“Drive my Car” coloca Ásia no Oscar com narrativas de Murakami e Tchekov

Por Maria do Rosário Caetano

“Drive my Car”, força cinematográfica que chega ao Oscar vinda da Ásia e trilhando caminho aberto por “Parasita”, não deve conquistar a láurea máxima, atribuída ao coreano Bong Joon-ho dois anos atrás. Mas se justiça houver nesse mundo, pelo menos duas estatuetas devem ser empalmadas por Ryûsuke Hamaguchi, japonês de 43 anos: a de melhor roteiro adaptado e melhor filme internacional.

Comecemos pelo roteiro: Hamaguchi e Tamakase Oe esculpiram narrativa que constitui peça da mais fina ouriversaria. Somaram três contos de Haruki Murakami (“Drive my Car”, “Sheherazade” e “Kino”) a “Tio Vanya”, uma das quatro obras-primas do dramaturgo russo Anton Tchekov (o mesmo de “Três Irmãs”, “Jardim das Cerejeiras” e “A Gaivota”). A esta matéria poética tão rica e complexa, a dupla somou invenção, ousadia e poder imagético.

O resultado é espantoso e vem encantando o mundo. No Festival de Cannes, o roteiro de “Drive my Car” foi premiado. Meses antes, no mesmo ano de 2021, Hamaguchi fizera algo nunca visto – conquistara o Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim com “A Roda do Destino”. Dois filmes de infinitas belezas premiados em dois dos mais importantes festivais do mundo, num único semestre. Associações de Críticos, em especial norte-americanas, colocaram “Drive my Car” como o melhor dos melhores.

O outro prêmio que deve parar na mãos de Ryûsuke Hamaguchi é o de melhor filme internacional (anteriormente chamado melhor longa estrangeiro). E a concorência de “Drive my Car” é forte – o italiano “A Mão de Deus”, de Paolo Sorrentino, o norueguês “A Pior Pessoa do Mundo”, de Joachim Trier, o butanês “A Felicidade das Pequenas Coisas”, de Pawo Choying Dorji, e o dinamarquês “A Fuga”, de Jonas Poher Rasmussen. Mas nenhum alcança suas qualidades.

Além de contar com roteiro de raras complexidade, originalidade e urdidura, o filme de Hamaguchi fascina por suas inesperadas soluções visuais. Basta citar uma de suas sequências – arrebatadora – para mostrar que “Drive my Car” é um filme que engrandeceria o Oscar se fosse, como “Parasita”, eleito o melhor do ano, derrotando, inclusive, o excelente “Ataque dos Cães”, da neozelandesa Jane Campion (ainda o franco favorito).

A referida sequência é aparentemente banal: o protagonista – o ator e diretor teatral Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima) – trafega pelas ruas de Hiroshima tendo ao volante de seu carro vintage, um Saab vermelho, a jovem motorista Misake (Tôko Miura). Ele, um viúvo cheio de remorsos, anda sempre no banco traseiro. E não permite que se fume dentro do carro. Naquele dia, porém, estava sentado no banco da frente. Dá-se uma elipse. E de repente vemos duas mãos ao ar livre, segurando, lado a lado, dois cigarros. Mas como, se eles estão, ambos no banco dianteiro? Descobrimos, então, que uma reduzida abertura no capô permitiu aquele encontro de mãos, primeiro sinal de que a relação daquele viúvo complicado com aquela motorista órfã, filha de mãe abusiva, não são mais dois perfeitos estranhos.

“Drive my Car” – em cartaz nos cinemas brasileiros e disponível no streaming (pela MUBI) a partir de primeiro de abril – divide-se em três partes. Na primeira, acompanhamos a difícil relação do casal Kafutu. Ele, o ator e diretor teatral, com carreira bem-sucedida nos palcos, e ela, Oto Kafutu (a bela Reika Kirishma), roteirista de sucesso na TV. A relação conjugal dos dois degradou-se desde que perderam uma filhinha de 4 anos. Se não tivesse morrido, a menina teria 23 anos. Oto cultiva vários amantes. Quando Yusuke Kafuku viaja para compromissos profissionais, ela os leva para ardentes experiências amorosas no leito doméstico. O marido sabe e sofre com isso. Mesmo assim, os cônjuges se amam. E qual uma Sheherazade contemporânea, ela conta apimentadas histórias eróticas ao esposo, possibilitando-lhe noites de sexo ardente.

Um dia, Oto promete ao companheiro que lhe fará uma revelação. Ao regressar ao lar, tal revelação se mostrará impossível. A vida do ator-diretor vira, então, de ponta cabeça. Ele aceita, passados dois anos, participar, pelo prazo de dois meses, de Festival de Teatro em Hiroshima, cidade onde lhe caberá montar “Tio Vanya”, peça que conhece em profundidade. O fará com elenco multinacional. Esta é a segunda parte do filme. Yasuke, que adora dirigir seu Saab vintage, é tomado pelo desconforto quando o comando do festival avisa que terá que aceitar um motorista profissional para conduzi-lo, pois houvera acidente anterior com convidado e tal norma tornara-se incontornável.

O artista resiste o quanto pode. Mas acabará aceitando a jovem Misake, de 23 anos (mesma idade de sua filha, se ela não tivesse morrido) como chofer, pois ela é habilidosa e silenciosa. No carro vermelho, ele repassará as falas de “Tio Vanya”, tendo como “contraponto” a voz de sua esposa morta, gravada em fita k-7 (e irradiada pelo aparelho do automóvel).

Na preparação da peça, Yusuke Kufutu comandará uma pequena babel de línguas (coreano, mandarim, japonês, inglês, um pouquinho de russo e – o que dá ao filme um sabor raro – a língua de sinais). O espetáculo chegara ao público com legendas. E, em outra das mais belas sequências do filme, assistiremos a um pequeno jantar coreano na casa da “atriz” muda (intérprete de Sonia, sobrinha de Tia Vanya). Um jovem ator – Koshi Takatsu (interpretado por Masaki Okada) – terá importante papel no jogo que se estabelece entre a peça encenada (a de Tchekov) e a vida do encenador e seus “peões” dramáticos.

A parte final de “Drive my Car” – filme que dura três horas (sem nunca entediar o espectador, mas exigindo dele, atenção e inteligência) – o ator-diretor e sua motorista atravessarão o país, de Hiroshima até Hokkaido, a mais setentrional das ilhas japonesas. Nessa ilha nasceu e cresceu Misake, a chofer que aprendeu a dirigir com a suavidade de uma bailarina, para não perturbar o sono da mãe, que trabalhava em horários complicados. Revelações de zonas de sombras virão à tona, nesse longa-metragem que só faz engrandecer a nonagésima-quarta cerimônia do Oscar (nesse domingo, 27 de março). Se “Drive my Car” ganhasse as quatro estatuetas que disputa – melhor filme, melhor direção, roteiro adaptado e filme internacional – quem venceria seria o Cinema. E, claro, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que já premiou filmes olvidáveis como “Green Book”, que – pelas trapaças da sorte – derrotou o belíssimo “Roma”, de Alfonso Cuarón.

 

Drive my Car
Japão e Coreia do Sul, 179 minutos, 2022
Direção: Ryûsuke Hamaguchi
Roteiro: Hamaguchi e Takamasa Oe (baseado em contos do livro “Homens Sem Mulheres”, de Haruki Murakami)
Elenco: Hidetoshi Nishijima, Tôko Miura, Reika Kirishma, Masaki Okada, mais atores coreanos e chinês
Distribuição: O2 Play
Streaming: MUBI (a partir de primeiro de abril)

 

FILMOGRAFIA
Ryûsuke Hamaguchi (Kanagawa, Japão, 16 de dezembro de 1978)

Depois de dirigir vários documentários, o cineastar dedicou-se à ficção com:

. 2008 – “Paixão”
. 2015 – “Happy Hour” (5 horas de duração)
. 2018 – “Asako 1 & 2” (120 minutos) – no MUBI
. 2022 – “Roda do Destino” (121 minutos) – No Belas Artes à la Carte e no Now
. 2002 – “Drive my Car” (3 horas de duração)

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