Críticas de Filmes Slideshow — 22 abril 2015
Cinema de invenção

Há um momento no cinema nacional, entre 1968 e 1970, de produções marginais, de invenção, também chamado údigrudi. Os cineastas que seguiram o caminho marginal realizaram obras anárquicas, disruptivas, debochadas, sarcásticas, provocadoras num período, como se sabe, de mais forte repressão nos anos da ditadura militar. Nesses anos, para muitos, o cineasta mais criativo e irreverente foi Rogério Sganzerla. Seu “O Bandido da Luz Vermelha” (1968) é marco da filmografia údigrudi, uma das obras mais importantes do cinema brasileiro.

Os filmes “marginais”, por razões óbvias de censura, praticamente não circularam. Assim, Sganzerla e outros foram vistos em círculos restritos, por aficionados e, principalmente, admiradores de propostas alternativas de linguagem e estética cinematográfica. Não creio que em algum momento cineastas como Sganzerla serão cultuados por um público que vá além da cinefilia. Não creio que ele mesmo, como sua proposta de “cinema de invenção”, teria outro propósito.

As inquietações e o legado do cinema marginal, no entanto, se fazem sentir em nosso cinema atual. Cineastas como Cao Guimarães, de “Andarilho”, Sérgio Borges, de “O Céu sobre os Ombros”, ou Dellani Lima, de “O Tempo Não Existe no Lugar em que Estamos”, guardam insuspeitas influências das propostas “marginais”. Ou seja, visto por poucos, a vitalidade do cinema marginal, no entanto, é um dado inconteste para quem dele se aproxima.

Daí, então, para deleite dos aficionados, louve-se a inciativa da Petrobras Cultural e da Mercúrio Produções, com distribuição da Versátil, de oferecer o DVD da versão integral e restaurada de “Copacabana mon Amour”, de Sganzerla. Realizado em 1970, ano de produtividade efervescente (nesse mesmo ano assinou “Sem Essa, Aranha” e “Carnaval na Lama”), este longa-metragem é uma das obras emblemáticas do trajeto artístico de Sganzerla e, em consequência, essencial para se apreender as possibilidades de filmar nos “anos de chumbo”.

“Copacabana mon Amour” conta a história de Sonia Silk (Helena Ignez), que sonha em ser cantora na Rádio Nacional, mas que sobrevive de prostituição. Ela se entrega a turistas de ocasião na orla de Copacabana. Como se dão as escolhas para condução da trama é onde reside a grande sacada de Sganzerla. Ele subverte os gêneros na mesma medida em que insere seus personagens no contexto de desbunde, ou de porraloquice. Assim, “Copacabana…” é um pastiche de chanchada, como igualmente trata de modo debochado e provocador as mazelas e a situação política e cultural do país.

Para o espectador desavisado, não é o caso de entender a “história”. Sonia Silk é uma espécie de caricatura da condição de uma mulher que ao mesmo tempo convive com os sinais da “modernidade” no comportamento feminino num país tomado pelos militares. Como reflexo dos extremos em que ela vive seu comportamento, e de quem a circunda, é fortemente marcado por explosões de desespero, de exasperação diante da impossibilidade de encontrar sentido para os gestos mais triviais.

Sonia Silk, então, é uma personagem a ser vista em estado de transe, ou de delírio alucinógeno. Se não há razão que dê sentido ao mundo ao redor, tudo é permitido. Nas primeiras sequências, ela perambula por barracos, terrenos abandonados e terreiros de macumba nos morros. Em seguida, ela transita pelas ruas de Copacabana e, ao lado de Lilian Lemmertz, berra repetidas diversas vezes em alto e bom som com a mesma carga de desprezo: “tenho pavor à velhice!”.

Na sequência do filme, marcado pela desestruturação narrativa, posts com entradas que não seguem raccords prévios; ou seja, não indicam qualquer sentido de continuidade. Em “Copacabana mon Amour”, no choque causado pelas imagens, que expressam situações de desespero, de exasperação, de desbunde com respeito à expectativa de comportamento convencional, sem saída senão a entrega à devassidão, à orgia sexual e mental, pois onde não há razão que explique o mundo, crassa o caos, a libertinagem, a permissividade sexual.

Na exclamação “tenho pavor à velhice!”, gritada por Sonia Silk, o clamor de uma geração que não se via no horizonte, que não se enxergava velha. No mundo em que vivia, onde “tudo é perigoso, tudo é divino e maravilhoso”, como diz a letra da canção, não estava na ordem do dia passar dos 30 anos. Para quem nunca viu “Copacabana mon Amour”, a sequência com o grito de Sonia Silk seria suficiente para dar ideia do quanto uma cena basta para que se veja uma grande obra fílmica, um momento de invenção de um dos maiores cineastas em nossa filmografia. Sob este aspecto, Sganzerla filmou a tela “O Grito”, do pintor expressionista norueguês Edvard Munch.

 

Por Humberto Pereira da Silva, professor de ética e crítica de arte na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado)

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