CineBH homenageia Paz Encina e Conceição Evaristo e aposta no cinema de novos realizadores da América Latina

Foto: “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, de André Novais Oliveira © Janine Moraes

Por Maria do Rosário Caetano

A Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte – CineBH, que acontece na capital mineira de 22 a 27 de setembro, comemora sua vigésima edição em noite festiva no Cine Theatro Brasil, com exibição especial de “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, novo filme de André Novais Oliveira, e entrega do Troféu Horizonte Trajetória à cineasta Paz Encina, de 55 anos. Diretora de documentários inovadores como “Hamaca Paraguaya”, ela dedicou um de seus filmes, “Carta a un Viejo Master”, ao cineasta Eduardo Coutinho.

Outra homenagem será prestada, na mesma noite, à escritora e educadora Conceição Evaristo, de 79 anos. A autora de “Ponciá Vicêncio” faz sua estreia como atriz de cinema, em dupla com Norberto Novais Oliveira, pai do diretor de “Se Eu Fosse Vivo”. Trata-se de nova produção – junto com “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins – da Filmes de Plástico, que nasceu como coletivo de realizadores sediados em Contagem, na Grande BH.

A paraguaia Paz Encina, que vive entre seu país de origem e a Europa, formou-se em direção cinematográfica na Universidad del Cine de Buenos Aires. Ao longo das duas últimas décadas, realizou seus projetos ligados à história e memórias do Paraguai. Em 2006, seu primeiro longa, “Hamaca Paraguaya”, estreou na seção Un Certain Regard, do Festival de Cannes, e recebeu o prêmio da Crítica internacional, representada pela Fipresci. Falado em guarani, o filme registra, poeticamente, um casal de camponeses idosos, que espera o retorno do filho da Guerra do Chaco, conflito que antagonizou, entre 1932 e 1935, Paraguai e Bolívia.

A CineBH exibirá, na Mostra Diálogos Históricos, além de “Hamaca Paraguaya, os filmes “Ejercícios de Memória” (2016), construído a partir das lembranças dos filhos de Agustín Goiburú, opositor à ditadura de Alfredo Stroessner, e “Carta a un Viejo Master” (2024), coprodução com o Brasil. Neste documentário, de alma epistolar, Paz Encina endereça carta ao diretor de “Cabra Marcado para Morrer” e “Jogo de Cena”, Eduardo Coutinho (1933-2014). As três sessões serão acompanhadas de conversas com a diretora, que busca, com seus filmes, “estabelecer relações entre memória, história, território e permanência”.

A mineira Conceição Evaristo, importante nome da literatura brasileira contemporânea, constrói sua obra sedimentada no conceito de “escrevivência”. Seus livros – “Becos da Memória” e “Olhos d’Água” se somam a “Ponciá Vicêncio” – chamaram atenção para a obra dessa educadora nascida em Belo Horizonte há quase oitenta anos. Agora, chegou a hora de Conceição acompanhar a exibição, em sua terra natal, do filme que lhe propôs novo desafio profissional – o ofício de atriz.

Em “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, coube à escritora desempenhar o papel de mãe (na fase crepuscular) do cineasta André Novais Oliveira. Ela o fez ao lado do verdadeiro pai do cineasta, Norberto Novais Oliveira, que conhecemos de curtas e longas como “Quintal”, “Ela Volta na Quinta” e “Temporada”. Ele interpreta o Senhor Gilberto, companheiro de Dona Jacira (inspirados, ambos, embora recriados pela imaginação do cineasta-roteirista, em personagens de existência real). Na mocidade, a dupla Gilberto-Jacira é interpretada por Jean Paulo Campos e Tainá Evaristo.

Paz Encina

O festival belo-horizontino norteia-se, este ano, por indagação que evoca um dos maiores sucessos musicais de Chico Buarque – “Cinema Latino-Americano: o que Será?”. Essa pergunta, que serviu de estímulo curatorial, orientou a programação em busca “da necessária reflexão sobre o presente e os possíveis futuros das cinematografias realizadas no continente”. Afinal, todas elas, mesmo as mais fortes, caso da mexicana, da argentina e da brasileira, vivem desafios recorrentes. O maior deles já dura mais de um século: conseguir diálogo com o público e, assim, ocupar espaço em seus próprios mercados.

Cleber Eduardo, que coordena a equipe curatorial da CineBH, justifica a escolha pelo ‘Que Será?’: “Em momento de instabilidade política, social e econômica na América Latina, a proposta chama atenção para as transformações experimentadas pelo cinema produzido no continente”. Afinal, “a ideia parte das incertezas que atravessam a América Latina neste ano de 2026 e das consequências que mudanças políticas podem produzir sobre as condições de realização e circulação dos filmes”.

Nos mais diversos países das Américas que falam espanhol e português, verificamos “alterações de governo, redução de investimentos públicos, fragilidade das políticas culturais e disputas em torno da regulação do audiovisual”. Essas alterações “interferem diretamente na sustentação das cinematografias nacionais”. O que não significa – pondera o curador – “que estejamos estabelecendo relação automática entre conjuntura política e criação artística”, pois “as escolhas cinematográficas tendem a ser, também, em alguma medida, afetadas e estimuladas pelas conjunturas políticas, sociais e econômicas, sem necessariamente serem reflexos e representações diretas destas conjunturas. Nada é tão espelhado assim”. Até porque “o cinema latino-americano convive historicamente com vulnerabilidades que fazem da instabilidade uma de suas condições recorrentes”. Para constatar: “tudo é para hoje. Amanhã, não sabemos”.

As duas principais mostras competitivas da CineBH – a Horizonte e a Territórios – foram reformuladas. A primeira foca em realizadores de primeiros filmes. A segunda, em diretores que já passaram do terceiro ou quarto longa-metragem. Serão vistas produções de sete países – Brasil, México, Argentina, Chile, Cuba, Colômbia e Venezuela. Ao invés de sete filmes em competição, o público poderá acompanhar doze longas-metragens (seis em cada uma das mostras).

Cleber Eduardo lembra que “os filmes selecionados colocam em cena algumas das questões mais urgentes da América Latina contemporânea: migração e exílio, repressão política, crise climática, colonialismo, ancestralidade indígena, controle dos corpos, apagamentos históricos e dificuldades de financiamento e produção cinematográfica”.

A seleção reúne títulos que já passaram por alguns dos principais festivais internacionais de cinema (de ficção e/ou documentários). Entre eles, destacam-se “Si Vas Para Chile”, melhor ópera prima (filme de estreante) no Hot Docs (Canadá), o brasiliense (de Ceilândia) “Sabes de Mim, Agora Esqueça”, premiado no FID Marseille, “Nuestro Cuerpo Es una Estrella que se Expande”, exibido no Festival de Amsterdã (IDFA), “Jankee”, selecionado para o Visions du Réel, na Suíça, e “Los Nadadores”, exibido em Málaga, Bafici, Cartagena e Munique. “O conjunto” – assegura a curadoria colegiada – “combina o reconhecimento conquistado no circuito internacional com a descoberta de novas vozes cinematográficas do continente”.

Além das mostras Horizonte e Território, a CineBH apresentará diversas atividades (seminários, debates, encontros), ocupará a Praça da Liberdade com filmes populares (que a criançada mobilize seus pais para juntos assistirem ao longa capixaba “Folclórica”, do terror man Rodrigo Aragão, só que em versão doce). O festival apresentará, também, a Mostra Vertentes, composta com filmes que chamaram atenção por onde passaram, caso do mineiro-gaúcho “O Filho da Puta”, de Tanya Anaya, Érica Maradona, Otto Guerra e Sávio Leite; do cearense “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, de Janaína Marques, vencedor do Olhar de Cinema; e do pernambucano “Yellow Cake”, de Tiago Melo, com a mineira Rejane Faria (como protagonista) e a potiguar Tânia Maria. Esta atriz, que causou sensação em “O Agente Secreto”, ocupa generoso espaço na trama. E a todos desconcerta (e encanta) ao construir uma ode ao cigarro.

Além do irreverente “O Filho da Puta”, a animação mineira marcará presença com “Ana, en Passant”, de Fernanda Salgado. Se o primeiro pode – pelo título – insinuar diálogo com a safadeza, o segundo desfrutará das liberdades da exibição ao ar livre. No Cine Praça, os belo-horizontinos verão uma “cartografia amorosa” de sua cidade. Fernanda mostra sua protagonista, Ana, à deriva desde a morte da avó. Ao chegar a BH, a garota une-se a Alice e, juntas, tentarão decifrar o espaço urbano.

O cinema de curta duração também terá espaço nobre na CineBH. Dezoito produções brasileiras serão apresentadas em três sessões do Curtas Contemporâneos e na tradicional sessão Curtas no Almoço. Foram escolhidos títulos que “transitam por diferentes formas narrativas e procedimentos, entre ficção, documentário, animação e experimentação”. Entre eles, estão “Recaída”, “Todas as Cores que Eu Já Senti na Vida”, “Metamórfike”, “Queremos Praia – Anunciação”, “Mães do Morro” e “Um Mar”.

No terreno da produção, a CineBH, promoverá a décima-sétima edição do Brasil CineMundi – Encontro Internacional de Coprodução. Foram selecionados 37 projetos (entre 375 inscritos), distribuídos em cinco categorias – longas-metragens de ficção em desenvolvimento, seis documentários (DocBrasil), seis para o Foco Minas e cinco no Work in Progress (WIP – produções em fase de finalização). Que se somam a dez projetos na rubrica Paradiso Multiplica.

A nova edição do Seminário Internacional Entre Cinemas – CineBH + CineMundi acontecerá entre os dias 23 e 26 de setembro, no Cine Theatro Brasil – Espaço Petrobras de Conexões. A programação reúne mais de 50 profissionais do Brasil e do exterior em mais de 20 atividades (cinco debates, seis painéis, cinco masterclasses, duas rodas de conversa, workshop, estudo de caso e sessão de trabalho). No encontro inaugural, os participantes assistirão ao debate “Cinema Latino-Americano: o que Será?”. Depois, à masterclass “Mil Vientos”, proferida por Paz Encina.

Durante o festival mineiro, o público participará do lançamento de dois livros; “Territórios do Cinema – CineBH 20 anos”, que traz perspectivas construídas nas trajetórias da CineBH e reflexões sobre o cinema latino-americano, e “O Cinema Brasileiro no Mundo”, publicação do Brasil CineMundi, que celebra suas 17 edições.

MOSTRA HORIZONTE

· “Sabes de Mim, Agora Esqueça”, de Denise Vieira (Brasil)
· “Si Vas Para Chile”, de Amilcar Infante e Sebastián González Méndez (Chile)
· “Cuba y la Noche”, de Sergio Fernández Borrás (Cub, Espanha, Colômbia)
· “El Sonido Es el Cuerpo”, de Diego Andrés Murillo (Venezuela-EUA)
· “Jankee”, de Yamel Thompson (México-Argentina)
. “Los Nadadores” , de Sol Iglesias SK (Argentina-EUA-México)

MOSTRA TERRITÓRIO

. “Telúrica, a Íntima Utopia”, de Mariana Lacerda (Brasil)
. “Pukem Swa”, de Samuel Moreno Alvarez (Colômbia)
. “La Vida que Vendrá” , de Karin Cuyul (Chile-Colômbia)
. “Deserto Vértigo”, de Rocío Barbenza (Argentina-Chile)
. “Calle Cuba” , de Vanessa Batista (Chile-Cuba-México)
. “Nuestro Cuerpo Es una Estrella que se Expande”, de Semillites e Tania Hernández Velasco (México)

DIÁLOGOS HISTÓRICOS

. “Hamaca Paraguaya”, de Paz Encina (2006)
. “Ejercícios de Memória”, de Paz Encina (2016)
. “Carta a un Viejo Master”, de Paz Encina (2024)

MOSTRA VERTENTES

. “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, de Janaína Marques (CE)
. “Adulto/Homem”, de Pedro Diógenes (CE)
. “Virtuosas”, de Cíntia Domit Bittar (SC)
.“O Filho da Puta”, de Tania Anaya, Érica Maradona, Otto Guerra e Sávio Leite (RS-MG)
. “Yellow Cake”, de Tiago Melo (PE)
. “Reparação”, de Marcus Curvelo (BA)
. “Leite em Pó”, de Carlos Segundo (RN-MG)
. “Entre o Sucesso e a Lama”, de Cristiano Burlan (SP)
. “Pele de Rinoceronte”, de Marcelo Maia (RJ)

OLHARES DA ARGENTINA

. “El Príncipe de Nanawa”, de Clarisa Navas (Argentina-Paraguai)
. “Caigan las Rosas Blancas”, de Albertina Carri (Argentina-Espanha)
. “Nuestra Tierra”, de Lucrecia Martel (Argentina)

RETROSPECTIVA COMEMORATIVA

. “A Via Láctea” (2007), de Lina Chamie
. “Lóki: Arnaldo Baptista” (2008), de Paulo Henrique Fontenelle
. “Mate-me Por Favor” (2015), de Anita Rocha da Silveira
. “Corpo Elétrico” (2017), de Marcelo Caetano
. “Sol Alegria” (2018), de Tavinho Teixeira e Mariah Teixeira.

MOSTRA PRAÇA

. “Ana, En Passant”, de Fernanda Salgado (MG)
. “Folclórica”, de Rodrigo Aragão (ES)
. “Sexa”, de Glória Pires (RJ)
. “Querido Mundo”, de Miguel Falabella, codireção de Hsu Chien (RJ)

MOSTRA A CIDADE EM MOVIMENTO

. Sessão Um – A Engenharia Reversa da Linguagem – “Como Atravessar Paredes: a História do Centro Cultural Galpão Cine Horto”, direção coletiva de Chico Pelúcio, Henrique Vertchenko, Marcos Coletta e Rodolfo Magalhães (70 minutos)

. Sessão Dois: A Tecnologia da Existência – “Ouro de Tolo Remix” (4′), de Gabriel Afonso, e “Maxita” (64′), de Mariana Machado e Ana Maria Machado, com participação de Davi Kopenawa e Ailton Krenak

. Sessão Três: O Resgate do Corpo Emocional – “Todas as Cores que Eu Já Senti na Vida” (11′), de Bernardo Franco, “Recaída” (20′), de Samuel Costa, “Dentro do Meu Peito Mora um Cão” (24′), de Gabriel Afonso, e “O Maestro” (23′), de Vinícius Correia

. Sessão Quatro – Não Domesticação da Experiência – “Queremos Praia – Anunciação” (18′), de Chico Pelúcio, Marcelo Braga e Rodolfo Magalhães, “Metamórfike” (15′), de Lui Nascimento, “Sexta” (5′), de Pedro Cordeiro, “Bloco Fantasma” (12′), de Rafael Zorzal, e “Cordões e Sinos de Além-Mar” (19′), de Yuji Kodato e Jeremias Brasileiro

. Sessão Cinco (A Inteligência da Borda – “Um Mar”(18′), de Duna Dias e Leonardo Augusto; “Mães do Morro” (20′), de Isabela Ferreira da Silva; “Não é Sobre Pastéis” (10′), de Tiago Ribeiro; “Do Acaba Mundo ao Pindura Saia” (7′), de Iakima Delamare e Thiago Rosado; e “Nós é Ruim e Mora Longe”(20′), de Ítalo Almeida

PROGRAMAÇÃO ONLINE

No ambiente online, em parceria com o Itaú Cultural (plataforma IC Play), será exibida seleção especial da programação, enquanto o site oficial cinebh.com.br disponibiliza recorte da Mostra Retrospectiva 20 anos, reunindo títulos que celebram a trajetória do festival e revisitam momentos marcantes de sua história.

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