“O Agente Secreto” converte em triunfo duas de suas três indicações, “Uma Batalha Atrás da Outra” soma quatro estatuetas e Globo de Ouro consagra a série inglesa “Adolescência”

Foto: “O Agente Secreto”, do brasileiro Kleber Mendonça Filho © Victor Jucá

Por Maria do Rosário Caetano

“O Agente Secreto”, do brasileiro Kleber Mendonça Filho, converteu em vitória duas de suas três indicações ao Globo de Ouro, prêmio anual da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood – melhor filme em língua não inglesa e melhor ator dramático, para Wagner Moura.

Um desempenho notável. Seus dois principais (e mais próximos) concorrentes, o norueguês “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, e o iraniano “Foi Apenas um Acidente”, de Jafar Panahi, este sob bandeira francesa, contavam com indicações bem mais robustas. O primeiro com sete (só converteu uma, ator coadjuvante, para Stellan Skarsgard) e o segundo com quatro (não triunfou em nenhuma delas).

A cerimônia de premiação comprovou que, junto à crítica e à imprensa especializada, cristalizou-se a compreensão de que “O Agente Secreto” merecia ter conquistado a Palma de Ouro em Cannes (ganhou direção e ator). O prêmio máximo coube a “Foi Apenas um Acidente”. As razões teriam sido mais políticas (a perseguição do governo iraniano ao cineasta), que estéticas. Pode não parecer, mas deve ter pesado, também, o fato de um filme “iraniano até a medula” (história, elenco, idioma) concorrer sob bandeira francesa.

Desde maio de 2025, quando foram conhecidos os vencedores do festival francês, que o prestígio crítico do sexto longa-metragem de Kleber Mendonça só faz crescer. “O Agente Secreto” ganhou prêmios das principais associações de críticos dos EUA, arrebatou o prêmio da Internacional Cinéfila e, na França, recebeu acúmulo de avaliações ultrapositivas de veículos da importância de Cahiers du Cinéma, Le Monde, Libération, Positif, Les Inrockutibles, Bande à Part, L’Obs, Le Parisien e Marianne (todos cravaram cinco estrelas).

Já a disputa ao Oscar (os finalistas serão conhecidos no próximo dia 22) se dará em outras condições. Primeiro, porque o colegiado da HFPA compõe-se com menos de 400 membros (95 sócios permanentes e 300 convidados, todos ligados à atividade crítica), vindos dos vários cantos do mundo. Enquanto a Academia de Cinema e Artes Cinematográfica de Hollywood mobiliza número de associados infinitamente maior (10 mil). Em maioria absoluta formada por profissionais do audiovisual (atores, diretores, músicos, fotógrafos, montadores, produtores etc.). Calcula-se que 80% sejam anglo-saxões (EUA, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia) e 20% de outras geografias.

A lista de concorrentes ao Oscar tem características específicas. Os critérios estabelecidos não dividem o cinema por gênero, cada categoria tem cinco finalistas (no Globo de Ouro, várias delas contaram com seis postulantes). A exceção é a de melhor filme (o Oscar vem adotando a definição de nove ou dez concorrentes).

Pelo regulamento da Academia, “O Agente Secreto” pode acumular indicações a melhor filme, melhor diretor, melhor ator ou atriz (protagonistas e coadjuvantes). Mas, no terreno das pré-candidaturas, ele só foi qualificado à disputa em duas categorias (melhor filme internacional e melhor direção de elenco). Não foi pré-qualificado para disputar melhor fotografia, música original, som, efeitos especiais ou cabelo-maquiagem. Já o espanhol “Sirât”, de Oliver Laxe, está pré-qualificado em cinco categorias (divulgadas em dezembro) e “Valor Sentimental”, em quatro. “Foi Apenas um Acidente”, em apenas uma (melhor filme internacional).

Há que se destacar, com ênfase e entusiasmo, o brilhante desempenho de “O Agente Secreto” no Globo de Ouro. Afinal, o Brasil jamais conquistara dois troféus numa só edição da cerimônia da HFPA. O último prêmio de melhor longa-metragem em língua não inglesa aconteceu há 27 anos (com “Central do Brasil”, em 1999). Melhor ator constitui-se como conquista inédita (ano passado Fernanda Torres foi eleita a melhor atriz por “Ainda Estou Aqui”, mas esse filme perdeu para o francês “Emilia Pérez”, de Jacques Audiard).

Fora o triunfo brasileiro de “O Agente Secreto”, há que se registrar a ótima arrancada de “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson, laureado em três categorias importantíssimas: melhor filme (comédia ou musical), direção e roteiro. E, ainda, com melhor atriz coadjuvante para a afro-americana Teyana Taylor. O filme é considerado o grande favorito da nonagésima-oitava edição do Oscar (dia 15 de março).

Outra produção que teve bom desempenho foi “Hamnet – A Vida Antes de Hamlet”, da sino-americana Chloé Zhao (melhor filme dramático e melhor atriz de drama para Jessie Buckley). O longa da festejada realizadora do oscarizado “Nomadland” mostra a dor do casal Shakespeare com a perda de um filho muito jovem.

Coube a Timothée Chalamet, por seu brilhante desempenho em “Marty Supreme”, de Josh Safdie, o Globo de Ouro de melhor ator de comédia ou musical. Um rival peso-pesado para Wagner Moura (se este for indicado) na disputa pelo Oscar. Afinal, no prêmio da Academia, atores não são separados por gênero. E, ao invés dos doze concorrentes do Globo de Ouro (seis em drama e mais seis em comédia-musical), só serão indicados cinco candidatos.

O longa ”Pecadores”, de Ray Coogler, somou duas estatuetas – a de melhor trilha original, para Ludwig Göransson, e a de “conquista cinematográfica e de bilheteria”. Ou seja, filme que brilhou na venda de ingressos em salas de cinema, somando significativo borderô e, ainda por cima, deu sua contribuição à arte cinematográfica. No caso, Coogler, de “Pantera Negra”, revitalizou o gênero do horror vampírico, injetando nele a criatividade afro-americana. Ou seja, reinventando a lenda do pacto com o diabo na encruzilhada, força motriz do imaginário do blues.

Coube a um filme alternativo – “Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria”, de Mary Bronstein – o Globo de Ouro de melhor atriz de comédia ou musical (para Rose Byrne). “Valor Sentimental”, que somou sete indicações, só converteu uma: melhor ator coadjuvante para o magnífico Stellan Skarsgard. O iraniano “Foi Apenas um Acidente”, indicado inclusive a melhor filme e direção, passou batido.

No terreno da animação (o Globo de Ouro continua ignorando o cinema documentário!!!), o vencedor foi “Guerreiras do K-Pop”, de Maggie Kang e Chris Appelhans: melhor filme e melhor canção original (“Golden”, de Ejae, Mark Sonnenblick, Ido, 24, Teddy). O K-Pop (a música da Coreia do Sul) segue em alta.

Na categoria TV (que o Oscar ignora, pois defende a arte e a indústria cinematográfica), a grande vencedora – com todo o merecimento – foi a britânica “Adolescência”. Converteu quatro de suas cinco indicações em estatuetas – melhor minissérie, melhor ator (Stephen Graham), ator coadjuvante (Owen Cooper) e atriz coadjuvante (Erin Doherty). Graham, além de protagonista, é a alma do projeto, um de seus criadores e roteiristas. Interpreta o pai de um garoto (Owen) que mata uma colega de escola e transforma a vida de sua família em pesadelo. Erin Doherty faz a psicóloga que tentará entender o que levou o menino a cometer o ato extremo.

“The Pitt” somou duas láureas (melhor série de drama e melhor ator para Noah Wyle), mesmo caso de “O Estúdio” (melhor série de comédia ou musical e melhor ator, para Seth Rogen).

Com apenas um troféu destacaram-se “Pluribus” (melhor atriz de série drama para Rhea Seehorn), “Morrendo por Sexo” (melhor atriz de minissérie, antologia ou telefilme para Michelle Williams) e “Hacks” (melhor atriz de série para a veterana Jean Smart).

No ano em que a Academia de Hollywood estreia nova categoria (melhor casting), a HFPA criou prêmio inesperado – melhor podcasting. Venceu “Good Hang com Amy Poehler”.

Confia os premiados:

CINEMA

. “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson (EUA): melhor filme de comédia ou musical, direção, roteiro (Paul Thomas Anderson), atriz coadjuvante (Teyana Taylor)
. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho: melhor filme em língua não-inglesa, melhor ator (Wagner Moura)
. “Hamnet – A Vida Antes de Hamlet”, de Chloé Zhao (EUA): melhor filme dramático, melhor atriz de drama (Jessie Buckley)
. “Marty Supreme”, de Josh Safdie (EUA): melhor ator de comédia e musical (Timothée Chalamet)
. “Pecadores”, de Ray Coogler (EUA): Ludwig Göransson (melhor trilha original), Conquista cinematográfica e de bilheteria
. “Valor Sentimental”, de Joachim Trier (Noruega): Stellan Skarsgard (ator coadjuvante)
. “Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria”, de Mary Bronstein (EUA): Rose Byrne (melhor atriz de comédia ou musical)
. “Guerreiras do K-Pop”, de Maggie Kang e Chris Appelhans (Coreia do Sul-EUA): melhor filme de animação, melhor canção original (“Golden”, de Ejae, Mark Sonnenblick, Ido, 24, Teddy)

TELEVISÃO

. “Adolescência” (Inglaterra): melhor minissérie, Stephen Graham (melhor ator), Owen Cooper (melhor ator coadjuvante), Erin Doherty (melhor atriz coadjuvante)
. “The Pitt”: melhor série de drama, melhor ator (Noah Wyle)
. “O Estúdio” (EUA): melhor série de comédia ou musical), Seth Roger (melhor ator)
. “Pluribus”: Rhea Seehorn (melhor atriz de série drama)
. “Hacks”:  Jean Smart (melhor atriz de série comédia ou musical)
. “Morrendo por Sexo” (EUA): Michelle Williams (melhor atriz de minissérie, antologia ou telefilme)

PODCASTING

. “Good Hang com Amy Poehler”: melhor podcasting

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