Fest Aruanda consagra “Azougue Nazaré” e “Beiço de Estrada”
© Mano de Carvalho

Por Maria do Rosário Caetano, de João Pessoa (PB)

O longa pernambucano “Azougue Nazaré”, de Tiago Melo, e o paraibano “Beiço de Estrada”, de Eliézer Rolim, foram os grandes vencedores da competição nacional e da mostra “Sob o Céu Nordestino”, no XIII Festival Aruanda do Audiovisual Brasileiro. Os dois júris, que avaliaram as produções nacionais e as paraibanas, não praticaram nenhum distributivismo.

“Azougue Nazaré” fez a tríplice coroa ao conquistar o troféu Aruanda de melhor filme segundo o júri oficial, a crítica e o público. Ganhou, no total, oito troféus Aruanda, incluindo categorias importantes como direção, roteiro e ator (para Valmir do Côco, dividido ex-aequo com Fabrício Boliveira, por “Simonal”).

Valmir interpreta Catita, um praticante ativo do Maracatu, ritual lúdico-religioso com raízes fincadas no candomblé. Ele é casado com Darlene, convertida à religião evangélica. A jovem esposa frequenta a igreja do Pastor Barachinha, um antigo mestre de maracatu. Depois da conversão, o líder religioso se impõe uma missão: expulsar o demônio do maracatu. Só, que no meio de imenso canavial, que circunda a cidade de Nazaré da Mata, um Pai de Santo pratica ritual religioso junto a cinco caboclos de lança, incorporados em entidades espirituais. Acontecimentos misteriosos ganharão força neste filme inventivo, uma ficção de base (e alma) documental.

“Beiço de Estrada” nasceu como peça de teatro, escrita quando seu autor, o cajazeirense Eliézer Rolim, era um adolescente sertanejo. Ele mesmo dirigiu a montagem da peça, protagonizada por jovens e desconhecidos atores do Grupo Terra. O impacto foi grande e o espetáculo rodou o país no final dos anos 1970, pelo Projeto Mambembão. A cineasta Suzana Amaral assistiu à encenação e escolheu Marcélia Cartaxo para protagonizar (na pele da lispectoriana Macabéia) seu filme “A Hora da Estrela”. A jovem cajazeirense foi premiada, por seu desempenho, com o Urso de Prata no Festival de Berlim.

Passaram-se mais de 30 anos, até que Eliézer, hoje com 55 anos, conseguisse transformar seu texto teatral em filme. Ele manteve a essência original de sua narrativa, calcada em lembranças da infância. Com a construção da BR-230, na era militar-mediciana, vidas se modificam num ermo perdido e envolto em poeira. No ordinário bar Beiço de Estrada, onde se bebe e se pratica o sexo pago, vivem Madame Lili (Darlene Glória) e seus netos, a adolescente Conceição, a virginal Véu de Noiva (Luana Valentim) e o menino Tomás (interpretado pelo carismático Rique Messias), um azougue que coloca pregos na estrada para tentar atrair caminhoneiros em parada estratégica. Na espera pelo conserto de pneus furados, os motoristas beberiam e fariam sexo. E assim, a avó, convicta de que ainda “dá para o gasto”, arrecadaria uns trocados com a venda de bebidas e de suas carnes.

Enquanto espera clientes que não chegam, Mme Lili reza para encontrar um bom marido para a neta adolescente. Quer livrá-la do destino de suas três filhas (interpretadas por Mayana Neiva, Suzy Lopes e Natália Sá), evocadas, em longo flash back, como prostitutas de beira de estrada. Numa das cenas mais fortes do filme, as jovens cercam clientes na noite escura com lamparinas de pavio grosso e luminoso na cabeça.

Só um cliente, na verdade um fornecedor de bebidas baratas, interpretado por Jackson Antunes, aparece no Beiço de Estrada da solitária Mme Lili. E ele o faz com os olhos atraídos pela virgindade de Véu de Noiva. Por seus desempenhos, Darlene Glória, a Geni de “Toda Nudez Será Castigada”(Arnaldo Jabor, 1972), e o mineiro Jackson foram escolhidos como melhor atriz e melhor ator da mostra Sob o Céu Nordestino. O intérprete mirim Rique Messias ganhou o trofeu de ator revelação. E Eliézer Rolim foi premiado como melhor diretor e melhor roteirista.

Vale observar que a mostra paraibana reuniu um time excepcional de diretores de fotografia. O baiano-pernambucano Beto Martins (de “A História da Eternidade”) fotografou “Beiço de Estrada” e “Ambiente Familiar”, João Carlos Beltrão, o instigante “Rebento”, o cearense Ivo Lopes Araújo, a chanchada erótico-libertária “Sol Alegria”, e Luís Barbosa, “O Seu Amor de Volta”. O júri optou pelos estreantes Raphael Aragão, Júlia Sartori e Charliane Rodrigues, trinca que assina a fotografia em preto-e-branco de longa-metragem (“Estrangeiro”) nascido com custo baixíssimo (inicialmente, 4 mil reais) dentro da Universidade Federal da Paraíba.

Registre-se que, por ter realizado recorte musical, o XIII Fest Aruanda acabou reunindo, em sua competição nacional, quatro documentários (sobre Clementina, Adoniran, Mussum e o rock em Saquarema), um híbrido (Azougue Nazaré) e uma ficção (Simonal). Com pouquíssimas opções na categoria atriz, o juri preferiu não atribuir prêmio nesta categoria.

A mostra que reuniu seis longas paraibanos teve uma particularidade: seis filmes exibidos, mas só quatro em competição (“Beiço de Estrada”, somado a “Rebento”, de André Morais, “Estrangeiro”, de Edson Lemos Akatoy, e “Sol Alegria”, de Tavinho & Mariah Teixeira). Já “O Seu Amor de Volta (Mesmo Que Ele Não Queira)”, de Bertrand Lira, e “Ambiente Familiar”, de Torquato Joel, entraram na categoria “Première Paraibana – Hors Concours”.

Entusiasmado com “a qualidade e a diversidade de temas e estilos” dos filmes paraibanos, Jean-Claude Bernardet sugeriu que a crítica destacasse um dos seis filmes. Por isto, criou-se, em caráter excepcional, um prêmio ao melhor filme paraibano. O escolhido foi “O Seu Amor de Volta (Mesmo Que Ele Não Queira”, por “harmonizar, com afeto e ironia, os nossos demônios internos”. Bernardet entregou o trofeu a Bertrand Lira. A Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), com juri próprio, premiou a safra nacional, ao escolher o curta pernambucano “Reforma”, de Fábio Leal, e o longa, também pernambucano, “Azougue Nazaré”.

O júri oficial analisou doze curtas e escolheu o paraibano “Ultravioleta”, de Dhiones Nunes, uma ficção científica tropical, como o melhor em sua categoria. O mesmo e distópico curta, realizado em Congo, cidade do sertão paraibano, teve reconhecidos com o Troféu Aruanda, seu diretor, seu montador (Kennel Rógis) e seu diretor de arte (Romero Sousa).

LONGA-METRAGEM NACIONAL

. “Azougue Nazaré” (Pernambuco)- melhor filme pelo juri oficial, pela Crítica (Abraccine) e pelo Público, melhor diretor (Tiago Melo), ator (ex-aequo) para Valmir do Côco, roteiro (Tiago Melo e Jerônimo Lemos), fotografia (Gustavo Pessoa), figurino (Joana Gatis e equipe)

. “Simonal” (Rio de Janeiro) – melhor ator (ex-aqueo) Fabrício Boliveira, direção de arte (Yurika Yamazaki), som (Alessandro Laroca, Eduardo Virmond e Armando Torres Jr)

. “Adoniram, Meu Nome é João Rubinato” (São Paulo): melhor montagem (Christian Grinstein, Gabriel Peixoto e Pedro Serrano), melhor trilha sonora (Adoniran Barbosa)

. “Som, Sol & Surf: Saquarema” (Rio de Janeiro) – Prêmio Especial pelo resgate de materiais de arquivo

. “Clementina”(Rio de Janeiro): melhor personagem feminina (Clementina de Jesus).

LONGA-METRAGEM PARAIBANO

. “Beiço de Estrada” – melhor filme, diretor (Eliézer Rolim), atriz (Darlene Glória), ator (Jackson Antunes), ator revelação (Rique Messias), roteiro (Eliézer Rolim), Prêmio Mystika (no valor de R$20 mil)

. Estrangeiro”- melhor fotografia (Raphael Aragão, Júlia Sartori e Charliane Rodrigues)

. “Sol Alegria”: menção honrosa

. “Rebento”: menção honrosa para a atriz Zezita Matos

CURTA-METRAGEM NACIONAL

. Ultravioleta (PB) – melhor filme, diretor (Dhiones Nunes), direção de arte (Romero Sousa), som (Kennel Rógis), Prêmio Mystica (R$5 mil)

. “De Vez em Quando, Quando Eu Morro, Eu Choro”(PB) – Prêmio Rodrigo Rocha de melhor curta paraibano, melhor roteiro (de R.B. Lima)

. “Edney” (PE) – trilha sonora (Henrique Macedo), figurino (Céfora Silva)

. “Reforma”(PE) – Prêmio da Crítica (Abraccine)

. “Rasga-Mortalha”(PB) – melhor ator (Buda Lira)

. “Roda da Fortuna”(DF) – melhor atriz (Fernanda Rocha)

. “Passo”(SP) – melhor montagem (Beatriz Peres)

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