Brasil no Festival de Veneza
“7 Prisioneiros”, de Alex Moratto

Por Maria do Rosário Caetano

“Madres Paralelas”, de Pedro Almodóvar, abre na noite dessa quarta-feira, primeiro de setembro, a septuagésima-oitava edição do Festival de Veneza, o mais antigo do mundo. O Brasil não vai disputar o Leão de Ouro, a principal láurea da festa peninsular. Mas se fará representar por cinco filmes em mostras oficiais ou paralelas.

“7 Prisioneiros”, de Alex Moratto, integra a mostra Orizzonti. “A Salamandra”, de Alex Carvalho, estará na Semana da Crítica e Aly Muritiba, com “Deserto Particular”, na Giornarte degli Autori. A atriz e diretora Bárbara Paz teve seu curta “Ato” selecionado. O quinto título brasileiro é “Lavrynthos”, de Amir Admoni e Fabito Rychter. Admoni é um nome familiar entre os cinéfilos que frequentam a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, pois anualmente assina a vinheta do evento. É um craque de inventos no campo da realidade virtual.

Quem acompanha as principais estreias brasileiras conhece o diretor Alex Moratto por seu primeiro longa, “Sócrates”. Embora o jovem realizador viva nos EUA, seus filmes têm tudo a ver com o Brasil. “Sócrates”, protagonizado por Christian Malheiros, foi rodado integralmente na Baixada Santista e falado em português. Sua narrativa, com ingredientes homoafetivos e protagonista afro-brasileiro, fez ótima carreira em festivais e serviu como poderosa vitrine para Moratto e Malheiros. A dupla volta a trabalhar unida em “7 Prisioneiros”, produzido pela O2 de Fernando Meirelles (em parceria com Ramin Bahrani, do indiano “Tigre Branco”) para a Netflix. Rodrigo Santoro divide o protagonismo com Christian Malheiros.

A trama do segundo longa de Moratto é ambientada em São Paulo e, mais uma vez, falada em português. Luca (Santoro) comanda um ferro velho e emprega Matheus (Malheiros), jovem vindo do interior em busca de oportunidade profissional. Ele acabará enredado em sistema de trabalho análogo à escravidão.

Alex Carvalho, o diretor de “A Salamandra”, também vive fora do Brasil (na Grã-Bretanha). Mas seu longa ficcional foi rodado no Nordeste, com produção pernambucana (N Filmes), francesa (CineNovo) e alemã (San Cinema).

Catherine (Marina Foïs), “uma burocrata francesa paralisada pelo medo do futuro”, resolve visitar uma amiga no Recife. Entre os prédios da grande metrópole nordestina e o mar ela encontra Gil (Maicon Rodrigues). A francesa vai envolver-se com esse jovem brasileiro. Um jovem que “transforma seu corpo e identidade em uma metamorfose reveladora de seu lugar no mundo”. O filme inspira-se em romance do parisiense Jean-Christophe Rufin. No elenco, mais um nome internacional (Anna Mouglais), que soma-se a Bruno Garcia, Suzy Lopes e Buda Lira.

“Deserto Particular”, longa-metragem de Aly Muritiba, marca a volta do cineasta à sua origem, ou seja, à Bahia. Embora tenha fincado raízes em Curitiba, base de sua produtora, a Grafus, Muritiba nasceu em Mairi, há 42 anos. Decidiu estudar Sociologia em São Paulo, fez concurso para a polícia e foi trabalhar no sistema penitenciário. Estudou Cinema no Paraná e seus primeiros curtas, ligados ao mundo prisional, abriram uma vigorosa clareira para seus primeiros longas: “A Gente”, também um filme de cárcere, e “Para minha Amada Morta” e “Ferrugem”, ambos premiados.

Já engajado na produção de séries para TV, codirigiu “Carcereiros” com José Eduardo Belmonte e, sozinho, “O Caso Evandro”, um hit da Globoplay. Com Jandir Santin dirigiu “Nóis por Nóis”, um longa de baixíssimo orçamento. Depois, assinou “Jesus Kid”, uma produção mais elaborada, que lhe rendeu o Kikito de melhor diretor em Gramado, semanas atrás (três anos antes ele vencera o mesmo festival com “Ferrugem”).

“Deserto Particular”, de Aly Muritiba

Para ambientar “Deserto Particular”, Muritiba escolheu a cidade de Sobradinho, por entender que ela “serve como uma metáfora para os personagens”, já que “sempre me interessei por aquela pequena cidade erguida ao redor de uma enorme represa. Sobradinho é uma cidade rodeada de energia elétrica, mas também levantada sob o signo do represamento, do controle do fluxo das águas. Essa energia decorrente desse represamento move meus personagens, mas também essa vontade de sair se derramando por aí”.

Depois de uma comédia metalinguística (“Jesus Kid”), com temperos de western, Muritiba volta “aos afetos masculinos no Brasil contemporâneo”. E dá a seu protagonista Daniel (Antônio Saboia), a função de policial afastado do trabalho, depois de cometer um erro. Ele mora em Curitiba, com um pai doente, de quem cuida com devoção. Daniel fala pouco e tem como único motivo de alegria uma moça que mora no sertão da Bahia e com quem se corresponde por aplicativo de celular. Ela se chama Sara e vive envolta em atmosfera de mistério. O desaparecimento súbito da moça fará Daniel cruzar o país em busca de amor.

O cineasta baiano-paranaense vê o Brasil, hoje, como “um país que se afundou em espiral de ódio, que culminou com a eleição de um fascista para a presidência, um país dividido entre o Sul conservador e o Norte e Nordeste progressistas”. Por isso, ele se sentiu “motivado a construir uma narrativa sobre encontros. Nesse momento de ódio, resolvi fazer um filme sobre o amor”.

No elenco, além do protagonista Antônio Saboia, maranhense radicado em Paris, que integrou o elenco de “Bacurau”, estão Pedro Fasanaro, Laila Garrin, Cynthia Senek e Thomas Aquino (este, também de “Bacurau”). A produção uniu Brasil (Grafo) e Portugal (Fado Filmes).

O curta “Ato”, de Bárbara Paz, leva a atriz de volta a Veneza. Lá, três anos atrás, ela apresentou seu longa de estreia, o documentário “Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”. Este filme foi premiado no segmento Veneza Classics.

COMPETIÇÃO PELO LEÃO DE OURO:

. “Madres Paralelas”, Pedro Almodóvar (Espanha)
. “La Caja”, de Lorenzo Viga (Venezuela)
. “Sundown”, Michel franco (México)
. “Competencia Oficial”, Gastón Duprat e Mariano Cohn (Argentina)
. “Spencer”, Pablo Larraín (Chile, Grã-Bretanha)
. “È Stata la Mano di Dio”, Paolo Sorrentino (Itália)
. “Freaks Out”, Gabriele Mainetti (Itália)
. “Qui Rido Io”, Mario Martone (Itália)
. “America Latina”, Fabio e Damiano D’Innocenzo (Itália)
. “Il Buco”, Michelangelo Frammartino (Itália)
. “The Power of the Dog”, Jane Campion (Nova Zelândia)
. “Un Autre Monde”, Stéphane Brizé (França)
. “L’Événement”, Andrey Diwan (França)
. “Illusions Perdues”, Xavier Ginnolli (França)
. “The Card Counter”, Paul Schrader (EUA)
. “Mona Lisa and the Blood Moon”, Ana Lily Amirpour (EUA)
. “The Lost Daughter”, Maggie Gyllenhaal (EUA)
. “Capitain Volkonogov Escaped”, Natasha Merkulova & Aleksey Chupov (Rússia)
. “On the Job: The Missing 8”, Erik Matti (Filipinas)
. “Leave no Traces”, Jan P. Matuszynski (Polônia)
. “Reflection”, Valentin Vasyanovych (Ucrânia)

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