“Cão sem Pluma”, Nino Rota, Edward Said e Carlos Saura brilham na farta oferta de documentários da Mostra SP

Foto: “Cão sem Pluma”, de Camila Valença

Por Maria do Rosário Caetano

Há mais de cem documentários nacionais e internacionais na programação da quinquagésima edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Cinco deles são recomendáveis por suas qualidades estéticas e temáticas. Caso de “Cão sem Pluma”, da pernambucana Camila Valença, “O Gesto Entre Nós”, do carioca Roberto Bomtempo, “Edward Said: Entre Dois Mundos”, da dinamarquesa-estadunidense Maijen Baird, “O Menino da Fotografia. Carlos Saura”, da espanhola Anna Saura, e “Nino, um Filme Sobre Nino Rota”, do italiano Walter Fasano.

“Cão sem Pluma” é o filme de estreia de Camila Valença, produtora de “Vivo 76”, o vibrante documentário que Lírio Ferreira dedicou a Alceu Valença. Exibido na competição do Festival do Rio, o longa cabralino conquistou o Troféu Redentor de melhor direção.

Quem está com saudades do cinema visceral de Cláudio Assis, que em dezembro próximo fará 67 anos (e anda distante dos sets, cuidando de sua saúde), terá o prazer de revê-lo. Dessa vez, como “personagem”. O diretor de “Amarelo Manga” aparecerá em substantiva interação com Deborah Colker e seus bailarinos.

A coreógrafa carioca, de 65 anos, é um azougue e o cineasta não fica atrás. Com eles, os bailarinos irão do agreste, chegando ao mangue, à lama, ao mar. Transformar-se-ão em caranguejos. Seus corpos se moverão no ritmo dos versos de João Cabral de Melo Neto (do poema “Cão sem Plumas”, 1950) em notáveis performances físico-sensoriais.

Um “filme de estrada” que se resolve em poderosos 73 minutos e, em muitos momentos, nos arrebata. Rostos e corpos são banhados em lama que, além de colorir suas superfícies, apresentam rachaduras capazes de evocar a terra calcinada dos sertões nordestinos.

A geografia da seca (e da fome), que tanto ocupou as reflexões de Josué de Castro, ganha materialidade, enriquecida com a fertilidade do mangue. Afinal, o que interessa a Colker, Assis e Valença é a vida que flui, embalada pelos versos seco-cabralinos (“Aquele rio/ era como um cão sem plumas./ Nada sabia da chuva azul,/ da fonte cor-de-rosa,/ da água do copo de água,/ da água de cântaro,/ dos peixes de água,/ da brisa na água.// Sabia dos caranguejos/ de lodo e ferrugem.// Sabia da lama como de uma mucosa”).

Em 2016, Deborah Colker e sua trupe desembarcaram em Pernambuco para empreender jornada de investigação e residência artística pelos municípios de Belo Jardim, Brejo da Madre de Deus, Nazaré da Mata, Limoeiro, Carpina e Tamandaré. Oficinas de dança foram realizadas com os moradores-munícipes. Os bailarinos aprendiam os cantos e as danças populares e trocavam experiências, recriando-as em seus corpos. Imagens de imensa beleza foram impressas em suporte audiovisual pelo craque Pedro Sotero (parceiro de Kleber Mendonça Filho em muitos de seus filmes), por Crika e Marcelo Lacerda.

Quando a travessia cruzou o Agreste pernambucano e chegou às águas atlântico-recifenses, “Cão sem Plumas” havia se transmutado em dança, canto e barro. Os versos de João Cabral haviam ganhado nova vida na locução da cantora e compositora Cátia de França e nos brados musicais de Lirinha (do Cordel do Fogo Encantado). Os cenários de Gringo Cardia imprimiram aos registros de Colker e Assis clima realista e, ao mesmo tempo, fantasmagórico. Um horror de grande e inquietante beleza. Muito bem captados pelo documentário de Camila Valença.

NINO – UM FILME SOBRE NINO ROTA – Quem há de resistir a um filme embalado pelas trilhas sonoras criadas por Nino Rota (1911-1979), parceiro inseparável de Fellini, Visconti (“O Leopardo”) e Coppola (“O Poderoso Chefão” um e dois)?

O cineasta e montador italiano Walter Fasano, colaborador de Lucas Guadagnino, faz de “Nino, um Filme Sobre Nino Rota”, notável retrato do maior (junto com Ennio Morricone) criador de trilhas sonoras do cinema peninsular (e mundial).

O filme percorrerá cidades que foram essenciais à existência de Rota, que morreu cedo, no auge de sua criatividade, com apenas 67 anos. Tudo começa na cosmopolita Milão, onde ele nasceu, no seio de família de músicos. E prossegue em Roma e, principalmente, em Bari e Torre de Mare, espaços meridionais e calorosos, que adotara como seus. Lá, tornou-se diretor e professor dedicado do Conservatório Nicollò Piccini, insituição na qual atuou por 30 anos.

O filme de Fasano terá como um de seus eixos a discussão do valor da obra de Nino Rota. Para o público, cineastas e produtores, ele era maravilhoso, capaz de engendrar trilhas apaixonantes e sedutoras. Para os críticos e músicos de vanguarda, ele era “um melodista que fazia concessões ao gosto popular”.

As geniais trilhas compostas para seu maior amigo, Federico Fellini, lhe dariam fama e renome. Como esquecer as melodias que embalaram “A Estrada da Vida”, “Noites de Cabíria”, “A Doce Vida”, “8 1⁄2” e “Amarcord”?

Elas assumiram tamanho poder de sedução, que Francis Ford Coppola, descendente de italianos, decidiu convocar Rota para musicar “O Poderoso Chefão”. O que foi feito. Mas… deu-se um imbroglio.

Nino foi indicado ao Oscar por seu trabalho. Só que um conterrâneo dele, o poderoso Dino De Laurentiis (1919-2010), alegou que parte do material utilizado no filme não seria inédito. Já teria aparecido num filme produzido por ele, Laurentiis. O músico italiano ficou ao relento. No “Chefão 2”, tudo mudaria de figura e ele receberia o Oscar em parceria com Carmine Coppola, o maestro e pai de Francis Ford. Fasano revela com riqueza de detalhes este estranho imbroglio.

Muitos amigos de Nino Rota relembrarão o compositor com sólidos testemunhos. Caso da roteirista Suso Cecchi D’Amico (em pessoa ou nas lembranças de sua filha Caterina), parceira de Visconti. Aliás, não há nenhum testemunho banal nas quase duas horas de duração do documentário. Até o depoimento do sul-coreano Park Chan-wook, admirador confesso das trilhas rotianas, despertará curiosidade. Mesmo que o diretor de “Decisão de Partir” seja visto em gravação remota, portanto com qualidade técnica mediana (todos os outros testemunhos são captados com grande qualidade técnica).

“Um Filme Sobre Nino Rota” é narrado por Sting, em inglês, já que se pretende destacar seu personagem como um nome de trajetória internacional. O que ele foi, não há como negar. O francês Alexandre Desplat também se expressará em inglês. Rita Pavone, hoje uma senhora de 81 anos, lembrará com muita graça sua parceria profissional com o compositor italiano.

Um amigo muito próximo de Nino, Orazio Fiume, arrancará risos ao evocar Prudenzina Giannelli, amiga dileta e protetora do artista em seus anos de Bari (e no vilarejo de Torre de Mare). Ao convidar o amigo e sua protetora para um jantar, no qual falariam de música, o primeiro argumentou que não iria, pois acabaria se aborrecendo. As ideias dele seriam, como de costume, rejeitadas, enquanto as de Prudenzina seriam acatadas, valorizadas.

Nino foi sincero com o estimado Fiume: “Você é compositor, um artista dotado de grande conhecimento musical. Já Prudenzina, quando escolhe esta ou aquela versão de uma música minha, está expressando o gosto do público!”.

Celibatário, muito ligado à mãe Ernesta Rinaldi, Nino deixou, como mostrará Fasano, composições de concerto respeitáveis. Mas o que garantiu a ele a posteridade foram suas trilhas sonoras. O filme trará revelação curiosa sobre a vida pessoal do artista peninsular. E esta revelação tem sua origem nos anos (1930 a 1932) em que ele estudou na Filadélfia/EUA, com o professor Rosario Scalero.

O documentário programado pela Mostra SP reconhece – em condições similares às do monumental “Ennio, o Maestro” (2021), que Giuseppe Tornatore dedicou a Morricone – os “momentos mais destacados” da trajetória de Nino Rota: “as trilhas feitas para Fellini, para Zefirelli, em especial ‘Romeu e Julieta’, e para os dois ‘Chefões’”. Foram estas as que ficaram “registradas na memória do público e tocaram no rádio”.

O MENINO DA FOTOGRAFIA. CARLOS SAURA, de Anna Saura – Produção da Espanha em parceria com a Argentina (82 minutos), este imperdível longa documental integra a Competição Novos Diretores e propõe-se a desenhar retrato íntimo dos últimos anos de Carlos Saura, que morreu aos 91 anos, em fevereiro de 2023. Quem realiza a empreitada é a filha caçula do realizador espanhol, fruto de seu último e duradouro casamento (com a atriz Eulália Ramón).

Os anos derradeiros do diretor de “Ana e os Lobos” foram dedicados, sem descanso, à pintura e à fotografia. E renderam valiosos registros (embora as imagens não tragam as belas cores e enquadramentos dos filmes do retratado). São lavadas e pouco inspiradas. Por sorte, tais imagens captam a vida cotidiana de Saura e contam com sua aguda cumplicidade crítica (muito crítica). Ele tenta contrariar, com amorosas ponderações, as propostas da filha querida, mas inexperiente.

Os momentos mais empolgantes do documentário nos lembrarão que foi um filme de Saura (“Peppermint Frappé”) a atração da noite em que Godard, Truffaut e pares rebeldes interromperam o Festival de Cannes. O fizeram com o intuito de protestar e prestar solidariedade a operários e estudantes, envolvidos em greves e grandes manifestações de rua no Maio de 1968. Saura engrossou as fileiras dos revoltosos.

A relação do diretor de “Cria Cuervos” com o mestre (e conterrâneo) Luis Buñuel, de quem foi amigo próximo, também ganhará vulto. Ao concorrer ao Oscar, com um de seus filmes (“Mamãe Faz Cem Anos”, 1980), Saura, vocacionado à fotografia desde a juventude, fez questão de repetir foto histórica. Aquela que colocou Buñuel, em 1973 (ano em que foi premiado por “O Discreto Chame da Burguesia”), entre os grandes nomes da velha Hollywood (Ford, Billy Wilder, Hitchcock, Stevenson, Mulligan, Cukor e Wise). Sete anos depois, quando chegou sua vez de disputar o Oscar internacional, Saura também se cercou de alguns dos grandes artífices do cinema norte-americano, daqueles que estiveram com o bruxo aragonês no antológico retrato.

Buñuel também foi responsável pela paixão de Saura pelos Tambores de Calanda. O discípulo fez questão de documentar os tocadores que povoaram o imaginário de seu mestre em sequência memorável de “Peppermint Frappé” (1967). Um dos filmes da grande fase de Saura e de sua atriz e companheira Geraldine Chaplin. Por sorte, Anna não escondeu a estrela norte-americana de sua narrativa. O uso de material de arquivo (pessoais e dos filmes saurianos) é dos mais valiosos. E são incríveis as intervenções plásticas do nonagenário retratado sobre imensas fotografias.

EDWARD SAID: ENTRE DOIS MUNDOS – O longa documental da dinamarquesa-estadunidense Maijen Baird é valioso. Traça rico e complexo resumo da trajetória do professor da Universidade de Columbia, músico e intelectual palestino-americano Edward Said (1935-2003), situando-o entre sua Palestina natal e os EUA, onde estudou e tornou-se, além de professor universitário, um dos mais notórios e qualificados defensores da causa de seu povo. Da gente da sofrida Palestina.

A documentarista teve livre acesso à família do intelectual de “dois mundos” e a todo o legado visual deixado por ele, incluindo vídeos domésticos. E buscou, nas mais diversas fontes (acervos da Universidade de Columbia, palestras gravadas e aparições em debates de poucas emissoras de TV), registros que a ajudassem a percorrer sete décadas de vida do autor de “Orientalismo” e “Cultura e Imperialismo”.

Said será visto desde sua infância em Jerusalém até sua morte em Nova York, dois meses antes de completar 68 anos. Os 107 minutos da narrativa passam céleres pela tela e iluminam os principais questionamentos do pensador que desvendou, em especial nos filmes de Hollywood, a imagem dos árabes (incluindo os palestinos, claro!) como seres exóticos, inferiores ou violentos (“terroristas”). Voando em tapetes mágicos ou jogando bombas. Um povo estigmatizado, primeiro por europeus (britânicos, franceses, belgas, alemães) e, depois, pelos norte-americanos.

Na construção de impérios coloniais, povos do Oriente (árabes, indianos, indonésios etc.) foram vistos de forma distorcida, estática e, sempre, inferior, se comparados aos Ocidentais. Estes, por sua vez, sempre foram enaltecidos como cultores da Razão, da Ciência e do Progresso.

O GESTO ENTRE NÓS – O ator e diretor (“Depois Daquele Baile”, 2005) Roberto Bomtempo acompanha, com materiais de arquivo e no tempo presente, dois artistas singulares – Arthur Ribeiro e André Curt –, integrantes da companhia Dos à Deux. A dupla, que soma teatro, dança, circo, mímica e artes visuais, construiu sua vida afetiva (formam um casal) e profissional em Paris. E, a partir da capital francesa, irradiou sua criatividade pelos mais diversos cantos do mundo.

Por 28 anos, André e Arthur causaram, com seu projeto de teatro gestual, sensação em festivais e múltiplas temporadas nos mais diversos palcos da Europa, Ásia e Américas. Incluindo instituição dedicada a portadores de males da mente.

Bomtempo contou com a ajuda milionária da dupla Dos à Deux, que, desde seus primeiros momentos de criação, documentou, com inseparável câmera de vídeo, exercícios, ensaios-processo e espetáculos. Registraram, incansavelmente, suas vidas e deslocamentos pelo mundo. Um acervo íntimo e de grande valor artístico.

O filme tem grandes qualidades, dois personagens cativantes, que sabem comunicar-se tanto verbal, quanto corporalmente. Mas excede em sua duração (103 minutos). Os artistas, tão precisos em seus trabalhos cênicos, ganhariam muito se abrissem mão de alguns registros, pois eles fazem o desfecho do documentário se arrastar.

SESSÕES NA MOSTRA

“O Gesto Entre Nós”, de Roberto Bomtempo (104 minutos)
Hoje, dia 19, no Espaço Augusta 1 (21h)
Quarta-feira, dia 21, no Frei Caneca 1 (16h)

“Nino, um Filme Sobre Nino Rota”, de Walter Fasano (115 minutos)
Quinta-feira, dia 22 – No Espaço Petrobras Augusta 1 (16h30)
Sábado, dia 24 – No Solar Fábio Prado – Espaço Especial Petrobras (12h)

“Edward Said – Entre Dois Mundos”, da Maijen Baird (107 minutos)
Domingo, dia 25 – No Belas Artes, Sala Leon Cakoff (13h)
Quinta-feira, dia 29 – No Frei Caneca 4 (19h15)

“O Menino da Fotografia. Carlos Saura”, de Anna Saura (82 minutos)
Terça-feira, dia 20 – No Belas Artes, Sala Leon Cakoff (21h)
Domingo, dia 25 – Na CineSala Pinheiros (16h30)
Segunda-feira, dia 26 – No Cine Segall – Vila Mariana (14h)

“Cão sem Pluma”, de Camila Valença (73 minutos)
Quarta-feira, dia 28 – Espaço Petrobras Augusta (19h40)
Quinta-feira, dia 29 – Frei Caneca 2 (17h40)

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