Documentarista paraibano prepara o quarto filme sobre Ariano Suassuna
Cláudio Brito, Ariano e Dantas Suassuna © João Carlos Beltrão

O documentarista paraibano Cláudio Brito prepara o longa-metragem “Ariano: Armorial”, fecho de tetralogia sobre um de seus mais ilustres conterrâneos, o escritor Ariano Suassuna. Este documentário vem somar-se a “Ariano Suassuna: Cabra de Coração e Arte ou O Cavaleiro da Alegre Figura” (2007), “Ariano: Impressões” (2009) e “Ariano: Suassunas” (2013), as três primeiras partes do que o cineasta denominou “Tetralogia Suassuniana”.

A relação de Ariano Suassuna (1927-2014) com o cinema é das mais frutíferas. Se Jorge Amado e Nélson Rodrigues o superam em adaptações ficcionais, o paraibano é imbatível no campo do documentário. Suas aulas-espetáculo e sua trajetória de vida deram origem a dezenas de documentários de Vladimir Carvalho, Marcus Vilar e de emissoras de TV comerciais e educativas.

No terreno da ficção, o criador do Movimento Armorial também se saiu muito bem. Sua peça mais famosa, “O Auto da Compadecida”, deu origem a três longas-metragens, o primeiro dirigido por George Jonas, o segundo por Roberto Farias e o terceiro por Guel Arraes. Os dois últimos bateram, com folga, a casa dos dois milhões de espectadores (cada). O de Farias tinha o quarteto Os Trapalhões à frente do elenco. O de Guel Arraes, a dupla Matheus Nachtergaele, o João Grilo, e Selton Mello, o Chicó.

Cláudio Brito produz, simultaneamente a “Ariano: Armorial”, longa documental de nome curioso – “Braulio Tavares: Saga e Sina Silibrina” – sobre o escritor, dramaturgo e compositor, nascido em Campina Grande. Portanto, paraibano como Suassuna. Bráulio, aliás, é estudioso da obra do criador de “A Pedra do Reino” e autor do mais premiado dos musicais brasileiros da temporada: “Suassuna: O Auto do Reino do Sol”, montado pela companhia carioca Barca dos Corações Partidos, que vem lotando teatros por onde passa.

A devoção de Cláudio Brito a Ariano é tão grande, que seu principal documentário – “Euclydes, o Peregrino das Palavras”, sobre o autor de “Os Sertões” – tem no escritor paraibano seu esteio conceitual.

Para Suassuna, “Os Sertões”, obra máxima de Euclydes da Cunha (1866-1909), é a fonte seminal do mais importante veio da literatura brasileira. “O Peregrino das Palavras”, um dos documentários mais procurados entre os filmes do acervo do IFPB (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba) sustenta-se, também, em ideia defendida pela fotógrafa e cineasta britânico-brasileira, Maureen Bisilliat, de 86 anos. Em dedicatória de seu livro “Sertão Luz & Trevas”, ela escreveu: “A Ariano Suassuna, terceira ponta do triângulo literário, místico, telúrico, mítico e sertanejo – Euclides, Guimarães, Suassuna – a quem fico devendo uma interpretação iconográfica à altura de sua obra”.

Outro esteio do documentário dedicado a Euclydes e “Os Sertões” é o artista plástico Manuel Dantas Suassuna, filho de Ariano e seguidor fiel das ideias do Movimento Armorial. Dantas, personagem de dois médias-metragens de Cláudio Brito, visita, sempre que pode (como fazia o pai), os espaços outrora ocupados, na Bahia, por Antônio Conselheiro e seus seguidores, derrotados na sangrenta Guerra de Canudos (1896-1897).

Ao colocar no cânone os livros de Euclydes (“Os Sertões”, publicado em 1902), Guimarães Rosa (“Grande Sertão: Veredas”, 1956) e Ariano Suassuna (“A Pedra do Reino, 1971), Bisilliat, além de estabelecer um “triângulo literário”, os qualifica com termos caros a Suassuna e seus seguidores: “místico, telúrico, mítico e sertanejo”. Dantas Suassuna assegura, em “O Peregrino das Palavras”, que o sertão, e só ele, é sua fonte de inspiração. Não se interessa, ao criar seus quadros e objetos estéticos, pelo mundo urbano.

Em entrevista à Revista de CINEMA, Cláudio Brito, 46 anos, graduado e mestre em Engenharia Elétrica, e doutor em Linguística (leitura literária e oralidade), fala de sua produção documental e da centralidade de Ariano Suassuna em seu processo criativo.

Revista de CINEMA – Suassuna é o elo de ligação de todos seus documentários. Seja como personagem central da tetralogia que você está finalizando, seja no longa “Euclydes – O Peregrino da Palavra”, seja como fonte de inspiração do artista plástico Dantas Suassuna. Você concebeu esta série de documentários e foi a campo realizá-los? Ou um levou ao outro?

Cláudio Brito – Inicialmente, não pensava realizar uma série. Seria somente um. No entanto, o meu envolvimento com a obra e a família de Ariano me conduziu à realização do que chamo, hoje, a Tetralogia Suassuniana. Porque, além dos três documentários – “Cabra de Coração e Arte ou O Cavaleiro da Alegre Figura”, “Ariano: Impressões” e “Ariano: Suassunas” – estamos a produzir, desde novembro de 2013, um quarto, intitulado “Ariano: Armorial”, que esperamos lançar após a conclusão do projeto audiovisual sobre o peregrino Antonio Conselheiro (1828-1897), realizado em parceria com o pintor Manuel Dantas Suassuna. Trata-se da trilogia “Pelo Caminho Sagrado”, composta pelo “Prelúdio” (2013), “Andante” (2015) e “Alegro”, que está em fase de realização e será lançado em seis meses após a exposição pictórico-fotográfica “Pelo Caminho Sagrado”, de Dantas Suassuna e Geyson Magno.

O primeiro documentário “O Cavaleiro da Alegre Figura” foi, então, fertilizando os outros filmes?

Entre 2005 a 2008, trabalhei como professor no Centro Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí (hoje Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba). Em novembro de 2006, senti a necessidade de homenagear Ariano Suassuna, por seus 80 anos, com um filme que seria mostrado durante a Semana de Arte Armorial, que organizamos na escola. Assim, surgiu o “Cabra de Coração e Arte ou O Cavaleiro da Alegre Figura” (2007). O segundo, “Ariano: Impressões” (2009), foi realizado com o intuito de homenageá-lo no dia em que receberia a Medalha Coriolano de Medeiros (honraria máxima concedida pelo IFPB a personalidades públicas). O terceiro, “Ariano: Suassunas” (2013), surgiu para mostrar a influência mútua existente entre Ariano e seus familiares, que se reflete na obra do escritor e nas várias gerações dos Suassuna, principalmente os artistas da família, como Manuel Dantas Suassuna e Guilherme da Fonte. E o quarto, “Ariano: Armorial”, que já está em fase final de desenvolvimento (estamos com cerca de 80% do material captado), é uma reflexão sobre a estética armorial e sua influência, ao longo de mais de 40 anos, em artistas de distintas áreas.

Você reuniu, em “Euclydes – O Peregrino das Palavras”, um time de intelectuais, muitos deles professores universitários, que têm o dom da palavra inteligente, mas coloquial. Sabem defender ideias complexas com clareza e paixão. Como se deu a mobilização deste time? 

Não foi difícil reunir esse time de intelectuais e artistas, pois já os conhecia de longa data, sabia que muitos de seus trabalhos refletiam o estilo de Euclydes da Cunha, a narrativa de “Os Sertões”, vinculando-os, autor e livro, à nossa realidade atual. A concepção do documentário até seu lançamento durou um ano. Nunca havia realizado um longa-metragem em tempo tão curto (em geral, preciso de, no mínimo, dois anos). Essa realização rápida deve-se, justamente, ao fato de, desde o primeiro momento, saber exatamente os personagens necessários para o documentário. Contei, então, com a contribuição, de Carlos Newton Jr., Eduardo Diatahy, Hildeberto Barbosa, Luiz Paulo Neiva, Bráulio Tavares, Raimundo Carrero e Dantas Suassuna. E, claro, de depoimento pré-gravado de Ariano.

A fotografia de “Euclydes – O Peregrino da Palavra” registra belas imagens do longo caminho de pedras que leva à igreja do Monte Santo, importante cenário de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de paisagens, plantas e pedras da região de Canudos. Como você e o diretor de fotografia, João Carlos Beltrão, definiram o visual do filme?

Minha concepção estética cinematográfica é profundamente literária. Para mim, a experiência da leitura envolve, muito fortemente, a palavra, a imagem e o som (que, ritmado, torna-se musical). De certa forma, meus trabalhos refletem minha experiência como leitor e, ao mesmo tempo, minha frustração de não ser um escritor: os fragmentos literários são “epígrafes” de “capítulos imagéticos” que compõem uma espécie de “livro-documentário”. As imagens (principalmente externas) tendem a ser contemplativas, na tentativa de convidar o espectador-leitor à reflexão e, ao mesmo tempo, à fruição estética. Dessa forma, minha concepção imagética me leva a buscar uma narrativa contemplativa que busca um ritmo poético-literário em que os elementos constitutivos dos planos procuram integrar, de maneira harmoniosa, os discursos às ações dos personagens. Sou fortemente influenciado pelas minhas leituras, principalmente de autores como Euclydes da Cunha, Ariano Suassuna, João Guimarães Rosa, José Saramago, Ernesto Sabato, Eduardo Galeano e Julio Cortázar. São autores que trabalham com palavras concretas, que produzem uma narrativa imagética límpida, clara e profundamente poética. Quando filmo, minha concepção imagética bebe dessa fonte; minhas referências são muito mais literárias que cinematográficas. Procuro criar imagens cinematográficas que estejam próximas de meu mundo imagético literário. Por isso, gosto de ler mais do que ver filmes. Os livros literários me ajudam a produzir imagens, enquanto os filmes já me fornecem o pacote pronto. Sou mais da criação, da invenção. Gosto muito mais de criar imagens na minha mente do que vê-las em telas.

Mas, então, os fotógrafos sofrem ao trabalhar com você, pois eles só pensam na imagem e você ama, acima de tudo, as palavras.

Tenho uma grande gratidão a João Carlos Beltrão, pois é ele quem me ajuda a colocar essa minha concepção imagético-literária em prática. Converso muito com ele sobre minhas preferências literárias e cinematográficas, para que tenha uma noção da estética narrativa que busco compor. Ele é muito compreensivo, me escuta muito, tem muita paciência comigo. Somos muito afinados, João sabe muito bem o que eu quero. Em relação a “Euclydes”, por exemplo, desde o início ele sabia que, se no campo literário minhas maiores referências seriam Euclydes, Ariano e Guimarães Rosa, no campo cinematográfico o nosso norte seria o cineasta japonês Yasujiro Ozu. Da mesma forma que, para o espectador ocidental, causa estranheza a composição imagética de Ozu – com planos quase sempre baixos, fixos, fechados, simétricos, entrecortados de objetos excêntricos – eu queria algo parecido no “Euclydes”, numa tentativa de recriar o sentimento e o olhar de estranheza do autor de Cantagalo, ao adentrar um universo até então desconhecido para ele, e que acabou definindo a narrativa singular, barroca, contraditória, imagética, musical e épica de “Os Sertões”.

Não seria recomendável uma versão mais enxuta de “O Peregrino da Palavras”, que pudesse circular pelos festivais e cinemas do país? Ou seria complicado no aspecto de direitos autorais, quanto ao uso de materiais de arquivo?

Sinceramente, não tenho o menor interesse em reduzir a duração do “Euclydes”. O que tinha de dizer foi dito em 100 minutos, nem mais nem menos. E, inclusive, depois de realizar três exibições públicas do documentário, ninguém me disse que o considerava longo, cansativo. Muito pelo contrário. Várias pessoas me disseram que nem sentiram o tempo passar. Ou seja, o filme parece ter uma capacidade de envolvimento e de fruição estética que minimiza um possível cansaço em função de sua duração. Quanto à questão do uso de materiais de arquivo, parte veio de livros literários (várias edições de “Os Sertões”, inclusive uma dinamarquesa, de 1948, com belíssimas ilustrações de Ib Andersen), fotográficos (por exemplo, o “Canudos”, do Instituto Moreira Salles e “Sertões Luz & Trevas”, de Maureen Bisilliat) e pictóricos (como “Os Sertões, Impressões e Pinturas”, de Otoniel Fernandes Neto). Logo, é uma material que pode ser acessado a partir de uma vasta consulta bibliográfica.

Você está preparando um longa documental sobre Bráulio Tavares. Em que etapa encontra-se o projeto?    

Iniciamos, oficialmente, o documentário “Bráulio Tavares: Saga e Sina Silibrina” em fevereiro de 2017, e sua finalização está prevista para abril do próximo ano. Como temos material filmado desde 2014, já realizamos cerca de 70% da captação. É muito provável que, no ano que vem, já tenhamos finalizado o documentário. Talvez segure um pouco o lançamento, para coincidir com a comemoração, em 2020, dos 70 anos do “Raio da Silibrina” (apelido que Bráulio recebeu de uma tia, em sua Campina Grande natal).

 

FICHA TÉCNICA – “Euclydes – O Peregrino da Palavra” + Série de documentários sobre Ariano Suassuna + série “Pelo Caminho Sagrado”, do artista plástico Dantas Suassuna. Disponíveis no Acervo do IFPB (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba), através da TV IFPB (Rua das Trincheiras, 275, salas 9 a 13, João Pessoa, PB). Instituições educativas podem solicitar cópias em DVD pelo e-mail tv@ifpb.edu.br ou a Cláudio Brito (cmcbrito@hotmail.com).

 

Por Maria do Rosário Caetano

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