Filme brasileiro está na disputa do Annie, o Oscar da animação

O filme “Tito e os Pássaros”, dos brasileiros Gustavo Steinberg, André Catoto e Gabriel Bitar, disputa, neste sábado, 2 de fevereiro, em Los Angeles, o “Annie”, considerado o Oscar da animação. Para conquistar o prêmio, a trinca paulistana terá que derrotar quatro animações independentes internacionais: o belga “Ce Magnifique Gâteau!”, o húngaro “Ruben Brandt, Collector” e os japoneses “Mirai” e “MDKZ” (este, em parceria com a França).

De volta ao Brasil, os realizadores se entregam ao lançamento comercial de “Tito e os Pássaros” em várias capitais brasileiras, a partir da quinta-feira, 14 de fevereiro.

O longa-metragem, de enxutos 73 minutos, uniu sua afinada trinca de realizadores para contar, com belos desenhos a óleo, trilha sonora envolvente e ideias nada banais, a história do garoto Tito, de 10 anos, e seus dois amigos (Sara, uma menina empoderada, e Buiú, um garotinho tímido e medroso). Juntos, eles querem salvar o mundo de grave epidemia. No caso, a epidemia do medo, que faz os olhos de suas vítimas crescerem e pode levá-las à morte.

O pai de Tito, o cientista Rufus (voz de Matheus Nachtergaele), pesquisou canções de pássaros capazes de salvar as vítimas do medo. Mas foi impedido de concluir sua invenção (uma máquina que vai parar em lugar incerto).

A mãe de Tito, Rose (voz de Denise Fraga) não quer que o menino saia em busca do pai, ausente desde que grave acidente, durante teste científico, quase matara o menino. Mas o ousado Tito (voz de Pedro Henrique) não desiste. Dispõe-se, com os amigos, a enfrentar o que for preciso, inclusive um poderoso vilão, homem de mídia e defensor de interesses imobiliários (voz de Matheus Solano). Não será fácil a jornada do pequeno herói.

“Tito e os Pássaros” iniciou sua carreira em julho do ano passado, no Anima Mundi. Foi premiado como o melhor longa brasileiro. Seguiu para Annecy, na França, meca do cinema animado, e para os festivais de Chicago, nos EUA, Stiges, na Espanha, e Toronto, no Canadá. Encerrou o ano conquistando o Troféu Coral de melhor filme de animação no Festival de Havana e figurando na lista de 25 pré-finalistas ao Oscar em sua categoria. Não passou pela peneira, mas foi indicado ao “Annie” de “melhor animação independente”. Agora, chegou a vez de cativar o público ao qual se destina: crianças acima de seis anos e quem mais tiver interesse em filmes animados.

Gustavo Steinberg é o esteio central de “Tito e os Pássaros”. Além de atuar como um dos diretores do projeto, ele assina a produção e o roteiro (nesta função, em parceria com Eduardo Benaim).

“Eu já conhecia, admirava e me identificava com o trabalho do Gustavo”, relembra Benaim. “Nossos filmes anteriores traziam um olhar crítico, às vezes irônico, acerca das contradições de temas sociais e políticos. Portanto, nada a ver com o universo infantil!”. Por isto, “quando ele me convidou para escrever uma fantasia para crianças, minha primeira reação foi o espanto e só depois o entusiasmo. Pensei bem e concluí que dali poderia sair um caldo novo!”

Gustavo Steinberg trabalhou, como roteirista, com Sérgio Bianchi (em “Cronicamente Inviável”), com Marcelo Masagão (no longa “1,99” e no curta “Um Pouco Mais um Pouco Menos”) e com o Paulo Sacramento (na produção de “Prisioneiro da Grade de Ferro”). Escreveu (com Guilherme Werneck), dirigiu e produziu “Fim da Linha” (ficção, 2008), seu primeiro longa. “Tito e os Pássaros” o lançou em seara desconhecida, a animação, e lhe tomou oito anos de trabalho (do roteiro, passando pela complexa realização, até chegar à fase de lançamento).

Eduardo Benaim, corroteirista de “Tito”, também trabalhou com Sérgio Bianchi (“Quanto Vale ou É por Quilo?” e “Jogo das Decapitações”), Paulo Sacramento (no inédito “O Olho e a Faca”), Newton Cannito (“9mm” e “Utopia Brasil”), e Paulo Morelli (“Cidade dos Homens”).

Steinberg estudou Ciências Sociais, fez dois mestrados, um em Ciência Política (que rendeu livro acadêmico) e outro em Comunicação e Regulação de Mídia, em Londres. Planejava seguir vida acadêmica, mas – conta – “percebi que o capitalismo (o pior lado, aquele que objetiva a desarticulação da sociedade) estava invadindo o meio acadêmico”. Então, “resolvi mudar de rumo e migrei para o cinema”.

O roteirista, produtor e realizador paulista, de 45 anos, entende que “estamos vivendo a última fase de invasão do capitalismo (novamente o pior lado) no cinema independente e nas artes em geral”. Ele explica sua percepção do tempo presente: “acho que minha vida profissional corresponde ao período do triunfo do capitalismo em espaços que antes eram dedicados à reflexão, crítica e pensamento para gerar coesão”. E mais: “creio que deve ter acontecido algo semelhante com os que viveram o final da era colonial e viram países da periferia sendo invadidos pelas grandes potências e corporações, em busca de mercados consumidores. Só que agora a invasão se dá na área da produção do imaginário”. E também “nas relações interpessoais, através dos celulares, esta, a meu ver, a fase mais recente da invasão”.

Quem assistir a “Tito e os Pássaros” com atenção, verá que sua narrativa coloca questões bem mais complexas que as que foram tramadas para mobilizar as crianças. O filme poderá, portanto, ser visto, também, por adultos (ou seja, aqueles que não se colocam na função de acompanhantes passivos de filhos pequenos).

O corroteirista Benaim formou-se em Jornalismo, mas fez do audiovisual seu principal ofício. Estudou roteiro na EICTV (Escola Internacional de Cinema e TV de San Antonio de los Baños, em Cuba) e na Escola de Criação da ESPM, em São Paulo.

A Revista de CINEMA conversou com Gustavo Steinberg e Eduardo Benaim sobre o filme e suas expectativas para o lançamento comercial, que une a Europa e a Elo, esta a empresa que cuidou da carreira de “O Menino e o Mundo”, de Alê Abreu, finalista ao Oscar 2018 (categoria animação).

Longos oito anos de trabalho

Steinberg: “Este é o tempo que animações do nível do ‘Tito’ consomem. De produção mesmo foram três anos, desde o momento em que entendemos que conseguiríamos não interromper a produção e demos o startAntes disso, cuidamos do roteiro e de levantar dinheiro, que é sempre muito difícil.”

Benaim: “Primeiro, nos dedicamos, no roteiro, à construção narrativa, o que tomou um tempo normal. Após alguns tratamentos, tínhamos um enredo de complexa elaboração, em termos de conceitos, profundidade de personagens e subplots. O processo se estendeu em minuciosa lapidação, já que Gustavo Steinberg, produtor e diretor, quis que o texto fosse submetido à apreciação crítica de pessoas de todas idades e perfis. Aí, chegou a hora de enxugar a história em comprometida busca pelo equilíbrio, tão delicado quanto essencial para dialogar de perto e simultaneamente com o público infantil, o infanto-juvenil e o adulto.”

Referências estéticas e fontes de diálogo

Steinberg: “Gosto de citar os ‘Goonies’ como referência explícita. Não era necessariamente uma inspiração estética ou de enredo, mas sim como espírito. Quando falava pra equipe ou potenciais parceiros que era uma história de um menino que tinha que salvar o mundo de uma doença, a doença do medo, dava pra perceber a sensação de que trabalhávamos uma coisa pesada e bem cabeça. Não era o que eu queria. Desde o princípio, quis fazer uma aventura divertida. Aí, a referência de ‘Goonies’ deixava as coisas mais claras: um bando de crianças que se junta numa aventura para resolver um problema sério (no caso dos ‘Goonies’, salvar a casa que os pais estavam prestes a perder por falta de dinheiro, no ‘Tito’, achar a solução pro surto, a doença do medo).”

Parceiros na criação de “Tito e os Pássaros”

Steinberg: “Foram muitos parceiros, os créditos são enormes. Eu não sei desenhar nem um xis, então imagina! Os primeiros foram Gabriel Bitar e André Catoto, os codiretores. Eu tinha visto os curtas deles, quando trabalhava no Festival do Minuto. Já estava começando a pensar na história do Tito e achei que a estranheza do trabalho deles ia funcionar bem. Em seguida, veio o Benaim. Nunca tínhamos trabalhado juntos, mas há vários pontos de encontro em nossas trajetórias. Depois, veio o Daniel Greco, que conheci no Festival de Annecy, na França. Eu tinha conseguido levantar o primeiríssimo dinheiro pro filme, que começava a existir de fato. Não sabia nada sobre animação, então perguntei às pessoas, que conheciam a área, o que fazer. E elas me disseram: vá para Annecy. Fui. Falei com dezenas de pessoas sobre a ideia do “Tito e os Pássaros” e as pessoas foram muito generosas ao me mostrar o quanto eu não sabia sobre animação. No último dia lá, encontrei o Luiz Bolognesi (no ano em que ele ia ganhar o festival com “Uma História de Amor e Fúria”). Ele me apresentou ao Daniel Greco dizendo: “esse é o cara que salvou minha produção”. Ele tinha passado por todo o processo do filme do Luiz e foi absolutamente fundamental para guiar a gente pelo “Tito”. Depois, vieram Rubben Feffer e Gustavo Kurlat, autores da trilha sonora. Eu sabia que a trilha era tão importante, que começamos a desenvolvê-la antes de ter o roteiro fechado. Depois, vieram muitos outros: o Felipe Sabino, o Jonas Brandão e o Cid Makino, da Split, o estúdio que animou o “Tito”. O Cid chamou o Vini Wolf, um dos grandes talentos da animação brasileira, que nos ajudou em diversas direções: finalização dos personagens, cenários e também na história. O Cleber Rosseto foi essencial na produção de linha, depois o Chico Bella, diretor de animação, que tocou a equipe que mobilizou mais de 60 animadores. A Mel Garcia, diretora de voz original, o Carlos Paes, que fez a mixagem e acompanhou toda a gravação do som, os atores, que emprestaram suas vozes e foram incríveis. Vânia Debs, Thiago Ozelami e Nina Senra na montagem desde o animatic. O Paulo Torinno, que foi elevado à direção de arte durante o processo, porque é realmente um talento incrível na pintura dos cenários. Peço que os espectadores prestem atenção nos créditos, pois o trabalho é realmente coletivo.”

Projeto de risco por sua temática complexa

Steiberg: “Por que fizemos ‘Tito e os Pássaros’? Por um motivo simples: se ninguém mais ia fazer esse filme e ele precisava ser feito, nós o fizemos.”

Benaim: “Acredito que o tema atinge outras esferas, tanto política quanto existencial. As melhores definições, sobre o que é o filme, foram ditas pelas crianças depois que saíram das sessões. Acreditamos no poder que existe em reverberar a voz da criança. Ela nos chama atenção para as nossas neuroses coletivas, neuroses que já não enxergamos de tão automatizados que estamos. A criança está há menos tempo nesse mundo louco, não teve tempo de se acostumar, ainda se espanta e se encanta, por isso é quem melhor pode nos alertar sobre nossos erros e nos encantar com novos caminhos.”

Trilha sonora e o clima do filme

Steinberg: “A trilha começou a ser feita antes de termos o roteiro pronto. O Ruben e o Kurlat perguntaram: como a gente faz se ainda não tem roteiro? Eu disse, vamos falar sobre o universo do filme e sobre a doença do medo. A trilha precisava ser densa, porque precisávamos trazer essa opressão da cultura do medo pra dentro do filme de uma forma delicada e lúdica. Afinal, o filme é pra crianças a partir de seis anos, então não podíamos fazer algo muito assustador a ponto de levar as crianças a saírem do filme. Ao mesmo tempo, precisávamos que essa cultura do medo fosse sentida fisicamente. Por isso, a música é até mais importante que em outros filmes: ela tem o duplo papel de encantar e fazer entender o universo que estamos tratando. A música e o expressionismo como referência estética são as duas estratégias que utilizamos para trazer de forma delicada o universo do medo para dentro do filme. Nós desenvolvemos o animatic já com temas musicais originais criados para o filme e isso foi fundamental inclusive para a construção e polimento da história.

Custo do filme e expectativa de público

Steinberg: “O filme custou R$ 5 milhões, já incluindo a nossa modesta verba de lançamento. Os distribuidores internacionais nos proibiram de anunciar o orçamento do filme, apesar de muitas vezes querermos falar, justamente porque temos orgulho de ter chegado ao nível a que chegamos com esse orçamento. Mas eles dizem que joga contra o filme, que muitos players podem simplesmente desconsiderar o ‘Tito e os Pássaros’ se souberem que custou só 1 milhão de dólares. Afinal, nossos “concorrentes” na lista de pré-indicados ao Oscar custaram de 20 milhões a 150 milhões de dólares. Tivemos o privilégio de apresentar em Los Angeles o filme para membros da Asifa (Associação Internacional do Filme de Animação), com presença de pessoas da Disney e outros estúdios. De fato, raramente perguntam o orçamento, acho que nos EUA há um pouco essa regra tácita. Mas perguntaram quantas pessoas trabalharam no filme. Eu estufei o peito e falei: mais de 120. A plateia caiu no riso ao mesmo tempo, imediatamente. Nos EUA, uma produção dessa não teria menos de 400 pessoas, me explicaram.

Tito e os Pássaros
Brasil, 73 minutos, 2019
Animação de Gustavo Steinberg, André Catoto e Gabriel Bitar
Distribuição: Europa Filmes e Elo Company

 

Por Maria do Rosário Caetano

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