“Pássaros de Verão” surpreende e vence o Fênix
Pássaros de Verão

Os filmes favoritos eram o paraguaio “As Herdeiras”, de Marcelo Martinessi, o argentino “Zama”, de Lucrécia Martel, e o mexicano “Museu”, de Alfonso Ruizpalácios. Mas quem levou o troféu máximo da noite dos Prêmios Fênix, entregues na Cidade do México, na última quarta-feira, 7 de novembro, foram os colombianos Ciro Guerra e Cristina Gallego, pelo drama “Pássaros de Verão”.

A dupla tornou-se bicampeã, pois três anos atrás vencera a mesma competição com “O Abraço da Serpente”, dirigido por Ciro e produzido por Cristina. No novo filme, os dois assinam a direção conjuntamente. Mais uma vez, a trupe colombiana mergulha no universo indígena. Desta vez, para contar a história de duas famílias da etnia Wayú, que, na região de Guajira, no Caribe colombiano, travam luta para enviar marijuana (maconha) aos EUA. A trama se desenvolve no início dos anos 1960, quando o consumo da erva vivia seu auge. A demanda era altíssima e exigia a montagem de esquemas para que o tráfico se estruturasse.

A melhor atriz da quinta edição dos Prêmios Fênix foi Carmiña Martinez, intérprete de uma matriarca Wayú, líder de uma das famílias envolvidas com a transferência da marijuana para os EUA. O filme ganhou, ainda, o Fênix de melhor trilha sonora (para Leonardo Heiblum).

O Brasil, que tinha quatro dos sete concorrentes a melhor documentário e uma vaga entre as melhores ficções (com “As Boas Maneiras”, de Juliana Rojas e Marco Dutra) ganhou poucos prêmios, mas assistiu à dupla Tulipa Ruiz e Maria Gadu cantar “Apesar de Você” (alusão, claro, ao novo presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, de extrema direita) e ao reconhecimento ibero-americano à trajetória do produtor Luiz Carlos Barreto, de 90 anos. Coube a ele o Fênix pelo conjunto da obra (“Labor Cinematográfico”). Duas brasileiras conquistaram o Fênix: as pernambucanas Renata Pinheiro, pela direção de arte, e Karen Harley, pela montagem (em parceria com Miguel Schverdfinger) de “Zama”, coprodução entre Argentina, Brasil e países europeus.

A melhor série de TV foi a badalada produção espanhola “A Casa de Papel”, que recolou o hino partigiano “Bella Ciao” no cotidiano auditivo das plateias ocidentais. O melhor documentário foi também espanhol, “Muitos Filhos, um Macaco e um Castelo”, de Gustavo Salmerón. Em junho último, na Riviera Maya mexicana, o mesmo longa documental fôra consagrado pelos Prêmios Platino, também dedicados a laurear o melhor do cinema ibero-americano. Dos documentários brasileiros, só “THF – Central Aeroporto”, dirigido pelo cearense Karim Aïnouz, e produzido na Alemanha, obteve reconhecimento (melhor fotografia para Juan Sarmiento G.).

O drama homoafetivo “As Herdeiras”, que ganhara, um dia antes, o Prêmio Netflix de “melhor filme de diretor estreante (opera prima)”, colocou o Paraguai na história dos Prêmios Fênix. O país, que só lançou três filmes nativos em seu mercado exibidor, ganhou o Fênix de melhor direção, para Marcelo Martinessi. O filme, sobre uma herdeira falida, que tem que vender o que lhe restou para sobreviver, já acumula mais de trinta prêmios, a começar pelos conquistados (melhor atriz, Fipresci e Alfred Bauer) em sua estreia, no Festival de Berlim, em fevereiro deste ano. O melhor ator foi o jovem argentino Lorenzo Ferro, de 19 anos, por seu trabalho em “O Anjo”. No filme, ele interpreta o assassino Carlos Robledo Puch, que barbarizou em Buenos Aires.

“Zama”, o filme da festejada Lucrécia Martel, levou quatro Fênix, mas todos técnicos (além de direção de arte e montagem, teve reconhecidos sua fotografia, do lusitano Rui Poças, e seu som, assinado por Emmanuel Croset e Guido Berenblun). O melhor roteiro foi o do longa colombiano “Matar a Jesús”, escrito por Laura Mora e Alonso Torre. Os melhores figurinos (criação de Mercè Paloma) foram os que vestiram o elenco de “A Livraria”, filme da espanhola Isabel Coixet, falado em inglês.

O reconhecimento a um crítico por seu trabalho na difusão do cinema, coube ao argentino Luciano Monteagudo, do jornal Pagina 12. Além de crítico, Monteagudo é programador de sala cinemtográfica do teatro San Martín, em Buenos Aires.

Os Exibidores Ibero-Americanos escolheram a comédia de humor negro “Perfeitos Desconhecidos”, do espanhol Alex de la Iglesia, como a melhor produção do ano.

O México só não saiu de mãos abanando, porque a série de TV “Aqui en la Tierra” teve seu elenco coletivo reconhecido. Subiram ao palco os atores premiados (Gael García Bernal, Daniel Giménez Cacho, Tenoch Huerta, Sofía Sisniega e Alfonso Dosal).

O tom da premiação foi marcado por palavras de ordem feministas. Em especial, à defesa do aborto. Na plateia, muitas mulheres usavam o lenço verde adotado pelas argentinas na luta (derrotada) para que o Parlamento aprovasse o direito à interrupção da gravidez. No palco, a rapper Ana Tijoux cantou os versos de “Antipatriarca”: “Não vou ser a que obedece/porque meu corpo me pertence/ eu decido meu tempo/como quero e onde quero”.

 

Por Maria do Rosário Caetano

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