As Invisíveis

Por Maria do Rosário Caetano

O cinema francês está, fato raro, em sintonia fina com a produção de temática social ou “engajada”. Prova irrefutável desta opção é a comédia “As Invisíveis”, estreia desta quinta-feira, 20 de fevereiro, que recebeu boa avaliação da crítica e alcançou significativo sucesso de público (1.080.000 espectadores na França).

Além de provocar, ao mesmo tempo, riso e reflexão, o filme de Louis-Julien Petit, também ator de 36 anos, é daqueles capazes de ganhar nota máxima no Teste Bechdel-Wallace. Só para lembrar: este teste, criado por feministas norte-americanas, avalia se um filme valoriza a mulher (ou é misógino). No caso de “As Invisíveis”, as quatro protagonistas são do sexo feminino, têm nome e conversam sobre assuntos que escapam da busca obsessiva por namorados ou maridos.

As mulheres “invisíveis” são aquelas que não têm trabalho, nem teto. Por viverem nas ruas, elas são atendidas pelo L’Envol, um abrigo municipal, e recebem orientação para se recolocar no mercado de trabalho. Como a prefeitura vai cerrar, em prazo de três meses, as portas do L’Envol, a urgência entra como combustível da narrativa. Para agravar, muitas das mulheres que frequentam o abrigo são idosas e uma delas é ex-presidiária (matou o marido). O diretor Louis-Julien Petit convocou, para tais papeis, mulheres em situação de rua e imigrantes.

As “sem-teto” contarão com a ajuda apaixonada de quatro assistentes sociais, interpretadas por grandes atrizes francesas (Noemie Lvovsky, como Hélene, Corinne Masiero, como Manu, e Audrey Lamy, como Audrey) e pela rechonchuda estrela black Debora Lukumuena (na pele da divertidíssima Angelique), que vimos em “Divinas” (Houda Benyamina/2016). As funcionárias municipais tomarão atitudes transgressoras e se expressarão em diálogos enxutos e descolados. Ingredientes essenciais a uma comédia que se quer bem-humorada e nunca apelativa.

Frente ao exíguo prazo disponível para recolocar as “invisíveis” no mercado de trabalho, as quatro assistentes sociais lançarão mão de práticas que fogem aos estatutos do funcionalismo público. Elas não pestanejarão em distorcer a verdade e, até mesmo, a contar mentiras descaradas. Para exemplificar o primeiro caso, vale registrar que Hélene, Angelique, Manu e Audrey instruirão a descolada idosa, que aprendeu a consertar aparelhos eletrônicos na prisão, a esconder sua condição de ex-carcerária (isto quando estiver se submetendo a uma entrevista de emprego). No segundo caso, elas esconderão, das autoridades municipais, fato que desrespeita o regramento do L’Envol: as “abrigadas” não podem pernoitar no local. Mas elas, mesmo que de forma improvisada, dormem no abrigo (pelas normas, elas só podem receber assistência – banho, comida, orientação para o trabalho – ao longo do dia).

O filme é uma adaptação do livro “Sur la Route des Invisibles”, de Claire Lajeunie. O roteiro foi escrito por Louis-Julien Petit em parceria com Claire e com Marion Doussot. O trio assumiu como fonte de inspiração os filmes ingleses”Ou Tudo Ou Nada”, deliciosa comédia operária de Petter Cattaneo (1997), e o drama “Minha Adorável Lavanderia” (Stephen Frears, 1985). E, de certa forma, são também tributários do cinema proletário de Ken Loach (este, com raras incursões pela comédia).

Em recente reportagem sobre o filme “Os Miseráveis”, a revista “The Economist” refletiu sobre a onda de narrativas de temática social que vem tirando o cinema francês das mãos de personagens burgueses e levando-o rumo a locações bem distantes de charmosos e tradicionais bairros parisienses. Neste novo (e vigoroso) segmento do cinema contemporâneo francês, destacam-se narrativas sobre habitantes de bairros pobres da periferia, oriundos, em maioria, da África magrebiana. O caso mais emblemático seria, para a revista britânica, “Os Miseráveis” – estrondoso sucesso de crítica e de público (2 milhões de ingressos), candidato ao Oscar internacional (perdeu para o sul-coreano “Parasita”) e a 12 prêmios Cesar, láurea máxima do cinema francês (a cerimônia de premiação acontecerá no próximo dia 28 de fevereiro).

Depois de lembrar a influência histórica de “O Ódio” (Mathieu Kassovitz/1995), a revista enumera outros filmes recentes voltados aos deserdados pela riqueza: “Em Guerra”, sobre operários atormentados pelo desemprego, “A Vida Escolar” registro de iniquidades no ambiente educacional, “A Luta de Classes”, comédia reflexiva sobre o fim do sonho coletivo da revolução social, “Hors Normes” (rejeição da sociedade aos autistas), e “Em Nome da Terra”, sobre suicídio no campo.

Inexplicavelmente, “As Invisíveis” não figurou na lista, na qual caberia perfeitamente. E, no campo da influência histórica, além de “O Ódio”, não se poderia esquecer “Entre os Muros da Escola”, o poderoso filme de Laurent Cantet, vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2008, que reuniu, em uma sala de aula, alunos pobres de várias origens étnicas.

Quem, pois, quiser assistir a uma boa (e divertida) comédia social, destas que valorizam a presença feminina (sem negar espaço a personagens masculinos), não pode perder “As Invisíveis”. Um filme ignorado pela Cahiers du Cinéma, que ocupa-se primordialmente de realizações inovadoras, mas que ganhou quatro estrelas da Positif e do Le Monde.

 

As Invisíveis
França, 102 minutos, 2019
Direção: Louis-Julien Petit
Elenco: Noemie Lvovsky, Debora Lukumuena, Audrey Lamy, Corinne Masiero, Pablo Pauly e Louis-Julien Petit
Distribuição: Supo Mugan

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