A extensa obra do francês Jean Rouch e a sintética produção do senegalês Djibril Diop Mambéty geraram momentos de epifania nas telas e debates do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, que na noite de hoje (13 de junho) entrega seus prêmios aos melhores desta que é sua sétima edição.

Público fiel e apaixonado assistiu aos curtas, médias e longas-metragens de Rouch e de Mambéty. Nos corredores, os filmes eram temas de animadas discussões em pequenos grupos. Só “Os Mestres Loucos”, passadas tantas décadas, continua dividindo seus espectadores com fúria semelhante à que tomou Marcel Grioule, cientista francês que chegou a propor a queima dos negativos deste registro de rituais de transe, que Rouch registrou junto aos Haouka, em Accra (Gana). Afinal, Grioule entendia que tais registros mostravam os africanos como selvagens.

Três debates realizados pelo Olhar de Cinema, em complemento à retrospectiva Rouch-Mambéty, motivaram amplas reflexões. E foram acompanhados com enorme interesse.

No primeiro deles, Mateus Araújo, professor da USP, fez suas considerações sobre “Crônicas de um Verão” (parceria de Rouch com Edgard Morin) e provocou a plateia. No segundo, Mateus somou-se a Kênia Freitas, pós-doutorando (pela Unesp) e estudiosa do Afrofuturismo, e Amaranta César, professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. No terceiro, Amaranta debateu, com o público, o filme de Mambéty, que tornou-se a sensação do Olhar de Cinema — “A Viagem da Hiena”(Touki Bouki, 1973) — e ganhou status de obra-prima.

Maior especialista brasileiro na obra do grande documentarista francês, Mateus Araújo, no primeiro debate, não mostrou pelo filme (parisiense) “Crônica de Um Verão” (1960/61) o mesmo interesse que devota à obra africana de Rouch. Detectou “um certo mal-estar entre os dois realizadores (Rouch e Morin)”, já que pareciam interessados em filmes diferentes. O primeiro, com seu olhar de antropólogo ocupado com a busca de novas formas narrativas. O segundo, Morin, chamando atenção excessiva para seu “pendor pela filosofia”. Além do mais — provocou Mateus — “temas como a Guerra da Argélia, a situação do Congo, o mundo do trabalho, a busca da felicidade e o racismo são empurrados para o trivial”.

Sedimentado em seu imenso conhecimento da obra rouchiana, o professor da USP lembrou que, se comparado ao poderoso “A Pirâmide Humana”(1961), o mais consistente mergulho de Rouch na questão do racismo, “Crônica de um Verão” resulta, mesmo, “trivial”. No que diz respeito ao mundo do trabalho, ele recorreu a outro poderoso exemplo: ”Pouco a Pouco” (“Petit à Petit”, 1971). Este filme parte do mesmo impulso — as relações laborais — e “resulta no mais anti-capitalista dos filmes do Rouch”. Nele, vemos um jovem africano (Damouré Zika, o sedutor “Jaguar” do filme homônimo) que vai à Paris estudar a cidade, seus procedimentos e o mundo dos negócios, pois deseja, com sua nascente empresa de construção civil, erguer um grande prédio no Níger africano. O retrato satírico construído por Rouch e seus “atores” é demolidor.

A plateia ouviu, com respeito, as corajosas opiniões de Mateus Araújo, mas não concordou com ele. O poder de sedução de “Crônica de um Verão” continua inabalável. Se não fosse assim, não teria se transformado no mais conhecido dos presumíveis 120 filmes (muitos não finalizados) do documentarista francês. Suas liberdades narrativas e a força de muitos de seus personagens (que apareceriam, nos anos seguintes, em outros filmes rouchianos) seguem encantando a velhas (e novíssimas) gerações de espectadores.

O segundo debate do Olhar de Cinema dedicado à obra de Rouch e Mambéty começou com provocação assertiva da crítica Kênia Freitas, estudiosa do cinema negro (e também da música). Depois de mestrado na Unicamp e doutorado na UFRJ (neste momento, ela faz pós-doutoramento na Unesp), Kênia deu o tom do encontro: “é hora de revermos os cânones do cinema”. Ou seja, de interrompermos a consagração de obras de cineastas do sexo masculino e pele branca, força que hegemoniza o audiovisual ao longo de sua história centenária. O que significa que EUA e Europa são os territórios aos quais se dirigem todos os olhares, reservando à África, em especial, o esquecimento. Para marcar posição, Kênia avisou que, embora conhecesse bem a obra de Rouch, dedicaria seu tempo ao cinema de Mambéty. O que fez, destacando a importância de sua obra para o cinema senegalês e mundial. E colocando ênfase no apreço do realizador africano (também músico e ator) pelo som. “Ele opera, em seus filmes, montagem inventiva, guiada por elementos sonoros inovadores”.

Amaranta César, que doutorou-se em Paris e organizou, no Brasil, ampla retrospectiva do cinema africano de expressão francófona, também dedicou espaço nobre à obra de Mambéty, com argumentos que aprofundaria no terceiro debate (o que refletiu sobre o filme “A Viagem da Hiena”). A professora baiana lembrou que sempre foi difícil, para nós brasileiros, acessar a produção africana, já que tal cinematografia não dispõe de espaço em nosso circuito exibidor. Ter estudado na França ajudou Amaranta a acessar seminal coleção de DVDs, editada em Paris, com todos os filmes vencedores do Fespaco, o mais importante festival da África, sediado na capital de Burkina Faso (Ouagadougou).

O mais fascinante dos argumentos de Amaranta César estabeleceu ligação entre “A Viagem da Hiena” (que os brasileiros, por ele apaixonados, já evocam pelo sintético título original “Touki Bouki”) e o derradeiro longa de Mambéty, “A Hiena” (1993), recriação livre da peça “A Visita da Velha Senhora”, do suíço Dürrenmatt. Vinte anos separam os dois filmes. Para Amaranta, o derradeiro pode ser lido como sequência do primeiro.

Em “Touki Bouki” — argumentou — vemos um casal que vive as contradições entre tradição e modernidade, o desejo de fugir (da terra natal para a metrópole colonial) ou de permanecer. Por sentir-se traída, ela parte e ele fica. O rapaz constituíria, então, o símbolo da tradição, enquanto ela simbolizaria a mudança. Mas tal leitura seria simplificadora num filme de Mambéty, pois o jovem que permanece utiliza uma vistosa motocicleta e traz a cabeça adornada por capacete arrematado por vistosos chifres de touro. Tradição/modernidade, rural/urbano, ir/ficar são recorrências constantes no cinema de muitos realizadores africanos.

E o que vemos em “Hienas”? Amaranta César responde: “vemos uma mulher muito rica que volta à terra natal para vingar-se daquele que a abandonou. E volta com muito rancor, com um projeto de vingança contra toda a comunidade que a rejeitou. E com a intenção de matar seu parceiro de outrora. Numa frase, ela — que enriqueceu prostituindo-se na metrópole colonial — lembra que “o mundo me tornou prostituta e agora vou transformá-lo num prostíbulo”.

Mateus Araújo, que incendiara o debate de “Crônica de um Verão” ao fazer sérias restrições ao mais famoso dos documentários de Rouch, adotou posição de defesa ardorosa do francês. Como Kênia devotara a Rouch um certo desprezo (não quis dedicar a ele nem um minuto de sua intervenção), o professor da USP avisou que evitaria “relação genérica” entre o documentarista francês e o cinema africano. Adotaria, pois, avaliação da obra de “dois autores singulares”.

“Até Ousmane Sembène (cineasta senegalês, autor do clássico “A Garota Negra”)”— ponderou Mateus — “que acusou Rouch de ver os africanos como ‘insetos’ em seus filmes, chegando ao ponto de tachá-lo de cineasta colonizador, admitia, ao analisar casos específicos, que este ou aquele filme era muito bom”.

Por que a obra africana de Rouch merece, cada vez mais (e profundos), estudos e conquista novas gerações de espectadores?

Mateus acredita que o cineasta francês esticou a corda da cumplicidade e simpatia (pelos africanos) ao ponto máximo. E adotou sistema de produção barato e muito de acordo com as condições que encontrou nos países onde mais filmou (Costa do Marfim e Niger, em especial, mas também Senegal, Costa do Ouro, hoje, Gana etc). E procurava, sempre, agregar jovens africanos às suas equipes. Muitos deles tornaram-se atores, técnicos ou diretores de cinema.

Para comprovar o método de trabalho de Rouch (que desempenhava muitas funções, inclusive a de fotógrafo em suas enxutas equipes), Mateus citou o documentário “Vamos Conversar, Vovó”, de Mambéty, que acompanhou a realização de “Yabba”, um dos longa-metragens de Idrissa Ouedraogo (1989).

“Yabba”, como mostra o filme de Mambéty, configura-se numa superprodução, se comparado com as pequenas equipes mobilizadas por Rouch. Havia mais brancos (técnicos franceses) na equipe de Ouedraogo, que nas equipes franciscanas de Rouch.

“O documentarista sempre lutou contra o fetichismo da técnica”, ponderou Mateus. “Nunca a utilizou para afastar os seus colaboradores do cinema”. Ao contrário, “com eles, partilhava os saberes e os resultados de seus filmes”. E mais: “todos sabemos que os sistemas coloniais usam as subvenções locais (ou seja, dos países que explora) em proveito próprio. Rouch não fazia isto. Quantas vezes levou seus personagens aos estúdios para dividir com eles a ‘voz over’ de suas narrativas?” E arrematou: “Em ‘Petit à Petit’, o filme mais anticapitalista de Rouch, ele bola, com seus parceiros africanos, uma ‘etnografia ao avesso’, uma antropologia reflexa, pois são os africanos que observam (e criticam) o colonizador”.

 

Por Maria do Rosário Caetano

Relacionados

Compartilhe

(1) Reader Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>