Críticas de Filmes Slideshow — 15 junho 2020
Destacamento Blood

Por Maria do Rosário Caetano

O mais novo torpedo de Spike Lee – “Destacamento Blood”, mix de filme de “brothers”, ação, traumáticas lembranças de guerra e caça a tesouro – faria sua estreia em Cannes, em maio último. Como o festival francês, que contou com Lee na competição em 2018 e como presidente do júri ano passado, foi cancelado pela pandemia do coronavírus, o prolífico cineasta black lançou seu filme direto no streaming. Na poderosa Netflix.

No momento em que ruas e praças do mundo protestam contra a brutal morte de George Floyd, asfixiado em Minnesota por policial branco, não havia momento mais adequado para lançar “Destacamento Blood”. Afinal, com a nova e poderosa revolta negra ocupando corações e mentes mundo afora, nada mais necessário que assistir a um longuíssimo torpedo (2h36) spikeano. Uma narrativa construída, ponto forte na obra do georgiano-novaiorquino, com atores, temática e música afro-americana. O realizador e a Netflix fizeram, pois, a coisa certa.

Vale lembrar, ainda, que milhares de espectadores buscaram (e continuarão buscando) “Destacamento Blood”, no streaming, motivados pela recomendação de Cannes e a ótima fase do realizador, premiado com o Oscar pelo ótimo e bem-humorado roteiro de “Infiltrados na Klan” (o título original é ainda mais saboroso: Blackkklansman, com três KKK para referenciar a Klu Klux Klan, organização de supremacistas brancos).

E o filme? Spike Lee, de 63 anos, fez a coisa certa? Construiu novo e luminoso momento fílmico, tão potente quanto “Bamboozled – A Hora do Show”, “Febre na Selva”, “O Plano Perfeito”, “A Última Noite”, “Irmãos de Sangue” e “Infiltrado na Klan”? Ou o vigoroso longa-metragem que o revelou ao mundo, “Faça a Coisa Certa”?

A resposta é não (embora haja quem esbanje entusiasmo e paixão pelo filme). “Destacamento Blood” foi construído sobre roteiro frouxo, confuso, inverossímil, folhetinesco, às vezes piegas. O script chegou a Lee depois de passar por outras mãos e seus protagonistas originais seriam brancos. O diretor de “Bamboozled” colocou seu toque e cor na narrativa, ajudando a reescrevê-la e convocando ótimos atores blacks para protagonizá-la. E, claro, lançando mão de seu arsenal de citações metalinguísticas e de um disco do grande e atormentado Marvin Gaye (1939-1984), “What’s Going On”. Mas, apesar dos bons ingredientes, a receita desandou.

O destacamento Blood, que dá título brasileiro ao filme (no original “Da 5 Blood”), é uma irmandade formada com quatro veteranos da Guerra do Vietnã, todos negros (32% dos estadunidenses que lutaram no Sudeste Asiático eram afro-americanos). Um dos integrantes do quinteto original, Stormin’ Norman (Chadwich Boseman, o “Pantera Negra”) morreu em combate. Os outros quatro, décadas depois, regressarão ao país de Ho-Chi-Min para resgatar os restos mortais do amigo e cérebro da irmandade. E – recurso barateado pelo cinema de entretenimento – encontrar tesouro (verdadeira fortuna em barras de ouro) enterrado na selva vietnamita. A eles se juntará um jovem (Jonathan Majors), filho do amalucado veterano Paul (Delroy Lindo), eleitor de Donald Trump, que não se separa de seu boné-slogan “Faça a América grande de novo”.

Os outros veteranos de guerra – Otis (Clark Peters), Eddie (Norman Lewis) e Melvin (Isiah Whilock) – são simpáticos, tolerantes e progressistas. Em papeis coadjuvantes, um quarteto francês (a bela Mélanie Thierry e Jean Reno são os mais conhecidos) e atores vietnamitas, vistos como bandidos fanáticos, ex-prostitutas ou vendedores aquáticos que imploram aos turistas black USA que comprem laranjas ou galinhas. Claro que a operação “caça ao tesouro” implicaria em buscar gente fora-da-lei. Mas custava arrumar personagens-cidadãos de olhos puxados e menos caricatos?

Numa das cenas mais constrangedoras do filme, o donald-trumpista Paul trata o vendedor de galinhas como um supremacista branco trataria um afro-americano. E, sem mais nem menos, o vietnamita, do nada, profere discurso dos mais engajados.

Se a primeira parte de “Destamento Blood” ainda nos dava alguma esperança de ver um grande filme black de Spike Lee, o caldo entorna na segunda parte. O roteiro (calcado na receita do filme de entretenimento) desanda, os clichês se avolumam, a trilha sonora fica cada vez mais redundante, as poucas inserções de humor não têm graça e a caça ao tesouro é constrangedora. Comparar a pegada de Lee a “Ouro e Maldição” (Stroheim, 1924) ou a seu poderoso derivado, “O Tesouro de Sierra Madre” (Huston, 1948) não constitui ato de justiça. O dois primeiros são reflexões profundas e desalentadas sobre o poder corrosivo da ambição extremada.

A sequência de “Destacamento Blood” que envolve terreno minado na selva e um dos personagens estadunidenses parece retirada de aventura escapista de Indiana Jones. E a (segunda) sequência protagonizada por uma longilínea serpente? Artifício-muleta, para justificar, no roteiro, a necessidade de estrondoso barulho-localizador.

Spike Lee erra a mão até em suas críticas ao cinema mainstream de Hollywood, que sempre estigmatizou os afro-americanos. E fica, portanto, a anos luz do complexo e ambíguo “Bamboozled – A Hora do Show” ou, criação mais recente, da poderosa crítica ao racista “O Nascimento de uma Nação” (Griffith, 1915), um dos pontos fortes de “Infiltrados na Klan”. Em “Destacamento Blood”, os sarros tirados com “Rambo”, Chuck Norris e assemelhados são apenas banais. As citações a “Apocalypse Now” (Coppola, 1979), ao invés de homenagem, resultam em vazio. Delroy Lindo dando uma de louco à moda do Coronel Kurtz de Marlon Brando nos chega em registro artificial (apesar do excelente desempenho do ator).

“Destacamento Blood” merece ser ignorado? Claro que não. Spike Lee consegue, apesar dos pesares, colocar sua assinatura em roteiro banal. Estão no filme trechos de documentários, força histórico-contextualizadora, que remontam aos EUA do início da Guerra do Vietnã (a luta pelos direitos civis, a morte de Martin Luther King, os poderosos discursos de Angela Davis e Muhammad Ali até chegar à luta contemporânea do Black Live Matter – Vidas Negras Importam). Sem esquecer, registre-se, as duas mais revoltantes imagens da Guerra do Vietnã: o assassinato a sangue frio e frente às câmeras de um vietcong (Ngyen Vam Lén) pelo chefe de polícia Ngoc Loan, vietnamita do sul, e o corpo nu e queimado por napalm da menina Kim Phuc Phan Thi (imagens que correram o mundo).

Voltar ao Vietnã para relembrar que os negros, pouco mais de 10% da população dos EUA, mandaram mais de 30% dos soldados à guerra do napalm, entre outras barbaridades bélicas, é muito relevante. Mas o resultado de “Destacamento Blood” é frustrante. Só não é pior que o pior dos filmes de Spike Lee, o equivocado remake do coreano “Old Boy”, lançado no Brasil com o subtítulo de “Dias de Vingança”.

Destacamento Blood
EUA, 156 minutos, 2020
Direção: Spike Lee
Elenco: Delroy Lindo, Chadwick Boseman, Clark Peters, Norman Lewis, Isiah Whilock, Jonathan Majors, Giancarlo Esposito, Mélanie Thierry, Jean Reno, Ngô Thanh Vân, Johnny Tri Nguyen. Roteiro de Paul De Meo, Danny Bilson,Kevin Willmott e Spike Lee
Fotografia: Newton Thomas Sigel

FILMOGRAFIA DE SPIKE LEE
Shelton Jackson Lee (Atlanta, EUA – 20 de março de 1957)

2020 – “Destacamento Blood”
2018 – “Infiltrados na Klan” (BlacKKKlansman)
2017 – “Ela Quer Tudo” (série de TV)
2013 – “Old Boy – Dias de Vingança”
2012 – “Michael Jackson – Bad 25”
2012 – Go Brasil Go! (documentário inacabado)
2012 – Verão em Red Hook
2009 – Milagre em Santa Anna
2006 – O Plano Perfeito
2005 – Crianças Invisíveis (um episódio??)
2005 – Jesus Children of America
2005 – Miracle’s Boys
2004 – Sucker Free City (piloto de TV fotografado por Cesar Charlone)
2004 – Elas me Odeiam, Elas Me Querem
2002 – A Última Noite
2002 – Ten Minutes Older: The Trumpet
2002 – Jim Brown all American
2001 – Come Rain or Come Shine
2001 – The Concert of NYC
2001 – A Huey P. Newton Story (TV)
2000 – The Original Kings of Comedy (Os Verdadeiros Reis da Comédia)
2000 – Bamboozled – A Hora do Show
1999 – O Verão de Sam
1998 – Freak (TV)
1998 – Jogada Decisiva
1997 – Quatro Meninas – Uma História Real
1996 – Todos a Bordo (TV)
1996 – The Fine Art of Separating People from Their Money
1996 – Garota 6
1995 – Lumière e Companhia (episódio)
1995 – Irmãos de Sangue
1994 – Crooklyn – Uma Família de Pernas pro Ar
1992 – Malcolm X
1991 – Febre na Selva
1990 – Mais e Melhores Blues
1989 – Faça a Coisa Certa
1988 – Lute pela Coisa Certa (School Daze)
1986 – Ela Quer Tudo (She’s Gotta Have It)

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