Paul Singer ganha cinebiografia de Ugo Giorgetti

Por Maria do Rosário Caetano

“Uma Utopia Militante”. Esse foi o aposto que o cineasta Ugo Giorgetti escolheu para agregar ao nome do protagonista de seu mais novo documentário – o economista Paul Singer (1932-2018), austríaco que tornou-se um dos mais respeitados intelectuais brasileiros.

Nesse domingo, 11 de abril, o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade exibe “Paul Singer, uma Utopia Militante”, construído em formato clássico, com elegância e precisão cirúrgica por Ugo Giorgetti.

O cineasta ítalo-brasileiro resume, a partir de longo testemunho do próprio Singer (e sólidos depoimentos de terceiros), a trajetória do menino, nascido em Viena, que, com a ascensão do nazismo, cruzou o Atlântico para tentar a vida no Brasil.

No momento mais comovente do filme, Singer relembra a anexação da Áustria pelas tropas hitleristas, em 12 março de 1938. Os ocupantes foram recebidos em festa, com flores e bandeirolas. Singerzinho tinha seis anos, usava calças curtas e queria ir com os coleguinhas saudar os ocupantes. A mãe não deixou e foi objetiva em sua justificativa: “você não pode ir, porque é judeu e eles não gostam de judeus”.

Daquele momento em diante, a vida do garoto Paul Israel Singer, que tinha o alemão como língua materna, sofreu a maior de suas reviravoltas. Em 1940, com oito anos de idade, ele chegaria, na companhia da mãe, a São Paulo, onde tinham parentes.

Um colega de Paul Israel lembrará, no sintético filme de Giorgetti (52 minutos), a ajuda que deu ao menino estrangeiro, que não falava português.

Sem aquela ajuda – lembrará o octogenário Singer em seu substantivo e sereno depoimento –, ele, recém-chegado, ficaria sem chão. A família enfrentaria muitas dificuldades, mas as superaria. O jovem Singer tornou-se operário na Siemens, participou da greve de 1953 e, depois, autodidata (estudioso e brilhante), tornar-se-ia um dos mais ilustres professores da USP. Conquistaria títulos acadêmicos no Brasil e nos EUA (Universidade de Princeton).

“Paul Singer, uma Utopia Militante” integra a mostra Estado das Coisas do ETV 26. O filme dá destaque a dois momentos luminosos na vida do intelectual vienense-paulistano: a leitura de “O Capital”, de Karl Marx, por grupo de jovens intelectuais uspianos, e o curso que ele ministrou no nascente Teatro de Arena.

No primeiro coletivo, o de natureza intelectual, ele brilhou. Quem testemunha a importância de Singer para o grupo de jovens leitores do complexo texto marxista é Michael Lowy. “Naquele final de anos 1950, o papel dele foi excepcional, pois, filho de uma judia austríaca, nascido em Viena, podia ler o texto ‘O Capital’ em alemão, o que foi de grande valia”. No grupo estavam futuros intelectuais do prestígio de Roberto Schwarcz, Fernando Novais, José Arthur Giannotti, Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso. Lowy chegaria um ano depois.

No outro coletivo, este de natureza artística – o Teatro de Arena –, atores queriam embasar suas montagens cênicas com conhecimentos de História, das Ciências Sociais e, principalmente, de Economia. Lisete Gomes Arelaro lembra que o curso de Paul Singer no Arena causou furor e durou de três a quatro meses. Ninguém matava aula. Adepto da “coisa dialogada” (não é à toa que, mais tarde, seria companheiro de Paulo Freire no secretariado da prefeita petista Luiza Erundina), Paul Singer mantinha férteis debates com a turma do politizado Teatro de Arena paulistano.

Embora de origem judia, tudo leva a crer que, no Brasil, Singer abraçou o catolicismo, mesmo que forma difusa (em moldes similares aos de Paulo Freire). Na juventude militou no Partido Socialista Brasileiro e ajudou a criar a Polop (Organização Revolucionária Marxista Política Operária). Com o AI-5, teve seu direito de lecionar na Faculdade de Economia da USP cassado. Mais tarde, fundador e simpatizante do PT, até sua morte, ajudaria a estabelecer as bases do projeto Economia Solidária.

Iluminista e tolerante, conviveu pacificamente com a esposa Melanie, de origem udenista e mais tarde, tucana (PSDB). Essa experiência político-matrimonial é destacada pelas filhas Helena e Suzana Singer. Na parte final do documentário, Paul Singer será visto em encontros com movimentos populares, em especial aqueles vinculados ao cooperativismo.

Ugo Giorgetti mobilizou dezenas de vozes capazes de ajudar a construir a biografia visual do professor Singer. De colegas de infância a Arthur Giannotti, do escorregadio Delfim Netto a Luiza Erundina, de Reinaldo Pacheco Costa a Eduardo Suplicy, de Oswaldo Aranha David Wolff a Vittorio Corinaldi, dos líderes operários Rafael Martinelli e Eunice Longo ao bispo emérito Dom Angélico Sândalo Bernardino, de Isadora Candian a líderes da UniSol (Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários do Brasil). Sem esquecer o filho do cinebiografado, o professor da USP e ex-porta-voz de Luiz Inácio Lula da Silva, André Singer. Registre-se que os depoimentos dos três filhos do protagonista de “Uma Utopia Militante” passam longe de elogios doméstico-hagiográficos.

Alguém poderá, mesmo assim, insinuar que o documentário de Ugo Giorgetti “só mostra o lado bom de Paul Singer”. Não teria ele “zonas de sombra”?

Tudo leva a crer que o “economista solidário” é uma daqueles raros seres humanos cujas vidas não provocam grandes emoções. Em recente entrevista ao Estadão, Ruy Castro, um dos mais respeitados biógrafos brasileiros, justificou uma das razões que o desmotivam a biografar Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (1927-1994): “o problema é que Tom Jobim não tem um defeito” sequer.

Ugo Giorgetti, com sólida carreira na ficção e no documentário, realizou, pela primeira vez, um “filme de encomenda”. Não tinha nenhuma familiaridade com Paul Singer e sua obra, quando o convite lhe chegou por intermédio de três amigos do professor uspiano (Raissa Albuquerque, Fernando Kleiman e Marcos Barreto). O “Adoniran Barbosa do cinema paulistano” foi, então, pesquisar a vida do autor de “Introdução à Economia Solidária”.

“Ao tomar conhecimento mais aprofundado das ideias de Paul Singer” – relembra –, “deparei-me com sua mensagem civilizadora, sua crença na educação e sua ambição de justiça”. Aceito o convite, Giorgetti enfrentou “processo de produção muito tumultuado e interrompido frequentemente”. Até concluir que o filme “só seria terminado se contasse com o voluntarismo e amizade de empresas e técnicos com os quais trabalho há longos anos”. Na direção de fotografia está um velho camarada, Walter Carvalho (o paulistano, não o paraibano).

Com seu “humor frio”, o cineasta define “Paul Singer, uma Utopia Militante”, como um documentário que constitui “verdadeiro exemplo de economia solidária”. E acredita que, “por isso, talvez agradasse muito ao professor”.

Depois de citar o que considera mérito do filme (“abrir possibilidades para outros documentários, tendo como motivos os temas levantados”), deixa no ar uma sugestão: “que nosso documentário sirva de ensejo para novas explorações, abrindo e sugerindo caminhos para extensão de ideias”. Isso, afinal, “é o que o professor fez sua vida inteira de maneira discreta, sutil, didática e gentil: abrir veredas não antes percorridas.”

Para Giorgetti, “o professor Singer não é um herói, nem uma vítima, não comove pela emoção, mas pela inteligência”. Pode ser classificado como “um iluminista, capaz de conservar sempre a capacidade de raciocinar e, se possível, educar”. Foi, sempre, “um educador, mesmo quando fazia política. Ou, sobretudo, quando fazia política”.

 

Paul Singer, uma Utopia Militante
Brasil, 52 minutos, 2021
Direção:
Ugo Giorgetti
O filme pode ser visto deste domingo, 11 de abril, até o domingo seguinte, 18, por brasileiros de todas as regiões do país (desde que não ultrapasse dois mil visionamentos), na plataforma sescsp.org.br/etudoverdade

 

Filmografia
Ugo Giorgetti (São Paulo-SP, 1942)

Filmes de ficção

2020 – Dora e Gabriel (inédito) – roteiro e direção
2017 – Uma Noite em Sampa – roteiro e direção
2015 – A Cidade Imaginária – roteiro e direção
2012 – Cara ou Coroa – roteiro e direção
2007 – Solo – roteiro e direção
2006 – Paredes Nuas – roteiro e direção
2005 – Boleiros II – roteiro e direção
2002 – O Príncipe – roteiro e direção
1998 – Boleiros I – roteiro e direção
1994 – Sábado – roteiro e direção
1989 – Festa – roteiro e direção
1984 – Jogo Duro – roteiro e direção

Documentários

2021 – Paul Singer, uma utopia Militante – direção
2019 – O Cinema Sonhado (série 4 episódios) – roteiro e direção
2018 – Comercial F.C., a Equipe Fantasma – roteiro e direção
2016 – 1968, a Última Olimpíada Livre – roteiro e direção
2010 – Em Busca da Pátria Perdida – roteiro e direção
2006 – Variações sobre um Quarteto de Cordas – roteiro e direção
2005 – Pizza – roteiro e direção
2000 – Uma Outra cidade – roteiro e direção
1983 – Quebrando a Cara – roteiro e direção
1975 – Prédio Martinelli – roteiro e direção
1972 – Campos Elíseos – roteiro e direção

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