Turma do Pererê.doc

Por Maria do Rosário Caetano

O cinema sempre acompanhou a vida de Ziraldo, mineiro de Caratinga e cidadão carioca, que fará 87 anos no próximo 24 de outubro, recolhido em casa, desde que sofreu grave AVC.

O pai do “Menino Maluquinho” assistiu a centenas de filmes na infância e na juventude. Adulto, foi um verdadeiro “faz tudo” em duas dezenas de projetos, seja como “ator”, argumentista, dialoguista, roteirista, animador ou responsável por cartazes e desenho de títulos.

Nesta quinta-feira, 3 de outubro, Ziraldo e uma de suas múltiplas criações, a revista “Turma do Pererê”, chegam a 20 cinemas de 19 cidades brasileiras, como temas do novo filme do cineasta Ricardo Favilla. “A Turma do Pererê.doc” deixa de lado obras muito conhecidas do cartunista, chargista, caricaturista, desenhista, jornalista e escritor de obras infanto-juvenis. Favilla resolveu concentrar-se na primeira revista em quadrinho 100% brasileira, impressa em cores e fruto da imaginação de um único autor.

Impregnado pelo nacional-desenvolvimentismo da era JK, Ziraldo criou a “Turma do Pererê” para publicação em jornal. Quando recebeu – junto com Estevão e Péricles, este, o pai da “Amigo da Onça” – a incumbência de criar revistas capazes de enfrentar o poderio da Turma do Bolinha, da Luluzinha e do Gasparzinho, ele trabalhou sem descanso. Péricles morreu antes de criar a revista do Amigo da Onça. Estevão resolveu dedicar-se a outros projetos. Só Ziraldo levou sua missão até o fim. A revista da Turma do Pererê conseguiu, com sucesso temporário, enfrentar o poder de suas poderosas concorrentes. E, hoje, conta com reedições históricas.

Fora do novo filme, ficaram os livros best-seller de Ziraldo: “O Menino Maluquinho” (mais de 3 milhões de exemplares, com 117 edições), “Flicts”, “A Professora Maluquinha”, “O Bicho da Maçã” etc. De fora, também, ficou a mais festejada aventura editorial do irmão de Zélio e Ziralzi: “O Pasquim”.

O famoso semanário, a mais conhecida publicação alternativa da imprensa brasileira, é lembrada apenas de raspão por Jaguar. Criador do tabloide (junto com Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Prósperi, Claudius e Luiz Carlos Maciel), Jaguar lembra que Ziraldo apareceu, sim, com cartuns da série “Zeróis”, no número inaugural da irreverente publicação. Mas “não estava entre seus idealizadores”.

O filme “Turma do Pererê.doc” resgata o mais cult dos trabalhos ziraldianos. Ou seja, os personagens que habitavam a Mata do Fundão e foram criados, em 1959, para provar que o folclore brasileiro seria capaz de formar (e encantar) leitores, fazendo frente à hegemonia absoluta do quadrinho norte-americano. Os super-heróis made in USA dominavam o mercado editorial de HQs naquela época, assim como nos dias de hoje.

Ziraldo deu vida a bichos falantes (a onça Galileu, o macaco Alan, o coelho Geraldinho, o jabuti Moacir), somando-os a Tininin e Tuiuiú, um indiozinho e uma indiazinha, e ao Saci, figura mitológica (e essencial à revista). A estes representantes de um Brasil rural e profundo, o quadrinista acrescentou temas urbanos. Até Ruy Guerra, transformado em Ruy Batalha, virou personagem das tirinhas da “Turma do Pererê”. Assim como Brasília, a moderna capital que JK, Niemeyer e Lúcio Costa construíam no Planalto Central. Ela foi escolhida como cenário de aventura futurista dos “pererês”.

O documentário de Favilla lembra que a revista chegou a vender 120 mil exemplares. Mas perdeu fôlego. E por que? Um analista arrisca explicação que parece bem plausível: embora a Mata do Fundão fosse habitada por bichos falantes e mitos de nosso folclore, os temas da publicação resultavam muito politizados (Ziraldo seria simpatizante do Partido Comunista Brasileiro). Como a Turma do Pererê foi lançada no formato gibi (revistinha pequena destinada a crianças), os adultos a rejeitaram. E as crianças não entendiam bem o que viam e liam.

Na década de 1960, época em que a Turma do Pererê viveu seus dias de maior exposição (com a poderosa revista “O Cruzeiro” na retaguarda), o workaholic Ziraldo trabalhava, sem descanso, em várias frentes. Uma de suas preferidas era o cinema (ver filmografia abaixo). Fazia cartazes (o mais famoso é o de “Os Fuzis”, de Ruy Guerra), escrevia argumentos e diálogos para longas-metragens, atuava (sim, foi “ator” em alguns filmes) e desenhava animações incorporadas em letreiros ou como trechos de filme (caso de “As Aventuras do Tio Maneco”).

Os livros infanto-juvenis de Ziraldo, que fariam dele um autor best-seller e frisson das bienais literárias, foram, na década de 1990, transformados em matéria-prima de dois filmes (cujos roteiros ele ajudou a escrever): “O Menino Maluquinho” (398 mil espectadores) e “O Menino Maluquinho 2 – A Aventura” (368 mil), ambos produzidos por Tarcísio Vidigal, grande amigo do cartunista-escritor. Coube, aliás, a Tarcísio dirigir, em 1977, um documentário de curta-metragem sobre o processo de criação de dezenas de personagens ziraldianas (SuperMãe, os Zérois, Jeremias, o Bom) e de cartuns de aguda crítica política.

“A Turma do Pererê.doc”, que agora chega ao mercado exibidor, é um típico talking heads (cabeças falantes). Para refletir sobre o impacto da revista da turma da Mata do Fundão (no leitor e na indústria editorial), foram convocados, além do próprio Ziraldo, quadrinistas-chargistas como Laerte, Maurício de Sousa, Jaguar, Mig (Miguel Mendes) e Ota (Otacílio D’Assunção Barros), especialistas em quadrinho como Ivan Gomes Lima, Gonçalo Júnior e Álvaro Moya, editores como Primaggio Mantovani e amigos como Luiz Fernando Emediato.

Por sorte, dois fatores atenuam a cansativa (e abusiva) opção pelas “cabeças falantes”: a inserção de (algumas) animações da Turma do Pererê, com a voz descolada de Paulo Betti, e a qualidade dos depoimentos dos entrevistados. Todos têm o que dizer e mostram grande conhecimento da obra de Ziraldo, além de reconhecer a influência por ela exercida no quadrinho nacional.

A Turma do Pererê.doc
Brasil, 76 minutos, 2019
Direção: Ricardo Favilla
Produção: Tarcísio Vidigal, PH Souza e Ricardo Favilla
Roteiro: Ricardo Favilla e Laura Malim
Com depoimentos de Laerte, Jaguar, Maurício de Sousa, Ivan Gomes Lima, Gonçalo Júnior, Álvaro Moya, MIG, Ota, Franco Rosa, Luiz Fernando Emediato e Primaggio Mantovani
Distribuição: O2 Play

 

ZIRALDO NO CINEMA

. 1961 – “Menino da Calça Branca”, de Sérgio Ricardo (ator e autor dos títulos)

. 1963 – “Esse Mundo É Meu”, de Sérgio Ricardo (ator)

. 1966 – “Rio Verão e Amor”, de Watson Macedo (argumento e diálogos de Ziraldo)

. 1970 – “Quatro Contra o Mundo”, de Sérgio Ricardo (longa em episódios, contendo “Menino da Calça Branca”)

. 1971 – “As Aventuras de Tio Maneco”, de Flávio Migliaccio (Ziraldo assina as animações)

. 1977 – “Ziraldo”, documentário de Tarcísio Vidigal (tema)

. 1995 – “O Menino Maluquinho”, de Helvécio Ratton (adaptação de seu livro infanto-juvenil mais famoso)

. 1998 – “O Menino Maluquinho 2 – A Aventura”, de Fernando Meirelles e Fabrizia Alves Pinto (nova adaptação de seu livro mais famoso)

. 2011 – “Uma Professora Muito Maluquinha”, de André Alves Pinto e César Rodrigues (adaptação de seu livro infanto-juvenil)

. “Simonal, Ninguém Sabe o Duro que Dei”, “Banda de Ipanema”, “Darcy, Um Brasileiro”, “Rádio Nacional”, “Pitanga”, “Ferreira Gullar – Arqueologia do Poeta”: (depoimentos)

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