“Barretão” registra trajetória do produtor e diretor de fotografia de “Vidas Secas” e “Terra em Transe”

Por Maria do Rosário Caetano

Houve suspense (e atraso) durante o lançamento nacional de “Barretão”, longa documental de Marcelo Santiago. O filme, que narra a trajetória do produtor de “Dona Flor e seus Dois Maridos” e diretor de fotografia de “Vidas Secas” e “Terra em Transe”, teve sua première na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

O suspense se devia à aguardada presença de Luiz Carlos Barreto, de 91 anos, para o debate que encerraria a noite. Alguns diziam que ele não compareceria, porque no mesmo horário, o Flamengo, seu time de coração, enfrentava o Grêmio, em busca de vaga para a final da Libertadores da América (jogo que o rubro-negro venceria, no Maracanã, por 5 x 0). Mas a ausência foi justificada por Paula Barreto, filha do produtor e, hoje, à frente dos negócios da família. “Papai não virá” – justificou –, “porque ele é um homem de 91 anos e não tem condição de participar de um debate que acontecerá perto da meia-noite”. E disse mais: “ele está na casa do Bruno (Barreto, diretor de “Dona Flor”) descansando, pois passou duas horas na tarde de hoje (quarta-feira, 23 de outubro) debatendo o tema Por que o Cinema Brasileiro é Tão Frágil?, no III Fórum Mostra, no Itaú Cultural”.

Barretão realmente não compareceu, mas o filme narrou sua longa história com as imagens, primeiro como fotógrafo dos Diários Associados, em especial da revista O Cruzeiro, depois como corroteirista de “Assalto ao Trem Pagador” (Roberto Farias, 1962), e diretor de fotografia de “Vidas Secas” (Nélson Pereira dos Santos, 1963)  e “Terra em Transe” (Glauber Rocha, 1967). E, finalmente, como produtor ou coprodutor de mais de 80 filmes, dois deles indicados ao Oscar de melhor produção estrangeira (“O Quatrilho”, de Fábio Barreto, e “O que É Isto, Companheiro?”, de Bruno, ambos na década de 1990).

O longa documental de Marcelo Santiago sedimenta-se em longa entrevista realizada, em 2015, pelo jornalista e cineasta Geneton Moraes Neto (1956-2016) e fotografada por Walter Carvalho. Geneton e Santiago escreveram, juntos, o roteiro do filme. A ideia era mostrar o longo percurso do produtor e diretor de fotografia a partir dele mesmo, sem ouvir dezenas de depoimentos e, assim, construir um “talking head“ (“cabeças falantes”). No debate, Santiago contou que tinha em mãos material para realizar “três longas documentais com a mesma duração de ‘Barretão’ (85 minutos)”. Afinal, grande narrador, Barreto tem muitas histórias para contar. E sabe contá-las. “Geneton” – destacou Santiago – “nos disse que poderíamos contar parte da história de todos os presidentes do Brasil, de Getúlio Vargas até hoje, a partir de narrativas de Barreto, pois como jornalista e produtor, ele viveu intensamente a história política e cultural brasileira”.

“Barretão” acaba selecionando as histórias de Luiz Carlos Barreto com os presidentes da República Federativa do Brasil, dando destaque a cinco delas. Vargas é lembrado por fato da vida privada (dividiria uma amante com Assis Chateaubriand) e pela vida pública (“pagaria com a vida por ter criado a Petrobras”). JK é rememorado por reportagem realizada durante o exílio, condição a que foi obrigado pelo golpe militar de 1964.

Castelo Branco, o primeiro presidente do ciclo militar (1964-1984) foi evocado com humor. “Fui pautado” – conta Barreto – “para fotografar o marechal, que media 1,60m, ao lado do presidente francês, Charles De Gaulle, que media mais de dois metros. Fui impedido. Me retiraram, com brutalidade, do lugar onde os dois presidentes se encontravam”.

A história de Fernando Collor de Mello envolveu as filmagens de “Joana Francesa”, de Carlos Diegues, nos anos 1970. O filme, protagonizado pela atriz francesa Jeanne Moreau, foi realizado em Alagoas, com apoio de Arnon Collor de Mello, pai do futuro presidente. O político alagoano pediu à trupe que encaixasse o filho na produção do filme. Ele foi escalado como assistente de produção. A função dele consistia em, “num belo carro, conduzir a estrela francesa para o set de filmagem e, depois, levá-la de volta ao hotel”. Um dia, “Collor teria provocado algum dissabor à atriz, que fez um ultimatum: ou ele ou eu”. Diegues teria, então, demitido o jovem assistente de produção. Quando assumiu a presidência da República, Collor acabou com a Embrafilme e o Concine. Barretão, então, comentou com Diegues: “ele se vingou da demissão durante as filmagens de Joanna Francesa”.

Sobre Luiz Inácio Lula da Silva, de quem Barretão produziu a cinebiografia “Lula, o Filho do Brasil”, o relato é social e político. O produtor defende o presidente de origem operária recorrendo a metáfora que pediu emprestada a um articulista norte-americano. O analista escreveu que “um vidro embaçado separara abissalmente a elite das camadas populares brasileiras” e que “Lula seria o pano molhado que diminuiria tal embaçamento”. Frente às conturbações de 2015, data da entrevista de Barreto a Geneton, o produtor defende as duas gestões de Lula e lamenta que “a Petrobras, conquista brasileira, que custou o suicídio de Vargas, esteja, junto com outras grandes empresas nacionais, sob ameaça”. Para concluir: “se donos de empreiteiras, grandes empresas brasileiras, erraram, que a punição seja a eles e não a tais empresas, essenciais ao desenvolvimento do país”.

Além da entrevista dada a Geneton, “Barretão” se compõe com muitas imagens de arquivo, com fotos fixas realizadas pelo repórter fotográfico e com dezenas de trechos de documentários produzidos, ou não, pelo cearense que radicou-se, no Rio, na juventude, e quis ser jogador de futebol (atuando até no juvenil do Flamengo). Os trechos mais recorrentes são de “Les Carnets Brésiliens”, de Pierre Kast, importante documentário sobre o Cinema Novo, realizado em 1965/66.

O Cinema Novo, aliás, é tema de muitas lembranças de Barretão. Ele dedica espaço especial a três dos cineastas que partiram cedo: Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirszman. “Perder os três tão cedo” – comenta, recorrendo a metáfora futebolística –, “foi como perder, se isto tivesse acontecido, ao mesmo tempo, Pelé, Garrincha e Didi”. Barreto evoca, também, Nelson Pereira dos Santos, com quem retomaria a vitoriosa parceria de “Vidas Secas” em outra adaptação de Graciliano Ramos (“Memórias do Cárcere”, 1984).

Os três montadores do filme condensaram centenas de trechos de obras ficcionais ou documentais produzidas por Barreto (“Garrincha Alegria do Povo”, ”Índia, a Filha do Sol”, Inocência”, “Bossa Nova” etc.) e construíram uma narrativa envolvente. Há, porém, um prólogo dispensável, já que construído com depoimentos genéricos e visualmente muito pobres. O filme é aberto, antes dos créditos introdutórios, com breves falas do cubano Julio García Espinoza, do chileno Miguel Littín e de vozes referendadoras dos EUA e Europa. Além de superficiais, aquelas “cabeças falantes” contrariam o projeto estético do filme, que deseja contar a história do produtor e diretor de fotografia por ele mesmo. A obra de Luiz Carlos Barreto fala por si só, não necessita de tal muleta. Que fique para a versão televisiva (ou para o extras do DVD) e jamais chegue às telas do cinemas. O filme será lançado em 2010, pela distribuidora Pagu Filmes, de Bruno Beauchamps. Depois, será exibido pelo Canal Brasil, um de seus coprodutores.

OUTROS DOCUMENTÁRIOS DA MOSTRA SP

A Mostra SP apresenta, até a próxima quarta-feira, dia 30, uma série de documentários inéditos no Brasil. A Revista de CINEMA destaca alguns deles:

“Gay Chorus Deep Sound” (“Coro Gay no Sul Profundo”, em tradução livre) – Direção de David Charles Rodrigues, um norte-americano de origem brasileira (com português fluente). O filme acompanha um coral de 300 vozes, composto com homens gays, que visita Estados do Sul dos EUA, onde as leis antidireitos dos homossexuais tornaram-se draconianas desde que o país elegeu um presidente ultraconservador, Trump. Com belas imagens, o filme, marcado pela fraternidade e pelo diálogo, mostra o maravilhoso repertório dos cantores gays. E, em determinadas cidades, o coral masculino ganha a contribuição milionária de similar gospel, formado com vozes negras, masculinas e femininas, da América Profunda.

“Family Romance Ltda”, do alemão Werner Herzog – O prolífico realizador alemão, agora radicado nos EUA, realiza um filme de rara beleza e temática das mais surpreendentes: uma empresa japonesa “aluga pessoas” para preencherem a falta de parentes que morreram. Uma menina, que sofre com a falta do pai recebe um “pai-ator” alugado pela empresa. Filmado integralmente no Japão, em tempo de cerejeiras floridas.

“Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou” – Primeiro longa-metragem da atriz Bárbara Paz, vencedor da competição de “melhor documentário sobre cinema” no Festival de Veneza (o filme brasileiro derrotou “Andrey Tarkowsky: Uma Oração de Cinema”). Bárbara registra os anos derradeiros de Hector Babenco, em especial o das filmagens de “Meu Amigo Hindu”, até sua morte recente. O faz com imenso amor, num filme que evoca a morte, sem ser mórbido. Em belo registro em preto-e-branco (nesta cor aparecem “Pixote”, “O Beijo da Mulher Aranha”, “Brincando nos Campos do Senhor” etc.), o filme constrói atmosfera das mais envolventes.

“Andrey Tarkowsky: Uma Oração de Cinema”, de Andrey A. Tarkovsky – O filho do grande realizador russo evoca memórias e filmes do pai, um dos maiores cineastas da história soviética. O próprio diretor de “Solaris” e “Stalker” fala de sua obra e expõe suas ideias, profundamente ligadas a quatro nomes evocados com frequência, Tolstoi, Bach, Leonardo da Vinci e Robert Bresson. E o bardo inglês, Shakespeare. O filme mostra a busca religiosa (pela espiritualidade) do grande cineasta russo e lembra de seu exílio na fase derradeira. Abandonou a URSS e, na Itália, realizou “Nostalgia” e, na Suécia, “O Sacrifício”. Tarkowsky culpa o colega (ator e) cineasta Serguei Bondarchuk, integrante do júri, em Cannes, pela não premiação de “Nostalgia”. Ligado ao poder cultural soviético, Bondarchuk teria dito que o filme não representava seu país. Ou seja, era italiano, não soviético.

“Beco”, segundo longa-metragem do pernambucano Camilo Cavalcante – O filme, um documentário enxuto, concentra suas atenções num beco, no bairro recifense de Afogados, que reune bares frequentados por gente anônima, a maioria empenhada em consumir altas doses etílicas e chorar suas perdas amorosas. Um dos depoimentos mais tocantes é de um velho cego.

“Passagens”, de Lúcia Nagib e Samuel Paiva – Dupla de professores universitários se propõe a refletir sobre o cinema pernambucano que, algumas vezes em parceria com São Paulo, renovou a produção brasileira na segunda metade dos anos 1990, até nossos dias. De “Baile Perfumado”, de Ferreira e Caldas, a “Aquarius”, de Kleber Mendonça. Com espaço, também, para os filmes de Tata Amaral (“Um Céu de Estrelas,” “Antônia”), Beto Brant (“O Invasor” e “Crime Delicado”) e Fernando Meirelles (“Cidade de Deus” e “Ensaio sobre a Cegueira”).

“O Mês que Não Terminou”, de Francisco Bosco e Raul Mourão – O longa documental dos dois artistas cariocas reflete sobre as consequências das manifestações de junho de 2013 na história contemporânea brasileira, que culminariam com a eleição de Jair Bolsonaro. Imagens de arquivo (em especial os poderosos registros da Mídia Ninja) somam-se a intervenções plásticas de artistas como Nuno Ramos, Cabelo e o próprio Raul Mourão.

“Nossas Derrotas”, produção francesa dirigida por Jean-Gabriel Perriot – Uma grande ideia: convocar adolescentes franceses para reencenarem trechos de filmes de Godard (“A Chinesa”), Alain Tanner (“A Salamandra”), Cris Marker e Marin Karmitz – e refletir sobre conceitos como revolução, capitalismo, sindicato, anarquismo etc. Pena que a promissora proposta do filme fique no meio do caminho.

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