A Grande Dama do Cinema

Por Maria do Rosário Caetano

Uma estrela portenha, um diretor oscarizado, uma comédia negra banhada em ingredientes satíricos-cinefílicos. Com direito à recriação de um “cult” argentino – “Los Muchachos de Antes no Usaban Arsénico” (José Martinez Suárez, 1976) – e citações explícitas a “Crepúsculo dos Deuses”, obra máxima de Billy Wilder (1950).

Estes são alguns dos principais componentes de “A Grande Dama do Cinema” (no original, “El Cuento de las Comadrejas”), estreia desta quinta-feira, 16 de maio, em cinemas de nove capitais brasileiras (São Paulo, Rio, Brasília, Salvador, Porto Alegre, Recife, Curitiba, Vitória e Maceió).

A estrela em questão é Graciela Borges, de 77 anos, nas telas e telinhas argentinas desde os 14 anos. Ela foi atriz do mestre Leopoldo Torre Nilsson (1926-1978), encabeçou, já madura, o sensível “Pobre Mariposa” (Raul de la Torre/1986) e renasceu no mais influente dos filmes do novo cinema argentino, “O Pântano”, de Lucrécia Martel (2001).

Na direção, Juan José Campanella, de 59 anos, diretor premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro pelo envolvente “O Segredo dos seus Olhos”, um bem-sucedido condutor de “tanques” (assim os argentinos chamam os blockbusters), capaz de levar milhões de espectadores aos cinemas. Foi assim com o “O Filho da Noiva”, “O Segredo dos seus Olhos” e “Metegol”. E, tudo indica, assim será com este “conto das doninhas” (ou furões), aquele predador-roedor que parece uma ratazana. E que, sob a mira de cano de espingarda, aparece na tela logo nos momentos iniciais do décimo-primeiro longa-metragem de Campanella. Vale lembrar que o famoso diretor portenho fez carreira nos EUA, onde dirigiu várias séries de TV. Nada mais natural, portanto, que “El Cuento de las Comadrejas” busque seu referencial no cinema clássico dos EUA e seja embalado por hits de matriz anglo-saxã (em trilha sonora nostálgica).

Para que “A Grande Dama do Cinema”, que estreia simultaneamente na Argentina e no Brasil, não conheça destino semelhante ao de sua matriz (“Os Jovens de Antigamente Não Usavam Arsênico”), Campanella alterou o título e escalou elenco enxuto e oriundo do Olimpo argentino. Contracenam com Graziela, o excelente Oscar Martínez, protagonista do premiadíssimo “O Ilustre Cidadão” e integrante do badalado elenco coral de “Relatos Selvagens”, os quase octogenários Luis Brandoni e Marcos Mundstock, e os jovens Nicolás Francella, galã de TV, e Clara Lago.

O público insatisfatório de “Arsênico” costuma ser atribuído ao momento de sua estreia (1976, ano do triunfo do golpe de Estado que arremessou a Argentina em ciclo de governos militares) e ao título incômodo, pois mórbido. Mas o tempo passou e o hoje nonagenário Martinez Suárez, ainda diretor do Festival de Mar del Plata, vê o mais bem-sucedido dos diretores argentinos revalorizar sua comédia negra.

A trama de “A Grande Dama do Cinema” é rocambolesca. Mara Ordaz (Graciela Borges), assim como Norma Desmond (Glória Swanson), é uma atriz já entrada nos anos e totalmente esquecida pelos fãs e pela indústria cinematográfica. Ela vive em um casarão perdido não com um mordomo fiel (como no “Crepúsculo dos Deuses”), mas com o marido paralítico, Pedro de Córdova (Luis Brandoni), ator de pequenos papéis, e dois cunhados, o cineasta aposentado Norberto Imbert (Oscar Martinez) e o roteirista, também aposentado, Martín Saravia (Marcos Mundstock).

Um belo dia, dois jovens – Francisco Gourmand (Nicolás Francella) e Bárbara Otamendi (Clara Lago) – pedem ajuda aos quatro moradores da decadente mansão campestre. Necessitam telefonar para resolver problema profissional, já que estão perdidos naquele lugar ermo. São mal recebidos. Menos por Mara Ordaz, que cai na lábia de Francisco. O jovem se apresenta como fã apaixonado pela velha diva, diz conhecer todos os seus filmes, sendo capaz de repetir diálogos. Promete gerenciar a volta da (apagada) estrela ao cinema e, ainda por cima, vender a velha mansão e instalá-la em um belo apartamento na grande cidade.

As trapaças da sorte mostrarão que os dois jovens articulam ambiciosos planos imobiliários e que trarão a discórdia para o seio da casa dos veteranos do cinema. Até chegar a seu desfecho, a trama sofrerá diversas reviravoltas.

Os diálogos, escritos por Campanella e Darren Klomook, são ferinos, os veteranos atores brilham (e os jovens não comprometem), a fotografia de Félix Monti (dos oscarizados “História Oficial” e “Segredo dos seus Olhos”) é muito eficiente e a reviravoltas são justificadas com rigor cartesiano. O resultado é um bom divertimento. Distante, muito distante, da grandeza de “Crepúsculo dos Deuses”, mas bem acima da ração diária servida ao grande público pelo cinemão.

FILMOGRAFIA DE CAMPANELLA (Buenos Aires, 19/07/1959):

1979 – Prioridad Nacional
1984 – Victoria 392
1991 – The Boy Who Cried Bitch
1997 – Love Walked in
1999 – O Mesmo Amor, a Mesma Chuva
2001 – O Filho da Noiva
2004 – Clube da Lua
2009 – O Segredo dos seus Olhos
2013 – Metegol, um Show de Bola
2015 – Olhos da Justiça
2019 – A Grande Dama do Cinema

 

A Grande Dama do Cinema
Argentina, 124 minutos, 2019
Direção: Juan José Campanella
Produção: Telefe, INCAA e 100 Bares
Elenco: Graziela Borges, Oscar Martínez, Luis Brandoni, Marcos Mundstock, Nicolás Francella e Clara Lago
Fotografia: Félix Monti
Estreia em SP, Rio, Brasília, Porto Alegre, Salvador, Curitiba, Maceió, Recife e Vitória.

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