Fios de Alta Tensão

Por Maria do Rosário Caetano

“Fios de Alta Tensão”, um documentário sobre condutores de eletricidade? Nada disso. Um dos títulos mais criativos do cinema brasileiro contemporâneo batiza, sim, um documentário, o primeiro longa-metragem solo de Sérgio Gag. Nele, porém, a “energia elétrica” só será detectável se for emanada dos fios de cabelo, fetiche secular da espécie humana e tema da narrativa.

O longa documental do realizador paulistano, de nome tão singular, está em cartaz no Circuito Spcine de Cinema. E faz de todo tipo de cabelo – crespos ou lisos, grisalhos ou escuros, vermelhos, azuis, verdes ou oxigenados – sua paixão e motivação central. O tema escolhido por Gag, que participou do projeto coletivo “Filmefilia”, é dos mais oportunos e começa a ganhar o relevo que merece. O cativante e sintético “Hair Love”, de Cherry e Smith, acaba de conquistar o Oscar de melhor curta de animação. Lázaro Ramos fez de passeio por salões de beleza soteropolitanos uma das melhores edições de seu duradouro programa “Espelho” (todas as segundas-feiras, no Canal Brasil). Yasmin Thayná causou sensação com “Kbela”, curta de grande potência criativa. Gramado deu destaque a “Cabelo Bom”, também de curta duração, dirigido por Swahili Vidal e Cláudia Alves. Faltava um longa-metragem dedicado por inteiro aos cabelos de brasileiras e brasileiros.

Wellington Darwin, produtor de “Fios de Alta Tensão”, lembra que a origem do título do filme está ligada a “um feliz acaso”. Sérgio Gag e equipe se propuseram, para realizar o documentário, a percorrer dezenas de cidades, bairros e logradouros de quatro Estados brasileiros (Bahia, Pará, Rio de Janeiro e São Paulo). Já na fase final, no Pelourinho soteropolitano, eles filmavam o cantor Afro Jhow, que recebia carinhoso trato capilar de vistosa design de fios afro, cercado de turma jovem. A música que Jhow cantava, de autoria própria, funcionou como “uma revelação” para o cineasta. “Percebemos” – detalha Darwin –, “ao ouvir aquele verso que falava de fios de alta tensão, que havíamos encontrado o título do nosso filme”. A galera, que acompanhava a gravação, “embarcou rapidamente no lance e, em segundos, eles pegaram uma caixa de som e aconteceu tudo aquilo que é mostrado. Foi um dos momentos mais emocionantes das filmagens”.

Quando a equipe de “Fios de Alta Tensão” (o projeto ainda não tinha este título, claro) colocou o pé na estrada, levava uma pergunta como mote: “o que o seu cabelo fala a seu respeito?”

As respostas foram dadas por mulheres (em maioria) e homens, de várias idades, cores e origens sociais. Mas o que fica, para valer, na memória do espectador, são as falas sobre os cabelos afro-brasileiros. Seja na Bahia, em São Paulo ou Rio de Janeiro, o tema recorrente é o preconceito contra os fios crespos. Alguém lembrará ofensa brutal ouvida de terceiros: “seu cabelo serve para arear fundo de panela preta” (referência ao bombril). Outros foram obrigados a escutar definições esdrúxulas como “cabelo encroado”, “cabelo duro” ou “carapinha”. Muitos, desde a pré-adolescência, recorreram a produtos químicos de alisamento.

Jovens e alguns adultos relembram, ao longo de “Fios de Alta Tensão”, o preconceito sofrido nos mais diversos locais. Até “dentro de casa”. Algumas mães negras, querendo o bem dos filhos pequenos ou pré-adolescentes, alisavam os cabelos deles (ou os escondiam sob lenços), por entender que “cresciam para cima” ou “chamavam atenção demais”. Mas o preconceito maior era o social, o olhar do branco, aquele que praticava bullying dos mais variados tipos.

Mulheres brancas, quando aparecem no filme, contam do preconceito que enfrentaram ao tornarem-se grisalhas (uma delas, precocemente, aos trinta e poucos anos). Para o olhar social, cabelo branco é “sinônimo de desleixo”, de quem “não se cuida”, não vai ao salão, todo mês, corrigir/colorir os fios embranquecidos.

Em Belém do Pará, metrópole amazônica, a questão dos fios de alta tensão ganha novos enfoques: um roqueiro cultiva imensa cabeleira e faz dela o seu cartão de visita. Duas jovens, vítimas de acidente com motores de embarcação, perderam todos os cabelos (por escalpelamento). Elas usam perucas e registram a saudade que sentem de seus fios naturais.

O dispositivo utilizado por Sérgio Gag na composição do documentário foge da entrevista, ou seja, das “cabeças falantes”. O realizador coloca duas, três ou mais pessoas em diálogo. Deixa que elas falem de sua relação com os cabelos e dos problemas que enfrentaram (em especial as portadoras de cabeleiras crespas). Hoje, reconciliadas com seus fios, muitas delas registram – principalmente em Salvador da Bahia – a autoestima conquistada ao longo dos anos. Seus fios trabalhados em cortes variados, coloridos e enfeitados com adereços de grande beleza já não são mais motivo de dor. E sim de orgulho.

Além do diálogo de seus personagens, Sérgio Gag recorre a recurso que lembra o título de uma das obras mais famosas do pensador (e psiquiatra) caribenho-argelino Frantz Fanon (1925-1961): “Pele Negra e Máscaras Brancas” (1963). Os participantes do filme são convidados a usar uma máscara negra ou branca. O recurso, se utilizado com mais parcimônia, teria ampliado sua potência. Mas, mesmo em excesso, dá originalidade ao filme, tirando-o do terreno do documentário tradicional (e declaratório). O filme ganharia com montagem mais condensada, pois alguns depoimentos soam redundantes. Mesmo assim, é mais que recomendável e deve gerar rico debate com seu público, por muitas de suas ousadias.

Como a narrativa de “Fios de Alta Tensão” se desenrola em rios amazônicos e em alguns dos logradouros mais belos do Brasil (caso da Estação das Docas, em Belém, do Pelourinho soteropolitano e do fascinante Largo do Boticário, no Rio) há momentos em que corre o risco de resvalar para o cartão postal turístico. Mas tal procedimento não se concretiza, pois o país será visto, também, em suas periferias urbanas, em uma barbearia na Mangueira carioca, na Gamboa baiana, no Embu das Artes, em São Bernardo do Campo, no ABC, em Jova Rural e numa animada tarde domingueira (fechada aos carros) na diariamente árida e ultra-motorizada Avenida Paulista.

 

Fios de Alta Tensão
Brasil, 85 minutos, 2020
Direção: Sérgio Gag
Produção: Wellington Darwin (DGT Filmes)
Em cartaz no Circuito Spcine (Sala Paulo Emílio, até 26 de fevereiro). No Cine Olido, de 5 a 11 de março, e também, na Biblioteca Roberto Santos, no CFC Cidade Tiradentes e nos CEUs Aricanduva, Butantã, Caminho do Mar, Feitiço da Vila, Jaçanã, Jambeiro, Meninos, Parque Veredas, Perus, Quinta do Sol, São Rafael, Três Lagos, Via Atlântica e Vila do Sol.

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