“Dois Procuradores”, poderosa reflexão sobre as entranhas do autoritarismo, reafirma grandeza do cinema de Sergei Loznitsa
Por Maria do Rosário Caetano
Com a Safra Oscar já bem assentada na programação dos nossos cinemas, chega a hora de filmes, que não contam com o poder de atração da estatueta hollywoodiana, buscarem seu espaço.
Nesta quinta-feira, 5 de fevereiro, uma dezena de produções chega ao circuitão e ao circuito de arte (principalmente a este). E vale lembrar que os filmes serão exibidos a R$10,00 (sessões vespertinas) e R$12,00 (noturnas), pois até a próxima quarta-feira, 12, acontece a oitava edição da Semana do Cinema.
A mais notável das estreias é “Dois Procuradores” (“The Procecuters”), de Sergei Loznitsa. Um cineasta que cresceu na União Soviética (ele nasceu em 1964, em Baranovitchi, na Bielo Rússia) e mudou-se para Ucrânia, onde formou-se em Engenharia e Matemática pelo Instituto Politécnico de Kiev. Depois, ligou-se profundamente ao cinema. Em 1991, ingressou na VGIK (Universidade Estatal Pan-Russa de Cinema Sergei Guerasimov), a mais antiga escola cinematográfica do mundo. Destacou-se como aluno brilhante. E, até, como tradutor de japonês.
Nos últimos 30 anos, Loznitsa (que vive na Alemanha, assim como seu conterrâneo Kyrill Serébrennikov) realizou dezenas de curtas, médias e longas-metragens, transitando entre a ficção e o documentário. E recebendo importantes prêmios em Cannes e outros grandes festivais. Aos 61 anos, 26 deles vividos na União Soviética, o diretor mantém imenso interesse pelo mundo eslavo e pelas difíceis relações entre a Rússia e a Ucrânia. Seu foco principal são os governos totalitários.
Há que se destacar outras estreias da semana. Nenhuma delas chega à grandeza de “Dois Procuradores”. Mas merecem atenção o francês “Love me Tender”, de Anna Cazenave Cambert, o venezuelano (de produção mexicano-brasileira), “Zafari”, de Mariana Rondón, o chinês “Living the Land”, de Huo Meng, o islandês “Quando a Luz Arrebenta”, de Runár Rúnarsson, e o brasileiro “(Des)controle”, de Rosane Svartman e Carol Minêm.
DOIS PROCURADORES
O cinema documental é prática mais constante de Sergei Loznitsa, Mas ele realizou algumas ficções, todas notáveis. Caso de “Minha Felicidade” (2010) e “Na Névoa” (2012). Com “Dois Procuradores”, a história da Rússia (a época dos expurgos stalinistas, anos 1930) volta ao centro de sua narrativa. O filme estreou em Cannes, em maio de 2025. Alguns críticos o tinham como um dos melhores da competição vencida pelo quarteto “Foi Apenas um Acidente”, “Valor Sentimental”, “O Agente Secreto” e “Sirât”. “Dois Procuradores” ganhou ao menos um prêmio paralelo (o Prix François Chalais, destinado a obras que defendem o compromisso do jornalismo com a verdade).
Tudo começa, no novo filme, na União Soviética comandada com pulso de aço por Stálin. Em 1937, há milhares de presos políticos espalhados por cárceres do imenso eurasiano. Um deles escreve, com o próprio sangue, bilhete no qual denuncia o absurdo de estar preso. Essa estranha missiva chegará às mãos de recém-nomeado promotor, o jovem Alexander Kornyev (Aleksandr Kuznetsov). Idealista, o rapaz tudo fará para informar a seus superiores o que se passa naquela distante prisão. Afinal, a NKVD, a polícia secreta da URSS, conclui o jovem, está cometendo atos dos mais arbitrários. Durante 115 minutos, veremos o jovem enfrentando a gigantesca e kafkiana burocracia soviética, para chegar ao outro procurador do título. O elegante e indecifrável Andrey Vichinski (Anatoliy Beliy), aquele instalado no mais alto posto da hierarquia stalinista.
O filme, construído sobre roteiro elaborado a partir das memórias de Georgy Demidov (1908-1987), um bolchevique transformado em preso político, não recorrerá a nenhum apelo fácil. Diálogos primorosos, de imensa sutileza, serão ditos por elenco impecável. As imagens, em tons discretos, que somam o preto, o cinza, o verde a poucas outras cores, nos conduzem por corredores frios, esperas que parecem não ter fim e uma conclusão das mais inesperadas, construída com a rica colaboração de um romance (ou “poema em prosa”) de Nikolai Gogol, “Almas Mortas” (1842). A erudição do cinema de Loznitsa impregna o filme de forma orgânica, sem nenhum exibicionismo.
Two Prosecutors, 2025, 115 minutos, França, Alemanha, Holanda, Romênia, Letônia, Lituânia
Direção e roteiro: Sergei Loznitsa
Fotografia: Oleg Mutu
Montagem: Danielius Kokanauskis
Direção artística: Kirill Shuvalov
Direção de arte: Jurij Grigorovič e Aldis Meinerts
Música: Christiaan Verbeek
Direção de elenco: Maria Choustova
Designer de som: Vladimir Golovnitski
Figurinos: Dorota Roqueplo
Produção: SBS Productions (Saïd Ben Saïd), LooksFilm, Atoms & Voi, White Picture, Avanpost Media, Studio Uljana Kim e The Match Factory
Distribuição: Retrato Filmes (a mesma distribuidora de “Valor Sentimental”)
FILMOGRAFIA
Sergei Loznitsa
Cineasta, roteirista, matemático, especialista em IA e tradutor, nascido em Baranovitchi, na Bielo Rússia, em 5 de setembro de 1964
Seguem alguns dos principais filmes do cineasta, muitos deles realizados a partir do diálogo entre o documentário e a ficção:
2026 – “O Abajur Laranja” (em preparação)
2025 – “Dois Procuradores” (ficção)
2019 – “Funeral de Estado” (doc)
2018 – “Donbass” (ficção) – melhor direção em Cannes (mostra Um Certo Olhar)
2018 – “Dia da Vitória” (doc)
2018 – “O Processo” (doc)
2017 – “Uma Criatura Gentil” (ficcão, inspirado em textos de Dostoievski)
2014 – “Maidan: Protestos na Ucrânia” (doc)
2012 – “Na Neblina” (ficção) – Prêmio Fipresci
2008 – “Cinejornal” (Doc)
ME AME COM TERNURA
“Love me Tender”, França, 2023, 134 minutos
A atriz luxemburguesa Vicky Krieps, a imperatriz Sissi, já quarentona, de “Corsage”, é a protagonista absoluta dessa narrativa homoafetiva, escrita e dirigida por Anna Cazenave Cambet. O filme baseia-se nas vivências (publicadas em livro) de Constance Debré. Clémence (Krieps) é uma advogada, recém-divorciada e mãe do menino Paul (Viggo Ferreira-Redler). Ela gosta de nadar e está insatisfeita com o exercício jurídico. Seu interesse volta-se ao exercício da escrita. No plano afetivo, vive experiências amorosas com jovens moças e aguarda a hora de revelar ao ex-marido, Laurent (Antoine Reinartz) os novos rumos de sua vida. Quando expõe seus relacionamentos com parceiras do mesmo sexo, Laurent, que encena aceitação, mudará radicalmente. E revelará seu lado obscuro afastando Paul da mãe. A intermediação da Justiça não será suficiente para garantir a divisão da guarda do menino entre ela e o ex-marido. Para contar essa história íntima de amor materno (e homoafetivo), a cineasta consumirá épicas 2h14 minutos. Mas o filme tem ritmo sedutor e envolvente. Além de cenas de sexo filmadas com sensibilidade, iremos mergulhar, com Clémence, nas águas de imensa piscina (natação é uma das maiores paixões francesas) e de rio em paisagem bucólica (neste locus, em piquenique com o filho). E, ainda por cima, veremos sequências que somam dois filmes capazes de enriquecer a trama: “Gritos e Sussurros”, de Bergman (1972), e “O Homem que Encolheu”, de Jack Arnold (1957). No elenco destaca-se, também, a atriz Monia Chokri, que interpreta Sarah. A distribuição é da Imovision.
ZAFARI
México, Peru, Brasil, França, Chile, República Dominicana, 2025, 90 minutos
O novo filme da venezuelana Mariana Rondón, radicada no eixo Lima-Cidade do México, é uma distopia que dialoga com o cinema de gênero. Em especial com o horror. Quem gostou do delicado “Postais de Leningrado” e do encantador “Pelo Malo”, este lançado no Brasil pela distribuidora Esfera, verá que a realizadora de 59 anos, formada pela Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de los Baños, em Cuba, tomou outros rumos. Junto com o recentíssimo “Ainda é Noite em Caracas” (pré-indicado aos Prêmios Platino), “Zafari” compõe díptico que vê a Venezuela bolivariano-chavista com olhos muito críticos. Neste último filme, realizado em parceria com Maitena Ugás, Rondón transforma Caracas em um apavorante pesadelo. E o faz com coprodução (e participação especial no elenco) do ator venezuelano Edgard Ramírez, transformado pelo francês Olivier Assayas em astro latino, por seu formidável desempenho no papel de Carlos, o Chacal na série (e longa-metragem) “Carlos” (2010). Um projeto que Carlão Reichenbach apreciava com fervor.
Mas vamos ao filme “Zafari”, estreia desse 5 de fevereiro nos nossos cinemas. Trata-se do sexto longa-metragem da venezuelana. Entre os produtores de diversos países por ela mobilizados está o paulista Rafael Sampaio, da Klaxon Cultura Audiovisual. Tudo começa nos arredores (e prossegue nos interiores) de prédio de classe média, que vive processo de degradação. Seus moradores não medem esforços para deixar a Venezuela. Os que ficam lutam para conseguir comida. Frente ao prédio fica um zoológico. A ele chega um hipopótamo, o Zafari do título. Terá um tratador responsável por sua alimentação. Ao montar sua alegoria com ingredientes sociais, somados a suspense e terror, Rondón não apostou na sutileza. E — mesmo que involuntariamente — construiu desabonadora imagem dos oriundos das classes subalternas. De pele mestiça, eles são vistos como festeiros, folgados, bagunceiros, ameaçadores. A diretora e sua equipe escudam-se, para tanto, na gramática do cinema de gênero. A distribuição é da Vitrine Filmes.
LIVING THE LAND
China, 2025, 129 minutos
Por seu trabalho na criação de “Living the Land” (“Sheng Xi Zhi Di”), seu segundo longa-metragem, Huo Meng conquistou o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim. A China manteve sua face de país agrícola, por mais de três mil anos. A partir da década de 1980, o imenso país asiático passou por grandes transformações, urbanizou-se, somou práticas capitalistas ao seu projeto socialista, fruto do triunfo da Revolução Maoísta, em 1949.
Huo Meng situa seu filme no começo dos anos 1990, quando se processaram reformas econômicas e avassaladoras com a revolução tecnológica. Nas grandes e médias cidades e, também e com rapidez, nas zonas rurais. Máquinas industriais começaram a substituir o trabalho manual. Matérias primas energéticas, como o petróleo, tornaram-se essenciais. É nesse contexto, que o filme insere uma comunidade rural, fincada em sua tradições milenares.
O realizador Huo Meng, diretor também de “Crossing the Border – Zhaoguan”, lembrou, em entrevista, sua intenção de “retratar a colisão de políticas sociais coletivistas com tradições moldadas ao longo de milênios”. Afinal, “as pessoas foram forçadas a adaptar-se a procedimentos que desafiavam seu próprio modo de vida”. Ele fez questão de prestar atenção especial no impacto de tais mudanças sobre as mulheres, por entender que elas “enfrentaram danos duradouros e irreversíveis”. A distribuição é da Autoral Filmes.
QUANDO A LUZ ARREBENTA
“Ljosbrot”, Islândia, 2024, 82 minutos
O público da Mostra de Cinema de São Paulo tem acompanhado, com frequência, o vigoroso e instigante cinema islandês. E o faz graças à distribuidora Imovision, de Jean-Thomas Bernardini, sempre preocupada em lançar o maior número possível de filmes europeus em nosso circuito de arte. Um dos diretores mais festejados da ilha é Runár Rúnarsson, de 49 anos, do qual já assistimos, entre outros, “Pardais” e “Vulcão”. Com “Quando a Luz Arrebenta”, convidado para abrir a mostra Un Certain Regard, em Cannes, dois anos atrás, Rúnarsson constrói um drama protagonizado por Elín Hall, Mikael Kaaber e Katla Njálsdóttir. No coração da narrativa está uma jovem islandesa, de nome Una, interpretada por Elin Hall. Ela e o namorado integram uma banda de rock. Um acidente de carro trará grave e repentina perda para a jovem e ela terá que enfrentar a dor do luto. O fará guardando segredo perturbador. A distribuição é da Imovision.
(DES)CONTROLE
Brasil, 2026, 96 minutos
O novo longa da produtiva realizadora e teledramaturga Rosane Svartman (em parceria com Carol Minêm) tem na atriz Carolina Dickeman sua protagonista absoluta. Ela interpreta a escritora Kátia Klein, de 45 anos, muito bem-sucedida, mas que vê sua vida sair dos trilhos quando volta a beber, depois de 15 anos sóbria. Primeiro, bebe uma taça de vinho aqui, outra ali. Mas acaba vítima do descontrole do título. Carreira, casamento, relação com filhos e com seus pais desandam. O roteiro, definido como uma dramédia, partiu de ideia da produtora Iafa Britz (da Migdal Filmes), que o escreveu em parceria com Felipe Sholl. Deste, assistiremos, em breve, ao seu aguardado segundo longa-metragem, “Ruas da Glória”. Ele estreou com o sensível “Fala Comigo” (2016). A dupla contou com a colaboração de Bia Crespo. No elenco estão Caco Ciocler, Julia Rabello, Daniel Filho. A distribuição é da Sony Pictures.
