Hermes Leal analisa personagens e estruturas narrativas dos roteiros de “A Vida Invisível” e “Bacurau”

O escritor Hermes Leal, PhD em narrativa de ficção, vem disseminando uma nova teoria da narrativa para o cinema, baseada na Semiótica Narrativa e das Paixões, uma corrente nova que trouxe esta nova teoria para a estética cinematográfica, mas também para a criação de personagens. A eficiência desta, que é uma estrutura universal, que os bons filmes têm para a narrativa e para o personagem, foi aplicada por Leal nos roteiros de “Roma”, “Parasita” e “Coringa”.

E, agora, será demonstrada nos roteiros do cinema brasileiro, que tiveram projeção internacional, dos filmes “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz. Os roteiros destes filmes serão analisados na Oficina Narrativa de Ficção, promovida pelo 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que acontecerá online, para participantes inscritos previamente, nos dias 17 e 18 de dezembro, das 9h às 12h. Serão exibidos os filmes para mostrar como foram construídas suas estratégias narrativas e como agem seus personagens a partir de suas emoções; como o sentir dos personagens regem as suas ações.

Na oficina, Hermes Leal irá introduzir a nova teoria científica da Semiótica das Paixões, aplicada na narrativa audiovisual para desenvolver uma obra de ficção perfeita, baseada no sofrimento dos personagens, na busca pela liquidação de uma paixão, onde, enfim, temos uma “teoria para o sujeito”, a partir de sua estrutura sensível, em que saímos do mundo das coisas para o “mundo de alma”.

A novidade é que a teoria da narrativa da ação soma-se agora à nova teoria da narrativa da emoção, resultando num estudo completo para o desenvolvimento de roteiros, criada na França nos anos 90, por A. J. Greimas. E aplicada no audiovisual, pela primeira vez, pelo escritor e pesquisador Hermes Leal, doutor em Linguística pela USP, e especialista em semiótica francesa.

O objetivo é passar um conhecimento para que o aluno entenda como estas obras alcançaram sucesso, aprendendo como foram estruturadas suas narrativas, a partir de esquemas teóricos que trabalham as paixões e as emoções dos personagens.

Os participantes terão acesso digital ao livro “As Paixões nos Personagens”, de Hermes Leal, e receberão certificado de participação.

Os interessados em participar da oficina devem fazer inscrição através do email mesasfestival53@gmail.com.

Na entrevista abaixo, Hermes Leal dá mais detalhes de como será a oficina:

Por que escolher os filmes brasileiros?

A ideia foi do Silvio Tendler. De que trouxéssemos essa mesma discussão que estávamos fazendo em filmes de grande sucesso internacional, como “Roma”, para o nosso cinema. Escolhemos os dois filmes mais recentes que conseguiram uma boa projeção internacional, “Bacurau” e a “A Vida Invisível”, porque esses filmes têm, além de uma boa estrutura narrativa, personagens “imperfeitos”, com suas almas à mostra. E isso faz muita diferença entre um filme bom ou não.

O que vamos ver de novidade nessa oficina? 

Nosso foco são os personagens, que tem uma teoria somente para sua formação, e também como esses roteiros estruturaram essas narrativas para apresentar esses personagens. O mundo do roteiro de ficção pertence aos personagens. A linguagem do cinema é formada por três sistemas semióticos, o do roteiro, que é domínio dos personagens, o da montagem e o da fotografia. Nós focamos no personagem.

No roteiro de ”Bacurau”, não existe descrição das características dos personagens, sua cor de pele, feições, que é um elemento cultural capturado pela fotografia, mas temos a dimensão do que sente e sofre cada um deles, especialmente o ressentimento de Domingas (Sônia Braga) e a melancolia de Teresa (Bárbara Colen), as duas personagens que mais sensibilizam a narrativa com suas paixões. “Ressentimento” e “melancolia” são paixões que afetam terrivelmente um personagem.

A novidade será esse olhar para o personagem, sem a necessidade de passar pelo discurso fílmico, que faz desses filmes diferentes, que os tornam mais universais. E, na teoria do personagem, eles desenvolvem programas narrativos onde acumulam paixões e programas de liquidação dessas paixões, como uma narrativa de vingança, que precisa ser sempre movida pela paixão do “ódio”. Sem ódio, não há vingança. Porque um personagem procura a vingança, não somente pela ação de destruir o outro, mas para também destruir o ódio que sente.

Como vai ser a oficina?

A oficina será com a exibição dos filmes online, onde percorro cada filme o tempo inteiro para exemplificar a teoria, em que faço primeiro uma abordagem do arco da história, que se desenvolve em no mínimo três atos, e todos bons filmes tem, inclusive “Bacurau” e “A Vida Invisível”, porque isso vem da intuição de quem conhece a linguagem da escrita e da narrativa.

Vou falar dos sete esquemas que formam a teoria, como os programas narrativos que formam o arco de ação e das emoções dos personagens, que vai de uma “ilusão a uma verdade”, de um contrato inicial entre personagens, no primeiro ato, para a uma sanção da verdade, no final. Todo personagem busca a verdade. Por isso, temos um esquema que esconde essa verdade, e como ela é revelada em forma de “surpresa”.

Dentro destes sete esquemas, nós temos o do “destinador”, que está presente fortemente em “A Vida Invisível”, que vem ocupar uma função de puxar o personagem para si, para fazer o que ele quer, e que funciona na figura do pai de Eurídice, que molda o destino de vida das filhas através de uma mentira, de um poder que lhe é conferido a este tipo de personagem. Saber lidar com esses arquétipos, ajuda na construção mais autêntica de seus personagens.

Por que a surpresa virou a arma da dramaturgia atual?

Porque é o cerne da ficção o jogo de esconder para depois revelar. Ensinamos como esconder, mas também como mostrar outra história para desviar a atenção da história principal, e depois surpreender com muita força, como ocorre em “Bacurau” e “Parasita”, mas também em “Roma” e “Coringa”. Está presente nos bons filmes. Hoje, um roteirista internacional de qualidade só é bom de fato se dominar esse esquema da surpresa. Eu mostro como funciona esse esquema nas séries de TV internacional, como “Game of Thrones” e “Big Little Lies”.

Em “Coringa”, existe uma implicação de que o personagem irá se suicidar no final, mas ele gera uma surpresa, e não se mata, e mata o outro. Em “Parasita”, existe uma família no porão, que no primeiro ato não se suspeita, mas que a partir do segundo a “verdade” começa a aparecer, o que estava oculto é revelado em forma de “surpresa”. A boa construção da surpresa é a arma narrativa de “Bacurau”, que no primeiro ato leva o espectador para uma “guerra da água”, para depois surpreender com uma outra verdade, outra guerra.

E a verdade dos personagens, o que vem a ser?

É a sua “imperfeição”. As duas personagens principais de “Bacurau”, Domingas e Teresa, são movidas por suas imperfeições e não procuram alguma coisa mágica para mudar suas vidas. Eles convivem com a verdade de suas imperfeições. A melancolia de Teresa, que abre o fecha o filme, não se modifica. Kleber Mendonça Filho e Karim Aïnouz, assim como Fernando Meirelles e Walter Salles, são cineastas brasileiros que melhor sabem lidar com essas passionalidades dos personagens.

Se você observar os papeis que fizeram Fernanda Montenegro bilhar lá fora, estavam apoiados nas imperfeições dos personagens, e não na busca de um truque de que a vida pode ser diferente somente porque o autor ou o personagem quer. Isso é que faz a diferença entre o cinema e a novela brasileira, que desconhece a “verdade” dos personagens. A busca pela verdade, ou a existência em uma verdade, é o que torna um personagem profundo e “perfeito”. Sem esse aspecto passional, o personagem fica caricato.

Essa teoria vai nos ajudar a sair dessa armadilha dos personagens caricatos, que estão tentando colocar nas séries brasileiras. Nossas séries tentam repetir a dramaturgia “abracadabra”, como chamou um jornalista francês recentemente nossas telenovelas, que tem como característica não respeitar a verdade dos personagens. Enquanto que o ideal seria que esses personagens fossem mais próximos dos personagens imperfeitos do cinema, como fazem as boas dramaturgias do mundo inteiro. Nós, brasileiros, temos dificuldade de trabalhar essa questão das emoções dos personagens, porque negativamos o “sentir”, exatamente aquilo que mais importa ao personagem. Estou fazendo um longo estudo do perfil do brasileiro em seu simulacro existencial, chama-se “A Imagem do Brasil”, e que acaba de ser agraciado com o prêmio Aldir Blanc, em São Paulo.

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