My French Film Festival revela ótimas surpresas
“Enorme”, de Sophie Letourner

Por Maria do Rosário Caetano

Sensações contraditórias devem tomar conta dos cinéfilos acostumados a ver filmes autorais franceses depois de ler, no material de divulgação da décima-primeira edição do My French Film Festival, que o filme “Kuessipan” chegou a “ultrapassar a bilheteria de ‘Coringa’ em determinado fim de semana”. E que a comédia “Enorme” integrou “a lista dos dez melhores filmes de 2020 da revista Cahiers du Cinéma”.

O que fazem, juntos, numa mesma mostra, esses dois filmes? Será o primeiro um blockbuster em língua francesa? E que filme é esse, festejado pela bíblia da cinefilia e desconhecido (até) mesmo por aficcionados brasileiros?

Quem ler com mais atenção o material de divulgação do My French Film Festival – nome contraditório para evento criado para divulgar idioma e imagens franceses – notará que o canadense (do Quebec) “Kuessipan”, de Myriam Verreault, só bateu o blockbuster de Todd Phillips, vencedor do Festival de Veneza, “em um cinema do Canadá francófono”.

A comédia “Enorme”, de Sophie Letourner, que desconstrói românticas histórias de amor (e maternidade) foi mesmo muito bem recebida pela Cahiers du Cinéma”. E também por Positif, Les Inrock, Libération, Le Monde e até pelo comunista L’Humanité. De todos eles, recebeu quatro estrelas (em cinco possíveis). Um feito e tanto para uma comédia, gênero de “carregação” do cinema comercial, no qual os EUA são incontestável força hegemônica.

E, como agravante, vale lembrar que comédias europeias costumar viajar muito mal. Basta lembrar o fracasso comercial dos blockbusters “Os Visitantes” (1993), protagonizado pela dupla Clavier e Poiré, e “A Riviera Não É Aqui” (2008). Lançados no Brasil, ambos resultaram em fiascos monumentais.

Quem conferir a programação virtual do My French Film Festival – disponível até 15 de fevereiro no Belas Artes à la Carte, Spcine Play e Supo Mungam Plus – poderá assistir a “Kuessipan”, a “Enorme” e a mais dez longas-metragens. E, também, a um média (“ A Vida dos Mortos”) e a 16 curtas.

O filme canadense nada tem de blockbuster. “Kuessipan” e sua diretora, a estreante Myriam Verreault, mergulham, com paixão e fúria, na história de duas amigas Innu, nascidas em reserva indígena. A comunidade Innu abriga ameríndios conhecidos, vulgarmente, como esquimós (povos que habitam as terras geladas do extremo norte do continente americano – Canadá e Alasca).

As duas protagonistas de “Kuessipan” são aculturadas, usam roupas e cabelos coloridos como qualquer moça urbana da idade delas, falam francês, estudam e se divertem. Myriam buscou seu elenco entre membros da comunidade Innu, em maioria atores não-profissionais.

Amigas íntimas desde a infância, Mikuan e Shaniss juram fidelidade uma à outra, por toda a vida. Mikuan (Sharon Fontaine-Ishpatao) é estudiosa, frequenta clube literário nos fins de semana e começa a se relacionar com um rapaz branco. Shaniss (Yamie Grégoire) abandona os estudos, une-se a rapaz desajustado da comunidade e torna-se mãe muito cedo.

A jovem Myriam Verreault constrói seu filme com pegada realista, em diálogo com o cinema documental. E o faz de forma envolvente. Os 117 minutos correm céleres, a trama é complexa e centrada na difícil relação entre a comunidade Innu e a sociedade branca que a cerca. Baseado em um romance (“Kuessipan”, que significa “A Você”, de Naomi Fontaine, coautora do roteiro), o longa canadense tem um de seus melhores momentos quando Mikuan, que ama a escola e a escrita, participa de um concurso literário. É de alta qualidade o texto que ela lê, com funda emoção, reflete sobre a liberdade (de seu povo e de sua amiga, aquela que acumulará filhos, violência doméstica, abandono e só irá procurar emprego depois dos 30 anos).

“Kuessipan”, de Myriam Verreault

A comédia “Enorme” merece todas as estrelas que ganhou dos mais importantes jornais e revistas franceses. O quinto longa-metragem de Sophie Letourner (as mulheres-cineastas estão se destacando por toda parte) é um sopro de inteligência no desgastado terreno da comédia romântica.

Tudo começa com o casal Claire e Fréderic em excursão pelo mundo (EUA, Alemanha, Japão, Bélgica). Ela (Marina Foïs) é pianista clássica das mais respeitadas, ele (Jonathan Cohen), além de marido-agente-empresário, é um faz-tudo. Enquanto a pianista ensaia sem parar, já que as repetições são essenciais a uma virtuose, o marido cuida de todas as coisas práticas da vida (inclusive de colocar a pílula anticoncepcional na boca da esposa). Claire não quer filhos. Vive para a música e é apoiada pelo companheiro.

Até que, um dia, dentro de um avião, uma mulher entra em trabalho de parto. Atendendo a apelo da aeromoça, ele – que tem curso de socorrista – ajuda o bebê a vir ao mundo. E resolve, então, ser pai. O que virá, deste dia em diante, é uma divertidíssima comédia, que desconstrói clichês e não perde o ritmo. Claro que os mais ansiosos tomarão por muito demorada a saga médico-ginecológico-obstetra da protagonista. Quem já viveu nove meses de espera por um filho entenderá o propósito da cineasta.

O festival francês oferta outra comédia, no caso dramática (com momentos de humor negro), que deve ser vista com interesse: “Donas da Alegria” (“Filles de Joie”, 90 minutos), de Anne Paulicevich e Fréderic Fonteyne (ele, o diretor de “Uma Relação Pornográfica”, com Nathalie Baye e Sergi López, de 1999).

O sexo, mais uma vez, é o principal ingrediente de Fonteyne. Dessa vez, ele aborda praticantes do ofício mais antigo do mundo: a prostituição. Três mulheres, duas delas casadas (as ótimas Sara Forestier e a grande Noémie Lvovsky) e uma solteira, louca para casar (a afro-francesa Annabelle Lengronne) atravessam, diariamente, a fronteira rumo à Bélgica, para fazer sexo com a clientela.

Mais um filme sobre prostituição? Sim, mas este é dos mais originais. As três personagens têm suas vidas domésticas e profissionais narradas sem pudor (Fréderic Fonteyne nada tem de pudico) e mirada feminista, banhada em sororidade.

Donas de vocabulário atrevido, elas se viram para sustentar seus lares. Sólida pesquisa sustenta o roteiro, que soma brigas, paixões, traições e overdose. Tudo resumido em enxutos 90 minutos e com final dos mais surpreendentes.

Há que se destacar a performance de uma das prostitutas, já rechonchuda e entrada nos anos, interpretada por Noémie Lvovsky (que vimos em tantos filmes e no recente “As Invisíveis”). Chamada de “Mamãe” pelas colegas, a cinquentona dá um show (notem que Sergi López, ator espanhol radicado na França, interpreta seu marido).

A animação francesa marca presença no My French Film Festival com título imperdível: “Josep”, de Auriel, ilustrador do jornal Le Monde, em sua estreia no longa-metragem.

Se não bastasse o desenho, belíssimo, o filme ainda tem muito o que contar. Afinal, trata-se de drama histórico vivido pelo artista catalão Josep Bartoli (1910-1995), que, na juventude, perfilou nas fileiras republicanas na Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Ou seja, lutou ao lado de socialistas, comunistas e anarquistas contra as falanges de Francisco Franco. Este épico animado começa em fevereiro de 1939, com a queda de Barcelona, subjugada pelo exército franquista. A derrota obriga 500 mil republicanos a buscar refúgio na França.

Apesar de viverem sob o lema da “Igualdade, Fraternidade e Liberdade”, os franceses não se entusiasmam com aquela imensa horda de esquerdistas em busca de asilo. Abrigados em improvisados “campos de concentração” (não nos apavorantes moldes dos que seriam construídos pelos nazistas, pouco tempo depois), os republicanos continuarão convivendo com a fome e outras mazelas. E com a brutalidade da polícia bleu-blanc-rouge, afrontada por tantos esfomeados e, ainda por cima, em maioria ateus.

Josep Bartoli (sua jornada de refugiado transformou-se em livro por ele narrado e ilustrado) encontrará em um policial o seu salvador. O filme se constrói com as lembranças deste francês, já velhinho. Ele relembrará para o neto, desenhista promissor, a história transformadora protagonizada ao lado do ilustrador catalão. Aquele que, sem papel e lápis, esboçava suas figuras no chão.

O guarda francês deu um jeito de presentear Josep com os materiais possíveis para que seguisse exercitando seu ofício. O filme é o registro dessa bela amizade. E muito mais. Veremos que, no exílio mexicano, segunda etapa de sua busca por uma pátria, conhecerá Frida Kahlo (1907-1954), com quem viverá tórrido romance. No filme, são belíssimas e lúdicas as cenas em que o policial, o ilustrador e a mexicana pintam as paredes da Casa Azul, templo dos muitos amores de Frida (e de seu “eterno” marido, o muralista Diego Rivera).

Josep Bartoli morreu em Nova York, reconhecido como um grande artista. A animação que resgata suas memórias foi um dos títulos eleitos pelo público da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo entre “os 15 melhores filmes de jovens diretores” da edição de 2020.

“Camille” (Boris Lojkine, 90 minutos) é uma produção recomendável aos que amam a fotografia. Sua protagonista – a fotojornalista free lancer Camille Lepage (Nina Meurisse), personagem real – é uma daquelas europeias brancas que só se realizam se estiverem “ajudando” povos sofridos (em especial populações africanas) a vencerem o subdesenvolvimento e a barbárie.

Em 2014, aos 26 anos, ela foi morta na República Centro-Africana, nação dilacerada por guerra civil. Meteu-se no meio de grupo rebelde e realizou centenas de fotos, vendidas, quando conseguia, a jornais franceses. Quando tropas de seu país chegaram para pacificar a nação africana, o Libération tornou-se o veículo de suas imagens.

Passado o momento mais agudo do conflito, profissionais experientes do Le Monde e outros grandes veículos franceses (jornalistas e fotógrafos) viram que era hora de partir para novo país em guerra. Eles, que em certa medida orientaram a jovem Camille, sabiam que era limitado o interesse dos jornais e de seus leitores por conflitos demorados. Por isso, partiram em busca de novos desafios profissionais. Ela teimou e ficou. Editores do Libération até sugeriram que Camille fosse cobrir a guerra na Ucrânia, pois o conflito centro-africano já não despertava mais interesse.

A jovem queria permanecer na África com os amigos que conquistara entre os rebeldes (na verdade uma espécie de exército Brancaleone). Seguiu fazendo suas fotos em ambiente conflagrado, sob risco máximo. Deu no que deu. Seu corpo foi encontrado na carroceria de uma caminhonete, junto com os corpos de guerrilheiros anônimos. O filme participou do Festival de Locarno e rendeu indicação ao Cesar para sua protagonista, Nina Meurisse.

Outro longa-metragem do festival francês tem a ver com guerra civil – “Heróis Nunca Morrem” (85 minutos), de Aude Léa Rapin. Em sua estreia, a jovem realizadora evoca a Guerra da Bósnia. Embora o filme tenha pegada documental, como “Camille”, sua construção se passa no tempo presente (e não na década de 1990, quando os Balcãs foram varridos por trágicos conflitos armados).

Entre realidade e fantasia, Joachin (o ator Jonathan Couzinié, que assina o roteiro com Aude Léa Rapin) resolve partir rumo a Sarajevo, na companhia de duas amigas (interpretadas pelas atrizes Adèle Haenel e Antonia Buresi). Ele, afinal, encontrara, numa rua francesa, homem que lhe dissera acreditar que ele, Joachin, fosse a reencarnação de um soldado bósnio, que, por sinal, morrera no dia em que Joachin nascera.

O filme foi selecionado para o Festival de Cannes e disputou (sem ganhar), o prêmio Caméra d’Or (melhor filme de diretor estreante). Couzinié entrega-se com paixão a seu personagem. E Adèle Haenel prova, mais uma vez, seu imenso talento e sua capacidade de interpretar os mais diversos papéis, seja em filme de sua companheira Celine Sciamma, seja em épicos, como “A Revolução em Paris”, ou filme dos Irmãos Dardenne (“A Garota Desconhecida”).

Duas produções realizadas décadas atrás – “Orfeu” (Jean Cocteau, 1950) e “A Vida dos Mortos”, um Deplechin de 1991 – somam-se a filmes recentes do My French Film Festival em busca de diálogo entre o passado e presente.

Os filmes de Cocteau (1889-1963), poeta, dramaturgo, romancista e ator, não são para todos os gostos. Mas há neles muita beleza. E muitos deles trazem a presença magnética de Jean Marais (1913-1998), ator de imensa beleza, além de ter sido o grande amor da vida do cineasta.

“Orfeu” é uma singular recriação do mito grego. Um artista vive com sua mulher, Eurídice, mas uma Princesa (a Morte) o arrastará para o mundo das trevas. O mesmo mito deu origem a “Orfeu do Carnaval” (ou “Orfeu Negro”), peça musicada de Vinícius de Morais, origem do filme de Marcel Camus, premiado com a Palma de Ouro e o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1959.

Arnaud Deplechin, de 60 anos, é autor do magnífico “Reis e Rainha” (2004), filme que uniu quatro astros do cinema francês (Catherine Deneuve, Maurice Garrel, Mathieu Amalric e Emmanuelle Devos). Aliás, foi esse drama que serviu de cartão de visita para a descoberta, pelos brasileiros, da bela (e talentosa) Devos. O público virtual My French Film Festival a verá, jovenzinha (aos vinte e poucos anos) em “A Vida dos Mortos”.

Neste média-metragem (52 minutos), de narrativa coral, Deplechin mergulha em seu tema favorito e recorrente: a família. Num casarão, dezenas de parentes (alguns idosos e muitos jovens) esperam notícias de um primo, que tentara o suicídio. Mortes trágicas atormentam a todos, já que elas são marcas profundas do histórico familiar.

Além de Emmanuelle Devos, outro rosto revelado por Deplechin neste filme tornar-se-ia muito conhecido na França – Thilbault de Montlembert, o Mathias Barneville, que comandou, por três temporadas, a agência de astros da série “Dix pour Cent”. Na quarta temporada, que acaba de estrear na Netflix, ele troca a profissão de agente pela de produtor de cinema.

Completam a lista de longas-metragens do festival virtual, os filmes “Adolescentes” (Sébastien Lifshitz, 175 minutos), documentário aparentado com “Boyhood”, de Richard Linklater), “Crianças” (Christophe Blanc, 104 minutos), drama familiar sobre jovens órfãos, “Senhora” (Stéphane Riethauser, 93 minutos), construído com imagens de arquivo, a comédia “Felicidade” (Bruno Merle, 82 minutos) e “Prata Fria”, de Stéphane Batut.

Como o My French Film Festival aposta em realizadores de primeiros filmes (e também em parceiros francófonos, como o Quebec e a Bélgica), nada mais natural que reúna, também, 16 curtas-metragens em sua programação, totalmente gratuita. Afinal, em breve, os curta-metragistas estarão dirigindo os longas que serão escolhidos para novas edições do festival organizado pela Unifrance.

 

XI My French Film Festival
Data: até dia 15 de fevereiro
Nos serviços de streaming do Belas Artes, Spcine e Supo Mungam
Com 29 filmes (12 longas, um média-metragem e 16 curtas)
Acesso gratuito
Mais informações: www.myfrenchfilmfestival.com/pt

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