A nova hora da estrela
Marcélia Cartaxo e equipe do filme © Edison Vara

Por Maria do Rosário Caetano, de Gramado (RS)

Pacarrete, a bailarina louca, e sua intérprete, a atriz paraibana Marcélia Cartaxo, foram aplaudidas de pé, no Festival de Gramado. A plateia, que vinha se mostrando gelada na recepção aos filmes da competição, finalmente chorou, se emocionou e aplaudiu demoradamente.

O longa cearense “Pacarrete”, de Allan Deberton, é, até agora, o franco favorito ao Troféu Kikito. E Marcélia, que Berlim premiou com o Urso de Prata por “A Hora da Estrela”, há 33 anos, é o nome da hora aqui no festival. No debate do filme, ela esteve no centro das atenções e foi, mais uma vez, aplaudida de pé e demoradamente.

A intérprete de Macabéia, papel lispectoriano que a consagrou, encontra em Pacarrete, uma envelhecida bailarina clássica, ex-professora de balé, papel e desafios imensos. Para interpretá-lo, a atriz, de 55 anos, viveu dolorosa preparação: aulas de balé com sapatilhas de ponta, demorado e complexo estudo vocal, aulas de francês e de piano. A personagem, uma “louca” obcecada pela dança e pela cultura francesa, regressa à sua cidade natal (Russas, interior do Ceará) para cuidar da irmã Chiquinha (Zezita Matos), que vive numa cadeira de rodas. A empregada Maria (Soia Lira) ajuda nas tarefas domésticas. As três mulheres, todas já sexagenárias, se ajudam, mas Pacarrete tem brigas frequentes com Maria. A “bailarina louca” é sonhadora, a doméstica é realista.

Russas vai comemorar seus 200 anos de fundação e a velha Pacarrete (corruptela de “pâquerette”, uma pequena margarida, em francês), fonte do escárnio da cidade, principalmente das crianças, quer apresentar um número de balé clássico na noite festiva. A secretária de Cultura da Prefeitura (interpretada por Sâmia de Lavor), porém, tem outros planos e repertórios (shows com grupos de forró de plástico e duplas sertanejas). Como contrariar o gosto dos munícipes colocando no palco uma louca sexagenária dançando “O Lago dos Cisnes”?

Só um morador da cidade, dono de uma vendinha, interpretado pelo baiano João Miguel (de “Cinema, Aspirinas e Urubus”), compreende os sonhos da “louca” e a trata com generosidade e compreensão. São banhadas em ternura as sequências em que Marcélia e Miguel contracenam.

“Pacarrete”, estreia de Allan Deberton no longa-metragem, é um poderoso melodrama, que começa com cores almodovarianas, muita música, dança e delicioso senso de humor, e caminha para o crepúsculo. O filme, inclusive, bebeu em fontes várias, uma delas, o clássico de Billy Wilder (“Sunset Boulevard”, 1950). Há momentos em que Pacarrete emula Glória Swanson. O cineasta admitiu o diálogo: “amo ‘Crepúsculo dos Deuses’, assisti ao filme muitas vezes e pedi a Marcélia que o assistisse durante seu processo de preparação para o papel”. A personagem de Swanson — comparou — “é uma atriz da era muda, que não compreende as mudanças do cinema. Pacarrete é uma bailarina ligada ao teatro, que, ao envelhecer, também não entende o presente”. Outras fontes de diálogo, lembradas durante o debate do filme, foram o francês “Amélie Poulain”, os musicais de Fred Astaire (na abertura almodovariana) e até um inusitado “Ironweed”, de Babenco.

O filme cearense, como os melhores melodramas, soma histórias de perdas a fascinante trilha sonora, que vai de Charles Trenet (“Douce France”) a Tina Turner (“We Don’t Need Another Hero”), passando por Belchior (“Coração Selvagem”), Román Perez-Freire (“Ay, Ay, Ay”, com Orquestra de Paul Muriat), John Gummoe (“Ritmo da Chuva”, em francês, com Sylvie Vartan) e, claro, composições clássicas de Tchaikovsky e Saint-Saëns. Sem esquecer recorrentes pitadas de humor. Por isto, o público (de recepções gélidas) de Gramado capitulou. Chorou, divertiu-se e levantou-se para aplaudir com maior ênfase. Para ampliar a empatia, a velha bailarina “louca” se apegará a um cachorro, de nome He-Man, que será tratado como um filho.

A segunda ovação a Marcélia Cartaxo aconteceu no final do debate do filme, no Hotel Serra Azul. Depois de contar que teve problemas com o cachorro (adestrado, mas apegado de tal forma ao dono), que a refugou de forma bruta em determinado momento, e que, ao ver o filme pela primeira vez foi muito crítica com sua atuação — “principalmente com minha voz, que me pareceu caricata”— ela se dobrou. “Ontem, vendo Pacarrete pela segunda vez (a primeira foi no Festival de Xangai, na China), eu gostei muito. Gostei de tudo: do filme, da recepção calorosa, dos aplausos”.

E aí, veio o momento mais comovente: Marcélia narrou “as dificuldades vividas pelos artistas brasileiros, encarados, pelo atual governo, como se bandidos fôssemos”. Antes, vale lembrar que a equipe do filme subiu ao palco do Palácio dos Festivais com cartazes nos quais se lia: “Ancine sim!”, “LGBT, Negros e mulheres no cinema”, “Ditadura não!”, “Lula livre”.

Eis, pois, o depoimento de Marcélia Cartaxo que a todos tocou: “Faço teatro desde a infância, em Cajazeiras, interior da Paraíba. Vim para o Sul, fiz cinema, fui premiada em Berlim. Mas, a falta de trabalho me levou de volta à Paraiba. Gastei dois anos para me readaptar. Quem migra para o Sul só quer voltar para o Nordeste se estiver rico, para provar que triunfou, mas este não foi o meu caso. Ainda hoje, vivo do meu trabalho e ajudo minha família. Com o fim dos editais, meus projetos estão todos parados. Como vou sobreviver, como vou ajudar meus irmãos mais velhos e desempregados (quem emprega pessoas idosas?), se nós não temos heranças a receber? Por isto, repito, temos que lutar, que resistir”.

Sob palmas calorosas, Marcélia concluiu: “Allan Deberton vai contar minha vida em seu próximo filme. Espero que haja novos editais e recursos para que consiga fazê-lo. Quero estar viva para vê-lo nas telas”.

A quinta noite do Festival de Gramado contou, ainda, com mais três concorrentes: os curtas brasileiros “Um Tempo Só”, da paulistana Lane Alves, e “Teoria sobre um Planeta Estranho”, do mineiro Marco Antônio Pereira, e o longa costarriquenho “O Despertar das Fomigas”, de Antonella Sudasassi.

“Um Tempo Só” é uma animação em aquarela, que mostra dois divertidos velhinhos, um vovô e uma vovó, plugados no celular, tecnologia usada para amenizar dias de solidão. A diretora do filme contou que busca, num festival de prestígio como Gramado, reconhecimento para o trabalho de sua produtora, a V.O.S., que está com muitos projetos parados. E por que? “Porque nos dizem que não conquistamos prêmios, sinônimo de reconhecimento”.

Prêmios e telas em festivais nacionais e internacionais não faltam ao currículo de Marco Antônio Pereira, conterrâneo de Guimarães Rosa, pois nasceu e vive em Cordisburgo/MG. “Teoria sobre um Planeta Estranho” é o terceiro filme de pentalogia iniciada com “Retirada para um Coração Bruto” e “Alma Bandida”. O cineasta, que é também produtor, roteirista, fotógrafo, montador, diretor de arte, figurinista etc. (ele assina todas as funções, só não figura em seus elencos), já mostrou seus três primeiros curtas em festivais no Egito e em Palm Springs (EUA). No Brasil, já passou pelos mais importantes e os menos importantes. Em Gramado, ano passado, ganhou três Kikitos. “Foi muito bom”, contou no palco, “para ser reconhecido em minha Cordisburgo”.

No debate, porém, Marco Antônio lembrou que espera obter apoio para seus novos projetos, via editais públicos, para poder realizar quarto e quinto curtas de sua Pentalogia Cordisburguiana. E, principalmente, para realizar seu primeiro longa-metragem (“Eu Só Queria Ir Embora”). “O momento está difícil”, constata. E explica por que cansou-se de fazer filmes sem orçamento, festejados nos festivais, mas com rarefeito resultado financeiro. “Como fui mostrar meu filme em Hollywood, o pessoal de Cordisburgo pensa que estou rico, gastando em dólar”. Na verdade, para manter sua família (ele, esposa e filho de dois anos) Marco Antônio se vira nos trinta. Edita vídeos, faz bicos, o que for possível. “Estou esperando o edital do BDMG (Banco do Desenvolvimento de Minas Gerais), muito importante na história cultural de nosso Estado”. Para o longa, ele espera ganhar editais federais.

“O Despertar das Formigas”, representante da Costa Rica, trouxe à Gramado sua diretora, Antonella Sudasassi, e seus protagonistas, a atriz Daniella Valenciano e o ator Leynar Gómez. Ele, vale lembrar, regressa à Gramado depois de aqui, três anos atrás, competir com “Prisão”, longa costarriquenho dirigido por Esteban Ramirez, e de desempenhar importante papel em “Narcos” (o fiel motorista de Pablo Escobar/Wagner Moura), a bem-sucedida série da Netflix

O filme de Antonella foi muito bem-recebido. Principalmente pelas mulheres, que se entusiasmaram com a história da costureira Isabel (Daniella Valenciano), uma mulher casada com Alcides (Leynar Gómez) e mãe de duas filhas (uma de nove e uma de sete anos). Ela cuida da casa, das meninas e da máquina de coser. O faz sem descanso e em condições modestas (numa casa pequena, com dinheiro contado). O marido, a sogra, a cunhada, os amigos, todos eles, esperam que ela gere um terceiro filho, de preferência um varão. Mas este não é o desejo de Isabel.

A história é narrada em tom documental, os atores têm ótimos desempenhos, o roteiro é bem-construído, envolvente e atento às sutilezas. As filmagens foram realizadas com apenas US$ 40 mil. O filme foi apresentado no Festival de Berlim e eleito a melhor produção costarriquenha do ano. No debate, a diretora e atores, muito articulados, defenderam o longa centro-americano com argumentos sólidos e sofisticados.

Antonella contou que, ao mostrar o filme em pequenas comunidades do interior do país, ouviu questionamentos ao perfil de Alcides. “As mulheres me disseram que eu o humanizara em excesso, que nas famílias em que estavam inseridas, se tomassem atitude de independência similares às de Isabel, apanhariam dos maridos”. Já os homens achavam o personagem “um banana”, por não se impor sobre a mulher.

“Em nenhum momento”— disse a cineasta – “eu quis fazer um filme com violência física explícita”. O que “me interessava eram as pequenas violências do cotidiano, estas que passam despercebidas: a violência sexual (o parceiro que só pensa no prazer dele e acha que a mulher só está ali para servir a ele) e a violência patrimonial (o homem provedor, que controla a esposa pelo dinheiro)”.

Debate do longa "O Despertar das Formigas" © Cleiton Thieme

“O Despertar das Formigas” conta com momentos que se passam no plano dos desejos de Isabel. Num deles, com a casa cheia de parentes e amigos, ela cuida de atender a todos e ainda confeita um bolo. Exausta, ela se imagina enfiando o dedo no glacê, amassando tudo e comendo como se ninguém por ela (e pelo bolo) esperasse. Noutros, tem pesadelos em que perde tufos de seus longuíssimos cabelos. Há, também, no filme, muitos insetos. “A região onde filmamos, no litoral, é realmente cheia de insetos. Utilizei-os para aumentar as angústias de Isabel. E as formigas do título, as utilizei porque elas são laboriosas, trabalham coletiva e silenciosamente e são muito persistentes. Como as mulheres”.

Antonella planejou, ao iniciar sua carreira no cinema, uma trilogia. O primeiro filme, um curta-metragem, tratou da descoberta da sexualidade por uma pré-adolescente. Este, com uma jovem casada, discute a maternidade (o direito da mulher decidir quantos filhos quer ter, sem ser obrigada a atender a desejos alheios aos seus). O fecho virá com uma protagonista na faixa dos 65 anos. Se for bom como “O Despertar das Formigas”, um pequeno-grande filme, a jovem realizadora da Costa Rica terá lugar garantido em futura edição de Gramado.

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