias”, sai da trama sem muitas explicações. Teria ido para a Argentina, em busca da parente desaparecida?

O roteirista Daniel Tavares, apoiado pelos diretores e pela produtora, lembrou que “A Pele Morta” é um filme que se propõe “lacunar, sugestivo e sutil”. Afinal, “acredita na imaginação do espectador”. A falta de pistas mais concretas sobre a saída de Rosário da trama é justificado por Sol Moraes. Para ela, “o protagonista do filme é o indígena Saulo. É com o destino dele que devemos nos preocupar”. Já Rosário “entra no caminhão e sai dele, deixando pistas de que seguiu em busca de sua irmã, que estaria na Argentina”.

Quanto à escolha do título “A Pele Morta”, há controvérsia dentro da própria equipe. A codiretora Denise Moraes confessou que não iria ao cinema ver um filme com título tão mórbido. A produtora Sol Moraes admitiu que muitos colegas de ofício sugeriram a ela que escolhesse e adotasse um novo título, pois “A Pele Morta” parece mais adequado a um filme de terror. E o longa-metragem que ela produziu é um road movie de temática social, com temperos políticos. Um filme de estrada que transita do Centro-Oeste brasileiro às entranhas de pequenas cidades paraguaias.

Sol Moraes, que se define como “produtora criativa”, resolveu “respeitar o título original, defendido anos a fio pelo roteirista Daniel Tavares”. E para — quem sabe — consolar-se, contou que o filme será distribuído por Camila de Moraes, da Borboleta Filmes. Cineasta (diretora do documentário “O Caso do Homem Errado”, 2017), Camila pode ser definida como uma “distribuidora criativa”.

“A Borboleta” — ponderou Sol — “não vai correr atrás de cinemas de shoppings, mas sim “buscar novos espaços, cineclubes, associações laborais, cinemas que inovam em suas programação ao apostar em filmes mais arriscados”.

Denise Moraes, por sua vez, lembrou que ela e Bruno fizeram questão de destacar sequência em que o personagem Justo, o dono do caminhão, bebe aguardente curtida com uma cobra dentro da garrafa. E que esta cobra solta a pele, a ‘pele morta’ do título. Mas não perde sua essência. Continua sendo uma cobra.

A Revista de CINEMA perguntou ao roteirista Daniel Tavares, brasileiro cada vez mais interessado por um cinema que una os países latino-americanos, se ele buscara inspiração em “Las Acácias” (2011), do argentino Pablo Giorgelli. E se, mais que fonte de diálogo, ele propusera aos diretores que o filme fosse uma homenagem ao longa de Giorgelli. Afinal, Hebe Duarte, a coprotagonista de “Las Acácias”, tem participação de destaque no longa brasileiro. Nos dois projetos, ela pega carona no caminhão. No longo hispano-americano, com um bebê nos braços, ela é hostilizada por um caminhoneiro de poucas palavras (Germán da Silva). No longa produzido por Sol Moraes, ela traz, além de um bebê, um outro filho, de uns cinco anos, em sua companhia.

Tavares garantiu que sim, “A Pele Morta” dialoga e homenageia “Las Acácias”: “Conheci o filme argentino 15 anos atrás, no Festival de Havana, e gostei demais do que vi. Conheci, também, o Pablo (Giorgelli), quando ele discutiu seu longa-metragem com professores e alunos da Escola de San Antonio de los Baños. Trocamos impressões, conversamos muito. Fico feliz em poder dialogar com um filme latino-americano, com matrizes que não a estadunidense ou europeias. Quando a produtora e os diretores de “A Pele Morta” me contaram que Hebe Duarte integraria o elenco do filme, fiquei muito feliz”.

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