Mostra de Gostoso busca novas vitrines para o cinema brasileiro
Bárbara Sturm e Isabelle Cabral © Maria do Rosário Caetano

Por Maria do Rosário Caetano, de São Miguel do Gostoso (RN)

A quinta edição da Mostra de Cinema de Gostoso debateu, com plateia lotada, tema que ganhou vulto neste exato momento em que o TFR 4 aceitou liminar dos exibidores liberando-os da obrigação de reservar espaço para a produção brasileira nos multiplex. Ou seja, a liminar garante aos donos de complexos exibidores programar, num determinado período, só blockbusters norte-americanos. Não há mais limites. Um filme de super-heróis pode ocupar quantas salas seu distribuidor acertar com o exibidor. O próximo alvo dos distribuidores é a Cota de Tela (exibição de certa quantidade de filmes brasileiros ao longo do ano).

Sob o impacto da conquista da liminar pelos exibidores no TRF 4, as produtoras culturais Isabelle Cabral, da Pipa Produções, e Bárbara Sturm, da Elo Company, enumeraram projetos desenvolvidos por estas empresas na busca de novas vitrines para o cinema brasileiro, em especial o de baixo e médio orçamento.

O tema em debate — “Distribuição para Cinema, TV e Novas Plataformas” — derivou para a situação da produção potiguar, que permanece praticamente inédita fora dos limites do estado. E a discussão pegou fogo. Realizadores e técnicos, que se somavam na plateia a alunos e dois professores do curso de Cinema da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), apresentaram quadro complexo de falta de apoio à produção local e, mais ainda, à sua difusão em todo território nacional. Se produtores dos grandes centros brasileiros estão preocupados com a liminar do TRF 4, os profissionais do audiovisual no Rio Grande do Norte vivem preocupação ainda mais angustiante: como encontrar telas e novas plataformas para mostrar seus filmes (alguns longas-metragens e dezenas de curtas).

Bárbara Sturm, que vem da Distribuidora Pandora e há menos de dois anos transferiu-se para a Elo Company, contou que esteve, este ano, em 25 eventos voltados para o debate da difusão e comercialização de filmes brasileiros em salas de cinema e em novas vitrines (programação de companhias aéreas, festivais, streaming etc.).

“A Elo”— explicou — “é um agente de vendas de produtos audiovisuais, que visa potencializar seu alcance nas mais diversas plataformas”. E citou os dois ‘cases’ mais bem sucedidos da empresa: o longa animado “O Menino e o Mundo”, de Alê Abreu, e o documentário “Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil”, de Marco del Fiol.

Acompanhamos “O Menino e o Mundo” desde o início de sua trajetória. O que esperar de um filme de animação, feito por uma equipe pequena e sem diálogos? Pois a Elo acreditou no filme e o acompanhou ao longo de dois anos, desde que ele ganhou o prêmio máximo no Festival de Annecy, até chegar à noite do Oscar. O filme, fato inédito na história do cinema brasileiro, foi um dos cinco finalistas na categoria longa de animação. Levamos ‘O Menino e o Mundo’ a 100 festivais e ele acumulou 50 prêmios. Nos cinemas, fez 50 mil espectadores. E no VoD (video on demand) é, disparado, nosso maior sucesso.

Já o documentário que trouxe a polêmica artista plástica Marina Abramovic ao Brasil, para que perambulasse por ambientes místicos (terreiro de candomblé, centro de curas do médium João de Deus, pelo Acre onde ela experimentou o chá de ayahuasca etc.) se anunciava como um filme modesto. Mas a Elo viu nele projeto dos mais promissores. E apostou suas fichas, sendo muito recompensada.

“Trata-se”— narrou Bárbara — “de documentário que teve bom acolhimento no Brasil, com bilheteria significativa (uns 20 mil espectadores) para o gênero, e que teve excelente aceitação internacional. Foi lançado em cinemas de dez países e vendido a muitos outros, para exibição em outras plataformas. Sua procura no VoD é a que nos deu maior rentabilidade”.

A Pipa da potiguar-carioca Isabelle Cabral tem alcance mais limitado, já que sua proprietária trabalha com filmes bem mais alternativos. Bióloga-marinha, ela contou que descobriu sua vocação no audiovisual, quando começou a frequentar o Cineclube Estação Botafogo, no Rio de Janeiro.

Um acidente me deixaria três meses numa cama. Era justo naquele momento chamado de Retomada do Cinema Brasileiro, depois da paradeira dos anos Collor”. Apaixonei-me pelos filmes e resolvi que, ao sair da cama, iria ajudar a divulgá-los.

Começou a cumprir sua missão na sala de cinema da Universidade Gama Filho, depois na Veiga de Almeida, com projeto que ela chamou de “A Escola Vai ao Cinema”.

Isabelle começou, também, a trabalhar em equipes de filmes como o primeiro “Tainá”, o filme da indiazinha, produzido por Pedro Rovai. Pouco depois, com parceiros, criou o projeto “Cinema em Movimento” e colocou o pé na estrada, mostrando filmes brasileiros em dezenas de cidades. E, com Fernando Meirelles, trabalhou na distribuição de “Domésticas”.

Nos transformamos numa espécie de mídia social da época, íamos a todo canto para colocar o segundo longa do Meirelles (parceria com Nando Olival) em espaços, por mais alternativos que fossem. Fizemos 80 mil espectadores. Fiquei tão entusiasmada, que criei a Pipa. E veio o convite de Carla Camurati para que ajudasse na distribuição de “Copacabana” e, principalmente, de “Janela da Alma”, que ela produzira com os diretores João Jardim e Walter Carvalho. Com estes filmes, Ailton Medeiros e eu criamos o conceito de “distribuição criativa”. Ao invés de gastar o pouco que tínhamos em publicidade tradicional, caríssima e em 90% dos casos inacessível, apostávamos em técnicas e recursos ultra-alternativos.

A produtora da Pipa narrou a mais curiosa delas: “quando fui convidada a potencializar a distribuição do documentário ‘Rio de Janô”, de Ana Azevedo, Zé José e Renata Baldi, eles me revelaram um grande desejo. Queriam ver aqueles aviões que fazem propagandas nas praias do Rio anunciando o longa documental sobre o cartunista francês Janô. Avisei que jamais teríamos recursos para tanto. E sugeri que fizéssemos as faixas e colocássemos pessoas andando com elas defronte aos banhistas, como se fossem “aviões humanos e — risos — aquáticos”. Deu certo, pois aquela inusitada propaganda agradou aos cariocas e andou de boca em boca, virando uma espécie de piada saudável”.

Até 2005, a Pipa ajudou a distribuir ou divulgar cinco filmes baianos (o maior sucesso foi “Novos Baianos – Admirável Mundo Novo”, de Henrique Dantas), a ‘gaychanchada’ de Marcelo Laffitte, ”Elvis & Madona”, todos os documentários de Eduardo Coutinho, a partir de de “Edifício Master”, e dois filmes de Betse de Paula (“O Casamento de Louise” e “Celeste & Estrela”).

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