Dois filmes sobre Sérgio Vieira de Mello
"Sérgio" (ficção)

Por Maria do Rosário Caetano

Para as forças que, lideradas pelos EUA e Grã-Bretanha, invadiram o Iraque, no começo dos anos 2000, era chegada a hora (em meados de 2003) de usar a diplomacia para acalmar os ânimos. Quem sabe com uma missão da ONU (Organização das Nações Unidas), liderada por diplomata que fosse “uma soma de James Bond com Teddy Kennedy”. E quem seria este homem?

A resposta está em dois filmes: a ficção “Sérgio” (Netflix, 2020), protagonizada e coproduzida pelo baiano Wagner Moura, e o documentário (de mesmo nome), realizado por Greg Barker, em 2009 (para a HBO, mas atualmente disponível na Netflix). Pois o escolhido por Kofi Anan, então secretário-geral das Nações Unidas, foi o carioca Sérgio Vieira de Mello, de 55 anos, que cumprira exitosa missão como administrador de transição no Timor-Leste (1999 a 2002), pequena nação tornada independente depois de guerra genocida comanda pela Indonésia.

Na verdade, no currículo do mix de “James Bond com Teddy Kennedy” não havia nada que lembrasse o glamour do espião britânico “com licença para matar” dada pela Rainha. Nada de carros de último tipo, cidades do circuito Elizabeth Arden (Paris, Roma, Nova York, Londres, Madri), nem canetas transformadas em armas mortíferas. O brasileiro, filho de diplomata, que estudou Filosofia na Sorbonne e participou das passeatas do Maio de 68, passou a integrar os quadros da ONU aos 21 anos (ele nasceu no Rio de Janeiro, em 1948). Dedicou à instituição 34 de seus 55 anos. Mas só foi convocado (gostava de desafios) para o circuito terceiro-ou-quarto-mundista (Bangladesh, Sudão, Moçambique, o Cambodja pós-Pol Pot, Paquistão, Ruanda, Líbano, Kossovo e Timor-Leste). Enfim, cenários de terríveis conflitos bélicos e humanitários.

O máximo de glamour que Sérgio Vieira desfrutou em suas missões foi a paradisíaca pista de cooper, em Díli, capital timorense, onde conheceu uma bela argentina, Carolina Larriera, de 26 anos, com quem viveria tórrido romance e intensa paixão. Ela, economista e funcionária da mesma ONU, deveria casar-se com o diplomata, no Rio de Janeiro, tão logo ele se aposentasse e encontrasse tempo para cuidar dos trâmites do divórcio. Não encontrou. Atentado à bomba assumido pela Al-Qaeda, em 19 de agosto de 2003, explodiu os escritórios da ONU em Bagdá. Com Sérgio, em seu gabinete de trabalho, naquele dia fatídico, estava Gil Loescher, especialista norte-americano em refugidos de guerra. Os dois ficaram imprensados por pesados blocos de concreto e vigas de ferro.

Quando Sérgio morreu e Gil escapou (mas com as duas pernas cortadas pela serra improvisada de dois paramédicos), o mundo vivia a demência do pós 11 de Setembro (de 2001), quando as Torres Gêmeas e o Pentágono foram atacados por aviões da Al Qaeda. Parte do mundo árabe estava revoltada com a invasão do Iraque pelos EUA e (alguns) aliados, sem respaldo da ONU. E queria vingança. Sérgio e os funcionários das Nações Unidas (21 morreram no atentado) tornaram-se alvo objetivo e preferencial. Para radicais islâmicos, a ONU não passava de uma extensão diplomática do imenso poder norte-americano.

Sérgio Vieira de Mello tinha 55 anos e Carolina, 30. Os dois contavam os dias para findar a missão de quatro meses no Iraque e regressar ao Rio de Janeiro. Ao mar Atlântico e às pedras da Praia do Arpoador, tão amada pelo diplomata. Ele não pôde realizar seu sonho, mas Carolina regressou e, com apoio da sogra, Dona Gilda, criou uma fundação para prestar serviços na área de Direitos Humanos e perpetuar a memória de Sérgio.

A história do Alto Comissário para os Direitos Humanos da ONU está contada em livro de Samantha Power (“O Homem que Queria Salvar o Mundo: Uma Biografia de Sérgio Vieira de Mello”, Cia das Letras, 2008). A pesquisa da professora de Direitos Humanos da Universidade de Harvard fundamentou os dois “Sérgio”, o documentário e a ficção, dirigidos ambos por Greg Barker, autor de 14 filmes, praticamente todos de temas humanitários.

“Sérgio”, o longa documental, é uma filme de narrativa clássica, composto com depoimentos, imagens de arquivo e pequenos trechos reconstituídos (caso das angustiantes imagens de dois homens sob escombros e sendo assistidos, com zero tecnologia, por dois abnegados paramédicos). Há bons testemunhos (destaque para os paramédicos, um religioso chegado em autoajuda e o outro mais realista) e, claro, para Samantha Power, o guarda-costas francês Gabriel Pichon e Carolina Larriera (reconhecida pela lei brasileira como viúva de Sérgio). E, há que se destacar, um inesperado (e imprescindível) depoimento: de um radical islâmico que fornece o controvertido ponto-de-vista da Al Qaeda.

Já o “Sérgio” ficcional vem sendo muito criticado. Principalmente por quem o assiste depois do documentário. O primeiro incômodo vem da ênfase que é dada ao tórrido romance entre Sérgio e Carolina, interpretada pela bela cubana Ana de Armas (ela e Wagner interpretam um casal também em “Wasp Netwark”, de Olivier Assayas, ainda inédito em nosso circuito comercial). Uma cena de sexo entre os namorados, no início do relacionamento, na bela casa que os abrigava no Timor Leste, mesmo filmada na penumbra, está causando espécie. Vivemos tempos excessivamente pudicos. E há aqueles que entendem que heróis (como os das HQs, lembremos o alerta de Pedro Almodóvar) não têm pulsão sexual.

Wagner Moura nunca escondeu seus objetivos como ator e produtor (e agora diretor do aguardado “Marighella”). Ele quer atuar, dirigir ou produzir filmes (ou séries), que não sejam popularescos, nem “cabeçudos”. Ou seja, deseja caminhar longe do facilitário das histórias mastigadas e, também, das dificuldades de narrativas herméticas. Quer chegar a um ponto de equilíbrio. Desde que iniciou carreira internacional (da qual “Narcos”, megassucesso da Netflix, é o maior cartão de visitas), Wagner abraçou outra causa: interpretar papeis (e histórias) que fujam dos estereótipos oferecidos aos latinos (bandidos de bigodón e assemelhados). Neste sentido, “Sérgio” é um magnífico cartão postal de Nuestra América: educado nas melhores escolas, poliglota, humanista. Enfim, um cidadão recebido por presidentes dos EUA e talhado para, quem sabe, chegar à secretaria-geral da ONU.

Como Wagner Moura desfruta de imenso prestígio no Brasil (protagonizou o megassucesso “Tropa de Elite 2”, segunda maior bilheteria de nossa história contemporânea, só perdendo para “Minha Mãe é uma Peça 3”) e junto à Netflix (por causa de “Narcos”, série que o levou ao Emmy), ele pôde empenhar-se, pessoalmente, na produção de “Sérgio”. Deu tempero brasileiro ao filme (músicas de Cartola e Caetano Veloso, Clarisse Abujamra como Dona Gilda, cenários paradisíacos do Rio de Janeiro e uma moqueca de camarão, à qual um dos filhos do diplomata é alérgico). Pena que o “Sérgio” ficcional não tenha conseguido fugir de uma certa superficialidade. Embora o filme dure quase duas horas, as missões e ideias do sorridente e idealista diplomata brasileiro-cidadão do mundo resultam por demais panorâmicas.

Wagner Moura, brilhante na sequência do almoço-moqueca (ele está em seu habitat, contracenando com “mãe” e “filhos” brasileiros em sua língua materna) tem diálogos demais em inglês. Seu desempenho não está à altura de seu talento. Vale lembrar que interpretar em língua estrangeira constitui desafio que ele superou em “Narcos”. Seu desempenho nesta série, falada em espanhol-criticadíssimo-pelos-colombianos, foi notável. Não tivemos como resistir ao charme do narcotraficante com quem o ator apresentou (até) impressionante semelhança física.

Por fim, um fato, uma curiosidade e um conselho. Primeiro: em nenhum momento Greg Barker explora a tragédia que se abateu sobre Gil Loescher (o veremos, ao longo de seu testemunho documental, na cadeira de rodas somente nas cenas que acompanham os créditos finais). Segundo: o ator germânico Clemens Schick, que interpreta o guarda-costas francês Gabi, é velho conhecido de Wagner: em 2014, eles compuseram par homoafetivo no tórrido “Praia do Futuro”, de Karim Aïnouz. Terceiro: assistam, primeiro, à ficção. Só depois ao documentário. Como o segundo é mais completo que o primeiro (lembrando até a formação de juventude de Sérgio na Paris do “é proibido proibir”), a chance de abandonar – por intolerância estética – o docudrama de Greg Barker será bem menor.

Sérgio
EUA-Brasil, 118 minutos, 2020
Ficção de Greg Barker
Roteiro: Craig Boten
Elenco: Wagner Moura, Ana de Armas, Bradley Whitford, Pedro Hossi, Sahajak Boonthanakit, Will Dillahunt, Clemens Schick, Clarisse Abujamra.
Disponível na Netflix.

Sérgio
EUA, 92 minutos, 2009
Documentário de Greg Barker
Produção: HBO
Baseado no livro “O Homem que Queria Salvar o Mundo: Uma Biografia de Sérgio Vieira de Mello”, de Samantha Power.

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