Seu Jorge – Força black de “Paraíso Perdido”

Seu Jorge, que interpreta um cantor de música brega e roupas espalhafatosas em “Paraíso Perdido”, novo filme de Monique Gardenberg – em cartaz em 60 salas brasileiras – é dono de sinceridade desconcertante.

Durante coletiva de lançamento do filme, em São Paulo, ele deu sua versão para curiosa história contada por Fernando Meirelles, que o revelou ao mundo do cinema com o estouro de “Cidade de Deus” (2002).

A narrativa do cineasta paulista tem ingrediente diplomático: Seu Jorge, escalado para viver Madame Satã no filme homônimo de Karim Aïnouz, teria sido convidado a trocar de lugar com Lázaro Ramos, a quem caberia interpretar o viril Mané Galinha. Meirelles, que transpôs o romance de Paulo Lins para as telas, montava, com ajuda de Kátia Lund, seu elenco. Ao trocar ideia com o cearense Aïnouz, soubera que este pensava em escalar Lázaro Ramos para o lugar de Seu Jorge. Mas Lázaro estava comprometido com Mané Galinha. Os dois realizadores concluiriam, juntos, que a troca faria bem aos dois filmes.

Na versão de Seu Jorge, a história foi diferente: “eu fui indicado a Karim Aïnouz por Bel Diegues. Ela achava que eu, que vinha da música, daria certo no papel de Madame Satã, como Toni Garrido dera certo no ‘Orfeu Negro’, de Cacá Diegues”. Só que “não deu certo e eu fui demitido pelo Karim Aïnouz, depois de passar quase um ano me preparando para o papel”. Talvez “por ter me envolvido com meu CD, tenha me dispersado. Acabei, então, dispensado”.

O restante da história se deu como é de conhecimento público. Lázaro Ramos brilhou na pele de Madame Satã e ganhou muitos prêmios. E Seu Jorge estourou como Mané Galinha, indo parar até em elenco de filmes internacionais, como “A Vida Aquática de Steve Zissou”, “Soundtrack” e “Pelé – O Nascimento de uma Lenda”. E brasileiros, como “Casa de Areia”, “Carmo” e “Tropa de Elite 2”.

De “Cidade de Deus”, Seu Jorge guarda as melhores lembranças. “Além do meu personagem Mané Galinha, que me abriu muitas portas, só tenho que agradecer a existência deste filme. Eu vinha da experiência como músico e tinha atuado em peças de teatro, trabalhara inclusive com Amir Haddad. Mas filmes com elencos negros eram tão raros, que nem pensava em fazer cinema. Quem se interessava por personagens como os de “Cidade de Deus”? Só Plínio Marcos em suas peças mergulhava para valer no mundo marginal, se interessava pelos rejeitados. Por isto, ‘Cidade de Deus’ e ‘Madame Satã’ são tão importantes, abriram muitas portas”.

Emocionado, o músico-ator relembra o que o “Cidade de Deus” significou para ele, como espectador: “que emoção ver uma cena de amor e tesão entre os personagens de Roberta Rodrigues e Jonathan Haagensen. O público olhava, via aqueles dois atores negros e pensava: nossa como eles são bonitos e tesudos, como fizeram bem aquela sequência”.

Com sua franqueza singular, Seu Jorge (no registro civil, Jorge Mário da Silva, que neste mês de junho completa 48 anos) conta que nasceu em Belfort Roxo, mudou-se para o Jardim Bom Pastor, para o Gogó da Ema, dormiu na rua. “Poderia” – pensa em voz alta – “ter feito como Mané Galinha, inspirado em pessoa real, que partiu para a revanche, para a vingança. Eu fui salvo pela música”.

Nos locais onde passou sua infância e juventude, Seu Jorge conviveu com muitos nordestinos, participou de muitas festas de São João, teve nomes como Reginaldo Rossi perto de seus ouvidos. E conviveu com ambientes de boate movidas por muita música romântica. Daí, veio o estímulo para aceitar o convite de Monique Gardenberg e interpretar Teylor, um cantor brega, espécie de filho adotivo da família do patriarca José (Erasmo Carlos), dono do Paraíso Tropical.

“Gostei tanto do Teylor e de trabalhar com a Monique” – confessa – “que até guardei a peruca do meu personagem (uma vistosa black power à moda setentista)”. Quem sabe, sugere, “eu possa usá-la em outro filme dela”. A cineasta confirma que tem um papel grande para ele em “Boca do Inferno”, baseado em romance de Ana Miranda, enriquecido, no roteiro, com pesquisas em livros como “Amor e Crime na Bahia do Século XVII”, de Francisco J.B. Sá, e “A História da Casa da Torre”, de Pedro Calmon.

O ator-cantor confessa que estava de olho em Monique desde que assistira a “Ó Pai, Ó” (estrelado por Lázaro Ramos e dirigido por ela). “Senti que poderia estar ali, naquele elenco e disse a mim mesmo: quero trabalhar com esta diretora”. Quando recebeu o convite para “Paraíso Perdido”, vibrou. E adorou o time escalado para povoar a boate comandada pelo personagem de Erasmo Carlos, músico como ele.

“Eu gosto de movimentar os camarins dos filmes de que participo”, contou. Neste, então, a farra foi geral. “Como o ambiente era musical e praticamente todo mundo cantava, eu levava instrumento, o Júlio (Andrade) também. Como havia muitas sequências noturnas, a gente já estava no clima, tocava, cantava, curtia aquelas roupas loucas, se divertia pra valer”.

O público deve divertir-se, em especial com uma das cenas que abrem “Paraíso Perdido” e mostra um policial (o Odair, interpretado por Lee Taylor) parando a moto do personagem de Seu Jorge e obrigando-o a tirar o capacete. O que chama a atenção é sua imensa peruca black power, que ganha imenso volume depois de libertada do exíguo espaço em que fora comprimida.

Depois de “Paraíso Perdido”, chegará a vez de “Marighella”, épico de Wagner Moura (estreia prevista para abril de 2019), no qual Seu Jorge interpreta o personagem-título. Ou seja, o baiano de origem afro-italiana, que foi deputado federal e, depois, transformou-se em guerrilheiro que fascinou o mundo (incluindo Cris Marker e Jean-Luc Godard). Mais uma vez, Seu Jorge assume papel que seria de outro ator (no caso, o músico Mano Brown). Se der a mesma sorte que deu ao assumir o papel de Mané Galinha (no lugar de Lázaro Ramos) ele vai causar frisson pelas telas do Brasil e do mundo. Sorte não lhe falta.

 

Por Maria do Rosário Caetano

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