Artigos Produção Audiovisual — 16 outubro 2011

Não precisa ser um gênio do marketing para constatar: o cinema brasileiro se elitizou demais. Isso aconteceu em parte pela distribuição das salas. Mas também virou uma estética cinematográfica. O fato é que a grande maioria de nossos filmes são elitistas. Em nossos melhores momentos tínhamos cinema de rua a preços acessíveis que conquistavam o público popular. Foi o auge de nossa relação com o “povo”, que é o público mais fiel ao cinema brasileiro, pois resiste à cultura internacional, pois não gosta de ler legenda, pois tem real orgulho de ser o que é.

Mas o cinema brasileiro é apenas para a elite. Se quisermos superar isso,  precisamos aprender a dialogar com a classe C. O grande fenômeno social da década é a ascensão da classe C. A TV paga brasileira e todo o mercado publicitário estão correndo atrás de uma estética classe C. Mas o cinema ainda não pensa nisso. Ainda estamos presos ideia de que o cinema elitizou e que a classe C jamais irá frequentá-lo. Isso é realidade hoje. Mas não precisa ser para sempre. Muitos grandes sucessos do cinema ocorrem quando o filme vai além da realidade imediata e conquista novos públicos. Aconteceu isso com “Cidade de Deus”, com “Tropa de Elite 2”, com “Dois Filhos de Francisco”, entre outros.

Um único bom filme, bem realizado e distribuído, conquista vastos públicos inexplorados. A Classe C já está consumindo até TV paga, só falta o cinema dialogar com ela. Na hora que fizermos filmes com estéticas populares, a classe C poderá surpreender e voltar ao cinema. Como diz o pessoal de Marketing, a classe C é um vasto “oceano azul” a ser explorado. Mas para isso é necessário arriscarmos em novas estéticas e , também, em novos realizadores, com novas visões de mundo e outros padrões de gosto. Para dialogar com a classe C, o cinema brasileiro precisa perder o medo de ser brega.

Nosso cinema é elitista de várias maneiras. A mais óbvia é o filme de festival. Nenhum pais do mundo tem tanto festival quanto o Brasil. Isso pode ser bom, desde que o circuito de festivais não vire uma realidade paralela. Há inúmeros filmes que são considerados “sucesso”, mas só existem para os cinéfilos militantes de festivais. Antes os festivais serviam de selo de qualidade para lançar o filme comercialmente. Ou os festivais eram o templo para filmes de vanguarda que, mesmo com pouco público, repercutiam socialmente em debates e influenciavam as estéticas da indústria, uma vez que a vanguarda realmente dialogava com o espírito do tempo e antecipava estéticas que iriam repercutir em breve. Agora os filmes de arte existem só no próprio circuito gratuito dos festivais e só se influenciam mutuamente. Filme de arte virou um gênero. Há inclusive regras de linguagem para fazer um filme de arte. Da até para escrever um manual de roteiro para filme de festival. Será que tudo muda menos a vanguarda? Será que fazer sucesso só em festival é mesmo sucesso? Ou é só autismo cultural financiado pelo Estado?

Mas esse tipo de filme é a forma mais comum de elitismo em nosso cinema e isso se manifesta nas baixas bilheterias. No entanto, mesmo os filmes nacionais com  sucesso de público, ainda priorizam estéticas elitistas. Até mesmo as atuais comédias populares são focadas em personagens e histórias da elite. Basta ver a filmografia da Globo Filmes, que tem boas comédias de costume, todas leves e de “bom gosto”. Só fazemos filme sobre ricos e sobre favela. E quem gosta de favela é elite. Quem é de subúrbio, quem é classe média baixa, quem é classe C ou foi classe C na infância não tem curiosidade pela periferia. Até porque quem é classe C já foi muito à periferia e , em muitos casos, lutou para sair dela. Quem tem real interesse pelo exotismo do pobre é a elite. Por isso, a elite cultural e econômica que consegue fazer cinema no Brasil (e eu me incluo nela) escolheu a periferia e a favela como seu fetiche. E esqueceu o subúrbio.

Mas é no subúrbio que está a maior parte da população brasileira. É uma vasta realidade pouco explorada. Cidades inteiras como Guarulhos, Osasco e São Bernardo são invisíveis no cinema brasileiro. A invisibilidade se estende aos bairros de subúrbio da capital (como Tatuapé) e aos similares em todas as outras capitais do país. Nesse ponto,  a TV esta mais avançada que o cinema. Muitas novelas se preocupam em incluir a Zona Norte do Rio, ou personagens da Moóca. Mas, em cinema, todo esse povo é ignorado. Estéticas populares notáveis são ignoradas pelo nosso cinema. Não temos um filme que dialogue com música brega, nem com tecnobrega, nem com forró. Na música, esse dilema já foi resolvido pelo Tropicalismo, no momento em que  Caetano e Gil começaram a dialogar e recriar estéticas bregas. As interpretações que Caetano faz de músicas bregas são um exemplo de como é possível refinar o kitsch. A Trópicalia realizou o projeto que nosso cinema tem que alcançar hoje: partir do brega e criar um cult. Um filme assim, que dialoga sofisticadamente com o brega, pode levar ao cinema o vasto público classe C, sem perder a elite cultural que hoje frequenta nossas salas. Almodóvar faz isso, trabalhando com a recriação de estéticas bregas e com músicas românticas. Temos que fazer o mesmo. Falta um pouco de breguice tropicalista ao cinema brasileiro.

Nosso cinema tem plenas condições de conquistar esse vasto público de classe C, que está cada vez com mais poder de consumo. Para isso, é fundamental a política de construção de salas que a Ancine tem promovido. Mas é necessário também que os produtores, cineastas e distribuidores aprendam a dialogar esteticamente com o gosto brega do subúrbio.

 

Newton Cannito é roteirista e foi Secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura.

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(2) Comente

  1. Newton, Amei seu artigo! O problema do cinema no Brasil é que é caro, as salas só ficam nos shoppings, o público é blasé ( com cara de pseudointelectual = Cara de C* mesmo) e dizem que corresponder as emoções que os filmes causam é falta de educação! Já ouvi muito idiota dizer, não vou “naquele” tal shopping (cinema) porque só da pobre! PELOAMORDEDEUS BRASIL! Diminua os preços do cinema! Construam mais salas próximas as periferias. Crie uma industria! Chega de cinema elitizado. entretenimento deve ser pra todos! Juro que isso um dia vai mudar!

  2. Sou estudante universitário e gostaria que você desse uma olhada no média metragem que dirigi e produzi com ajuda apenas de voluntários e sem verba! O nome é Quero Ser Beyoncé: http://www.youtube.com/watch?v=YcQ_B5YggF4

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