“Todo o Sentimento”, canção de Chico Buarque, serviu de inspiração e título à distopia futurista que representa a Bahia no Festival de Brasília
Foto © Ítallo Santos
Por Maria do Rosário Caetano, de Brasília (DF)
A canção “Todo o Sentimento”, de Chico Buarque e Cristóvão Bastos, serviu de inspiração e título ao quarto longa-metragem apresentado pela mostra competitiva da quinquagésima-nona edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
O longa, vindo do Recôncavo da Bahia, representado pelas cidades de Cachoeira, São Félix e Muritiba, tem na sua direção a dupla Glenda Nicásio e Ary Rosa. Os dois realizadores foram revelados pelo Festival de Brasília, nove anos atrás, com o tocante “Café com Canela”. Depois, estiveram na disputa pelo Troféu Candango com “Ilha”, filme do qual “Todo o Sentimento” é uma sequência. Afinal, ambos são protagonizados pelo mesmo personagem — o cineasta Henrique (Aldri Anunciação).
Na história original, Henrique era sequestrado, numa ilha, por Émerson, jovem periférico e intempestivo. O rapaz exigia que sua vida fosse narrada em filme com ingredientes autobiográficos, permitindo algumas “liberdades poéticas”.
Em “Todo o Sentimento”, estamos no futuro, em tempo distópico. Forças de extrema direita chegaram ao poder. Governam o país, mantido sob rígido tacão moral. A nova ordem tem na perseguição à comunidade LGBTQIAPN+ um de seus pilares. Para assegurá-la, contam com o apoio de apresentadores de TV (multiplicadas pelas redes sociais) e pastores eletrônicos que difundem, com palavreado agressivo, a caça aos homoafetivos. E pregam “o rosa para as meninas e o azul para os meninos”.
Para interpretar o “time eletrônico” que difunde “a caça aos pervertidos”, Glenda e Ary escalaram atores da pesada. Jackson Costa interpreta Bocão, locutor que esparge vitupérios a cada nova emissão televisiva. No que é acompanhado pelo pastor Silas Macedo (Frank Menezes) e por duas locutoras que também rezam segundo o catecismo obscurantista.
O cineasta Henrique, que reencontraremos em “Todo o Sentimento”, nesse desolador futuro distópico, é um homem amargurado. Passou por dificuldades que o tornaram paraplégico. Nessa condição, ele se sente “um corpo pela metade”. Com as pernas imobilizadas, isolou-se em bela propriedade rural, cuja sede evoca os ricos casarões do Brasil colonial. Cuida de sua alimentação e não tem planos de realizar novos filmes.
“Todo o Sentimento” começa com imagens documentais do quebra-quebra do 8 de Janeiro (de 2023). Relógio, quadros, prédios niemáricos — enfim o que aparece na frente da horda de vândalos — são destruídos. Brasília parece um campo de batalha.
O clima aparentemente tranquilo do belo casarão será alterado, primeiro pela montagem, que insere, na narrativa, as participações dos locutores de discursos altissonantes e possessos. Depois, pela chegada de Gustavo (Lucas Leto), um jovem cheio de vida. Ele se apresenta como “cuidador” enviado por Ary, amigo de Henrique. Sua missão é simples: ajudar o dono da paradisíaca propriedade em sua vida cotidiana.
Henrique, derramando amargura, diz a Gustavo que não necessita de ajuda. Que ele deve ir embora imediatamente. Que vaze com a maior rapidez possível. Na primeira parte do filme, assistiremos ao embate entre os dois protagonistas. Na segunda, de alta densidade erótico-homoafetiva, o tom será outro.
Os atores protagonistas e coadjuvantes têm ótimos desempenhos. A fotografia (de Thales de Souza, Poliana Costa e Augusto Bertolini) explora a beleza da locação (amplificada pela vegetação e imensa piscina). A trilha sonora (de Moreira e Hiran) ajuda a estabelecer os climas necessários a cada uma das partes do filme. As vozes de Gustavo, que toca violão, e de Henrique, que escandirá os versos da parceria Buarque-Bastos, se farão ouvir. Em 86 minutos, Glenda e Ary dão sua missão por cumprida.
O filme foi recebido com aplausos moderados (se o termo de comparação for a ovação que se seguiu à exibição de “Café com Canela”). Houve quem se incomodasse com a escalação de um ator (Aldri Anunciação), que não é PCD (portador de deficiência), para o papel do cadeirante Henrique. E, também, por diálogos entre o cineasta e o “cuidador” Gustavo. Em especial, pelo uso da expressão “corpo pela metade”.
Durante o debate de “Todo o Sentimento”, aberto aos jornalistas, críticos e público, o diretor potiguar Alexandre Américo (que participa da competição com o curta “Mariposa”) questionou Glenda e Ary pela escalação do ator e pelo uso de palavras e expressões capacitistas. Quis saber se o filme contara, na fase de roteirização e realização, com assessoria especializada.
Os diretores lembraram que o personagem cadeirante é mostrado como pessoa autônoma, senhora de seus atos, capaz de preparar sua própria comida e locomover-se pela casa. Nunca como um coitado, dependente da ajuda alheia.
O ator Aldri Anunciação acrescentou: “quando li o roteiro e vi que o personagem era um cadeirante, me questionei. Eu deveria interpretar o papel? Depois de conversar com os diretores, entendi que, sim, tinha que ser eu”. Afinal, “fiz Henrique no primeiro filme, em 2018. Se o novo longa trabalha com o mesmo personagem, o público não entenderia se outro ator o interpretasse”.
O ator Lucas Leto, de 27 anos, oriundo do Bando de Teatro Olodum, fez seu primeiro filme com a dupla Glenda e Ary. Ele, que já atuou em outros longas-metragens e vem brilhando em telenovelas da Rede Globo, fez questão de dizer que “Gustavo é o meu maior desafio cinematográfico, meu melhor papel”. Contou que correu atrás da dupla do Recôncavo Baiano e pediu que o escalassem para uma de suas produções. Foi atendido.
“Estou orgulhoso de ter feito esse filme, uma produção de baixo orçamento, que mobilizou equipe de pouquíssimas pessoas, na qual todo mundo fez de tudo. O Ary (Rosa) ia comprar a carne que estaria no nosso almoço; a diretora de arte, a própria Glenda, procurava roupas que servissem aos nossos personagens e não trouxessem novos custos”. Para arrematar: “eu nasci em Salvador, capital baiana, e fiquei feliz em trabalhar no interior, em cidades como Muritiba, São Felix e Cachoeira. Com uma produtora local, a Roszna, que situa-se, modestamente, entre a casa da Glenda e a casa do Ary. Torço para que novos filmes da Roszna consigam melhores orçamentos. Essa produtora é muito importante para o cinema baiano e brasileiro”.
Ary Rosa quantificou o número de profissionais que compuseram a equipe técnica de “Todo o Sentimento”: “apenas doze pessoas”. Um espanto, convenhamos. E Aldri Anunciação, de 53 anos, que além de ator e dramaturgo é doutor em Estética e Teoria do Teatro (pela UFBA), lembrou sua afinidade com a “poética” dos dois diretores, que ele conhece tão bem.
“Fizemos cinco trabalhos juntos. Em quatro deles fui ator, em um, diretor. Glenda e Ary confiam na respiração do ator, praticam um ‘Cinema dos Afetos’, não estabelecem marcações prévias e mecânicas. Confiam realmente no que o ator tem a oferecer. Quando fizemos ‘Ilha’, eu protagonizava um plano sequência, que duraria sete ou oito minutos. Começamos a realizá-lo e percebi que uma nuvem de chuva se aproximava. Continuamos filmando. E eu respirando e desempenhando meu papel, temeroso de que a nuvem desabasse em água. Mal concluído o plano, a chuva chegou para valer. Ary poderia cortar e, depois, resolver tudo na montagem. Mas não. Ele confiou no meu trabalho”.
Em “Todo o Sentimento” — lembrou Anunciação — “há outro plano sequência de uns nove minutos, no qual Henrique e Gustavo, nossos personagens, praticam sexo com palavras”. Aí, sem medo de intempéries climáticas, pois o fizeram dentro do casarão colonial.
Ary Rosa, autor dos roteiros de “Ilha” e “Todo o Sentimento”, preferiu não dar detalhes (nem a localização) da propriedade que abrigou a história de desentendimentos, amor e sexo do cineasta Henrique e de seu “cuidador” Gustavo.
Lucas Leto (não confundir com o influencer Luccas Neto), que é também cantor, não se incomodou em revelar que o violão que seu personagem dedilha em “Todo o Sentimento”, foi “tocado, na real, por Moreira, instrumentista experiente e coautor da trilha sonora de nosso filme”. A ele, Leto, coube apenas fingir que tocava.
FLASHES CANDANGOS
SURPRESAS CANDANGAS NA MOSTRA BRASÍLIA — Um curta (“A Arte Perdida da Lombada”) e um longa-metragem (“Onde os Irmãos Moram”) causaram agradáveis surpresas ao público que prestigiou a segunda noite da Mostra Brasília. Críticos, atriz (Simone Spoladore) e distribuidor (Daniel Queiroz, da Embaúba) expressaram seu encanto com o longa de estreia de Marisa Mendonça. A trama de “Onde os Irmãos Moram” é brasiliense até a medula. Numa superquadra do Plano Piloto, na capital federal, vive Lívia (Liliane Rovaris). Ela se ocupa — sem nenhuma aptidão para o ofício — dos negócios imobiliários da família. Os pais, já na terceira idade, sofrem a dor da perda do filho caçula. Ele mergulha na bebida, enquanto a mãe tenta ajudar a filha atrapalhada, que realiza péssimos negócios e, ainda por cima, se mete (com as melhores intenções) na vida de seus inquilinos. Um deles a levará às barras de tribunal de pequenas causas. A protagonista é encantadora. Parece saída de um filme da Nouvelle Vague (quem sabe de Eric Rohmer). O pai de Lívia é apaixonado pelas composições do trovador baiano Elomar. Bebe, bebe muito, chora a ausência do filho e se desentende com parentas, frequentadoras de sua casa, que querem se divertir, beber cerveja e ouvir música (bem) mais animada. O filme dura 109 minutos. Com enxugamento de 10 ou 15 minutos pode tornar-se irresistível. Afinal, trata-se de promissora encorajadora estreia de aluna formada em Cinema e Artes Plásticas pela UnB. Marisa Mendonça, torna-se, pois, um nome no qual devemos prestar muita atenção. Os diretores (Helena Sarmento e Gabriel Brito), de “Lombada”, narrativa sintética e adrenalinada de apenas 12 minutos, também merecem atenção. Os dois acompanham sua protagonista, Pâmela, jovem motoqueira que está se iniciando no mundo de entregas (delivery). Ela quer se familiarizar com certa manobra praticada por motoqueiros experientes. O craque do pedaço é o “filósofo e professor” Kleber (o rouba-cena Wellington Abreu, maravilhoso ator revelado nos filmes de Adirley Queirós). Kleber instruirá a discípula. Os dois filmes, o longa e o curta, merecem empalmar alguns prêmios na Mostra Brasília, promovida pela Câmara Legislativa do DF, em parceria com o Festival de Brasília.
POLO DE CINEMA DO VELHO OESTE — O Festival de Brasília já exibiu e debateu sete dos 12 curtas-metragens selecionados para sua quinquagésima-nona edição. Dois se destacaram: o paulista do interior “Cana”, ficção de Daniel Rone e Guilherme Xavier Ribeiro, e a bela (e enigmática) animação “Fundura”, de Leonardo Catapreta, de Minas Gerais. O debate de “Cana” — sintético nome para realização de dupla que batizou seu primeiro curta de forma quilométrica (“Ainda Restarão Robôs nas Ruas do Interior Profundo”) — foi movimentado. Rone, que é também rapper, e Guilherme filiaram o filme à vertente “caipira futurista”. Contaram que o projeto nasceu como um longa-metragem de nome e temática provocantes: “A Rota Caipira do Tráfico”. O filme abordaria (abordará, se conseguir se viabilizar) o problemático papel que a região de Assis, situada próxima ao Paraguai e à Bolívia, desempenha no tráfico de drogas. Aquele que faz do Brasil uma de suas rotas de escoamento. O curta mostra dois jovens negros, oriundos da periferia, que conduzem um caríssimo e descolado utilitário por rodovia cercada de gigantescas (e uniformes) plantações de cana. Dentro da camionete, objeto de consumo de ricos agroboys, eles ouvem (ou cantam) raps impregnados de palavrões e malícia. Enquanto um bimotor despeja nuvens de pesticidas sobre plantações, veículos e pessoas (muitas delas crianças pequenas). “Cana”, que deve fazer jus a alguns Troféus Candango, é uma produção da Oeste Filmes (e do Polo de Cinema Velho Oeste, sediado em Assis), em parceria com a paranaense Kinopus, de Rodrigo Grota, e com a Filmo Deux (filmô dê) francesa.
PELAS RUAS PAULISTANAS, RUMO AO TEATRO OFICINA — O realizador brasiliense Nicolau, que se define como cultor de “um cinema queer e sensorial ligado a práticas fotoquímicas”, filmou seu novo curta (“Gastronomia do Olho”) em película 16 milímetros. Não em Brasília, mas no centro paulistano e no Bixiga (bairro que sedia o Teatro Oficina). Com produção do ator Túlio Starling, ele acompanhou a deambulação de dois personagens interpretados por Marina Wisnik (filha do músico, escritor e professor da USP, José Miguel), e Victor Rosa. Os dois atores conversam, enquanto caminham rumo ao Bixiga. Nas conversas misturam atos do cotidiano a diálogos da peça que estão encenando — “Os Sete Gatinhos”, de Nelson Rodrigues — na qual interpretam Aurora e Bibelô. Trechos de filmes como “São Paulo S.A.”, de Person, e os “Sete Gatinhos”, de Neville, enriquecem a narrativa. O montador do curta, Henfil, da produtora Henfilmes, contou no debate que sugeriu o uso de sequência em que Elis Regina e Adoniran Barbosa perambulam pelo Bixiga paulistano. Mas acabaram optando por outros materiais de arquivo. Teriam desistido por problemas financeiros relativos à aquisição de direitos? A dupla Nicolau-Henfil (ele, como o cartunista, se chama Henrique Filho) garantiu que “as razões foram estéticas”. Quando os atores que protagonizam “Gastronomia do Olho” chegam ao Teatro Oficina, cenas documentais nos mostram integrantes do Oficina Usyna Uzona em uma de suas coloridas e vibrantes performances artístico-reivindicatórias. Ah, o estranho nome do filme — explicou Nicolau — cita sua fonte primordial, o romancista Honoré de Balzac. Ao flanar por Paris, o autor de “Ilusões Perdidas” sentia-se praticando uma espécie de “gastronomia” do olhar.
