Belas Artes lança comédia estrelada por Ricardo Darín e Angie Cepeda

Por Maria do Rosário Caetano

Em busca de títulos alternativos que possam incrementar seu cardápio de ofertas, a plataforma Belas Artes à la Carte, comandada por André Sturm, garimpou um simpático, divertido e esquecido Darín movie, lançado na Argentina há 18 anos, com o nome de “Samy y Yo”. O filme, uma comédia romântica com assumida influência de Woody Allen, foi lançado na Espanha, há 17 anos, como “Un Tipo Corriente”. Não chegou ao circuito comercial brasileiro.

“Samy y Yo” não está à altura das obras que deram prestígio a Ricardo Darín, o mais famoso dos atores argentinos. Caso de “Nove Rainhas” (Fabián Bielinsky, 2000), que o revelou internacionalmente, “Abutres” e “Elefante Branco” (ambos de Pablo Trapero), “O Segredo dos seus Olhos” (Juan José Campanella, Oscar de melhor filme estrangeiro), “Um Conto Chinês” (Sebastián Borensztein, 2011), “Relatos Selvagens” (Damián Szifrón, 2013) e “A Odisséia dos Tontos” (Borensztein, 2019). Mas “Samy y Yo” constitui-se em agradável opção de lazer, com roteiro bem urdido e bons desempenhos. Não foge de alguns (muitos) clichês, mas está longe de afrontar a inteligência do espectador.

A comédia romântica, dirigida por Eduardo Milewicz e produzida por David Fajn, nasceu de claro oportunismo – aproveitar a fama de dois astros latino-americanos, então “estourados” em seus países de origem, na vizinhança e na Espanha.

Ele, Ricardo Darín, tinha 40 e poucos anos e, no currículo, algumas telenovelas, vários filmes juvenis (tipo “Juventude sem Barreira, “A Praia do Amor”, “A Discoteca do Amor”, “Perdido por Perdido”) e três sucessos mais substantivos (“O Mesmo Amor, a Mesma Chuva”, “Nove Rainhas” e “O Filho da Noiva”).

Ela, Angie Cepeda, vinha das telenovelas colombianas (“Luz Maria”, “Pobre Diaba”) e estourara em “Pantaleão e as Visitadoras”, adaptação para o cinema do famoso romance de Mario Vargas Llosa, realizada por Francisco Lombardi, em 2000. Com 28 anos, a moça, nascida em Cartagena de Índias, no litoral caribenho-colombiano, e batizada Angélica Maria Cepeda Jiménez, causava furor por onde passava. A “visitadora” que tirara do sério, graças ao seu poder de sedução erótica, o oficial do exército peruano, Pantaleão Pantoja (Salvador Solar), tornara-se conhecida como um irresistível “torpedo hormonal”.

Por que não engendrar história que aproximasse um aspirante a escritor argentino, de origem judaica, tímido e atrapalhado, de uma bela e desinibida moça colombiana? Com essa ideia na cabeça, a roteirista Carmen Lopez-Areal somou forças com o diretor Eduardo Milewicz e saiu “Samy y Yo”.

Samy Goldstein (Ricardo Darín) trabalha numa emissora de TV como roteirista de programa humorístico, apresentado por um engomado canastrão (Roberto Pettinato). Tem uma noiva, Esther (Alejandra Flechner), culta e disposta a largar o namorado para passar um mês flanando pela Alemanha, em atividades intelectuais na Feira de Frankfurt. Samy tem, ainda, uma mãe hiper-protetora, protótipo das genitoras judias, aquelas que regem a vida dos filhos com mão de ferro e chantagens emocionais. Aliás, as mulheres (incluindo a irmã Débora, interpretada por Alejandra Darín) fazem dele gato e sapato. E, para piorar, Samy é infeliz na TV, banal e apelativa, e sonha em ser escritor. Woody Allen é seu modelo descarado e assumido.

Um dia, aparece na vida de Samy Goldstein uma moça chamada Mary (Angie Cepeda). Ele pensa, pelo sotaque e desenvoltura, que ela é mexicana. Descobrirá que é colombiana, que desempenhou os mais diversos ofícios (de garçonete a modelo) e que tem loucura para atuar na TV, seja como produtora, o que for. Usando de artifício, ela conseguirá arrumar grana (como? com quem?) para gravar piloto de programa a ser protagonizado pelo desengonçado Samy Goldstein. Daí em diante, muitas peripécias se somarão, algumas até divertidas.

A química entre Darín e Angie funciona bem e o resultado convence. Em tempos de pandemia, quem quiser ver um filme leve, curtir mais um dos 90 trabalhos do astro argentino (somando TV e cinema) e apreciar o auge da beleza de Angie Cepeda (hoje com 47 anos), não há escolha mais certeira.

Ah, o torpedo hormonal colombiano saiu de “Samy y Yo” direto para uma produção italiana – “Il Paradiso All Improviso”, de Leonardo Pieraccini (2003). E faria, depois, dois filmes em que o Brasil teria presença ou protagonismo: o britânico “O Amor nos Tempos do Cólera”, com participação matadora de Fernanda Montenegro (Mike Newell, 2007), e “Heleno” (José Henrique Fonseca, 2011). Nesse filme, Angie Cepeda interpretaria, justo, um “torpedo hormonal”. O jogador Heleno (Rodrigo Santoro), que morreu num hospício, atuou em campos colombianos e relacionou-se com belas mulheres (Angie Cepeda as representou com grande força simbólica). Gabriel García Márquez dedicou ao trágico Heleno crônica arrebatadora.

E já que falamos em Llosa, Gabo e na Feira de Frankfurt, um detalhe literário: numa das cenas de “Samy y Yo”, o roteirista e aspirante a escritor leva sua avoada colombiana a visitar um centro cultural onde destacam-se imensos painéis de escritores como Jorge Luis Borges, Silvina Ocampo e Julio Cortazar. Já imaginaram, numa comédia brasileira, o mocinho levando a mocinha a visitar uma exposição com imensos pôsters de Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Mello Neto?

Samy e Eu (Samy y Yo)
Produção argentina de 2002, 88 minutos
Diretor: Eduardo Milewic
Elenco: Ricardo Darín, Angie Cepeda, Alejandra Flechner, Cristina Banegas, Henry Tayles, Alejandra Darín, Rita Cortese, Carolina Peleritt e Roberto Pellinato
Disponível no streaming Belas Artes à la Carte

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